Ordenação sacerdotal de Dom Tomás de Aquino

sábado, 14 de janeiro de 2017

Os Protocolos dos Sábios de Sião - Gustavo Barroso

DO QUE SE TRATA 

Os Protocolos são considerados como uma obra reveladora, um mistério desvendado pela filtração das tão zelosamente guardadas Atas Secretas do Congresso Sionista de Berna, cujo conteúdo central revela uma conspiração judaico-sionista internacional e que o escritor Léon de Poncins definia como a misteriosa Internacional Judaica, pelo fato da sua mensagem indicar a existência de um complô mundial. Já para René Guénon, os Protocolos seriam “uma tática destinada à destruição do mundo tradicional”. Também o escritor e historiador espanhol, especialista em questões judaicas, Joaquín Bochaca, define o assunto assim: “os Protocolos dos Sábios de Sião podem ser resumidamente descritos como um estuo [ardor] para o domínio do mundo por uma irmandade ou sociedade secreta”. Seja como for, os indícios de que o plano já estava em andamento e do qual os Protocolos seriam quase que um tipo de regulamentação já haviam sido manifestados, no século passado, pelo todo-poderoso Primeiro Ministro de origem judaica da Inglaterra, Benjamin Disraeli, ao afirmar que "o mundo está governado por personagens muito diferentes dos imaginados por aqueles que estão frente aos bastidores”, tese que seria confirmada e ratificada pelo também judeu e Ministro das Relações Exteriores da tristemente famosa República de Weimar, Alemanha, Walter Rathenau, ao afirmar que “trezentos judeus, cada um dos quais conhecendo os demais, governam os destinos do continente europeu e elegem seus sucessores entre os que os rodeiam”. 


UM RESUMO 

No dia 8 de maio de 1920 o então prestigioso jornal londrino The Times publicou um resumo do famoso plano de dominação mundial, baseado na primeira edição dos Protocolos, que se encontra catalogada desde 1906 no Museu Britânico, sob o código 3926d17. A partir desta data iniciou-se a grande polêmica em torno do assunto. Vejamos o resumo do Times: 

→Primeiro: Existiram e continuam existindo, desde há muitos séculos, organizações secretas políticas judaicas;

→Segundo: O espírito destas organizações está fundamentado num ódio tradicional e eterno à Cristandade e a uma ambição titânica de dominar o mundo;

→Terceiro: O objetivo perseguido através dos séculos é a destruição dos Estados nacionais e sua substituição pelo domínio judaico internacional;

→Quarto: O método empregado para enfraquecer e destruir os agrupamentos políticos existentes consiste em introduzir ideias dissolventes com uma força destrutiva cuidadosamente dosada e progressiva e que vai desde o liberalismo ao radicalismo, do socialismo ao comunismo, chegando até a anarquia, com o aumento dos princípios igualitários. Durante este período os judeus permanecerão protegidos contra essas doutrinas destruidoras: “Nós promoveremos o liberalismo para os gentios (goiym = não judeus), porém, por outro lado, manteremos nossa Nação sob um domínio absoluto. Do fundo do abismo da anarquia em que o mundo será jogado e como resposta às lamentações da Humanidade enlouquecida, esta só obterá a lógica fria, sábia e Tirânica de um Governo do ‘Rei da raça de Davi’, que aparecerá a seu devido tempo”;

→Quinto: Os dogmas políticos estabelecidos e desenvolvidos pela Europa cristã, a ciência do homem de Estado e do político democrata se encontram ao mesmo nível do desprezo que dele têm os Sábios de Sião. Para eles a ciência de Estado é uma arte secreta de ordem superior, que se adquire unicamente através de um treinamento tradicional somente comunicado a um reduzido número de eleitos no refúgio de algum santuário oculto. “Os problemas políticos não são de natureza a serem deixados ao alcance do homem comum; os únicos que podem compreendê-lo são, como já afirmamos, os chefes que vêm dirigindo estes assuntos durante vários séculos”;

→Sexto: Segundo esta concepção da arte política, as massas são como rebanhos de gado e os políticos que dirigem os gentios, “adventícios saídos da revolta, incompetentes e cegos”; são como marionetes cujas cordas são manejadas pelas mãos ocultas dos Sábios de Sião. Estes bonecos são, em geral, pessoas corrompidas e quase sempre incapazes, que cedem facilmente à adulação ou às ameaças e se submetem por medo a chantagens, trabalhando em benefício do domínio judaico sem nem se dar conta disso;

→Sétimo: A imprensa, o teatro (hoje cinema, televisão, rádio), a bolsa de valores, a ciência, as próprias leis, se encontram nas mãos dos que possuem o ouro. Dispõem dos meios para que se produza a confusão, o caos na opinião pública, a desmoralização da juventude, o estímulo dos vícios entre os adultos e, caso seja necessário, sabem fazer prosperar entre os gentios, em vez das aspirações idealistas da civilização cristã, a cobiça pelo dinheiro, acrescentando neles o ceticismo materialista e o cínico apetite pelo prazer.


O PODER OCULTO SE MANIFESTA 

Imediatamente após a publicação deste resumo no The Times, o poder oculto resolveu mobilizar-se para tentar amenizar a polêmica em torno deste assunto secreto que vinha à tona em momento tão impróprio. Já em 1921 o Times passava para o controle acionário do milionário judeu Hammsworth, o qual, quinze dias após a sua posse, publicou no - agora seu - veículo de comunicação, com grande alarde, três artigos afirmando que os Protocolos eram uma fraude e um plágio de um livro intitulado Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu, escrito por um francês chamado Maurice Joly. Joly, descobriu-se depois, era o pseudônimo do funcionário do Estado francês, de origem judaica, Moshé Joel, íntimo amigo de Adolfe Israel Crémieux que, por sua vez, não era nada mais do que o fundador da Aliança Israelita Universal. Além dessa versão, a mídia mundial encarregou-se também de divulgar outra origem dos Protocolos, promovendo uma confusão premeditada, porém sempre afirmando a sua falsidade: teria sido redigida por um obscuro funcionário da polícia secreta do Czar, como represália pelo fato de serem os judeus os principais fomentadores da Revolução Comunista, que intentava a derrubada do Império Russo. 

A questão da autenticidade dos Protocolos, do ponto de vista dos que a negam, fica assim numa encruzilhada: ao confrontarmos o que neles está explicitado com os fatos da História até os nossos dias, concluiremos que, ou aquele obscuro agente do Czar era um verdadeiro profeta, ou, caso não o fosse, o plano é verdadeiro. 


A GLOBALIZAÇÃO, OU MUNDIALISMO 

Independente da autenticidade ou não dos chamados Protocolos – especificamente como documento - a realidade é que o Plano vem sistematicamente sendo posto em prática através da televisão, cinema, teatro, jornais, livros, revistas, simpósios, conferências, currículos escolares, seitas diversas, etc. Senão, vejamos algumas citações do Plano para comparação com a realidade através dos tempos: 



No plano político: 

- A política nada tem a ver com a moral. - Na política só triunfa a força pura. - A honestidade e a sinceridade são um mau vício em política. - Hipocrisia e força são essenciais. - Para alcançar uma posição é necessário muito dinheiro. E este está em nossas mãos. - Moisés impõe o dever de subjugar todas as nações. - Através do poder do voto é como nos apoderamos dos tronos. - Sob nossos auspícios a plebe destruirá a aristocracia. - Nossa imprensa promoverá e dominará os governos e os denunciaremos sem o mínimo escrúpulo para desacreditá-los, caso se rebelem contra nós. - Se dará a paz ao mundo somente se acatarem nossas leis. - Distrair o público com uma infinidade de espetáculos, eventos e fraseologia insensata que pareça progressista ou liberal. - Organização de infinitas instituições cujos membros demonstrarão e elogiarão nossas contribuições ao progresso. 

No plano religioso:

- Ataque à religião cristã até apagar o conceito de Deus nas pessoas. - Destruição da fé e dos credos induzindo o ateísmo. - A inoculação de dissidências entre as religiões. - Fomento ao livre-pensamento, ao ceticismo, aos cismas, às discussões religiosas, ao desprezo às hierarquias eclesiásticas com a ridicularizarão de seus hábitos. - Descrédito do clero frente aos fiéis, para diminuir sua influência, diminuindo seu prestígio. - Infiltração do Vaticano para destruir o poder e a autoridade papal. - Supressão dos Estados cristãos e do ensino religioso nas escolas, inclusive a supressão do crucifixo nas salas de aula. - Crítica sistemática à Igreja, sem atacá-la diretamente. - Instituição, através do Concílio Vaticano II, do Diálogo Inter-religioso que visa o reconhecimento dos judeus como ‘irmãos maiores” do Cristianismo. 

