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sábado, 12 de março de 2016

É verdade que a autodenominada 'Igreja Ortodoxa' não está 'tão' distante da Igreja Católica? - IV

O PRIMADO DE ROMA ESTABELECEU-SE SOBRE TODA A IGREJA, DESDE OS PRIMÓRDIOS

Por Leão Indômito

Essa primazia de Roma advém do fato de que seu primeiro Bispo foi São Pedro, sobre quem Jesus instituiu a sua Igreja. Isso consta claramente nos Evangelhos.

“Bem aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelaram isso, mas Deus que está nos céus. Por isso, Eu te digo que tu és Pedro, e que sobre essa pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E Eu te darei as chaves de Reino dos Céus. Tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desatares na terra será desatado nos céus” (Mt XVI, 16-19).

Essa promessa, feita pelo próprio Cristo, foi confirmada depois da Ressurreição de Nosso Senhor, ao dizer três vezes a Pedro: “Apascenta minhas ovelhas” (Jo XXI, 26)

Por sua vez, o que diz São João Crisóstomo — um Santo Bispo oriental — sobre esse texto?

"JESUS DISSE [A PEDRO]: ‘ALIMENTA AS MINHAS OVELHAS’. POR QUE JESUS NÃO LEVA EM CONTA OS DEMAIS APÓSTOLOS E FALA DO REBANHO SOMENTE A PEDRO? PORQUE ELE FOI ESCOLHIDO ENTRE OS APÓSTOLOS, ELE FOI A BOCA DE SEUS DISCÍPULOS, O LÍDER DO CORO. FOI POR ESSA RAZÃO QUE PAULO FOI PROCURAR A PEDRO ANTES QUE AOS DEMAIS. E TAMBÉM O SENHOR FEZ ISSO PARA DEMONSTRAR QUE ELE DEVIA TER CONFIANÇA, UMA VEZ QUE A NEGAÇÃO DE PEDRO HAVIA SIDO PERDOADA. JESUS LHE CONFIA O GOVERNO SOBRE SEUS IRMÃOS... SE ALGUÉM PERGUNTAR: ‘POR QUE ENTÃO FOI SANTIAGO QUEM RECEBEU A SÉ DE JERUSALÉM?’, EU LHE RESPONDERIA QUE PEDRO FOI CONSTITUÍDO MESTRE NÃO DE UMA SÉ, MAS DO MUNDO TODO” (Homilia 88 (87) in Joannem, I. Cf. Orígenes, “In epis. Ad Rom.”, 5, 10; Efrén de Siria “Humn. In B. Petr.”, en “Bibl.Orient. Assemani”, 1, 95; León I, “Sermo IV de Natale”, 2. Apud Enciclopédia Católica, verbete Primado, artigo de G. H. JOYCE).

Como se vê, São João Crisóstomo reconhecia Pedro como chefe da Igreja em todo o mundo. Ora, São João Crisóstomo é Doutor da Igreja, tendo vivido antes do Cisma do Oriente.

Por que, então, os autodenominados ‘ortodoxos’ se recusam a aceitar os ensinamentos desse grande santo e Doutor da Igreja do Oriente?

Desde o início da Igreja o Bispo de Roma era o Chefe da Igreja toda, exatamente com base no texto dos Evangelhos. Isso é um dado histórico inquestionável.

POR EXEMPLO, SÃO CLEMENTE, QUE FOI O TERCEIRO SUCESSOR DE SÃO PEDRO, DEPOIS DE SÃO LINO E DE SANTO ANACLETO NA SÉ DE ROMA, EM SUA “EPÍSTOLA AOS CORÍNTIOS” (EP. 59), NO ANO 95 OU 96 — AINDA, PORTANTO, NO SÉCULO I DA ERA CRISTÃ, POIS HAVIAM TRANSCORRIDO TRINTA ANOS APÓS O MARTÍRIO DE SÃO PEDRO —, ORDENA QUE SE RECEBAM OS BISPOS QUE HAVIAM SIDO EXPULSOS INJUSTAMENTE, DIZENDO: “SE ALGUM HOMEM DESOBEDECER ÀS PALAVRAS QUE DEUS PRONUNCIOU ATRAVÉS DE NÓS [PAPA], SAIBAM QUE ESSE TAL TERÁ COMETIDO UMA GRAVE TRANSGRESSÃO, E SE TERÁ POSTO EM GRAVE PERIGO”. MAIS: SÃO CLEMENTE INCITA ENTÃO OS CORÍNTIOS A “OBEDECER ÀS COISAS ESCRITAS POR NÓS ATRAVÉS DO ESPÍRITO SANTO” (SÃO CLEMENTE, EP.59).

