sábado, 20 de agosto de 2016

Comentários Eleison CDLXXIV (474) - Bispo Fellay II

Por Dom Richard N. Williamson
 
13 de agosto de 2016
 
Sejamos cabeças-duras, mas de maneiras gentis.
A suavidade da mente faz o tolo, o sentimental.



Um erro nunca é propriamente refutado até que seja desraigado. Em outras palavras, para verdadeiramente se superar um erro, alguém precisa mostrar não somente que ele é um erro, mas por que é um erro. Suponhamos, com o “Comentário” da última semana, que a declaração do dia 28 de junho do Superior Geral da Fraternidade São Pio X, esperando que o pio sacerdócio da Fraternidade resolverá a crise da fé na Igreja, comete o erro de colocar a carroça do sacerdócio antes do cavalo da fé. Mostremos que este erro tem suas raízes na quase universal subvalorização da mente e supervalorização da vontade de nossa época, que resultam, mesmo que inconscientemente, num desprezo pela doutrina (exceto pela doutrina dos Beatles de “tudo do que você precisa é amor”).

E já no início da Declaração há um indício desse erro quando ela diz que o princípio central condenado na Pascendi, a grande condenação do modernismo por Pio X, é o da “independência”. Não. O princípio que ele constantemente condena como sendo a raiz do modernismo é antes o agnosticismo, a doutrina pela qual a mente não pode conhecer nada além do que aparece aos sentidos. Sobre esse desconhecimento segue a independência da mente em relação a seu objeto, seguido, por sua vez, pela declaração de independência da vontade em relação a todas as outras coisas das quais não quer depender. Está na natureza das coisas que a mente deve primeiro suicidar-se antes que a vontade possa declarar sua independência. Então, quando a Declaração põe no coração da Pascendi a independência antes do agnosticismo, este é um indício de que a Declaração é antes uma parte do problema da Igreja do que de sua solução.

E de onde vem, por sua vez, essa degradação da mente e da doutrina? Principalmente de Lutero, que chamou a razão humana de “prostituta” e que, mais que qualquer outro, lançou a Cristandade no caminho sentimental para sua autodestruição hodierna. Mas isto levou todos os 500 anos? Sim, porque houve uma resistência natural e católica ao longo do caminho. Mas Lutero estava certo quando disse ao Papa que, no final, iria destruí-lo - “Pestis eram vivus, functus tua mors ero, Papa” – Na vida, fui tua peste; morto, serei tua morte, Papa”.

A este radical e gigante erro da degradação da mente e da doutrina podem ser atribuídos dois sub-erros no caso do autor da Declaração de 28 de junho: em primeiro lugar, sua má compreensão de Monsenhor Lefebvre, e, em segundo lugar, sua muito grande compreensão da Senhora Cornaz (pseudônimo Rossinière).

Como muitos de nossos seminaristas em Écône, quando o mesmo Monsenhor Lefebvre presidia lá, Bernard Fellay estava, com razão, fascinado e encantado pelo notável exemplo, ante nossos próprios olhos, de o que um sacerdote católico pode e deve ser. Mas a coluna vertebral do sacerdócio de Monsenhor e de sua heroica luta pela Fé não foi sua piedade – muitos modernistas são “piedosos” – mas sua doutrina, doutrina do eterno sacerdócio, profundamente alérgica ao liberalismo e ao modernismo. Tampouco Monsenhor disse alguma vez que sua Fraternidade salvaria a Igreja. Antes, que seus sacerdotes deveriam salvaguardar os incalculáveis tesouros da Igreja para tempos melhores. 