No plano moral: 

- O fim justifica os meios. - Promover o que não seja necessário ou vantajoso em detrimento do bom e do moral. - Não retroceder ante a corrupção, a mentira e a traição, se servem ao triunfo da nossa causa. - Contra o inimigo não é imoral valer-se de todos os meios para vencê-lo. - O número de vítimas não é importante para atingirmos nossa causa. - Temos uma ambição desmedida, uma cobiça devoradora, um impiedoso desejo de vingança e ódio acumulado. 


No plano humano: 

- Possuímos todo o ouro do mundo. 
- Todos os gentios (não-judeus, goiym) dependem de nós. 
- Jamais permitiremos aos gentios participar do nosso poder. 
- O proletariado não receberá mais do que migalhas como recompensa ao voto que dá ao nosso agente.- O direito reside na força. 
- Todos temos que morrer. É preferível antecipar a morte daqueles que atrapalham nossa causa. 



No plano histórico: 

- O judeu e Jeová são o mesmo e único ser. O hebreu é o Deus vivo, o Deus encarnado. Os outros homens só existem para nos servir. São bestas, pequenos animais. 
- Somos os eleitos de Deus. Somos invulneráveis. 
- Promoção da miscigenação dos povos, promovendo a perda de suas características raciais, históricas e psicológicas. 
- Manutenção da unidade histórica, racial, psicológica, ideológica e religiosa do povo judeu, como forma de poder e predomínio sobre as demais nações por eles degeneradas. 



No plano da liberdade: 

- A liberdade é o direito de fazer o que a lei permite. E a lei só permitirá o que nos interessa. 
- O significado abstrato da palavra ‘liberdade’ nos permitirá convencer as turbas de que o Governo representa a Nação. 



AS PROFECIAS ANUNCIADAS 

Existe uma maneira infalível de anunciar uma profecia e garantir sua realização: programando-se estas previsões para que efetivamente se realizem... 

Quais as profecias anunciadas nos Protocolos e que se realizaram ao longo do tempo? 

A título enunciativo e sem a intenção de esgotar vaticínios, podemos enumerar os seguintes: 


a) de caráter histórico: 

- A Primeira e a Segunda Guerra Mundial. - O desaparecimento das Casas Reais e eliminação da importância da nobreza. - A implantação do comunismo, primeiro na Rússia e depois na metade da humanidade. - As guerras econômicas. - A instabilidade das constituições. - Os linchamentos legais de políticos. - A tendência a um Governo Mundial (ONU). - O surgimento do Japão e da China como potências de primeira grandeza. - A valorização de governantes ineptos. - A instalação do terrorismo na vida diária dos povos. - A incompatibilidade e hostilidade entre governantes e governados. - O sufrágio universal. - A corrupção da chamada classe política. - O controle da medicina pelo Estado. - O antagonismo entre regionalismos e centralismo. - As trocas frequentes de governos na Europa. - A criação de uma política internacional dirigida. - A falsificação da História. - A corrupção jurídica. - A proliferação dos crimes hediondos. - Os julgamentos políticos. - O desprestígio pessoal dos líderes políticos. 


b) de caráter econômico: 

- A generalização das folgas trabalhistas. - A crise financeira de 1929. - A luta de classes. - A consagração da nova Ciência Econômica. - A prepotência dos trustes e monopólios. - A especulação agrária. - A “corrida armamentista”. - A submissão dos ricos aos interesses sionistas. - O aumento progressivo da burocracia estatal. - A progressiva desvalorização das moedas nacionais e a preponderância do dólar como moeda internacional. - A manutenção do padrão ouro. - O imposto progressivo sobre as heranças. - O desaparecimento progressivo do papel moeda, substituído pelos cheques e cartões. - A escandalosa legislação sobre as sociedades anônimas. 


c) de caráter social: 

- O auge do alcoolismo, da delinquência juvenil - e agora já até infantil - e a educação sexual preparando a juventude para a promiscuidade. - O imenso e avassalador crescimento do poder dos meios de comunicação. - A supressão da pena de morte. - O desarmamento moral. - O desarmamento efetivo do indivíduo. - A manipulação da opinião pública. - O controle judaico-sionista sobre o mundo dos espetáculos. - O antissemitismo programado pelos próprios judeus. - A corrupção da juventude. - A progressiva eliminação da família. - A legalização do aborto. - A legalização do homossexualismo e demais aberrações sexuais. - O aumento da prostituição. - O controle estatal da educação. - As associações de imprensa e a diplomação dos formadores de opinião. - A legalização do segredo profissional para os jornalistas. - O auge dos jogos de azar, inclusive estatais. - A explosão do “esporte profissional”. 


d) de caráter cultural: 

- A moda do darwinismo, inclusive aprovada pelo Vaticano. 
- A exaltação do demoníaco, do mau, do horrendo, em detrimento do sublime, do bom e do belo. 
- A literatura e todas as artes chamadas “modernas”. 
- As leis antidifamatórias para penalizar a liberdade de expressão. 
- As leis cada vez mais restritivas contra a manifestação de opinião não consentida. 



CONCLUSÃO 

Prestes a completar 100 anos desde que foi trazido à luz, os Protocolos - por todas as suas evidências - vem sendo posto rigorosamente em prática e, longe de se tratar de uma simples profecia ou, o que é mais inverossímil ainda, um amontoado de disparates redigido por um obscuro agente de polícia do tempo do Czar, trata-se, ao que tudo indica, de um Plano muito mais antigo do que o resumo das atas do Congresso Sionista de 1898. 

Publicado pela primeira vez no Brasil em 1936, por iniciativa do historiador Gustavo Barroso, Os Protocolos dos Sábios de Sião tornou-se um dos livros mais raros da nossa história. Feito desaparecer, por obra da famosa “mão invisível”, ficou inacessível em nosso país por mais de 50 anos, inclusive retirado criminosamente de praticamente todas as bibliotecas nacionais, sendo finalmente reeditado em 1991 pela Revisão Editora, graças à coragem do editor e historiador S. E. Castan, reiniciando o caminho apontado por Gustavo Barroso.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Linha média versus sedevacantismo, ou quando os extremos se tocam

Carlos Nougué (Estudos Tomistas)