ATÉ MESMO LIGHTFOOT, INIMIGO CONFESSO DO PAPADO, VIU-SE FOI OBRIGADO A RECONHECER CONFESSAR QUE ESSA CARTA DE SÃO CLEMENTE FOI “O PRIMEIRO PASSO PARA ESTABELECER A DOMINAÇÃO PAPAL” (CLEMENTE, 1, 70).
Por volta do ano 107, Santo Inácio de Antioquia — outro grande santo da Igreja do Oriente —, em carta à Igreja de Roma, diz que ela “preside à irmandade de amor".

Santo Irineu, discípulo de São Policarpo, Bispo de Esmirna depois de São João, em sua famosa obra “Adversus haereses” (III, 3, 2) argumenta contra os agnósticos, dizendo-lhes que suas doutrinas não têm base na tradição apostólica, a qual foi conservada fielmente pelas igrejas, com base na sucessão dos Doze Apóstolos:

“Porém como seria demasiado longo enumerar as sucessões em Roma pelos dois gloriosíssimos Apóstolos Pedro e Paulo, A QUAL DESDE OS APÓSTOLOS CONSERVA A TRADIÇÃO E A FÉ ANUNCIADA AOS HOMENS PELOS SUCESSORES DOS APÓSTOLOS QUE CHEGAM ATÉ NÓS. Assim confundimos a todos aqueles que de um modo ou de outro, ou para agradar-se a si mesmos, ou por cegueira, ou por uma falsa opinião, acumulam falsos conhecimentos. É NECESSÁRIO QUE QUALQUER IGREJA ESTEJA EM HARMONIA COM ESSA IGREJA, CUJA FUNDAÇÃO É A MAIS GARANTIDA — ME REFIRO A TODOS OS FIÉIS DE QUALQUER LUGAR — PORQUE NELA TODOS OS QUE SE ENCONTRAM EM TODAS AS PARTES CONSERVARAM A TRADIÇÃO APOSTÓLICA".

A afirmação mais explícita da supremacia de Roma foi feita por São Víctor (189-198), quando impôs às igrejas asiáticas que se conformassem ao costume do conjunto da Igreja, na questão da Páscoa.

Polícrates, de Éfeso, resistiu a isso, objetando que os costumes que seguia procediam do próprio São João. O Papa São Víctor o excomungou por isso. Depois, São Víctor, instado por Santo Irineu, tendo visto que sua insistência poderia provocar mais dano que bem, retirou a excomunhão. Contudo, QUER POR HAVER EXCOMUNGADO, QUER POR HAVER RETIRADO ESSA MESMA EXCOMUNHÃO QUE IMPUSERA, SÃO VICTOR DEIXA PATENTE A SUPREMACIA DA SÉ DE ROMA SOBRE TODAS AS DEMAIS DIOCESES DO MUNDO.

Abércio, Bispo de Hierópolis (por volta do ano 200), assim fala da Igreja Romana: “Ele [Cristo] me enviou a Roma a contemplar a majestade e para ver a uma rainha [Roma] coberta com um manto de ouro e calçada com sandálias de ouro”.

Tertuliano, no livro “De pudicitia” (por volta do ano 220), escrito quando já havia caído na heresia do montanismo, critica uma prerrogativa papal. Ele ataca duramente um decreto do Papa chamando-o de “edito peremptório”, promulgado pelo “SUPREMO PONTÍFICE, BISPO DOS BISPOS”. Ele pronunciou tais palavras sarcasticamente, mas, pelos termos que utiliza, indica claramente que já se tinha a autoridade do Papa como sendo superior à de todos os Bispos, embora Tertuliano, que aderira à heresia montanista, fosse insubmisso a Roma.