A pessoa que realmente disse que os sacerdotes da Fraternidade salvariam a Igreja, como o Pe. Ortiz nos lembrou, foi a Senhora Cornaz, uma mãe de família de Lausanne, Suíça, cuja vida abarcou a maior parte do século XX e quem, entre 1928 e 1969, recebeu comunicações supostamente do céu sobre como os casais deveriam santificar o sacerdócio (!). As comunicações começaram novamente em 1995 (!), quando ela encontrou um sacerdote da Fraternidade a quem ela persuadiu, e, através dele, Monsenhor Fellay, de que eram os sacerdotes da FSSPX que estavam destinados pela Providência a salvar a Igreja propagando as “Moradas de Cristo Sacerdote” dela. Com toda sua autoridade, o Superior Geral apoiou seu projeto, mas a reação negativa dos sacerdotes da Fraternidade fê-lo rapidamente renunciá-lo em público. Interiormente, entretanto, terá a visão mística dela sobre o exaltado futuro da Fraternidade permanecido nele? Parece bem possível. Como Martin Luther King, o Superior Geral “tem um sonho”.


Kyrie eleison.


Traduzido por Leticia Fantin

domingo, 14 de agosto de 2016

Comentários Eleison CDLXXIII (473) - Bispo Fellay I

Por Dom Richard N. Williamson
Tradução: Borboletas ao Luar
 
 
A Fraternidade acha que a todos irá salvar?
Foi a partir do orgulho que veio a queda a se dar.



Depois da reunião de 26 a 28 de junho dos Superiores da FSSPX na Suíça, o Superior Geral fez não somente para o público geral o Comunicado de 29 de junho, já examinado nestes “Comentários” há três semanas, mas também uma Declaração em 28 de junho para o benefício dos membros da FSSPX, ou seja, primariamente para os sacerdotes da FSSPX. A Declaração é em si mesma críptica, mas uma vez decifrada (com a ajuda do Pe. Girouard), ela se mostra carregada de significados para o futuro da Tradição Católica. Segue um mero esquema dos primeiros seis parágrafos da Declaração e o texto completo do sétimo:

(1-4) A Igreja e o mundo estão em crise, porque em vez de girar em torno da Cruz de Cristo, eles giram em torno do homem. A FSSPX se opõe a essa “desconstrução” da Igreja e da sociedade humana.

(5) O remédio próprio de Deus para essa desordem foi inspirar um Arcebispo a fundar uma congregação hierárquica católica em torno do sacramento da Ordem Sagrada – Jesus Cristo, Sua Cruz, Seu Reinado, o sacrifício e o sacerdócio, fonte de toda ordem e de toda graça, é do que se trata a Fraternidade fundada por Dom Lefebvre.

(6) Por isso, a FSSPX não é nem conciliar (pois gira em torno de Cristo) nem rebelde (pois é hierárquica).

(7) “Terá chegado o momento da restauração geral da Igreja? A Divina Providência não abandona a Sua Igreja cuja cabeça é o Papa, o vigário de Cristo. Por isso um sinal incontestável dessa restauração geral será o Papa manifestando sua vontade de proporcionar os meios para reestabelecer a ordem no sacerdócio, na Fé e na Tradição. Esse sinal será a garantia da unidade católica necessária da família e da Tradição”.

Os primeiros seis parágrafos claramente levam ao sétimo. E não é desarrazoado interpretar o sétimo como significando que quando o Papa Francisco der a aprovação oficial à Fraternidade, então isso será a prova de que finalmente é chegado o momento em que toda a Igreja Católica voltará a se reerguer, para que o sacerdócio católico, a Fé católica e a Tradição católica sejam restaurados, e para que todos os tradicionalistas se juntem à Fraternidade Sacerdotal São Pio X sob seu Superior Geral. Dom Fellay parece estar repetindo aqui para o benefício de todos os sacerdotes da Fraternidade sua constante visão do glorioso papel dela, porque na reunião suíça, segundo ouvimos, ao menos alguns de seus Superiores questionaram essa glória vindo na forma de reunião com a Roma oficial. Mas esses Superiores em oposição estavam certos, porque Dom Fellay está aqui sonhando! É um sonho nobre, mas mortal.