Diz o linha-média: É impossível que um papa defeccione na fé. Com efeito, como o mostra São Roberto Bellarmino, o Papa Sisto IV, antes de tudo por meio do Sínodo de Alcalá, e depois por si mesmo, condenou os artigos de um certo Pedro de Oxford, um dos quais afirmava que a Igreja da cidade de Roma poderia errar. Trata-se pois de condenação feita pelo próprio magistério, que, como se sabe, não pode errar. Logo, quando um documento como a declaração Dignitatis humanae, do Concílio Vaticano II, diz coisas que vão aparentemente contra a fé e contra o estabelecido por dois mil anos de magistério infalível, não pode passar disso mesmo: só aparentemente se opõem à fé e ao estabelecido anteriormente pelo magistério. Se porém se mantém a aparência de oposição, não pode dever-se senão a um mau entendimento e pois a um mau juízo.
Replica o sedevacantista: De fato é impossível que um papa enquanto papa cometa qualquer atentado contra a fé; se o fizesse, falharia a promessa de indefectibilidade feita por Cristo a Pedro. Por isso, como o diz São Roberto Bellarmino, se segundo suposição um papa defeccionasse na fé, ipso facto perderia a jurisdição, ou seja, deixaria de ser papa, porque – como está implícito no dito – Cristo lhe retiraria a jurisdição no ato mesmo em que defeccionasse na fé. Logo, não pode haver papa herético, ou ao menos publicamente herético. – Por isso, ainda tem razão São Roberto Bellarmino quanto à impossibilidade de que a Igreja de Roma erre, porque, com efeito, o “papa” herético já não é o bispo da Igreja de Roma. E assim as heresias de um Francisco – as quais por evidentes não podem negar-se – não são heresias de um bispo de Roma.
Respondo a ambos: Assim como a decisão do Concílio de Florença (sob Eugênio IV) quanto ao sacramento da ordem não podia, por impossível, atentar contra a fé, assim também a condenação de Pedro de Oxford por Sisto IV não podia estar equivocada. Mas, assim como – veja-se que estamos em pleno campo da analogia – a decisão de Florença sobre a ordem necessitou da precisão que lhe deu Pio XII (cf. a constituição apostólica Sacramentum Ordinis), assim também a condenação emitida por Sisto IV precisou da complementação do Concílio Vaticano I. Com efeito, diz este (na constituição dogmática Pastor aeternus) que “o Romano Pontífice, quando fala ex cathedra – isto é, / [1ª. condição vaticana] quando cumprindo seu cargo de pastor e doutor de todos os cristãos, define por sua suprema autoridade apostólica que / [2ª.] uma doutrina sobre a fé e os costumes / [4ª.] deve ser sustentada / [3ª.] pela Igreja universal –, pela assistência divina que lhe foi prometida na pessoa do bem-aventurado Pedro, goza daquela infalibilidade de que o Redentor divino quis que fosse provida sua Igreja na definição da doutrina sobre a fé e os costumes”. Ora, como depois se explicou suficientemente, esta definição implica que só se se cumprem tais quatro condições alcança um papa a infalibilidade por assistência do Espírito Santo. Mas dizê-lo implica dizer também – como determina qualquer bom manual de lógica – que os papas, se não cumprem tais quatro condições, não alcançam a infalibilidade em alguma declaração.[1] Pois bem, como o mostrarei detidamente no debate com Carlos Ramalhete ou, à falta deste, na continuação do escrito “Da necessidade de resistir ao magistério conciliar”, o magistério conciliar,[2] por liberal e pois por antidogmático, nunca cumpriu as quatro condições vaticanas e, portanto, nunca alcançou o grau de infalibilidade. Mas, pelo mesmo motivo, nunca alcançou sequer o grau de certeza. Mais que isso, todavia, suas declarações vão amiúde contra o estabelecido pelo magistério infalível de quase dois mil anos. Por conseguinte, é necessário resistir ao magistério conciliar, porque há que resistir a tudo o que atente contra a fé, e porque, como diz São Paulo, “ainda que nós mesmos ou um anjo do Céu vos anunciemos um Evangelho diferente daquele que vos tenho anunciado, seja anátema” (Gl 1, 8).
Objeção do linha-média: Insisto em que ninguém pode julgar um papa, nem, pois, nenhuma de suas declarações; além de que admitir que um papa possa defeccionar na fé implica crer que falhou a promessa de Cristo de assistência perpétua ao papado.
Digo a esta objeção:
• As declarações dos papas dirigem-se a homens, e os homens nos caracterizamos por ser animais racionais. Ora, as quatro condições estabelecidas pelo Vaticano I foram-no justamente para que, racionalmente, pudéssemos reconhecer como infalíveis certas declarações papais. Pois bem, com a mesma racionalidade com que, pelas quatro condições, reconhecemos que certas declarações papais são infalíveis, com a mesma racionalidade, portanto, somos capazes de reconhecer que alguma declaração não infalível (ou seja, não cingida das quatro condições vaticanas) vai evidentemente contra o estabelecido por alguma ou algumas declarações infalíveis.[3] É o caso, muito por exemplo, da Dignitatis humanae, do Concílio Vaticano II, ou das escandalosas e demolidoras encíclicas de Francisco.[4]
• Como diz a mesma constituição dogmática Pastor aeternus, só se se cumprem as quatro condições vaticanas é que o papa tem “a assistência divina que lhe foi prometida na pessoa do bem-aventurado Pedro” e, portanto, “goza da infalibilidade de que o Redentor divino quis que fosse provida sua Igreja na definição da doutrina sobre a fé e os costumes”.
Objeção do sedevacantista: Insisto no dito por São Roberto Bellarmino: admitir que um papa enquanto papa possa ser herético implica aceitar que falhou a promessa de Cristo de assistência perpétua ao papado, razão por que, se um papa se faz herético, Cristo lhe retira automaticamente a jurisdição. Por conseguinte, a hierarquia conciliar já não pode ser parte da Igreja. – Ademais, São Roberto Bellarmino foi dito o Doutor da Igreja: está para o Vaticano I assim como Santo Tomás de Aquino esteve para Trento.
Digo a esta objeção:
• Pelo estabelecido pelo Concílio Vaticano I, a hierarquia conciliar não pode não ser parte da Igreja.[5] Mas parece que só o é secundum quid, por certo aspecto, não simpliciter ou absolutamente. Em outras palavras, parece que só o é por jurisdição precária. Explico-o. Como dizia Pio XII, um assassino já perdeu por seu mesmo ato o direito à vida e à cidadania. Mas, digo eu, é preciso que o estado o julgue, lhe retire a cidadania e o condene à morte. Enquanto não o faz, tal assassino continua com a vida e com a cidadania, ainda que só de certo modo, ou seja, em estado precário. Pois é, analogamente, o que me parece se passa com a hierarquia conciliar: já teria podido perder ipso facto, por contumácia na heresia, a jurisdição; mas ainda a preserva precariamente, por falta do devido julgamento, tudo o que pode concluir-se do dito no Código de 17. – Era pouco mais ou menos assim que pensava o tomista Domingo Báñez (1528-1604) (cito-o de memória): “Se se me pergunta se um papa que tenha incorrido em heresia ainda é papa, digo: por um ângulo, não; por outro, sim” – ou seja, enquanto um concílio não o indispuser com o restante da Igreja. Atenção: não se trata da doutrina do conciliarismo, condenada pelo Papa Pio II mediante a bula Exsecrabilis (de 10 de janeiro de 1459). O conciliarismo supunha que um concílio ecumênico ou universal fosse a autoridade suprema da Igreja, acima pois do papa. Já a posição de Báñez foi primeiramente defendida pelo Cardeal Caetano e depois por uma longa série de teólogos, entre os quais tomistas como João de Santo Tomás e outros como S. Afonso Maria de Ligório. Segundo todos eles, um concílio não teria poder propriamente para depor um papa, senão que, assim como um conclave tem poder para dispor um papa, assim também um concílio teria poder para indispor um papa herético (por herético) com o restante da Igreja. Como quer que seja, hoje um concílio não faria senão reafirmar Francisco...[6]
• Além do dito pela Pastor aeternus e citado na resposta à objeção do linha-média, tenham-se em conta:
a) o Decretum de Graciano (Pars I, dist. 40, cap VI, cânon “Si Papa”): “o Papa [...] por ninguém deve ser julgado, a menos que se afaste da fé”; b) o Papa Inocêncio III: “Somente pelo pecado que cometesse em matéria de fé poderia eu ser julgado pela Igreja” (Sermão IV sobre o Romano Pontífice, Migne PL 217, 670); c) o Papa São Leão II: “Anatematizamos Honório [I], que [por favorecedor de heresia] não ilustrou esta Igreja Apostólica com a doutrina da tradição apostólica, mas permitiu, por uma traição sacrílega, que fosse maculada a Fé imaculada [...] da tradição apostólica, que recebera de seus predecessores” (Denz.-Sch. 563).
Logo, um papa pode defeccionar na fé (sem perder ipso facto a jurisdição).
• É da essência não só da lei mas de qualquer decisão judicial que sejam promulgadas. Mas a decisão de Cristo de retirar a jurisdição à hierarquia conciliar teria permanecido oculta. Por conseguinte, a tese brandida pelo sedevacantismo incorre em certo paralogismo.
• Que São Roberto Bellarmino tenha sido declarado Doutor da Igreja não implica que fosse inerrante mesmo com respeito a temas eclesiológicos, assim como, por exemplo, que Santo Tomás de Aquino tenha sido declarado Doutor Comum e pois geral não implica que fosse inerrante, como de fato não o foi, por exemplo, quanto à Imaculada Conceição. E temos até o consabido caso de diversas incompatibilidades doutrinais entre os doutores Santo Tomás de Aquino e São Boaventura, parte das quais a Igreja resolveu-a em favor de Tomás, sem que isso implicasse a perda para Boaventura do título de doutor. Et reliqua. – Ademais, São Roberto Bellarmino não pode ser posto como doutor no mesmo plano que Santo Tomás de Aquino: este é o Doutor Comum para todos os católicos e pois para todos os concílios, o que se confirma pelo fato de que foi especialmente depois do Vaticano I que os papas insistiram em atribuir a Tomás de Aquino tal título. Portanto, não se segue a analogia feita pelo sedevacantista.
À guisa de conclusão. Como se pode ver, as duas posições – a do linha-média e a do sedevacantista – confluem em dar ao papa uma como inerrância ou indefectibilidade ou infalibilidade geral. Tal demasiado encarecimento do papado leva a linha média a negar os evidentes atentados da hierarquia conciliar contra a fé, enquanto leva o sedevacantismo a negar o prosseguimento da Igreja visível enquanto Igreja, ou seja, enquanto sociedade com autoridades e hierarquia constituídas.[7] As consequências são graves em ambos os casos: no primeiro, certa escusação de heresias, ainda que adornada dos mais variados subterfúgios; no segundo, a tendência à entropia, pela negação do estabelecido pelo Vaticano I e referido na nota 5.
Dubium. Ainda há lugar, porém, para uma dúvida. Com efeito, muitos dos sacramentos tais quais estabelecidos pelo magistério conciliar são duvidosos. É o caso da nova forma do sacramento da ordem, cuja validade pode pôr-se em dúvida. Se assim é, ou seja, se o novo sacramento da ordem é inválido, então Francisco, ordenado pelo novo rito, não será papa.
Solução. Como direi em outros lugares, de fato há dúvidas quanto à validade de muitos dos sacramentos tais como estabelecidos pelo magistério conciliar. Sobre uns pesam menos dúvidas, sobre outros mais. Mas os sedevacantistas que afirmam a sedevacância atual porque o novo sacramento da ordem seria inválido esquecem que, como diz qualquer bom manual de direito, in dubio pro reo, e que, à falta da devida declaração magisterial (que obviamente hoje não pode dar-se), não podemos considerar os referidos sacramentos conciliares senão numa escala que vai do provavelmente inválido ao provavelmente válido. E dizer “possivelmente” ou “provavelmente” não é o mesmo que dizer “certamente”, como é óbvio, e como o explica cabalmente Aristóteles em seus indispensáveis Tópicos.