São Cipriano, que morreu no ano 258, chama explicitamente “CÁTEDRA DE SÃO PEDRO” DE SÉ ROMANA, dizendo que Cornélio fora elevado “ao lugar de Fabiano, que é a cátedra de Pedro” (Ep 55:8; cf. 59:14).

São Cipriano escreveu também que ROMA, “CÁTEDRA DE PEDRO, É A IGREJA PRINCIPAL DA QUAL NASCE A UNIDADE EPISCOPAL” (AD PETRI CATHEDRAM ET AD ECCLESIAM PRINCIPALEM UNDE UNITAS SACERDOTALIS EXORTA EST). Para São Cipriano, "a fonte dessa unidade episcopal é a Sé de Pedro”.

SEGUNDO ELE, ROMA DESEMPENHAVA O MESMO OFÍCIO QUE DESEMPENHOU PEDRO DURANTE SUA VIDA: SER PRINCÍPIO DA UNIDADE. POR ISSO, MANTER A COMUNHÃO COM UM ANTIPAPA, COMO ERA NOVACIANO, SERIA CAIR EM CISMA (EP. 68, 1).

ELE SUSTENTA AINDA QUE O PAPA TEM AUTORIDADE PARA DEPOR UM BISPO HEREGE. QUANDO MARCIANO DE ARLES CAIU NA HERESIA, CIPRIANO, A PEDIDO DOS BISPOS DESSA PROVÍNCIA, ESCREVEU AO PAPA ESTEVÃO PARA SOLICITAR QUE ELE “ESCREVESSE CARTAS PARA EXCOMUNGAR A MARCIANO E FAZER QUE ALGUÉM TOMASSE SEU LUGAR” (Ep. 68, 3). (Apud artigo de G. H. JOYCE sobre o primado do Papa na Enciclopédia Católica).

Eusébio de Cesaréia, em sua História Eclesiástica (7, 9) cita uma carta de São Dionísio dirigida ao Papa São Sixto II tratando de um batismo que considera inválido. NESSA CARTA, SÃO DIONÍSIO AFIRMA QUE NECESSITA RECORRER AO PAPA, PARA QUE ELE DECIDA.

Noutro caso, anos depois, o Papa atendendo a São Dionísio, afirmou isso, com toda a sua autoridade, a fim de deixar clara a verdadeira doutrina sobre o assunto. Ambos os casos ensinam como Roma era reconhecida como detentora do poder para falar com autoridade em assuntos doutrinários (cfr. San Atanasio, “De sententia Dionysii”, en P.G. XXV, 500).

O IMPERADOR AURELIANO, EM 270, DECRETOU QUE AQUELE QUE FOSSE RECONHECIDO PELOS BISPOS DA ITÁLIA, ASSIM COMO PELO BISPO DE ROMA, DEVERIA SER ACEITO COMO O LEGÍTIMO OCUPANTE DE UMA SÉ EPISCOPAL. ISSO MOSTRA COMO A PRIMAZIA DE ROMA ERA RECONHECIDA UNIVERSALMENTE, POIS ATÉ UM IMPERADOR PAGÃO SABIA DISSO.

Santo Atanásio apelou a Roma contra a decisão do Concilio de Tiro (335), que o destituíra de sua diocese. O Papa Júlio anulou as decisões desse Concílio, restituindo, Santo Atanásio como a Marcelo de Ancira.

as suas respectivas sedes episcopais. A esse propósito, o Papa São Júlio escreveu: “Se eles [Atanásio e Marcelo] realmente agiram mal, como dizem, o juízo deveria ter sido realizado de acordo com os cânones eclesiásticos, e não dessa maneira... NÃO SABE QUE O COSTUME É QUE PRIMEIRO NOS DIRIJAM CARTAS A NÓS (PLURAL MAJESTÁTICO) E DEPOIS PROCEDAM CONFORME SE DEFINA ENTÃO?” (Atanásio, “Apologia”, 35).

Conclusão: torna-se evidente que, muito antes do Cisma do Oriente, era comum a doutrina do Primado da Igreja de Roma sobre todas as dioceses do mundo.

Logo, a pretensão do Arcebispo de Constantinopla de gozar da primazia na Igreja do Oriente, ou a de equipar a sua autoridade à do Papa, é um absurdo doutrinário e histórico.