O sonho é nobre porque se trata da honra de Nosso Senhor Jesus Cristo, de Sua Igreja, de Seu Sacrifício, do Arcebispo Lefebvre, do sacerdócio católico, e assim por diante. O sonho é mortal porque gira mais sobre o sacerdócio do que sobre a Fé, e enquanto ele acredita muito corretamente que o Papa Francisco e os romanos sejam os portadores da Autoridade católica, não leva em conta quão distantes estão de sustentar a Fé católica. Se se pode dizer que o Arcebispo Lefebvre salvou o sacerdócio católico e a Missa, isso foi para ele apenas um meio de salvar a Fé. A Fé é para o sacerdócio como o fim para o meio, e não como o meio para o fim. Que seria do sacerdócio sem a Fé? Quem acreditaria nos Sacramentos? Quem precisaria de sacerdotes?

E quanto a essa Fé, o Papa atual e os oficiais romanos que mantêm o controle em torno dele perderam seu apego à Verdade como sendo única, objetiva, não contraditória e exclusiva, e com isso eles perderam seu apego à verdadeira Fé, ou melhor, perderam a Fé. Isso significa que se o Papa Francisco de fato aprovar oficialmente a Fraternidade, não se tratará de modo algum de um sinal de que a Fraternidade terá restaurado a sanidade da Igreja, mas, em vez disso, que a Igreja oficial terá absorvido em sua insanidade a Fraternidade.


Kyrie eleison.

domingo, 7 de agosto de 2016

Comentários Eleison CDLXXII (472) - Tomismo Autêntico

Por Dom Richard N. Williamson
Tradução: Borboletas ao Luar
Verdade que é verdade exclui toda contradição.
“Verdade” que admite o erro é verdadeira ficção.


O modo como o modernismo pode combinar sinceridade aparente e boa fé com dissolução da verdade é tão perigoso para a fé real dos católicos que dificilmente consegue ser descrito ou analisado com muita frequência. A pergunta recente de um leigo tradicionalista provê outra oportunidade para fazê-lo. Ele pergunta se um sacerdote da Fraternidade Sacerdotal São Pio X estaria sendo sensato ao ler regularmente uma revista tomista conciliar, baseando-se no fato de que a FSSPX não forneceu até o momento esse material de leitura regular sobre o pensamento e a doutrina do grande filósofo e teólogo da Igreja, Santo Tomás de Aquino. A resposta é que é melhor que esse sacerdote, no mínimo, seja muito cuidadoso, porque o tomismo conciliar é uma contradição em termos reais que pode, em termos modernistas, facilmente fingir-se – e aqui está o problema – de não contraditório.


O tomismo conciliar é uma contradição em termos reais porque o ensinamento de Santo Tomás se esforça, e normalmente é bem sucedido, em se conformar à ordem una e única plantada nas coisas reais, fora de nossas mentes, pelo uno e único Deus real. De modo contrário, o Vaticano II procedeu de uma suposição de que o homem moderno desestabilizou essa ordem nas coisas, centrada em Deus e estática (ver a seção de abertura da “Gaudium et Spes”), e, portanto, para a religião de Deus fazer algum sentido para o homem moderno, deve ser remodelada em termos dinâmicos e centrados no homem, o que faz com que o tomismo não seja mais unicamente fiel à realidade, mas seja de algum modo antiquado.


Em termos modernistas o tomismo pode permanecer um monumento histórico do pensamento humano, um sistema intelectual magnífico, cuja lógica e consistência são totalmente admiráveis. Assim, os seminaristas da FSSPX, por exemplo, podem aprendê-lo como um catálogo telefônico, mas se eles se deixam levar pelo feitiço do Vaticano II, não verão mais o tomismo como o único modo de combater os erros modernos, e serão facilmente encantados e seduzidos por muitas outras maneiras mais “atualizadas” de pensar sobre o mundo. Resumindo, os modernistas não desafiarão o tomismo em seu próprio território, de fato eles poderão alegar que concordam totalmente com ele no território deles. Eles simplesmente alegarão que em tempos modernos o terreno foi modificado, e então o tomismo não é mais unicamente válido, ou já não é mais o único modo de chegar à verdade. Assim, os seguidores do Vaticano II podem realmente pensar que concordam com o tomismo, mas não concordam com ele absolutamente.