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[1] Não trato aqui o caso, frequentíssimo, em que o papa alcança o grau de certeza em alguma declaração, caso em que os católicos também lhe devemos dócil assentimento. Note-se todavia que, além de ainda poder alcançar grau inferior ao da certeza, pode um papa falar não como tal, mas como doutor privado – o que obviamente de modo algum exige dócil assentimento aos católicos, ainda que possa requerer sua obsequiosidade. Todas essas sutis distinções, e muitas mais, reservo-as para o possível debate com Carlos Ramalhete ou, à falta deste, para a continuação do escrito “Da necessidade de resistir ao magistério conciliar” (cf. aqui).
[2] Ou seja, o do Vaticano II sob Paulo VI e dos papas seguintes.
[3] Tal evidência pode ser tal para todos, ou apenas para os sapientes.
[4] O que acabo de dizer mostrar-se-á detidamente, e não só com respeito à Dignitatis humanae e às encíclicas de Francisco, no referido debate ou na referida continuação.
[5] Com efeito, lê-se na Sacrae Theologiae Summa, trat. III, “De la Iglesia de Jesucristo”, pelo P. J. Salaverri S. J. (n° 294) [dos Padres da Companhia de Jesus, 4.ª ed., Madri, B.A.C., 1962]: “1) A perenidade do Primado é definida explícita e diretamente no Concilio Vaticano [I] (D 1824s). [D 1825 Cânon. Se alguém, pois, disser que não é de instituição de Cristo mesmo, quer dizer, de direito divino, que o bem-aventurado Pedro tenha perpétuos sucessores no primado sobre a Igreja universal... seja anátema.] 2) A perenidade da Igreja é definida explícita, mas indiretamente, no mesmo Concílio (D 1821-1824s). 3) A perenidade da Hierarquia definiu-a implicitamente o Concílio Vaticano [I]. Com efeito, definiu explicitamente a perenidade do Primado (D 1824s). É assim que também definiu que é próprio do Primado ter subordinados a si e governar os Pastores ou Bispos da Igreja universal (D 1827-1831); logo, sempre haverá Pastores ou Bispos subordinados ao Primado. Isto mesmo é ensinado explicitamente na introdução à Constituição da Igreja (D 1821)”.
[6] Cf. As indicações bibliográficas referentes ao artigo “Se a hierarquia conciliar está fora da Igreja”. [7] Aliás, eis algo que os sedevacantistas não entendem: a autoridade é o princípio formal da sociedade. Sem ela, portanto, não há sociedade. Mas a Igreja é uma sociedade. A conclusão impõe-se.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Sedevacantismo, ou uma conclusão à procura de premissas - Parte VI (Final)

Via Capela Nossa Senhora das Alegrias - Vitória - ES


Professor Carlos Ancêde Nougué


9) Pressuposto, assim, tudo quanto se disse até aqui, deve-se dizer agora que a autoridade enquanto poder ou faculdade ativa é um habitus e, por conseguinte, um acidente predicamental; e, como todo acidente predicamental, não pode existir se não é recebido num sujeito. Que sujeito, ou antes, quem governa legitimamente e quem ilegitimamente? Governa legitimamente quem foi eleito legitimamente pela sociedade para receber a autoridade, e que não tem impedimento para recebê-la. Ilegitimamente aquele que tomou ilegitimamente a autoridade, ou por tê-lo feito sem designação legal, ou, ainda que validamente designado, por ter qualquer impedimento para receber a autoridade. Na sociedade civil, a instituição do sujeito da autoridade pertence ao conjunto da comunidade. “Segundo os tomistas em geral [também traduzimos aqui, à letra, uma frase do Padre Donald J. Sanborn], a comunidade inteira tem o direito de instituir ou escolher tanto a forma de governo quanto o sujeito que receberá a autoridade, mas a comunidade não transmite a própria autoridade, como sustentaram alguns, em particular Suárez. A comunidade simplesmente propõe um sujeito de autoridade. Mas é Deus quem dá a autoridade.” Assim, para que o rei, numa monarquia hereditária, receba legitimamente a autoridade, é mister que o povo aceite, pelo menos implicitamente, o sistema monárquico hereditário. Tudo isso, porém, tem que ver com o governo civil; já a constituição da Igreja, por seu lado, provém de Cristo, é imutável e de modo algum depende da aprovação da comunidade de fiéis. E, ao contrário do que se dá na sociedade civil, os elementos essenciais da constituição da Igreja se estabeleceram por disposição divina direta. A forma que lhe deu Cristo é monárquica, e nem o papa, que enquanto vigário de Cristo desfruta da mesma autoridade que Ele, pode alterá-la.

10) Insista-se na analogia com o composto humano. Com efeito, no caso da geração natural do homem, os pais não dão a forma humana, ou seja, a alma; dão, porém, a disposição última da matéria. É Deus mesmo quem dá a alma; e a união de matéria e forma realiza um ente simpliciter uno: precisamente, um homem. Se todavia a matéria não estiver de algum modo disposta, a forma nem sequer lhe é infundida; e, se de algum modo estiver mal ou imperfeitamente disposta, ainda que lhe tenha sido infundida a alma, o feto acabará por morrer. Ora, do mesmo modo a autoridade em ato não pode ser recebida senão num sujeito bem ou perfeitamente disposto para tal. Ora, se se trata do governo civil, pode dar-se, em não raro se deu, o caso de um rei ter tomado à for-ça a sede da autoridade e, no entanto, depois ter-se legitimado pela aprovação implícita de parte do povo. Mas tal não pode dar-se de modo algum na Igreja, porque nela a comunidade de fiéis não possui o direito de designar o sujeito da autoridade papal. É sempre necessário, portanto, que quem receba o papado seja designado segundo as normas em vigor no tempo de vacância da Sede Apostólica, ou seja, pelos eleitores que têm o direito legal de eleger o papa.