Constantinopla nunca teve um Apóstolo como Bispo, pois que não existia no tempo dos Apóstolos, tendo sido fundada por Constantino em 313.

[CONTINUA]

quarta-feira, 6 de maio de 2015

A Infalibilidade Papal - Pe. Júlio Maria Lombaerde

A infalibilidade do Papa e da Igreja católica manifesta-se por palavras expressas, indicando em termos claros e precisos, que o Papa, ao dar uma decisão, no-la dá, como Soberano Pontífice, gozando e usando neste momento da prerrogativa da infalibilidade, que lhe outorgou Jesus Cristo.

Para que uma decisão do Papa seja infalível, e obrigue a todo o católico, sob pena de heresia, são exigidas as três condições seguintes:

1. — Que o OBJETO desta decisão seja a fé, a moral ou a disciplina geral da Igreja

2. — Que esta decisão seja dada pelo Papa, não como Doutor privado, mas sim como Pastor e DOUTOR SUPREMO de todos os cristãos, sendo isto particularmente especificado.

3. — Que esta decisão seja dada pelo Papa, COMO OBRIGATÓRIA, para a Igreja universal.

Cumpridos estes três requisitos, diz-se que o Papa falou ex Cathedra, isto é, como estando sentado no trono de Pedro, definindo que uma doutrina sobre a fé e sobre a moral deve ser acreditada pela Igreja universal.

Eis a infalibilidade.

Ela não pertence propriamente À PESSOA do Papa, como tal, mas sim à sua FUNÇÃO, ou antes, ela é inerente a uma de suas funções, a de DOUTOR SUPREMO dos cristãos.

Para ser infalível, não é bastante ser Papa, nem exercer tal ou tal função do Papado: É mister exercer a função específica de falar ex Cathedra – super cathedram Petri, e falar à Igreja universal.

Há muitos Papas que nunca usaram deste privilégio, embora exercessem os outros misteres de chefe da Igreja. Não tiveram ocasião de exercê-lo.

Tais Papas possuíam a infalibilidade como prerrogativa, sem exercê-la, do mesmo modo que São Francisco de Assis possuía o poder de consagrar o Corpo e o Sangue do Salvador, embora a sua humildade o conservasse afastado do Altar, sem que jamais tenha celebrado a Santa Missa.

Quantos médicos, advogados, engenheiros, são formados na respectiva arte, sem exercer as funções desta arte! Possuem a prerrogativa, sem entretanto exercê-la.

Tudo o que faz um médico, não pertence à medicina; nem tudo o que um advogado faz, pertence à magistratura. Assim, tudo o que o Papa faz e diz não pertence à infalibilidade; são somente infalíveis aqueles ATOS DETERMINADOS, com os requisitos já mencionados.

Este ponto é importante e é necessário sublinhá-lo, pois é aí que está a fonte dos erros que correm a esse respeito e das confusões que reinam em certos espíritos a respeito deste dogma.

“O Papa não é infalível, nem como homem, nem como sábio, nem como sacerdote, nem como bispo, nem como príncipe temporal, nem como juiz, nem como legislador”, diz muito bem uma Instrução pastoral, altamente aprovada por Pio IX.

“O Papa não é infalível, nem impecável em sua vida, em seu comportamento, em suas visitas políticas, em suas relações com os príncipes, e nem sequer no governo da Igreja; mas ele o é única e exclusivamente quando, em sua qualidade de DOUTOR SUPREMO da Igreja, define assuntos de fé e de moral, decisões que devem ser aceitas e consideradas obrigatórias para todos os fiéis.

O cardeal Manning exprime-se do mesmo modo: Pelas palavras: ex Cathedra, acham-se excluídas da infalibilidade, diz ele, todos os atos do Pontífice como pessoa privada, ou como doutor particular, ou como bispo local, ou como soberano de um Estado.

Em todos estes atos o Papa está sujeito ao erro. Ele está isento de erro numa única circunstância, quando, como Doutor Supremo, ensina à Igreja universal, acerca da fé e da moral. (Hist. Conc. Vat.).

Podemos ir além, e restringir ainda mais a infalibilidade.

