Ordenação sacerdotal de Dom Tomás de Aquino

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O sentido da vista - Modéstia: Baluarte que nos protege - A débil virtude


(Texto retirado do livro “O caminho que leva a Deus”, pelo Cônego Augusto Saudreau, edição de 1944)
Fonte: Seleta de textos sobre a Modéstia, Edição Escravas de Maria, 19 de março de 2012, pg. 54


De todos os sentidos, a vista é o mais rápido, o que escapa mais facilmente à censura da razão, exigindo, portanto, uma vigilância mais atenta. Deus nos deu o sentido da vista, primeiro, para contemplar-Lhe as obras e, segundo, para mim empregos necessários; não há função útil, nem dever importante, que possamos desempenhar sem ele. Quem é responsável por outros, deve usá-lo para velar sobre seus inferiores. É preciso, portanto, moderá-los e não destruí-los.

De quantos olhares inúteis nos podemos privar; a quantos espetáculos curiosos podemos renunciar; quantos objetos fúteis podemos deixar de considerar! Ao lado destes, a vista encontra, não raras vezes, objetos perniciosos. Quem não sabe desviar o olhar de espetáculos frívolos, está muito exposto a não se privar de olhares indiscretos e ilícitos. Virtudes que pareciam inabaláveis, falharam, fracassaram por esse meio. Davi servira fielmente ao Senhor em ocasiões difíceis, dera provas de confiança, de coragem, de piedade, de zelo, e eis que um olhar que não soube reprimir excitou-lhe na alma paixões ardentes que lhe causaram danos pavorosos.

Quão mais felizes, quão mais garantidos estão aqueles que, como o santo patriarca Job, fizeram um pacto com seus olhos e não lhes permitem satisfazer a todos os caprichos! A paz de que gozam transparece, reflete-se no exterior. É a modéstia. Não é virtude sem importância esta da qual Nosso Senhor nos deu tão cabal exemplo: “Suplico-vos pela modéstia do Cristo”, dizia São Paulo aos cristãos de Corinto (II Cor X, 1).

Assim como muitos não dão a devida importância à paz interior, assim também outros não compreendem o valor dessa paz exterior, dessa virtude que modera e dirige os sentidos, principalmente o da vista, como a paz interior domina e dirige as potências da alma. Sem a paz, o espírito se entrega a mil divagações, e a vontade a toda sorte de desejos frívolos; a imaginação cria continuamente e persegue ilusões e fantasias.

Sem a modéstia, os sentidos se abrem de todos os lados e pelas aberturas entram os inimigos da alma; quem não for modesto, nunca será senhor de si; os mínimos objetos o preocuparão e excitar-lhe-ão a concupiscência; os menores acontecimentos o dissiparão; as tentações lhe penetrarão na alma livremente; quererá tudo ver, saber, provar, exceto aquilo que é bom e salutar.

Sem a guarda dos sentidos, os cuidados mais assíduos e carinhosos dispensados à alma serão inúteis: como um vaso fendido deixa escapar os mais preciosos líquidos, assim também essa alma toda difundida pelos sentidos perderá rapidamente as boas impressões recebidas.

A modéstia é o baluarte que nos protege a débil virtude e a põe ao abrigo das incursões do inimigo; é a muralha que defende nossa riqueza; é também o adorno das almas fiéis, cujos encantos realçam, tornando-as mais belas e atraentes aos olhos do Esposo divino.

O mundo, todavia, não aprecia as almas modestas; sabe que nada tem a esperar delas; sua atitude recolhida repele os espíritos mundanos, que instintivamente delas se afastam, deixando-as servir em paz ao divino Mestre.

É utilíssimo, pois, adquirir essa modéstia cristã, e nunca será demasiado o ardor empregado em sua conquista. Custa mortificar os sentidos, custa conter o sentido da vista, sempre tão errante; mas, de fato, reprimir a liberdade do olhar é privar-se de uma satisfação pequena e passageira, para alcançar outra muito maior e eterna.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

DOM GRÉA: DA AÇÃO EXTRAORDINÁRIA DO EPISCOPADO


Por Non Possumus
Extratos do Cap. X, “Da Ação Extraordinária do Episcopado”, do livro “Da Igreja e de sua Divina Constituição”, Paris, Société Générale de Librairie Catgolique, 1885; por Dom Marie-Étinnenne-Adrien Gréa (1828-1927), fundador dos Cônegos Regulares da Imaculada Conceição.

Se a falha das Igrejas particulares chama à ação imediata da Igreja universal e pode dar abertura a esta ação extraordinária do episcopado, é manifestamente em duas ocasiões:

Em primeiro lugar, quando as Igrejas particulares não são ainda fundadas, e é propriamente o apostolado. Em segundo lugar, quando as Igrejas particulares estão como demolidas pela perseguição, a heresia ou qualquer grave obstáculo que destrua completamente e suprima a ação de seus pastores: e é o caso mais raro da intervenção extraordinária do episcopado vindo em seu socorro.
 