  11) A permanência de um papa no cargo dura ou até a morte do sujeito; ou até sua renúncia voluntária; ou, ainda, até a privação da designação do sujeito por parte de quem tem o direito de fazê-lo (cf. o cânon 183 §1 do Código de Direito Canônico de 1917, o qual enumera as causas de perda dos cargos eclesiásticos). Embora não exista autoridade com poder de julgar o papa, o corpo de eleitores pode suspender-lhe a designação, porque a designação provém de Deus de maneira mediata, mas de maneira imediata dos eleitores. Por exemplo, se o papa enlouquecesse, seus eleitores poderiam constatar sua perda do poder papal e proceder a nova eleição. Ou, se um leigo se elegesse papa mas recusasse a consagração episcopal, deveriam os eleitores constatar sua falta de disposição material e proceder a nova eleição. Da mesma forma, caso uma pessoa já eleita papa caia em heresia ou promulgue leis disciplinares sacrílegas, seus eleitores deverão constatar sua incapacidade para manter a autoridade e proceder, também, a uma nova eleição. Por outro lado, a duração do direito de designar é semelhante à da mesma designação (perde-se somente com a morte, renúncia ou privação legal); mas é apenas o próprio papa validamente eleito (ou seja, apenas aquele que é pelo menos materialmente papa) quem tem tanto o direito de nomear os eleitores quanto o de privá-los legalmente dessa nomeação. Não há porém como não perguntar a esta altura [traduzimos aqui, à letra, outra frase do Padre Donald J. Sanborn]: “Como um indivíduo não-papa ou papa somente material pode privar ou nomear legalmente os eleitores do pontífice romano? Em outras palavras, de que maneira após o Concílio Vaticano II os conclaves podem ser considerados legítimos, se os próprios eleitores são heréticos, desprovidos de jurisdição ou nomeados por heréticos que, pelo próprio fato de sê-lo, também são desprovidos de jurisdição?”

12) Ora, a autoridade tem dois fins: legislar e nomear os sujeitos pelos quais se recebe a autoridade. Assim como a mesma autoridade tem “um corpo” e “uma alma”, ou seja, matéria e forma, sendo a primeira a designação para receber a jurisdição e a segunda a própria jurisdição, assim também o objeto ou fim da autoridade são dois: o primeiro e principal é dirigir a comunidade ao bem comum por meio de leis (e isto tem que ver com a alma da autoridade); enquanto o segundo e secundário (porque ordenado ao primeiro) é nomear os sujeitos da autoridade (e isto tem que ver com o corpo da autoridade), a fim de que tenha continuidade no tempo a própria comunidade. Esses dois objetos ou fins da autoridade são realmente diversos, como é evidente. Se pois se trata efetivamente de dois objetos ou fins, então as faculdades ordenadas a tais objetos também são efetivamente diversas. E, se a faculdade de designar é efetivamente diversa da faculdade de legislar, pode suceder que alguém que não desfrute da faculdade de legislar possa, porém, desfrutar da de designar — na medida em que queira o efetivo e objetivo bem da sucessão legal da autoridade. Ora, como já se disse, a faculdade de designar provém da Igreja, enquanto a faculdade de legislar provém de Deus. Logo, a Igreja pode dar a faculdade de designar sem que, por causa de algum impedimento, Deus confira a de legislar. Mas os eleitores do papa, ainda que tenham aderido ao Concílio Vaticano II e suas teses heréticas, têm a intenção de designar legalmente alguém para receber o papado. Assim os papas conciliares, embora sejam papas apenas materiais, quando nomeiam os “cardeais”, têm a intenção de nomear sujeitos com a faculdade de designar o papa. Neste sentido, mesmo os conclaves que se seguiram ao Concílio Vaticano II quiseram objetivamente o bem da sucessão na sede pontifical, e os que são eleitos para esta sede objetivamente se propõem ao bem de nomear os eleitores do papa. E atenção: esta continuidade meramente material da autoridade pode, pela razão já apontada de que se busca o bem da sucessão material, prosseguir por tempo indefinido. O fato da heresia não anula a designação dos eleitores nem dos eleitos. Mas, repita-se, aquele que está materialmente bem disposto está, por outro lado, pelo fato da heresia, não-disposto para receber a forma, ou seja, a autoridade de legislar. Assim, são válidos todos os seus atos que concernem à parte material da autoridade, mas não à jurisdição, que concerne diretamente à parte formal da autoridade.

13) Recorra-se mais uma vez à analogia com a alma humana. Com efeito, a alma se ordena a atos especificamente diversos, como os atos da vida vegetativa, da vida sensitiva e da vida racional. Pode suceder que, por inaptidão ou por não-disposição da matéria (devida, por exemplo, a uma má-formação congênita ou a uma concussão cerebral), a alma cumpra ou passe a cumprir apenas os atos da vida vegetativa. Quando porém a matéria se torna de todo inapta para manter até a vida meramente vegetativa, então sobrevém a morte. Similar e analogicamente, a Igreja pode manter a “vida vegetativa” da hierarquia e concomitantemente não conservar a “vida legislativa”, que busca precisamente o bem comum da Igreja. Tal não decorre de uma falha da parte de Cristo, mas de um defeito da parte dos homens. E isto é permitido por Cristo por um bem superior. Com efeito, os fins da Igreja continuam a ser buscados pelos bispos e padres que não incorreram em heresia, com uma jurisdição não habitual, mas transitória, quando eles cumprem atos sacramentais.

14) Por quanto já se viu até aqui, um papa apenas material pode legítima ou validamente até mudar as regras da eleição, sobretudo se essas mudanças são aceitas pelo conclave. O direito porém de legislar, ou seja, o direito de ensinar, governar e santificar a Igreja, provém diretamente de Cristo, ou antes, de Sua autoridade, da qual o papa participa como vigário. Não obstante, segundo o documento Vacantis Apostolicæ Sedis, de Pio XII, uma vez que o eleito tenha expressado seu consentimento com a eleição, torna-se automaticamente papa: em outras palavras, a união de matéria e forma no papado é imediata. Então, como um eleito pode permanecer apenas materialmente papa após aquele consentimento? Precisamente porque a matéria e a forma não podem unir-se se aquela não tem proporção com esta. Ora, como já visto, a intenção de promulgar erros ou leis disciplinares más é impedimento para o recebimento da forma da autoridade, e o papa apenas material continuará tal enquanto ele próprio não suprimir tal impedimento.

15) Os entes per se, como, por exemplo, um homem, não podem sobreviver se matéria e forma se separam, porque aquela não pode ser em ato sem sua forma substancial. Nos entes per accidens, que nascem da união de uma forma acidental com uma substância (que analogicamente se torna matéria com relação ao acidente), matéria e forma podem separar-se sem que se corrompa o suppositum, assim como, por exemplo, um homem político ou filósofo pode deixar de ser político ou filósofo sem deixar de ser homem. Pois bem [outra vez traduzimos aqui, à letra, uma frase do Padre Donald J. Sanborn], “o papa, enquanto papa, é um ente ‘per accidens’ por ser uma agregação de muitos entes, ou seja, de um homem por um lado e de muitos acidentes por outro”. Desses acidentes, alguns são dispositivos, como a consagração episcopal, etc., mas apenas um é formal: aquele pelo qual este homem concreto é designado papa simpliciter. Tal acidente é o direito de legislar, que também se diz autoridade ou jurisdição. Se tal homem não recebe imediatamente a autoridade ou jurisdição, permanece “matéria”, homem designado, mas ainda sem o direito de legislar nem, o que é o mesmo por outro ângulo, o de dirigir a comunidade a seus fins. Um exemplo disso o podemos encontrar no presidente dos EUA, que é legalmente designado no mês de novembro, mas só recebe a autoridade em janeiro do ano seguinte. Entre esses dois momentos, ele ainda não é presidente, mas tampouco é simpliciter não-presidente: com efeito, já recebeu a designação legal. Em outras palavras, já é materialmente (materialiter) presidente, mas ainda não formalmente (formaliter). Pois bem, algo similar pode suceder com o romano pontífice, ou seja, pode dar-se o caso de alguém ter sido legalmente designado papa e, no entanto, ainda depois de ter aceitado a designação, não receber de Cristo a jurisdição por lhe faltar uma disposição necessária, como, por exemplo, o inteiro uso da razão ou, que é o que aqui nos interessa, a intenção de legislar e governar em vista do bem comum da Igreja — e tal intenção não pode faltar senão no herege. Neste caso, o homem designado papa não seria verdadeiro papa, ou, em outras palavras, como já visto, o seria apenas materialmente, não formalmente. É exatamente o caso dos hereges Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI.

