Ordenação sacerdotal de Dom Tomás de Aquino

domingo, 24 de abril de 2016

Comentários Eleison CDLVIII (458) - Declaração de Bispos – I

Por Dom Richard Williamson
Tradução: Andrea Patrícia (Blogue Borboletas ao Luar)
23 de abril de 2016
 
 
Temos um terceiro bispo da Resistência agora,
Como e por que, uma Declaração menciona.

No dia 19 de março, pouco mais de um mês atrás, Dom Tomás de Aquino foi discretamente sagrado bispo, para o benefício das almas de todo o mundo que desejam manter a verdadeira Fé católica. Assim como quando Monsenhor Faure foi consagrado, exatamente um ano antes, a cerimônia foi belamente organizada pelos monges do Mosteiro da Santa Cruz, nas montanhas por detrás do Rio de Janeiro, em sua catedral de aço, belamente decorada para a ocasião, como no ano passado. O tempo estava seco e quente, mas não muito quente. São José fez com que tudo corresse sem dificuldades. Devemos a ele um grande agradecimento.
Havia um pouco mais de gente que no ano passado, mas a maioria delas era de lugares próximos dentro do Brasil. Não houve jornalistas presentes, e o evento foi praticamente mencionado só nas fontes católicas tradicionais. Houve uma conspiração de silêncio? Houve alguma recomendação para que não se desse atenção? Não importa. O que realmente importa é o que Deus parece estar sugerindo, a saber, que a sobrevivência da Fé não requer, no momento, publicidade ou fazer-se conhecer, mas, talvez, deslizar nas sombras, das quais a Igreja pode suavemente descer às catacumbas para esperar por sua ressurreição depois que a tormenta do mundo, que promete ser humanamente terrível, seja levada a cabo.
Em todo caso, temos agora outro bispo, firmemente na linha de Monsenhor Lefebvre, e no lado oeste do Atlântico. Assim como Monsenhor Faure, ele conhecia bem o Arcebispo e era um confidente seu. Dom Tomás de Aquino nunca trabalhou com o Arcebispo diretamente dentro da FSSPX; mas, porque não era um membro da Fraternidade, o Arcebispo deve ter se sentido mais livre para compartilhar seus pensamentos e ideias com ele. Certamente ele deu ao jovem monge inestimáveis conselhos em mais de uma ocasião, os quais Dom Tomás nunca esqueceu. Os católicos que creem não estão equivocados – houve poucas exceções à reação majoritariamente positiva pelo presente de Deus de outro verdadeiro pastor de almas.
Na época da consagração, os dois bispos consagrantes fizeram uma Declaração que não obteve ainda muita publicidade. Ela expõe em profundidade o fundamento da consagração, mostrando como este evento, aparentemente estranho, não o é em absoluto; ao contrário, é muito natural, dadas as circunstâncias. Aqui está a primeira parte da Declaração. A segunda parte terá de vir no “Comentário Eleison” da próxima semana.
Nosso Senhor Jesus Cristo advertiu-nos que em sua segunda vinda a fé teria quase desaparecido da face da terra (Luc. XVIII,8); deduz-se que, a partir do triunfo da Igreja na Idade Média, ela somente poderia experimentar um grande declínio até o fim do mundo. Três agitações em particular marcaram os estágios deste declínio: o protestantismo, que rechaçou a Igreja no século XVI; o liberalismo, que rechaçou Jesus Cristo no século XVIII; e o comunismo, que rechaçou Deus completamente no século XX.
Entretanto, o pior de todos foi quando esta Revolução por etapas conseguiu penetrar na Igreja, graças ao Concílio Vaticano II (1962–1965). Querendo manter a Igreja em contato com o mundo moderno que tanto havia se afastado dela, o Papa Paulo VI conseguiu que os padres do Concílio adotassem “os valores de 200 anos de cultura liberal” (Cardeal Ratzinger).
O que os padres adotaram foi o tríplice ideal da Revolução francesa, em particular, a liberdade, a igualdade e a fraternidade, sob a tríplice forma de liberdade religiosa, cuja ênfase na dignidade humana implica a elevação do homem acima de Deus; de colegialidade, cuja promoção da democracia mina e nivela toda a autoridade dentro da Igreja; e de ecumenismo, cujo louvor às falsas religiões implica a negação da divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. No transcurso de meio século desde o fim do Vaticano II, as consequências mortais para a Igreja em relação a esta adoção dos “valores” revolucionários se tornaram mais e mais óbvias, culminando em gravíssimos escândalos quase cotidianos que mancham o pontificado do Papa reinante.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Da necessidade de resistir ao magistério conciliar (I)