Pelo que se refere ao estabelecimento mesmo das Igrejas, os apóstolos no começo e, depois deles, seus primeiros discípulos, atuaram na virtude desta missão geral: “Ide e ensinai a todas as nações”; isto é manifesto, pois o Evangelho não lhes dá outra. Contudo, esta missão concerne constantemente ao episcopado. É, de fato, propriamente ao Colégio Episcopal que ela foi dada, pois a eficácia deveria durar até o fim do mundo, em conformidade ao que segue no texto sagrado: “E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”.

Mas esta missão foi dada antes de toda delimitação de território e antes que algum bispo tivesse um poder particular sobre um povo determinado. Ela precedeu a fundação das igrejas que deviam ser atribuídas depois a cada um dos membros do Colégio; e assim os bispos receberam na pessoa dos apóstolos uma missão geral, verdadeira e primitivamente, de anunciar o Evangelho.

À medida em que a fundação das Igrejas particulares, sucedendo a conquista evangélica, aplicou este poder a rebanhos particulares, esta restringiu pelo mesmo o campo desta atividade mais geral com respeito dos povos a conquistar e que deve cessar com o estabelecimento de hierarquias locais.

Mas não é apenas no estabelecimento da Igreja que o poder propriamente apostólico e universal dos bispos se declara. Há, contudo, uma segunda ordem destas manifestações mais raras e mais extraordinárias.

No seio mesmo dos povos cristãos temos visto às vezes, em necessidades urgentes, aos bispos, sempre dependentes nisto como todas as coisas ao Soberano Pontífice e atuando na virtude de sua comunhão, ou seja, recebendo dele todo o seu poder, usar desde poder para a saúde dos povos.

Se por calamidades superiores a todas as previsões das leis, e de violências que não se poderiam remediar por vias comuns, carecer-se-ia da ação dos pastores locais; seríamos postos em condições tais que o apostolado se exerceria para o estabelecimento das igrejas, como se os ministérios locais não estivessem ainda constituídos.

Vimos assim no século IV a Santo Eusébio de Samósata recorrer as Igrejas do Oriente devastadas pelos arianos, ordenando pastores ortodoxos sem ter jurisdição especial sobre elas.

Estas são ações verdadeiramente extraordinárias, como as circunstâncias que foram a ocasião.

Se a História nos mostra bispos cumprindo este ofício de “médicos” das Igrejas que desfalecem, ela nos conta ao mesmo tempo as conjunturas imperiosas que lhes ditou esta conduta. Requereu-se, para torná-la legítima, necessidades tais que a existência mesma da religião estivesse comprometida, que o ministério dos pastores particulares fosse completamente destruído ou tornado impotente, e que não se pudesse esperar nenhum recurso à Santa Sé.

Nestes casos extremos, o poder apostólico que apareceu, ao começo, para estabelecer o Evangelho, reaparece como para estabelecê-lo novamente: pois é dar equivalentemente um novo nascimento às igrejas e preservá-las de uma ruína total e ser seu salvador.


Porém, fora destas condições, conquanto a hierarquia legítima das igrejas particulares se conserve de pé, haveria abuso e usurpação.
 
Assim, em primeiro lugar, este poder universal do episcopado, ainda que habitual em seu fundo, é extraordinário em seu exercício sobre as igrejas particulares, e não tem lugar quando a ordem destas igrejas não está destruída. Em segundo lugar, é necessário também, para o exercício em si legítimo, que o recurso ao soberano Pontífice seja impossível, e que não possa haver dúvida sobre o valor da presunção pela qual o episcopado, apoiando-se no consentimento tácito de seu chefe confirmado pela necessidade, apoia-se em sua autoridade sempre presente e atuante nele.

Se o futuro reserva à Igreja provas que a reduzam às dificuldades dos primeiros séculos, se os perigos dos últimos tempos devem ir até este excesso, ela desatará, se é necessário, dentre os poderes do episcopado, aqueles que devem ser desatados pela salvação dos povos.


***

Disse Monsenhor Lefebvre: “Um bispo tem o dever de fazer tudo o que está em seu poder para que a fé e a graça sejam transmitidas aos fiéis que as reclamam legitimamente, sobretudo para a formação de verdadeiros e santos sacerdotes (...) Este atuaria assim, não contra o Papa, senão aparte do Papa, sobretudo se todo contato com o Papa lhe é proibido. Ele atuaria assim pelo maior bem da Igreja, pela salvação das almas e a exemplo de outros como Santo Atanásio, Santo Eusébio de Verceil, no tempo dos Arianos. E a este respeito vocês podem consultar a Dom Gréa em “A Igreja e sua Constituição Divina”, Dom Gréa, tomo I, página 109 a 232. Dom Gréa tem páginas a este respeito que são muito interessantes.” (22 de Febrero de 1979, COSPEC O70-A)

sábado, 20 de agosto de 2016

Comentários Eleison CDLXXV (475) - Bispo Fellay III

Por Dom Richard N. Williamson

20 de Agosto de 2016


Três Bispos disseram a verdade, mas “Ninguém tão cego
Como aquele que não quer ver” – ele se encerra em seu ego.