Deixemos a aritmética elementar ilustrar mais uma vez a questão. Dois e dois são quatro, e na vida real, na realidade, não podem ser nada mais, nem três nem cinco. Mas um aritmético moderno poderia dizer: “dizer que dois e dois são unicamente ou exclusivamente quatro, é ter a mente muito fechada. É muito mais criativo e progressista dizer que podem também ser cinco ou seis – vamos abrir a mente – seis milhões!”. E porque esse aritmético moderno não exclui dois e dois como sendo quatro, mas alegremente inclui isto em sua ampla mentalidade, ele pode acreditar sinceramente que sua aritmética não contradiz a velha aritmética. Mas quem não pode ver que na realidade ele está minando completamente a “antiga” e verdadeira aritmética? Aquela aritmética que corresponde à única realidade fora de nossas mentes não somente inclui que dois e dois são quatro, mas também exclui absolutamente que seja outra coisa. E é somente essa aritmética que corresponde àquela realidade única, ou seja, que é verdadeira. Assim a crença e o pensamento que correspondem à única ordem de realidade natural e sobrenatural de Deus existiram evidentemente por muitos séculos antes de Santo Tomás de Aquino (1225-1274). Ele simplesmente reuniu tudo em um sistema incomparável. Mas não é o sistema que faz com que sejam verdadeiros. O que os torna unicamente verdadeiros como um sistema é a sua correspondência única como um sistema com a realidade.

Portanto, se os escritores dessa revista tomista são também professos seguidores do Vaticano II, eles certamente não acreditarão que o tomismo seja, no sentido apresentado aqui, único. Nesse caso, eles podem ser chamados de “tomistas de catálogo telefônico”, mas seguramente não são verdadeiros tomistas. Será que o sacerdote supramencionado saberá fazer sempre a distinção? Não se ele está agora se permitindo ser conduzido pelo Vaticano II.
 
 
Kyrie eleison

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Sobre o Primeiro Concílio Infernal


Via Non Possumus

Relato do primeiro concílio que houve no inferno, no qual “se conjuntaram todos os vícios e pecados do mundo, dali sairam a mantira, as seitas e erros, e toda iniquidade teve sua origem daquele caos e congregação abominável; e a seu príncipe servem todos os que praticam a maldade.”

O presente texto é um extrato dos capítulos IX e X do livro I da obra “Mística Cidade de Deus”, da Ven. Sor Maria de Jesus de Ágreda.


106. E travou-se no céu (v.7) uma grande batalha: Miguel e seus anjos pelejavam contra o dragão, e o dragão com seus anjos pelejavam contra ele. Havendo manifestado o Senhor o que fica dito aos bons e aos maus anjos, o santo príncipe Miguel e seus companheiros, com a divina permissão, pelejaram com o dragão e seus sequazes, Batalha admirável, combate de entendimentos e vontades. Com o zelo que ardia em seu coração pela honra do Altíssimo, e armado com o poder divino e sua própria humildade, São Miguel resistiu à desvanecida soberba do dragão, dizendo: Digno é o Altíssimo de honra, louvor e reverência; de ser amado, temido e obedecido por toda a criatura; é poderoso para fazer tudo quanto quer, nada podendo querer que não seja muito justo. Incriado e sem dependência de outro ser, deu-nos gratuitamente quanto temos, criou-nos e formou-nos do nada e do mesmo modo pode criar outros seres, quando e como for de seu beneplácito. É razoável que prostrados e submissos em sua presença, adoremos Sua Majestade e real grandeza. Vinde, pois, anjos, segui-me e adoremo-lo, louvando seus admiráveis e ocultos juízos, suas perfeitíssimas e santíssimas obras. É Deus Altíssimo, superior a toda criatura, e não o fora se pudéssemos compreender suas grandes obras. Infinito em sabedoria e bondade; rico em tesouros e benefícios; Senhor de tudo, de ninguém necessitando, pode comunicá-los a quem mais servido for, não podendo errar em sua escolha. Pode amar a quem quiser, dar-se, elevar, criar e enriquecer a quem for de seu gosto, e em tudo será sábio, santo e poderoso. Adoremo-lo com ações de graça pela maravilhosa obra da Encarnação e dos outros favores para seu povo, inclusive sua reparação, caso cair. A este Suposto[1] de duas naturezas, divina e humana, adoremo-lo, reverenciemo-lo e recebamo-lo por nosso chefe, confessando que é digno de toda a glória, louvor e magnificência, autor da graça e da glória, reconheçamos sua virtude e divindade.