Carlos Nougué

Proêmio

Não houve maior desgraça e crise na história da Igreja que a ocasionada pelo Concílio Vaticano II. Comparada a esta, a crise do arianismo – pela qual, no dizer de São Jerônimo, “o mundo dormiu cristão e, sobressaltado, acordou ariano” – mostra-se pequena.
E, com efeito, diante da tremenda crise aberta pelo Concílio Vaticano II, dividiram-se e dividem-se os católicos.
1. Uns são fautores do mesmo concílio e de suas sequelas. A estes não podemos chamar católicos senão ao modo como um câncer pode dizer-se daquele que o porta. São os que propriamente podemos chamar lobos em pele de cordeiro.
2. Outros – talvez a maioria – repetiram e repetem os erros desses fautores sem saber que se trata de erros e crendo-os em perfeita continuidade com o estabelecido pelo magistério anterior. A estes não podemos chamar propriamente hereges; mas tampouco se podem ignorar os perigos a que sua alma se encontra exposta.
3. Outros ainda, diante daquilo que perceberam proscrito pelo magistério anterior e que, no entanto, era sustentado pela própria hierarquia conciliar, se foram afastando da vida religiosa e dos sacramentos, e tenderam a perder a fé.
4. Uma parte, por certo devido a alguma graça para que percebesse mais certeiramente o infortúnio que implicaram e implicam o Concílio Vaticano II e seu seguimento, opôs-se e opõe-se ao chamado magistério conciliar. Mas esta parte se subdivide.
a. Uns, mais próximos da verdade, nem sempre porém sabem fundar sua oposição em doutrina mais sólida, razão por que alguns destes (como os superiores da atual FSSPX), sustentando a necessária visibilidade da Igreja e pois a necessidade de sua mesma regularização canônica, acabam por aderir de algum modo à hierarquia conciliar.
b. Outros – os sedevacantistas –, julgando absolutamente impossível conciliar heresia e jurisdição, acabam por atentar contra a necessária visibilidade da Igreja. Incluem-se aqui, de algum modo, os chamados eclesiavacantistas, para os quais a Igreja se reduz a eles mesmos, apesar de seu ínfimo número e de sua falta de jurisdição.
5. Tem-se por fim a chamada “linha média”, que, sem ver como conciliar a devida docilidade ao magistério com a oposição ao magistério conciliar, acaba por favorecer, de maneira vária e mediante os mais diversos artifícios teológicos, a este mesmo magistério. – Da linha média entram a fazer parte, de algum modo, os que buscam ou alcançam a referida regularização canônica.  
Pois bem, incluímo-nos entre os que se opõem ao magistério conciliar e não buscam regularizar-se canonicamente sob este, e que podem beneficiar-se de doutrina a mais sólida para fundar sua posição: a exposta pelo Padre Álvaro Calderón (da FSSPX) na questão disputada A Candeia Debaixo do Alqueire, a qual por sua vez se funda, naturalmente, em tudo quanto fez, disse ou escreveu Dom Marcel Lefebvre, mas elevando-o ao plano da mais estrita ciência teológica. Esta questão disputada é o terreno seguro em que podemos alicerçar nossa postura sem desviar-nos para o sedevacantismo (ou para o eclesiavacantismo) nem para a linha média e o acordismo.*
Desse modo, a série que iniciamos com este proêmio visa a mostrar a justeza e a necessidade de resistir ao magistério conciliar, e especialmente ao papado de Francisco, cujo caráter catastrófico a chamada linha média e os acordistas do dia se negam de algum modo a ver perfeitamente. Mas não o poderíamos fazer, insista-se, sem demonstrar a possibilidade de unir tal resistência à devida docilidade ao magistério, e esta demonstração é A Candeia Debaixo do Alqueire a que no-la possibilita cabalmente.
Sucede todavia que esta mesma questão disputada não é de fácil compreensão para os ainda não dotados do hábito intelectual da teologia (e teologia tomista). Eis pois a razão central desta série: tornar A Candeia acessível a um maior número, e tornar assim mais amplamente compreensível a necessidade de resistir e seguir resistindo ao chamado magistério conciliar.
Mas há uma razão suplementar. Não poucos vivem a dizer pelos cantos e pelas sombras que “esse Carlos Nougué” é cismático, que apoia bispos cismáticos, que é excomungado, etc. Pois bem, os que assim murmuram terão oportunidade de ver melhor nossas razões e a resposta que damos a suas objeções à nossa postura (objeções que, como mandam a boa doutrina e o bom método, hão de expor-se o mais fielmente antes de ser refutadas). Se ainda assim não se convencerem, fique desde já o convite a que então busquem refutar-nos publicamente, à luz do dia, em alguma forma de debate.
Observações.
• Insista-se em que nos fundaremos muito estritamente em A Candeia Debaixo do Alqueire. Mas algo será de nossa própria lavra, e obviamente não deverá imputar-se ao sacerdote da FSSPX.
• Não responderemos diretamente nesta série ao sedevacantismo e ao eclesiavacantismo, o que faremos no livro Do Papa Herético. É aliás quanto ao sedevacantismo que A Candeia nos parece necessitar de aprofundamento.**
• Nossa série dividir-se-á nos seguintes artigos:
1.  Se o chamado magistério conciliar é infalível;
2. Se se pode pôr em discussão algum magistério, e especialmente o conciliar;
3. Se o magistério conciliar tem algum grau de autoridade;
4. Se o magistério conciliar impõe sua autoridade de modo indireto;
5. Se a resistência ao magistério conciliar há de ser franca, sistemática e organizada.
• Como cada um destes artigos será muito longo, dividi-lo-emos em quantas postagens nos parecerem necessárias.
• E tais postagens não virão a lume segundo nenhuma periodicidade preestabelecida, mas segundo nossa própria disponibilidade de tempo para escrevê-las.