Eis um Papa assentado na Sé de S. Pedro, e que aí fala livremente ex Cathedra, à Igreja universal a respeito de um ponto de fé ou de moral. Tudo o que ele diz não é, por isso, infalível.

Até nos decretos ou bulas dogmáticas, diz um teólogo secretário geral do Concílio do Vaticano I (Dom Fessler) não se deve considerar tudo indistintamente como decisão dogmática, e, por conseguinte, como objeto da infalibilidade.

Em particular, não se deve considerar como infalível, o que é apenas mencionado de passagem, ou o que serve de introdução ou de consideração.

Todos os teólogos estão de acordo a esse respeito (Melchior Cano: De locis theol.).

A única coisa infalível no Papa é o DOUTOR SUPREMO da Igreja universal, acerca de fé e de moral.

Tudo o que contém uma bula dogmática não é, pois, infalível.

As considerações, os diversos argumentos que preparam o espírito estão excluídos, ficando o ATO DE FÉ reservado às palavras próprias da definição: palavras claras, precisas, muito solenes, pelas quais o Papa afirma que tal ou tal verdade é revelada por Deus, e que deve ser aceita, sob pena de anátema ou exclusão da Igreja.

Os termos das definições dogmáticas são os seguintes: Eis porque, apoiando-nos fielmente sobre a tradição que remonta até ao começo da fé cristã, para a glória de Deus nosso Salvador e a salvação dos povos cristãos, nós ensinamos e definimos que é um dogma devidamente revelado: a saber: ... Docemus et divinitus revelatum dogma esse definimus:

Aplicando estes termos à própria definição da infalibilidade, temos a seguinte declaração de fé:

“Que o Pontífice romano, quando fala ex Cathedra, isto é, quando preenchendo o cargo de Pastor e Doutor de todos os cristãos, em virtude de sua autoridade apostólica, define que uma doutrina sobre a fé ou a moral deve ser acreditada pela Igreja universal, goza plenamente, pela assistência divina, que lhe fora prometida na pessoa do Bem-aventurado Pedro, desta infalibilidade de que o divino Redentor quis dotar a sua Igreja, definindo a respeito da fé ou moral; e que, por conseguinte, tais definições do Pontífice Romano são irreformáveis por si mesmas, e não em virtude do consentimento da Igreja.

Se alguém, que Deus não o permita, tivesse a temeridade de contradizer a nossa definição, seja ele anátema.”


Eis um ato emanando do Doutor Supremo, sobre um ponto determinado da doutrina católica: tal ato é, pois, uma sentença da infalibilidade.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O Primado de Pedro [I]: São Leão Magno [440-461]

"O Salvador do gênero humano, Jesus Cristo, lançando os fundamentos daquela fé que converte os ímpios à justiça e restitui os mortos à vida, formava seus discípulos por doutrina e milagres a fim de crerem que o mesmo Cristo é o Unigênito de Deus e Filho do homem. Isolar um do outro não seria proveitoso para a salvação. Perigo igual seria acreditar que o Senhor era só Deus e não homem, ou apenas homem e não Deus. Era preciso confessar ambas as verdades: como em Deus havia verdadeira natureza humana, unia-se à natureza humana a verdadeira divindade.

O Senhor, com a finalidade de confirmar o salutífero conhecimento desta verdade de fé, havia interrogado os seus discípulos, o que acreditavam, o que pensavam dele, em meio das mais diversas opiniões dos demais. O apóstolo Pedro, por revelação do Pai supremo, supera o corpóreo e vai além do humano. Vê com os olhos do espírito o Filho de Deus vivo, confessa a glória da divindade, porque não se detém na substância da carne e do sangue. A sublimidade desa fé agradou tanto ao Senhor que ele o chamou feliz e bem-aventurado e outorgou-lhe a sagrada firmeza da pedra inconcussa, sobre a qual seria fundada a Igreja e contra a qual não prevaleceriam as portas do inferno, nem as leis da morte. Além disso, para ligar ou desligar qualquer causa, não seria ratificado nos céus senão o que sentenciasse Pedro."


São Leão Magno, Papa. Sermões, LI Sermão, "Sermão sobre a transfiguração do Senhor", Paulus, 2005.