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sábado, 2 de junho de 2018

Voz de Fátima, Voz de Deus - Nº 61

Mosteiro da Santa Cruz
02 de junho de 2018


“Vox túrturis audita est in terra nostra”     

(Cant. II, 12)



      No artigo passado faltou-nos fazer um comentário sobre o novo Magistério. Este não é o Magistério da Santa Igreja, ainda que tenha coisas verdadeiras, mas misturadas com falsas. Assim, as diversas doutrinas dos diversos hereges são falsas, ainda que tenham coisas verdadeiras, pois estas estão misturadas com falsas. Isso assim é porque o bem vem de uma causa íntegra e o mal vem de qualquer defeito. Ou seja, um só defeito torna algo defeituoso; e para algo ser perfeito é preciso estar totalmente sem defeito.

      Conclusão: submeter-se ao Catecismo tradicional, ao Magistério tradicional, ao Código de Direito Canônico anterior ao novo, aos Sacramentos tradicionais, à Missa de sempre, é submeter-se à Santa Igreja e à hierarquia da Santa Igreja, é submeter-se ao Papa e ao episcopado católicos. Pois quando, por uma imperscrutável permissão divina, ocorre de o Papa e os bispos pertencerem a uma seita (ainda que verdadeiro Papa e verdadeiros bispos, que ocupam verdadeiros postos na hierarquia católica), eles passam a não ser mais referência para os católicos, os quais devem referir-se aos Papas anteriores a essa situação anormal, e aos bispos que ainda hoje se opõem a essa situação.

      O que está ocorrendo atualmente na Igreja é dramático. Nossa atitude pode ser mesmo apavorante para alguém que não mediu a profundidade do problema. Mas é um fato. As coisas são o que são, e não podemos “tapar o sol com a peneira”. Queira Deus que Ele continue a ter misericórdia de nós, mostrando às pessoas, como têm feito frequentemente, quão verdadeiro é o nosso modo de encarar essa fase da história da Igreja, pela qual passamos. Que Maria Santíssima não nos abandone e nos faça perseverar na fidelidade à Igreja de Seu Divino Filho.



Arsenius



U.I.O.G.D

sábado, 19 de maio de 2018

Voz de Fátima, Voz de Deus - Nº 60

Mosteiro da Santa Cruz
19 de maio de 2018


“Vox túrturis audita est in terra nostra”     

(Cant. II, 12)






Perdoem-me os leitores pela falha que cometemos em nosso número anterior, pois, vendo que o texto estava ultrapassando o espaço conveniente para a edição, resolvemos transferir o último parágrafo (aliás incompleto) para o número seguinte (este, no caso), mas esquecemos de apagá-lo no número anterior, o que resultou em um texto parcialmente incompreensível. Mas neste número retomamos, desde o começo, o parágrafo interrompido e o prosseguimos.

No decurso dos séculos, Deus permitiu as heresias; e um grande bem que Ele tirou desse mal foi a explicitação da doutrina já crida na Igreja. Creio que, semelhantemente, podemos aplicar isso à realidade da “Igreja Conciliar”. Dom Lefebvre e Corção afirmaram a real existência de uma “igreja parasita”, sem descer a detalhes sobre no quê ela consistia. Depois, procurou-se explicar essa realidade com comparações: moedas, câncer, “amante” etc.. Mas, como “toda comparação claudica”, fazia-se mister uma explicação mais precisa. Julgo haver sido encontrada na exposição feita em um artigo da revista Le Sel de la Terre (revista, aliás, que aconselho nossos leitores a assinar), cujo autor cuidou em não se identificar (provavelmente para não ser “punido”) e que parece haver encontrado o verdadeiro significado dessa Igreja Conciliar: é uma seita, uma reunião de pessoas que têm uma doutrina “religiosa” diferente da da Santa Igreja, organizada, com a finalidade de “reformar” essa mesma Santa Igreja por dentro, sem sair dela, tomando os seus postos de comando.

Então, essa “igreja” se encontra dentro da Igreja Católica, mas é distinta dela. E os membros dessa seita, tendo nas mãos os postos de comando da Santa Igreja, impõem a sua “organização eclesial”, para os católicos se submeterem a ela. Daí vêm a Nova Missa, o novo Catecismo, o novo Magistério, o novo Código de Direito Canônico, os novos Sacramentos… Não foi a Santa Igreja que decretou a Nova Missa, não foi a Santa Igreja que decretou o novo Catecismo, não foi a Santa Igreja que decretou o novo Código de Direito Canônico, não foi a Santa Igreja que decretou os novos Sacramentos. Foi um homem que ocupa o mais alto grau da hierarquia católica, mas que pertence à dita seita ao mesmo tempo que pertence ao corpo da Santa Igreja, pois é batizado, e talvez até mesmo pertença à alma da Igreja (só Deus o sabe), pois o modernismo estraga de tal modo as cabeças, que é possível haver verdadeira Fé (interior) junto com erros doutrinais.