Com estas armas pelejavam São Miguel e seus anjos, combatendo com fortes raios ao dragão e aos seus asseclas armados de blasfêmias. Defrontando o santo Príncipe, mas não lhe podendo resistir, enfurecia-se, e pelo tormento que sofria desejara fugir. A vontade divina, porém, ordenara que fosse não apenas castigado, mas também vencido, e a seu pesar conhecesse a verdade e o poder de Deus. Blasfemando bradava: Deus é injusto por elevar a natureza humana acima da angélica. Eu sou o mais excelente e formoso anjo, e a mim se deve a exaltação. Hei de estabelecer meu trono acima das estrelas (Is 14, 13) e serei semelhante ao Altíssimo. Não me sujeitarei a ninguém de natureza inferior à minha, nem consentirei que alguém me preceda e seja maior que eu. Faziam-lhe eco os apóstatas, seus sequazes, ao que lhes replicou São Miguel: - Quem há que se possa igualar e se comparar com o Senhor que habita os céus? Acaba, inimigo, com tuas formidáveis blasfêmias, e já que a iniquidade se apoderou de ti, separa-te de nós, infeliz, e caminha com tua cega ignorância e maldade para a tenebrosa noite e caos das penas infernais. Quanto a nós, ó espíritos do Senhor, reverenciemos esta ditosa mulher que há de ministrar carne humana ao eterno Verbo, e reconheçamo-la por nossa Rainha e Senhora.

E assim, como pela virtude divina havia aparecido aquele sinal, quis também Sua Majestade fazer surgir o outro sinal do dragão vermelho. Nessa figura foi ignominiosamente expulso do céu, com espanto e terror de seus sequazes e admiração dos santos anjos por aquela nova demonstração do poder e justiça de Deus.

Difícil é descrever com palavras o que se passou nesta memorável batalha, por ser enorme a diferença entre conceitos materiais e as operações de tais e tantos espíritos angélicos. Os maus, entretanto, não triunfaram (Ap 12, 8) porque a injustiça, mentira, ignorância e malícia não podem prevalecer contra a equidade, verdade, luz e bondade, nem tais virtudes podem ser vencidas pelos vícios. Por isto, diz o Apocalipse, daí em diante seu lugar não foi encontrado no céu. Com os pecados que cometeram, estes ingratos anjos tornaram-se indignos da eterna visão e companhia do Senhor, e sua lembrança apagou-se da sua mente divina onde, antes da queda, estavam gravados pelos dons de graça que lhes outorgara. Privados do direito que tinham aos lugares que lhes haviam sido preparados sob a condição de obedecerem, este direito transferiu-se aos homens e a estes foram reservados. Tão apagados foram os vestígios dos anjos apóstatas, que jamais serão encontrados no céu. Oh! infeliz maldade, nunca assaz encarecida infelicidade que pereceu tão espantoso e formidável castigo!

E foi lançado aquele grande dragão (Ap 12, 9) e antiga serpente que se chama diabo e satanás que engana a todo o orbe e foi precipitado à terra com seus anjos. Transformado em dragão, foi Lúcifer precipitado do céu pelo santo príncipe Miguel, por aquela invencível palavra: Quem como Deus? Tão poderosa que pôde derrubar com formidável ignomínia, às profundezas da terra, aquele soberbo gigante e todos os seus exércitos. Ali, com sua infelicidade e castigo, começou a receber os novos nomes de dragão, diabo e satanás. Privado da felicidade e honra que desmereceu, foi também despojado de seus honrosos títulos, adquirindo os que traduzem sua ignomínia. E a maldade que intimou a seus confederados para enganarem e perverterem os habitantes do mundo, manifesta sua iniquidade. Deste modo, aquele que presumia destruir os povos foi lançado aos infernos e às profundezas do lago, como diz Isaías, Capítulo 14 (v. 15). Seu cadáver foi entregue à podridão e aos vermes de sua má consciência. Em Lúcifer cumpriu-se tudo o que o Profeta escreve naquela passagem.