Lendo as duas questões recentes destes “Comentários” sobre a mentalidade que induz o Superior Geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X a buscar implacavelmente a um acordo meramente prático com as autoridades da Igreja em Roma, um bom amigo me recordou que as ideias foram estabelecidas há quatro anos em sua Carta de 14 de abril de 2012, na qual ele respondeu aos outros três bispos, que o advertiram-no seriamente contra a tentativa de qualquer acordo meramente prático com Roma. Muitos leitores hoje destes “Comentários” podem ter esquecido, ou nunca souberam, daquele avisou ou resposta do Bispo Fellay. Certamente, a troca de cartas diz muita coisa que vale a pena recordar. Aqui estão elas, resumidas tão cruelmente como de costume, com breves comentários —

A principal objeção dos três bispos a qualquer acordo prático com Roma realizado sem um acordo doutrinal era o abismo doutrinal entre a Roma Conciliar e a Sociedade Católica Tradicional. Meio ano antes da morte do Arcebispo Lefebvre, ele disse que quanto mais se analisa os documentos e a repercussão do Vaticano II, mais se percebe que o problema são menos os erros clássicos em particular, mesmo a liberdade religiosa, colegialidade e ecumenismo, do que “uma total perversão da mente” em geral, subjacente a todos os erros específicos e procedendo de “uma inteira nova filosofia fundada no subjetivismo”. Contra o argumento-chave do Bispo Fellay de que os Romanos já não são tão hostis, mas benevolentes para com a Fraternidade, os três bispos responderam com outra citação do Arcebispo: tal benevolência é apenas uma “manobra”, e nada poderia ser mais perigoso para o “nosso povo” do que “colocar-nos nas mãos dos bispos conciliares e da Roma modernista”. Os três bispos concluíram que um acordo meramente prático destroçaria a Fraternidade à parte e a destruiria.

Para esta profunda objeção, tão profunda quanto o abismo entre o subjetivismo e a verdade objetiva, o bispo Fellay respondeu (google Bispo Fellay, 14 de abril de 2012): — 1. que os bispos estavam “muito humanos e fatalistas”. 2. A Igreja é guiada pelo Espírito Santo. 3. Por trás da real benevolência de Roma pela FSSPX está a Providência de Deus. 4. Equivaler os erros do Concílio a uma “super-heresia” é uma exageração inapropriada, 5. o que irá conduzir, logicamente, os tradicionalistas ao cisma. 6. Nem todos os Romanos são modernistas, pois cada vez menos deles acreditam no Vaticano II, 7. a tal ponto que se o Arcebispo estivesse vivo hoje, não teria hesitado em aceitar o que está sendo oferecido para a FSSPX. 8 Na Igreja sempre haverá o joio e o trigo, então o joio Conciliar não é motivo para um recuo. 9 Como eu desejo aconselhar vocês três, mas cada um de vocês em diferentes posições “fortemente e apaixonadamente não conseguiram me compreender”, e até me expuseram em público. 10 Opor a Fé à Autoridade é “contrário ao espírito sacerdotal”.

E finalmente, os brevíssimos comentários sobre cada um dos argumentos do Bispo Fellay: —

1 “Muito humano”? Como disse o Arcebispo, o grande abismo em questão é mais filosófica (natural) do que teológico (sobrenatural). “Muito fatalista”? Os três bispos foram muito mais realistas que fatalistas. 2 Os homens da Igreja conciliar são guiados pelo Espírito Santo quando eles destroem a Igreja? 3 Por trás da real malevolência de Roma está a firme resolução de dissolver a resistência da FSSPX contra a nova religião Conciliar – assim como aconteceu com as Congregações Tradicionais no passado! 4 Apenas subjetivistas por si mesmos não conseguem enxergar o abismo entre subjetividade e Verdade. 5 Católicos objetivistas firmes na Verdade estão longe do cisma. 6 Maçons-livres mantém um cinturão em Roma. Nenhum neo-modernista possui poder para falar ali. 7 Acreditar que o Arcebispo teria aceitado as ofertas atuais de Roma é não compreendê-lo completamente. O problema básico só tem piorado desde a sua época. 8 A colher do Bispo Fellay está muito curta para ele cear com os (objetivos) demônios Romanos. 9 Os três bispos não só compreenderam bem o Bispo Fellay, mas ele não quer dar ouvidos ao que os três têm dito a ele. Ele faz de si mesmo infalível? 10 São Paulo certamente imaginou que a Autoridade poderia se opor à Fé – (Gl I, 8-9 e II, 11). São Paulo tinha falta de “espírito sacerdotal”?


Kyrie Eleison.