(Continua.)          
  





* Que o Padre Álvaro Calderón pareça contradizer sua doutrina com sua prática não é assunto que nos interesse aqui.  
** Não dizemos, assinale-se, que erre quanto a ele, senão que, repita-se, necessita de aprofundamento. E, com efeito, nosso Do Papa Herético ergue-se sobre dois pilares: o dito a respeito deste assunto pelo tomista Domingo Báñez O. P. (1528-1604) e a tese da “jurisdição precária” avançada por Arnaldo Xavier da Silveira em suas Considerações sobre o Ordo Missae de Paulo VI. Desde que os lemos pela primeira vez, pareceram-nos grávidos de importantes desdobramentos, como esperamos mostrar em Do Papa Herético. 

"Normalização canônica?", por Sua Excelência Reverendíssima Dom Tomás de Aquino, OSB.

Por Dom Tomás de Aquino
Capela Nossa Senhora das Alegrias - Vitória - ES

O Rev. Padre Franz Schmidberger no dia 19 de fevereiro expôs as razões pelas quais lhe parece chegada a hora de normalizar a situação canônica da Fraternidade e, pode-se supor, as das comunidades amigas. 

Entre as razões apresentadas pelo antigo superior geral da Fraternidade São Pio X encontramos o fato de Dom Lefebvre ter procurado uma regularização canônica para sua congregação. Isso é em parte exato em parte inexato. 

Falando de Dom Antônio de Castro Mayer, Dom Lefebvre dizia (creio que em 1985) que era necessário que o Bispo emérito de Campos compreendesse que era necessário entrar na ilegalidade. Dom Antônio, apesar de uma análise profundamente teológica da crise atual, permanecia preso à uma legalidade que o paralisava. Por receio da ilegalidade Dom Antônio não ordenou nenhum padre entre 1984, data em que foi forçado a deixar a função de Bispo titular de Campos, e 1988, data das sagrações dos quatro Bispos da Fraternidade São Pio X. Dom Lefebvre entendia melhor o que diz São Paulo, “a letra mata e o espírito vivifica.” Ele havia discernido o golpe de mestre de Satanás que foi o de ter lançado toda a Igreja na desobediência à Tradição, por obediência. A virtude da obediência utilizada contra a sua finalidade. O bem a serviço do mal. 

Que Dom Lefebvre tenha procurado uma solução canônica é evidente, mas que ele não a encontrou é mais evidente ainda. E ele não a encontrou porque ela não existia e não existirá enquanto Roma estiver ocupada pelos inimigos da realeza universal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Foi por isso que Dom Lefebvre sagrou quatro bispos em 1988. Ele teria sagrado provavelmente mais se Dom Antônio de Castro Mayer tivesse designado alguns padres para receber o episcopado, como lhe fora proposto atráves de Dom Gerard que veio ao Brasil em 1987 com a missão de fazer este pedido a Dom Antônio. 

Dom Lefebvre pensava que Dom Antônio poderia ter recusado de abandonar cargo e poderia ter escolhido o seu sucessor fazendo frente a Roma modernista para preservar sua diocese dos erros atuais. 

Dom Lefebvre queria sim uma solução canônica, mas uma solução canônica que não fosse falsa mas sim verdadeira. 

Para o Pe. Schmidberger o momento parece ter chegado para esta normalização verdadeira, já que Roma não fala mais de aceitação do Vaticano II nem de legitimidade do Novus Ordo, Ele diz também que a Fraternidade não se calará a respeito dos erros modernos. 