Ficando o céu despojado os maus anjos, foi afastado o véu da Divindade para os bons e obedientes. Triunfantes e gloriosos estes, castigados aqueles, prossegue o Evangelista dizendo que ouviu uma ouviu uma grande voz no céu que dizia: - Agora foi estabelecida a salvação e a força e o reino de nosso Deus, e o poder do seu Cristo: porque foi precipitado o acusador de nossos irmãos, que na presença de nosso Deus os acusava de dia e de noite (Ap 12, 10). Esta voz ouvida pelo Evangelista foi a da pessoa do Verbo. Ouvida e entendida por todos os santos anjos, chegaram seus ecos até o inferno. Ali espavoriu e fez tremer os demônios, ainda que não compreenderam todos os mistérios que encerrava, mas somente aquilo que o Altíssimo lhes permitiu entender para sua pena e castigo. Aquela voz foi proferida pelo Filho, em nome da humanidade que havia de assumir. Pediu ao Eterno Pai que fosse estabelecida a salvação, poder e reino de Deus e do Cristo, porquanto já havia sido expulso o acusador dos homens, irmãos do mesmo Cristo Senhor nosso.
 
Ai da terra e do mar, porque o demônio desceu a vós com grande ira, sabendo que lhe resta pouco tempo! (v. 12). Ai da terra, onde tão inumeráveis pecados e maldades serão cometidos. Ai do mar, que vendo tais ofensas ao Criador, não lançou suas ondas para afogar os transgressores, vingando as injúrias do seu Criador e Senhor. Ai do mar profundo da endurecida maldade daqueles que seguiram o demônio que desceu até vós para guerrear-vos, com raiva tão inaudita e cruel que não tem semelhante! Ira de ferocíssimo dragão e mais que leão devorador (lPd 5, 8) que tudo pretende aniquilar, considerando curta toda a duração dos séculos para satisfazer seu ódio. Tanta é a sede e a ânsia de perder os mortais, que não lhe basta o tempo limitado de suas vidas. Sua fúria desejaria, se fosse possível, tempos intermináveis para combater os filhos de Deus. Enfurece-se especialmente contra aquela ditosa mulher que lhe há de esmagar a cabeça (Gn 3, 15).

Quando a antiga serpente viu o infelicíssimo lugar e estado em que caíra, abrasou-se mais no furor e inveja, à semelhança de um veneno que o atormentava. Contra a mulher, Mãe do Verbo humanado, concebeu tal indignação que nenhuma língua nem entendimento humano pode explicar nem compreender. Do que sucedeu imediatamente após ter sido este dragão precipitado nos infernos com seus exércitos de maldade, direi alguma coisa aqui, conforme me é possível, de acordo com o que me foi intelectualmente manifestado.

No momento em que Lúcifer e seus sequazes inauguraram o inferno, reuniram-se todos para fazer um conciliábulo que durou até a quinta-feira pela manhã. Neste tempo empregou Lúcifer toda sua diabólica sabedoria e malícia em estudar e decidir com os demônios o modo para mais ofender a Deus, em vingança do castigo que lhes havia imposto. A última conclusão a que chegaram, pelo que sabiam do amor que Ele teria aos homens, foi que a maior vingança e ofensa a Deus, seria impedir nas criaturas humanas os efeitos daquele amor. Para tanto, enganariam, persuadiriam e forçariam quanto possível, os homens a perderem a amizade e graça de Deus, tornando-os ingratos e rebeldes à vontade divina.