16) Termina aí, quanto ao essencial, a Tese de Cassiciacum. Resta ainda, porém, por explanar uma última distinção: a que se dá entre fato real e reconhecimento legal de um fato real. Explique-se. Toda e qualquer sociedade é uma pessoa moral que, por analogia com a pessoa física, tem inteligência e vontade próprias. Se assim é, pode acontecer, e de fato acontece, que determinado fato possa ser verdadeiro ou real (e até evidente) sem, no entanto, ser reconhecido como tal pela sociedade. Alguém pode cometer um crime diante de testemunhas, mas, apesar disso, será considerado inocente enquanto não for condenado pelo competente tribunal. Em razão desta distinção entre fato real e fato legal, toda e qualquer sociedade, incluída a Igreja, não se reduz a uma simples massa ou multidão de indivíduos. Veja-se o caso do bispo herege Nestório: após ele ter expressado publicamente sua heresia, o clero e o povo recusaram-se a seguir-lhe obedecendo, embora ele tenha continuado a ocupar a sede que era sua por designação legal até ser legalmente deposto, três anos depois, pelo Concílio de Éfeso. Se não fosse necessário o reconhecimento legal de sua heresia, o papa teria nomeado outro para o seu lugar antes do julgamento do Concílio. O terrível problema atual é que, ao menos aparentemente, todas as sedes de autoridade na Igreja ensinam os erros do Concílio Vaticano II e todos os eleitores do papa compartilham suas heresias. Se assim é, não há, com efeito, quem possa legalmente reconhecer o fato de tais erros no magistério nem a conseguinte ausência de autoridade nos que as propalam — situação jamais verificada na história da Igreja. E, se por um lado os fiéis atuais, tal como os fiéis da época de Nestório, devem proteger-se rompendo a comunhão com os propaladores de erros e recusando-se a reconhecer-lhes a autoridade, por outro lado não podem deixar de reconhecer o caráter de sociedade legal da Igreja, pelo qual aqueles mesmos propaladores de heresias permanecem em sua sede e cargo enquanto legalmente não forem destituídos por uma autoridade competente. Por isso a tese que aqui se expõe não só é verdadeiramente católica, mas é a única que explica adequadamente a inusitada situação que se vive hoje na Igreja: porque, com efeito, sem negar a indefectibilidade da Igreja, sua apostolicidade e unidade enquanto corpo moral único e a infalibilidade de seu magistério, ela se recusa a reconhecer a autoridade de Cristo nos que divulgam heresias desde o Concílio Vaticano II.
* * *

Como se vê pela exposição, a classe de sedevacantismo que agora se investiga chegou às duas premissas seguintes:
● Assim como na geração natural do homem os pais não lhe dão a forma humana, ou seja, a alma, mas apenas a disposição da matéria, enquanto é Deus mesmo quem lhe infunde a alma, assim também, na Igreja, é o colégio eleitoral competente quem dá a determinado homem a matéria ou designação legal de papa, enquanto é Cristo mesmo quem lhe dá a forma ou autoridade; mas, assim como a alma humana deixa de ser infundida se a matéria não estiver adequadamente disposta para receber a forma substancial, assim também, se o homem designado legalmente papa não estiver materialmente disposto (por exemplo, por heresia) para receber de Cristo a forma ou jurisdição, seguirá sendo papa, mas apenas materialmente.
● Ora, desde o Concílio Vaticano II os papas têm sido notoriamente heréticos.
Donde a conclusão (que, como visto, já estava preestabelecida, mas foi alterada em razão da nova premissa maior encontrada):
● Os papas, desde o Concílio Vaticano II, são materialiter papas, mas não o são formaliter, razão por que devem os fiéis católicos romper a comunhão com eles e não reconhecer-lhes nenhuma autoridade ou direito de legislar.

* * *

Notas prévias à refutação da Tese de Cassiciacum
> Como convém, começaremos por refutar a premissa maior da tese adversária. Diga-se, porém, desde já: se se quer explicar o papado por uma analogia com o composto humano de corpo e alma, antes se deveria reconhecer (como escreve o Padre Calderón em A Candeia Debaixo do Alqueire, p. 79) que, “assim como, na geração, da disposição da matéria por parte dos pais se segue necessariamente a criação da alma por parte de Deus, da eleição validamente aceita por parte da Igreja se segue [necessariamente] a comunicação do poder por parte de Nosso Senhor. As disposições requeridas para aquilo são as mesmas que para isto”. Ora, se assim é, rui toda a Tese de Cassiciacum pela improcedência de sua premissa maior. E não deteve o autor da tese nem seu defensor o Padre Donald J. Sanborn sequer o fato de a Constituição Vacantis Apostolicæ Sedis, de Pio XII, referida por eles mesmos, estabelecer exatamente o contrário do que defendem. Veremos tudo isso detidamente.
> A premissa menor da tese implica, como já se adiantou, um argumento para trás (quia) de todo ilícito aqui, e pode-se dizer que a pretensa notoriedade atribuída por ela à heresia de Paulo VI durante o Concílio efetivamente não se deu então. Em verdade, como se verá, também esta forma de raciocinar para trás constitui uma “reconstrução ideal da história”.
> A conclusão desta tese será refutada aqui na medida mesma em que se diferencia da dos demais tipos de sedevacantismo, ou seja, no afirmar uma sedevacância apenas formal. Mas, na medida em que compartilha com os demais tipos o caráter geral do sedevacantismo, só será refutada ao final do exame do conjunto deles.
> Após aquelas refutações da Tese de Cassiciacum, responder-se-á particularmente a cada item numerado de sua exposição, e então se mostrará a quantidade impressionante de suas imprecisões e obscuridades filosóficas e o uso impróprio que faz não só de Santo Tomás de Aquino, mas também de São Roberto Bellarmino, Suárez, etc.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Carta de São Pio X ao bispo de Limerick sobre os escritos do Cardeal Newman

CARTA

Na qual o Papa [São] Pio X aprova a obra do Bispo de Limerick sobre os escritos do Cardeal Newman
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Brasão de S. S. São Pio X



Ao Nosso Venerável Irmão Edward Thomas, Bispo de Limerick

Venerável Irmão, saúde e bênção apostólica.

Pela presente informamos que Aprovamos o vosso ensaio, no qual mostrais que os escritos do Cardeal Newman, longe de estarem em desacordo com a Nossa Carta Encíclica Pascendi, estão em estreita consonância com a mesma: pois não pudestes ter servido melhor tanto a verdade quanto ao eminente mérito do homem.

Parece que aqueles cujos erros Condenamos em nossa Carta estabeleceram como regra fixa a busca de aprovação do nome de um ilustríssimo homem para as próprias coisas que eles mesmos inventaram. E assim, afirmam, livremente, que tomaram certas posições fundamentais extraídas daquela origem e fonte, e que, por essa razão, não Podemos condenar as doutrinas que lhes são próprias sem, ao mesmo tempo e ainda mais, em prioridade de ordem, condenar o ensinamento de tão eminente e grande homem.

Se não se soubesse que poder o fermento de um espírito envaidecido tem de inchar a mente, pareceria incrível a existência de pessoas que pensam e se dizem católicas, quando, em uma questão que diz respeito ao próprio fundamento da disciplina eclesiástica, colocam a autoridade de um doutor privado, embora eminente, acima do magistério da Sé Apostólica.

Vós não apenas demonstrastes plenamente a sua contumácia, mas também seus artifícios. Pois, mesmo que se detecte algo que carregue alguma semelhança a certas teses dos modernistas nos escritos de Newman anteriores a sua profissão de Fé Católica, vós justamente negais que, de qualquer maneira, tais semelhanças sejam embasadas nesses mesmos escritos; tanto porque o significado subjacente às palavras é muito diferente quanto o é o propósito do autor, sendo que ele, ao ingressar na Igreja Católica, submeteu todos os seus escritos à autoridade da própria Igreja Católica, certamente, para serem corrigidos, se necessário.

