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domingo, 18 de outubro de 2015

C. Auguste Dupin, Sherlock Holmes e Padre Brown - Gustavo Coração

Lembro-me do prazer há tantos anos encontrado na leitura de Conan Doyle, mas sondando a memória eu verifico que não me ficaram as sagacidades do policial. O que me ficou foi Baker Street. Foi qualquer coisa que começaria assim: "Numa tarde chuvosa de novembro, Holmes e eu...". E o resto me aparece ligado à seiva de vida dos meus dez anos: a sala obscura, o Dr. Watson mexendo na lareira, e Holmes, de pernas estendidas, sonhador, acompanhando as ilógicas volutas do cachimbo. Lá fora, neva. De repente, depois de um sinal de campainha, a porta se abre e assoma no limiar um desconhecido de meia-idade e cabelos cor de fogo!... Do mais eu não me lembro, mas basta-me essa porta que se abre e esse desconhecido de cabelos cor de fogo, para que eu encontre um pouco da força perdida de minha distante meninice. Chesterton assinalou que o maravilhoso é tanto mais simples quanto menos a idade. Aos quatro anos, por exemplo, bastaria ouvir "a porta se abriu"... para sentir a presença do maravilhoso, mesmo sem o estranho personagem ruivo.

Os contos policiais de Poe e de seus discípulos, eram rigorosamente arquitetados sobre a lógica do crime por sua vez desvendado pela lógica dos motivos. Dupin e Sherlock deduziam passos de homem como um geômetra deduz propriedades de triângulos. E por isso eu tenho a certeza de que falhariam lamentavelmente se fossem arrancados do papel e postos diante do mais banal assassinato.

A superioridade do Padre Brown não consiste, a bem dizer, na falta de lógica. Ele raciocina como qualquer pessoa medianamente sagaz, mas a força de seu gênio está num outro conhecimento: ele conhece o mal. Conhece-o como um mistério, e como uma herança. Antes de perseguir ladrões e assassinos cá fora, já os perseguira nas almas dos penitentes, e na sua própria, Tinha a experiência da santidade, que é a única experiência frutuosa do mal; e tanto deslindava o crime como levava, às vezes, o criminoso a se arrepender e a pedir-lhe a absolvição dos pecados, o que aliás produzia nos outros personagens os mais vivos acessos de incredulidade. Aceitavam a sagacidade do padre, mas não podiam crer no arrependimento do ladrão, para o qual, efetivamente, não existe explicação cabal.

A força do Padre Brown está no bom-senso e no olhar poético e místico com que vê o mundo. Está até numa certa dose de distração e sonolência com que se alivia do penoso trabalho de catar pontas de cigarro e impressões digitais. Diante dos dados concretos, candidamente apreendidos, interpretados muitas vezes ao pé da letra, ele se encontra em simpatia com o criminoso, e inventa poeticamente, ou recorda misticamente, como praticaria ele o crime.

O leitor que ainda não conheça as façanhas do Padre Brown estará nesse momento, eu receio, pensando que são novelas carregadas de tese e ostentadoras de uma ideia fixa. Mas não é isso. A constância de uma ideia não forma uma tese nem merece o nome de ideia fixa. Há certas constâncias que são essenciais a qualquer novela, e uma ideia verdadeira é justamente o que melhor se dissolve, deixando de ser uma ideia. Por mais variadas que sejam as situações dos personagens são necessárias certas constâncias, sem as quais não haveria novela. Deve haver por exemplo, entre os mais diversos personagens, uma profunda semelhança no modo de andar, falar e assoar o nariz. Se tentarmos introduzir uma nota original e inteiramente nova nessas atitudes os personagens deixarão de ser isso que entendemos por homem, mulher e criança.

O que eu queri dizer, é que a ideia que Chesterton tem do mistério do homem é análoga à ideia que ele tem do nariz e das pernas do homem. Por isso suas novela não cheiram à tese mas guardam a profunda constância pela qual se descobre a semelhança entre o padre e o ladrão. São cúmplices. Há entre eles uma comunhão.. pertencem à mesma quadrilha, e moram ambos na ampla e feérica caverna onde se partilham o lucro da rapinagem e o prêmio da santidade.

Gustavo Corção. Três Alqueires e Uma Vaca. Parte III: Para não ser doido... "O Crime".

domingo, 31 de maio de 2015

Comentários Eleison CDXI (411) - Fim de Semana com Eliot

Por Dom Richard Williamson
Tradução: Andrea Patrícia (blogue Borboletas ao Luar)

30 de maio de 2015

FIM DE SEMANA COM ELIOT


Católicos, que suas mentes não sejam tão limitadas.
Fora do redil de Nosso Senhor há ovelhas que são por Ele lideradas.