Nisto - dizia Lúcifer - temos que trabalhar, empregando toda nossa força, atenção e ciência. Arrastaremos as criaturas humanas para nosso ditame e vontade, a fim de perdê-las. Perseguiremos esta geração de homens e os privaremos do prêmio que lhes está prometido. Procuremos, com toda nossa vigilância, que não cheguem a ver a face de Deus, visão a nós, injustamente negada. Hei de obter contra eles grandes triunfos e tudo destruirei e submeterei à minha vontade. Semearei novas seitas, erros e leis, em tudo contrárias às do Altíssimo. Suscitarei entre esses homens, profetas e chefes que propaguem as doutrinas (At 20, 30) que eu semear e finalmente, para vingar-me do seu Criador, metê-los-ei comigo neste profundo tormento. Afligirei os pobres, oprimirei os aflitos, perseguirei os fatigados, semearei discórdias, causarei guerras, instigarei uns povos contra outros. Formarei soberbos e arrogantes, espalharei a lei do pecado, e quando por ela me hajam obedecido, sepultá-los-ei neste fogo eterno, sendo os lugares de maiores tormentos para aqueles que comigo mais se parecerem. Este será meu reino e a recompensa que darei aos meus servos.

Ao Verbo humanado farei guerra, ainda que seja Deus, pois também será homem de natureza inferior à minha. Elevarei meu trono e dignidade acima da sua, vencê-lo-ei e o derrubarei com meu poder e astúcia. A mulher que há de ser sua Mãe, perecerá em minhas mãos. Que representa para meu poder e grandeza uma só mulher? Vós, demônios, que tostes ofendidos como eu, segui-me nesta vingança, assim como o fizestes na desobediência. Fingi que amais aos homens, para perdê-los; servi-os, para destruí-los e enganá-los. Ajudai-os com o fim de pervertê-los e trazê-los a meus infernos. Não há língua humana que possa explicar a malícia e furor deste primeiro conciliábulo, que Lúcifer armou contra o gênero humano que ainda nem sequer existia. Ali se forjaram todos os vícios e pecados do mundo; daí saíram a mentira, as seitas, os erros e toda a iniquidade originou-se daquele caos e abominável assembleia. Ao seu chefe servem todos quantos praticam a maldade.
 
E o dragão se indignou contra a mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência que guarda os mandamentos de Deus e retém o testemunho de Jesus Cristo (v. 17). Completamente derrotado pela Rainha da criação, atormentado pela vergonha sua e de todo o inferno, o dragão bateu em retirada, decidido a fazer crua guerra às demais almas da geração e descendência de Maria Santíssima. São os fiéis assinalados com o testemunho e Sangue de Cristo no Batismo, observantes dos seus mandamentos. Quando Lúcifer verificou que nada podia conseguir contra a cabeça da santa Igreja, Cristo Senhor Nosso e contra sua Mãe Santíssima, com maior intensidade voltou toda a sua ira, e seus demônios, contra os membros dessa Igreja. Com especial indignação combate as virgens de Cristo, e trabalha por destruir a virtude da castidade virginal, semente escolhida e herança da castíssima Virgem Mãe do Cordeiro. Para tudo isso diz que: Permaneceu o dragão sobre a areia do mar (v. 18) que é a inconstante vaidade deste mundo, da qual o dragão se sustenta, comendo-a como feno (Jó 40, 10).
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[1] Suposto – Cristo, Homem-Deus, que subsiste por si mesmo. (N. da T.)

sábado, 23 de julho de 2016

Comentários Eleison CDLXXI (471) - Academia Diagnosticada


Por Dom Richard Nelson Williamson
Tradução: Cristoph Klug
23 de julho de 2016


Se a Academia hoje carece de rima e razão
É porque os homens da Igreja cometeram traição.