Quanto aos numerosos e importantes livros que escreveu como católico, dificilmente se faz necessário defendê-los da sugestão de parentesco com a heresia. Como todos sabem, entre o público inglês, Henry Newman, em seus escritos, defendeu incessantemente a causa da Fé Católica de tal modo que sua obra foi muito salutar para seus compatriotas, e ao mesmo tempo, elevadamente estimada por Nossos predecessores. Assim sendo, foi considerado digno de ser nomeado Cardeal por Leão XIII, indubitavelmente, um acurado juiz dos homens e das coisas; sendo, desde então e por toda sua vida, muito merecidamente estimado por ele.

Não há dúvida de que em tão grande abundância de seus trabalhos seja possível encontrar algo de alheio ao método tradicional dos teólogos, mas nada que pudesse levantar uma suspeita sobre sua fé. E vós corretamente afirmais que não é de se espantar que, se em uma época em que não se mostrava nenhum sinal da nova heresia, seu modo de expressar em alguns lugares não mostrasse um cuidado especial, mas que os modernistas agem de maneira errônea e enganadora em deturpar aquelas palavras para seu próprio significado, em oposição a todo o contexto.

Congratulamo-vos, portanto, por terdes vindicado com eminente sucesso, através do vosso conhecimento de todos os seus escritos, a memória de um homem tão bom e sábio; e ao mesmo tempo, o quanto vos era possível, por terdes assegurado que entre vosso povo, especialmente o inglês, aqueles que se acostumaram a abusar daquele nome tenham já cessado de ludibriar os ignorantes.

Eles deveriam seguir Newman, como mestre, fielmente, estudando seus livros, não ao modo daqueles que entregues aos seus próprios preconceitos buscam seus volumes, e com desonestidade deliberada extraem deles algo com o que respaldar seus pontos de vista, mas poderiam reunir seus princípios puros e inalterados, e seu exemplo, bem como seu espírito grandioso. Eles aprenderiam muitas coisas excelentes de tão grande mestre: em primeiro lugar, com relação ao sagrado Magistério da Igreja, defender a doutrina transmitida de maneira inviolada pelos Padres e, o que é de máxima importância para salvaguardar a verdade Católica, seguir e obedecer o Sucessor de São Pedro com a máxima fidelidade.

Portanto, Venerável Irmão, Agradecemos sinceramente a vós e ao vosso clero e povo por terdes vos preocupado em Nos ajudar em nossas limitadas condições, enviando o seu donativo financeiro habitual: e a fim de ganhar para todos vós, mas, primeiramente para vós mesmo, os dons da bondade de Deus, e como um testemunho de Nossa benevolência, Conferimos a Nossa benção Apostólica.

Dado em Roma, em São Pedro, em 10 março de 1908, no quinto ano de Nosso Pontificado.
Pio PP. X
Tradução: Fratres in Unum.com

Fonte: New Zealand Tablet, Volume XXXVI, Issue 19, 14 May 1908, Page 1 – Biblioteca Nacional da Nova Zelândia  
Texto em latim aqui

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Comentários Eleison CDXCIII (493) - Cartão de Isaías

Por Dom Richard N. Williamson
Tradução: Borboletas ao Luar

24 de dezembro de 2016

A Jesus Cristo todos os homens na terra devem se voltar,
Ou então, aqui ou no futuro, eles deverão queimar.



Se Deus Todo-Poderoso fosse enviar cartões de Natal, o que poderia escrever no Seu sobre a vinda do próprio Filho, que nasceu na terra como um Filho humano de uma Mãe humana? É verdade que Deus escreveu muitas coisas sobre o Messias através dos escritores que Ele inspirou diretamente para compor os livros do Antigo Testamento e, sem dúvida, uma das mais conhecidas dessas citações vem do profeta Isaías, no capítulo 9. No anterior, Isaías profetiza a desolação e a ruína que cairão sobre os judeus por causa de seus pecados. No 9, ele volta-se para a glória da era messiânica: uma grande luz iluminará a Galileia (província natal de Jesus) – versos 1 e 2. Então, a alegria, como no tempo da colheita ou depois de uma vitória militar (verso 3), virá, após a derrota dos assírios, assim como após a derrota dos midianitas para Gideão (verso 4), e os efeitos da guerra desaparecerão (verso 5). Isaías continua com o “cartão de Natal” (glorificado na música O Messias de Händel):

6: “Porquanto um MENINO NASCEU para nós, e um filho nos foi dado, e foi posto o principado sobre o seu ombro: e será chamado Admirável, Conselheiro, Deus Forte, Pai do Século Futuro, Príncipe da Paz. 7: O seu império estender-se-á cada vez mais, e a paz não terá fim; sentar-se-á sobre o trono de Davi e sobre o seu reino; para o firmar e fortalecer pelo direito e pela justiça, desde agora e para sempre; fará isto o zelo do Senhor dos exércitos”.

6: Assim, a razão suprema para a alegria é a vinda do Messias: para nós, para redimir a todos nós, nascerá um menino real e Filho, que levará o peso do mundo sobre Seu ombro (os Padres da Igreja consideram esse peso como o da Cruz); e com uma série de epítetos Isaías diz que o menino será: Admirável, Conselheiro, mais do que capacitado para aconselhar todas as nações sobre a verdadeira felicidade e prosperidade delas até o fim do mundo. O Deus Forte – Os estudiosos das Escrituras Talmúdicas fazem o máximo que podem para evitar admitir que Isaías está dizendo que o Messias será também Deus (como sabem os católicos, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade), mas o artigo definitivo no hebraico e o significado da expressão "Deus Forte" em todos os outros lugares do Antigo Testamento indicam fortemente que Isaías quer dizer exatamente isso. O Pai do Século Futuro – o Messias será um Pai verdadeiro e terno para a era messiânica por todo o sempre (Mt 11, 28).

7: Seu império estender-se-á – a Igreja Católica estender-se-á sobre todo o mundo, e não haverá fim para a paz porque a Igreja do Messias vai gerar paz onde quer que seja respeitada, até o fim do mundo. Ele será descendente real de Davi para sentar-se no trono de Davi, ao qual foi prometido que duraria para sempre (II Sm 7), como Nosso Senhor prometeu à sua Igreja (Mt 16, 18; 28, 20). Mas este reino será um reino do Rei dos Corações (Jo 12, 32), consolidado com juízo e com justiça, e não um reino do Valete de Paus, estabelecido pela força (Mt 26, 52; Jo 18, 36). Todas estas maravilhas virão do zelo do Senhor Deus, de seu ardente desejo de levar almas para o Céu a fim de compartilhar a eterna e ininterrupta felicidade com Ele, pelos séculos dos séculos.

O que torna difícil para nós hoje apreciar a gloriosa visão de Isaías sobre o futuro messiânico é que ela se transformou no passado maçônico. A quinta era da Igreja do Messias, a Era da Apostasia, começou há 500 anos, quando Lutero rompeu a cristandade, de modo que quando depois outros 200 anos ainda não era ainda óbvio para muitos homens que os benefícios da cristandade estavam já em vias de serem minados, os judeus-maçons puderam começar a persuadir os homens de que a Cristandade e Cristo não eram mais necessários. E nem mesmo os horrores de outros 200 anos, os do comunismo anticristão, desencadeados pela Revolução Russa e espalhados pelo mundo inteiro, conseguiram persuadir os homens de que desde Encarnação as únicas alternativas para qualquer civilização são Jesus Cristo e Sua Igreja Católica, ou então o Diabo. Mas esta é a verdade.


Feliz Natal, leitores!


Kyrie eleison.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Comentários Eleison - CDXCII (492) - Distinguir, discriminar

Por Dom Richard N. Williamson
Tradução: Introibo ad Altare Dei

17 de dezembro de 2016

Quando tudo é verdade, não posso selecionar bem e escolher,
Mas quanto às mentiras em meio à verdade, rejeitá-las é um dever.

Se se deve crer na evidência aparentemente séria de milagres eucarísticos ocorrendo dentro do Novus Ordo Missae (NOM) – e se tais milagres podem mesmo acontecer frequentemente, um dos mais recentes parece vir de Legnica, também na Polônia (http://www.garabandal.org/News/Adoration_of_the_Blessed_Sacrament.shtml) no dia de Natal de 2013 – então, de fato, alguns de nós talvez precisemos fazer algumas reconsiderações. Eis como um leitor colocou: “Deus não pode contradizer-se; assim, seus milagres não podem contradizer os ensinamentos de Sua Igreja. Mas o NOM se afasta da doutrina católica essencial sobre a Missa. Portanto, ou os milagres são falsos ou o NOM é de Deus; e neste caso, qual seria a justificativa para os tradicionalistas se apegarem à Tradição? Pois se o NOM no coração da Neoigreja é confirmado por milagres, então a Neoigreja também é confirmada por Deus, e assim também os neopapas, e eu devo obedecê-los. Eu não posso selecionar bem e escolher, posso?”. Sim, você pode, e não somente você pode, mas deve, a fim de cumprir o seu dever absoluto de manter a fé.