Para mim tenho que estas garantias são bastantes frágeis pois Dom Gerard e Campos diziam também que nenhuma limitação lhes seria imposta no combate anti-modernista. Eles nos prometeram continuar o combate e alguns chagaram mesmo a dizer que era agora que o combate ia começar de verdade porque eles lutariam dentro da Igreja. Pura ilusão como os fatos mostraram. Ilusão e falsa doutrina como se a Tradição estivesse fora da Igreja. 

Dom Lefebvre via bem estas ilusões em Dom Gerard. Enquanto reinar o modernismo em Roma toda esperança de uma verdadeira normalização será vã. 

O Pe. Schmidberger diz também que a Resistência perdeu o sentido e o amor da Igreja. Certamente nós devíamos ter mais virtude, mais fé e mais caridade. No entanto, podemos dizer em nossa defesa que na Resistência se estuda a Pascendi, o Syllabus, Quanta Cura, Quas Primas, Quadragesimo Ano, etc. Na Resistência se lê “A História do Catolicismo Liberal” do Padre Emmanuel Barbier. Na Resistência se traduz em português e se edita o livro “Pierre m'aime tu? De Daniel le Roux. Na Resistência se publica o “Le Sel de la Terre” e se tem veneração por Dom Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer. Suas obras são estudadas e explicadas aos fiéis. 

Se não fazemos mais é por nossa culpa, mas fazemos alguma coisa e esta alguma coisa creio que o fazemos por ter o sentido e o amor da Igreja. 

Que Deus aumente em nós esse amor à Igreja por intercessão do Imaculado e Doloroso Coração de Maria.


+ Tomás de Aquino, OSB.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Contradições Conciliares


Os acordos de 1988



Os acordos de 1988



Carta da Congregação para a Doutrina da Fé a Dom Gérard Calvet



Roma, 25 de julho de 1988



Reverendo Padre,



Em resposta à carta que o senhor enviou ao Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, aos 8 de julho último, e à sua Súplica ao Santo Padre, datada do mesmo dia, o Cardeal Prefeito dessa Congregação e o Cardeal Presidente da Comissão especial instituída segundo os termos do Motu Proprio “Ecclesia Dei”, do dia 2 de julho de 1988, têm o agrado de lhe comunicar o que segue.

Durante uma Audiência concedida ao Cardeal Joseph Ratzinger, aos 23 de julho de 1988, o Soberano Pontífice quis bondosamente:

1. Levantar todas as censuras e irregularidades — em consequência da recepção das Ordens sagradas das mãos de S. Exa. Dom Marcel Lefebvre quando estava suspenso “a divinis” — às quais incorreram todos os membros das comunidades de Sainte-Madeleine du Barroux e de Santa Cruz de Nova Friburgo que se encontrem nesse caso;

2. Conceder às duas mesmas comunidades a plena reconciliação com a Sé Apostólica, nas condições já oferecidas pelo Cardeal Paul Augustin Mayer por ocasião de sua visita ao Mosteiro do Barroux, aos 21 de junho de 1988, e de acordo com o parágrafo 6º do Motu Proprio “Ecclesia Dei”, a saber:

o uso, em privado ou em público, dos livros litúrgicos em vigor em 1962, para os membros das comunidades e para aqueles que frequentam suas casas religiosas;

a possibilidade de pedir a um bispo, segundo as regras canônicas em vigor, para conferir as Ordens segundo o Pontificial concedido, havendo o superior de cada casa autônoma expedido as cartas dimissórias;

o direito de os fiéis receberem os Sacramentos, segundo os livros outorgados, nas casas das comunidades, tendo em conta os cânones 878, 896 e 1122 do CIC;

a possibilidade de desenvolver uma irradiação pastoral através de obras de apostolado e de conservar os ministérios atualmente assumidos pelas comunidades, tendo em conta os cânones 679-683.

Essas medidas entrarão em vigor a partir da recepção da presente carta. Quanto a outros eventuais problemas jurídicos, seriam submetidos à competência da Comissão especial encarregada da aplicação do Motu Proprio “Ecclesia Dei”.

Enfim, quanto à inserção das duas comunidades na Confederação Beneditina, o Cardeal Presidente da Comissão especial pede ao Revm. Abade Primaz que tome, de acordo com ele (o sobredito Cardeal, N. do T.), as disposições necessárias, tendo em conta as aspirações manifestadas a esse respeito em sua carta (de Dom Gérard, N. do T.), citada, do dia 8 de julho de 1988.