Quando sua Excelência perguntou como estudante de História, se estava de acordo com o senhor em que a fenomenologia agnóstica condenada na Pascendi é a maior e única chave para entender a cena moderna, concordei brevemente. Logo me perguntei como os homens, especialmente os eruditos, puderam tomar seriamente a insensatez de que a mente não pode conhecer nada mais além dos fenômenos, ou aparências. E lembrei como, pelo fato de estar sentado em classes da Universidade pelos últimos três anos e meio e escutando cuidadosamente a alguns brilhantes professores que parecer ter senso da realidade, e a outros muitos que não, comecei e me perguntar por que alguns têm um grande senso de razão e outros com os mesmos ou semelhantes Títulos de Doutorado, têm adotado essas ideias selvagens e irracionais. Permita-me que lhe dê a resposta deste observador da cena acadêmica desde há muito tempo...

Depois de haver refletido um pouco, ocorreu-me que os professores mais lógicos eram católicos, porque eles podem ser conservadores no melhor dos casos, mas têm uma visão realista do mundo. As ideias e conceitos que ensinam são, em sua maioria, sensatas. Por outro lado, os ensinamentos da maioria dos professores são dúbios, confusos e insensatos. Eles professam ideias estranhas e bizarras e as respaldam com meias verdades. Adotam quase qualquer noção que esteja em moda como o Aquecimento Global ou Mudança Climática (a nova “Evolução”) e a mostram como verdade. Seu raciocínio por trás destas noções é insensatez pura e não resiste à menor análise. Comecei a me perguntar como podem estes homens eruditos serem tão ignorantes? Após muito pensar, cheguei à conclusão do que estou seguro de que seja a verdadeira resposta.

Dado que os professores que são mais sensatos são homens que ao menos se esforçam por ser católicos, parece razoável pensar que eles possuam algo que os pagãos não têm. Antes da revolta de Martim Lutero, a maioria dos acadêmicos ou homens eruditos eram católicos que usavam sua razão e possuíam senso comum, e por isso a maioria ensinou e creu na mesma verdade. Quando Lutero fez estragos na Igreja também fez estragos nos clérigos eruditos e professores universitários. Em particular, sua nova religião eliminou o Sacramento da Confirmação pelo qual sabemos que os católicos recebem os sete Dons do Espírito Santo, quatro dos quais são para a mente: Ciência, Sabedoria, Entendimento e Conselho. Todos os quatro agora estão ausentes nos agnósticos professores de hoje. Estes bem podem ser pessoas bem educadas, eruditas, mas não podem fazer uso de seu conhecimento de uma maneira razoável ou aplicá-lo à realidade. Como Pio X disse, eles desenvolvem fantasias e as mostram como verdadeiras e, mais ainda, convencem-se a si mesmos que eles são brilhantes quando de fato estão chafurdando em ignorância. Eles são o culto do 2+2=5! E orgulhosos dele.

Nesta teoria, a destruição atual da academia proviria do abandono por parte de Lutero do Sacramento da Confirmação e às universidades da Europa tornando-se cada vez menos católicas. Eventualmente foram desatados milhares de professores no mundo da academia, que foram educados além de sua habilidade para raciocinar. Carecendo de Sabedoria, Entendimento, Ciência e Conselho em seu sentido mais elevado como Dons de Deus, eles desenvolvem nas universidades a panóplia de erros de hoje ou “-ismos”. Por exemplo, afirmar que o Aquecimento Global destruirá o homem e o mundo é pura insensatez; mesmo assim é ensinado e crido nas universidades modernas como se fosse 2+2=4. E estas ideias venenosas são engolidas pela juventude ingênua nas Universidades como se fossem pão fresco, especialmente a ideia de que a Verdade é meramente o que cada um de nós acredita que é, e que se dane a Razão.

Então, acontece que quando o Vaticano II escolheu seguir os passos de Lutero ao abandonar a Tradição e ao “renovar” o sacramento da Confirmação de uma maneira tal para ameaçar sua validade, os Católicos também fizeram perigar os Dons do Espírito Santo e perderam correspondentemente a habilidade para raciocinar, porque a Confirmação da Neo-Igreja tem agora simplesmente por propósito torná-los “melhores Cristãos”.

Kyrie eleison.