O ciclo de palestras de fim de semana que houve aqui em Broadstairs no início de maio sobre poemas e peças do famoso poeta moderno T. S. Eliot (1888-1965), foi um grande sucesso. Eliot é um escritor difícil de entender, porque ele insistiu em dar sentido ao mundo moderno sem sentido; mas as seis palestras do Dr. David White (em 36 horas!) inspiraram em seus mais de duas dúzias de ouvintes católicos um real interesse em Eliot, a quem escolheu como tema de seu evento literário por ter escrito parte de seu mais famoso poema, a Terra Desolada, nas proximidades de Margate. Um ponto alto do evento foi uma excursão ao pavilhão na beira-mar onde Eliot escreveu essa parte, e onde o Dr. White recitou a Terra Desolada para os participantes do evento sob o azul do céu, diante do mar cinza – a atmosfera estava perfeita!

Muitos católicos rejeitam escritores que não são abertamente católicos, por mais famosos que sejam. Mas em meados dos anos vinte, logo depois de escrever a Terra Desolada, Eliot esteve perto de se tornar católico, e desde então, até sua morte, a solução que ele apresentou em seus escritos para os problemas do mundo moderno é centrada em Nosso Senhor Jesus Cristo. Isso pode não ser óbvio à primeira vista, seja porque ele estava escrevendo para cristãos mornos, ou porque ele mesmo ainda estava a lutar contra a modernidade; mas deixemos que sua verdadeira crença em Cristo seja ilustrada por um poema de seus Quatro Quartetos – selecionado pelo Dr. White para explicação –, a seção IV do quarto quarteto, Little Gidding


1. A pomba mergulhando rasga o espaço
2. Com flama de terror esbraseado
3. Cujas línguas arrojam sem cessar
4. Um jorro apenas de erro e de pecado.
5. Toda esperança, ou mais desesperar,
6. Está na escolha de uma ou de outra pira
7. – Para que o fogo pelo fogo nos redima.
8. Quem, pois, urdia tanto suplício? Amor.
9. Amor é Nome de furtiva chama
10. Sob as mãos que teceram com rancor
11. A intolerável túnica de flama
12. A que poder algum se pode opor.
13. Apenas suspiramos, ainda vivos,
14. Por esse ou outro fogo consumidos.
(N.T.: Tradução de Ivan Junqueira)


Durante a Segunda Guerra Mundial, Eliot vivia em Londres, e à noite ele agia como um Guardião de Ataques Aéreos, patrulhando as ruas para minimizar o perigo ou os danos dos ataques aéreos alemães. O primeiro dos dois versos do poema é como aquelas figuras duplas de plástico que contêm duas imagens, dependendo de como você inclina o plástico. O segundo verso deduz da figura dupla sua tremenda lição.

Assim 1) a “pomba mergulhando” é tanto o Espírito Santo descendo em Pentecoste como os bombardeiros inimigos avançando sobre Londres. 2) A “flama de terror” é tanto o fogo do Espírito Santo como as bombas incendiárias do inimigo. 3) As “línguas” são tanto aquelas do Espírito Santo que caíram sobre os Apóstolos, como aquelas das bombas incendiárias, enquanto 4) os “jorros” são tanto a Redenção por Cristo como o lançamento de bombas pelos políticos humanos. 5) A primeira parte diz respeito à nossa única esperança; a segunda, à desesperança da guerra. Em qual pira funeral nós escolhemos nos queimar? 7) O fogo da Redenção é para nos salvar do fogo da condenação.

Segundo verso: 8) é Deus quem designa as Guerras Mundiais para nos salvar do fogo eterno. 9) Ele não é bem conhecido, mas é 10) Seu Amor que está permitindo que os políticos causem 11) os tormentos da guerra, 12) que são redimíveis apenas por Cristo. 13) E para concluir, a vida humana termina apenas 14) no fogo, seja o do Amor divino, ou o da condenação eterna.

A Terceira Guerra Mundial se aproxima. Quando ela chegar, quantos pregadores católicos se atreverão a pregar que é o Amor divino que estará por trás de seus espantosos sofrimentos, que é o mínimo necessário para nos pôr de volta, por desígnio de Deus, no caminho do Céu? O não católico Eliot estava a dizê-lo há 70 anos.



Kyrie eleison.