Devemos acrescentar que o Santo Padre, sensível aos sentimentos de fidelidade e de adesão que o senhor lhes manifestou, não duvida de seu sincero desejo de contribuir para o bem das almas através de seu apostolado e comunhão com ele e com todos os pastores da Igreja, e que ele conta muito particularmente com sua oração e a de seus irmãos.

Receba, Reverendo Padre, a expressão de nossos sentimentos de religioso devotamento no Senhor.



Joseph Card. Ratzinger                                                             Paul Augustin Card. Mayer



Declaração recusando as concessões da Congregação para a Doutrina da Fé



+

PAX



DECLARAÇÃO



Na qualidade de Prior do Mosteiro da Santa Cruz de Nova Friburgo R.J. Brasil após séria reflexão e oração diante de Deus, considerando minha responsabilidade por este mosteiro, pela minha salvação eterna, perante os meus superiores e confrades e perante a Santa Igreja, venho cumprir o dever de declarar o que segue:

O Mosteiro da Santa Cruz recusa o acordo formado entre a Sagrada Congregação da Doutrina da Fé, na pessoa dos cardeais Ratzinger e Mayer, e Dom Gérard Calvet, Prior do Mosteiro de Santa Madalena do Barroux.

O nosso mosteiro da Santa Cruz foi incluído nos termos do acordo, que ora vimos recusar, sem que fôssemos consultados sobre o assunto, apesar de estarmos presentes no Barroux, quando se faziam as negociações e apesar de saberem nosso desagrado.

Os motivos desta recusa são os seguintes:

1 – Este acordo significa a nossa inserção e engajamento prático na “Igreja conciliar”. Esta inserção se infere dos cânones citados no sobredito acordo que nos colocam em estreito relacionamento com o Bispo diocesano e sob o seu controle. Ademais, conforme o cânon 967, que faz parte do acordo, o Bispo diocesano, cujos critérios são sempre os da Igreja Nova, tem o poder de nos expulsar da diocese.

2 – O acordo prevê nossa plena reconciliação com a Sé Apostólica segundo as normas do Motu Proprio “Ecclesia Dei”, documento que proclamou a excomunhão de Dom Marcel Lefebvre. Ora, nós nunca nos separamos da Santa Sé Apostólica e sempre professamos e continuaremos a professar perfeita comunhão com a Cátedra de Pedro. Separamo-nos sim da Roma modernista e liberal que patrocina o encontro de Assis e elogia Lutero. E com esta Roma não queremos nos reconciliar.

3 – O acordo é baseado no Motu Proprio “Ecclesia Dei”, que excomunga Dom Marcel Lefebvre. Portando, participando desse acordo, estaremos reconhecendo a injustiça praticada contra Dom Lefebvre, Dom Antônio de Castro Mayer e os quatro novos bispos, cuja excomunhão foi nula de pleno direito. Nós não somos seguidores de Dom Antônio e de Dom Lefebvre e sim da Igreja Católica. Mas na hora atual, em que esses dois baluartes da Fé foram os únicos a terem a coragem de levantar sua voz contra a auto-demolição da Igreja não nos é possível nos dissolidarizarmos deles. Assim como no século IV, no tempo do Arianismo, era sinal de ortodoxia estar “em comunhão com Atanásio” (e não com o Papa Libério), assim estarmos unidos a Dom Antônio e Dom Lefebvre é um sinal de fidelidade à Igreja de sempre. São Paulo eremita disso nos dá um exemplo pedindo a Santo Antão, patriarca dos cenobitas, que o sepultasse com o manto de Santo Atanásio para, segundo São Jerônimo, indicar que desejava morrer na fé e comunhão de Santo Atanásio, defensor da Fé ortodoxa contra a heresia ariana.

4 – O desejo manifesto de praticamente todos os nossos benfeitores brasileiros nos leva igualmente a recusar o acordo. Agindo assim estamos, aliás, respeitando o cânon 1300 do Código de Direito Canônico.

Aos nossos superiores sentimo-nos por amor à nossa fé e à nossa vocação, no dever de repetir as palavras de São Godofredo de Amiens e São Hugo de Grenoble ao Papa Pascoal II: “... valha-nos Deus, pois assim nos estaríeis afastando de vossa obediência.”

E São Bernardo nos ensina: “Aquele que faz um mal porque lhe mandam, faz menos um ato de obediência do que de rebeldia. Faz uma inversão das coisas: deixa de obedecer a Deus para obedecer aos homens.” (cf. Oeuvres Complètes de Saint Bernard – Charpentier Tome I Ep. VII).



na festa de São Bartolomeu Apóstolo

no ano de graça de 1988

ir. Tomás de Aquino OBS

Prior