Isso é assim porque outro nome para o que você chama de “selecionar bem e escolher” é “distinguir”. Todos nós precisamos distinguir o tempo inteiro. Isso é bom senso, e é isso o que faz Santo Tomás de Aquino do começo ao fim de sua miraculosa Summa Theologiae. Vamos examinar o argumento de nosso amigo.

O objeto que é base da disputa é o NOM. O NOM é um rito de Missa, um livro de centenas, senão de milhares de páginas, contendo muitas coisas. Do ponto de vista católico, o rito como um todo é inquestionavelmente mau, porque altera radicalmente o conceito da Missa: de um sacrifício propiciatório centrado em Deus para uma ceia comunitária centrada no homem. Como tal, uma vez que a maioria dos católicos vivem a sua religião assistindo à Missa, então quando seu conceito muda, sua religião, em efeito, muda. É por isso que o NOM é o principal destruidor da verdadeira Igreja, e o principal motor da Neoigreja. É por isso que o NOM, como um todo, não é apenas mau, mas extremamente mau.

Mas isso não significa que todas as suas partes, como partes, sejam más. Como partes, algumas ainda são católicas, porque, para enganar a massa de sacerdotes quando o NOM foi introduzido em 1969, elas não eram essencialmente diferentes do rito Tridentino da Missa, especialmente na Consagração. Não fosse assim e o tivessem recusado, o NOM não poderia ter feito seu trabalho de destruição da Igreja. Assim o NOM é, quanto às suas partes, parte bom e parte ruim, enquanto que, como um todo, é ambíguo, traiçoeiro, uma distorção.

Entretanto, no que diz respeito ao homem, “Para os puros todas as coisas são puras” (Tt. I, 15), e assim para as almas inocentes ainda não conscientes do seu perigo intrínseco para a Fé, ele pode, pela sua Consagração e partes boas, ainda dar graça e alimento espiritual, especialmente quando são menos sufocadas por um padre que torna as ambiguidades tão católicas quanto possível. E assim, quanto a Deus, Ele “escreve certo por linhas tortas”, diz o provérbio, e então as partes más do NOM precisam não o impedir de realizar milagres com as partes católicas para nutrir os inocentes e advertir os culpados.

Portando, por um lado, o NOM como um todo é muito mau, e os tradicionalistas são absolutamente necessários à Igreja para testemunhar a sua maldade, e para tornar disponível uma verdadeira Missa para quando as almas despertarem para a maldade do NOM, como elas têm feito em diferentes momentos e em diferentes ritmos, para que elas possam manter a Fé e suportar a crise. Por outro lado, o NOM é, em parte, ainda bom o suficiente para nutrir almas inocentes e permitir que Deus realize milagres, também para o alimento das almas ou para sua advertência. Deus não está confirmando o NOM como um todo, nem a Neoigreja como um todo, nem os neopapas como um todo, mas Ele está confiando em mim para usar o cérebro e a Fé que Ele me deu para discernir o bem do mal. Ele não quer robôs dementes em seu glorioso Céu!


Kyrie eleison.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Comentários Eleison CDXC (490) - Milagres no NOM?

Por Dom Richard N. Williamson
Tradução: Leticia Fantin

03 de dezembro de 2016
Católicos tradicionalistas devem ter a mente aberta:
Não somente a falta de Fé eles deixaram para trás.



Ano passado, nos Estados Unidos, suscitou-se uma séria controvérsia sobre se Deus pode fazer milagres dentro do âmbito da Missa Novus Ordo. Ora, se Deus realmente faz milagres sobrenaturais, é obviamente para que eles sejam cridos, e para que fortaleçam a fé sobrenatural das pessoas. E se Ele quer que algo fora da ordem natural seja crido, obviamente providenciará suficiente evidência para tal, como Lázaro saindo de sua tumba em frente a uma multidão de espectadores. Neste sentido, a evidência mais convincente é aquela de gênero material e físico, que de nenhum modo pode ser produzida por qualquer mente humana, por mais piedosa que seja, como o espetáculo luminoso do sol no outubro de 1917, em Fátima. Assim, qual é a evidência material e física de um milagre eucarístico que tenha ocorrido em qualquer Missa Novus Ordo?

Alega-se que um milagre desse tipo ocorreu na igreja paroquial de Sokulka, no leste da Polônia. Em 12 de outubro de 2008, um padre ordenado há cinco anos por um bispo polaco consagrado em 1980 deixou cair uma Hóstia Consagrada no degrau do altar, enquanto distribuía a Sagrada Comunhão. Ele parou para recolhê-la e colocá-la num pequeno recipiente com água, próximo ao Tabernáculo. Após a missa, este recipiente foi trancado dentro da sacristia para que a hóstia se dissolvesse na água, de modo que a Presença Real já não estivesse ali e a água pudesse ser descartada de modo seguro. Este procedimento é totalmente normal para tais acidentes na liturgia católica.

Mas no dia 19 de outubro, quando uma irmã da paróquia foi verificar a hóstia dissolvida, viu em seu centro algo de cor intensamente vermelha, como um coágulo de sangue. Ela imediatamente informou ao pároco, que foi com outros padres observar o que parecia ser um pedaço de carne viva. Todos os observadores ficaram profundamente impressionados. Em seguida, seguiu ao local o arcebispo, de Bialystok, com muitos diocesanos oficiais. Todos eles ficaram profundamente comovidos. Por instrução do arcebispo, no dia 30 de outubro a hóstia foi removida da água, transferida para um pequeno corporal e colocada no Tabernáculo para secar. Até o dia de hoje ela conserva a forma de um coágulo de sangue.

No dia 7 de janeiro de 2009, uma mostra da hóstia foi levada para ser examinada por dois patologistas, separadamente, na Universidade Médica de Bialystok, ali perto. O julgamento unânime de ambos, mas independente um do outro, foi que “de todos os tecidos dos organismos vivos, a mostra se assemelha mais a de um tecido miocárdico humano”, do ventrículo esquerdo do coração, típico de uma pessoa viva em estado de agonia. Mais ainda, ambos os patologistas descobriram, presumivelmente em seus microscópios, que as fibras do tecido miocárdico e a estrutura do pão estavam tão estreitamente unidas que qualquer possibilidade de fabricação humana estava descartada. Em 29 de janeiro, esta evidência material e física foi apresentada à Cúria Metropolitana em Bialystok, onde o julgamento oficial da Igreja sobre a origem sobrenatural do ocorrido é pacientemente aguardada. Nesta espera, disse o arcebispo em um sermão de outubro de 2009, que serão decisivos os frutos espirituais entre os católicos. Já houve um significante aumento na piedade e na prática religiosa dos católicos locais, e do exterior houve centenas de peregrinações, com numerosos milagres de cura e de conversão ocorridos.

Se a evidência material é crível, então em Sokulka Deus obrou mais um milagre eucarístico entre tantos ao longo dos séculos, para ajudar almas a acreditar em algo normal e suficientemente difícil de se crer, a saber, que Ele está realmente presente sob as aparências, uma vez consagradas, de pão e de vinho. Mas como isto é possível quando os católicos tradicionais sabem que a Nova Missa é a causa principal da destruição da Igreja pela perda da fé desde o Vaticano II? Uma resposta pode ser que o Sagrado Coração, sabendo que os pastores foram responsáveis pelo ambíguo NOM, recusou-se abandonar suas ovelhas, e continua a alimentá-las com o que é ainda católico em meio à ambiguidade. E em meio a toda essa relativa negligência da Neoigreja em relação à Sagrada Eucaristia, o evento de Sokulka é um assustador lembrete tanto para pastores, quanto para ovelhas: “Lembrai-vos com quem estais lidando – sou Eu, vosso Deus!


Kyrie eleison.

Traduzido por Leticia Fantin.