Ainda não terminamos o nosso assunto. Em um próximo número, se Deus quiser, o concluiremos.




Arsenius



U.I.O.G.D

sábado, 12 de maio de 2018

Voz de Fátima, Voz de Deus - Nº 59

Mosteiro da Santa Cruz
12 de maio de 2018


“Vox túrturis audita est in terra nostra”     

(Cant. II, 12)




      A Igreja Católica é Una. Essa unidade é requerida porque a verdade se opõe à falsidade. Uma diferença (de culto, por exemplo, entre os orientais) que não inclui uma falsidade não requer uma diversidade de igrejas.

      A Igreja (com maiúscula) é a Igreja Católica. Ela é a Igreja, por antonomásia. É o protótipo, aquela em que se realiza plenamente o significado dessa palavra (a qual vem do latim ecclesia, que quer dizer reunião, com motivo religioso, organizada, com finalidade religiosa). É a reunião por excelência: a melhor de todas e que todas devem considerar como modelo. Assim, por exemplo,  acontece com a palavra bíblia (que quer dizer: o livro): isso não porque os outros livros não sejam livros, mas porque a Bíblia é o livro por excelência.

      O mesmo não se pode dizer da palavra religião, a qual só se aplica verdadeiramente ao Catolicismo, pois ela significa religar, ligar novamente o que estava separado; e o que se trata aqui é de religar o homem com Deus, os quais haviam sido separados pelo pecado, tanto o de Adão como os nossos. Ora, só a Igreja fundada pelo mesmo Deus é depositária do Sacrifício Redentor que realizou a obrar de reunir o que havia sido separado. Portanto, é um uso indevido aplicar às outras “igrejas” o nome de religião, pois não religam nada.

      Diante do que foi dito, vamos considerar a expressão “Igreja Conciliar”. Ela foi empregada pelo Cardeal Beneli. Dom Lefebvre, já em 1976, havia denunciado a existência de uma outra “igreja” no seio da Santa Igreja. Afirmação, portanto, não causada por uma emoção passageira por ocasião das sagrações episcopais de 1988 (como, parece, está-se pensando entre aqueles que, na “Tradição”, não querem acreditar na existência dessa outra “igreja”, pois agora eles têm em vista um “acordo” ou “entendimento” ou “reconhecimento” ou “oficialização” ou qualquer outro nome que queiram dar à mesma realidade). De seu lado, também Gustavo Corção já falava na “outra”, referindo-se à mesma infiltrada “igreja”.

      Em um próximo artigo pretendo dar continuidade a esse assunto.



Arsenius



U.I.O.G.D

sábado, 21 de abril de 2018

Voz de Fátima, Voz de Deus - Nº 58

Mosteiro da Santa Cruz
21 de abril de 2018

“Vox túrturis audita est in terra nostra”     

(Cant. II, 12)





Ainda sobre o mesmo assunto da Igreja.

Como vimos, a Santa Igreja tem um corpo e uma alma. Em que consiste o seu corpo? No culto (parte externa dos Sacramentos, da Santa Missa etc.), no governo (postos hierárquicos), no ensino, nas pessoas batizadas. E em que consiste sua alma? São as virtudes sobrenaturais (teologais e morais), os dons do Espírito Santo, o depósito das verdades reveladas (morais e dogmáticas), as graças santificante e atuais, que nos vêm ordinariamente pelos Sacramentos.

A Igreja Católica é Santa. É um erro dizer que ela é santa e pecadora. No entanto, é um fato que muitos de seus membros são pecadores. Portanto, o que inalienavelmente é santo é a alma da Igreja, onde não há ruga nem mancha. Assim como, por sinédoque, chamamos os homens de almas (“nesta paróquia há tantas almas”), dando ao todo o nome da parte principal. A alma da Igreja é o que há de principal na Igreja e na qual não pode haver pecado nem erro algum. Na medida em que o corpo da Igreja está em conformidade com a santidade de sua alma, ele, o corpo, é santo. Se o que é realizado nesse corpo é conduzido, ordenado, direcionado por sua alma, de acordo com sua doutrina dogmática (inteligência) e moral (vontade), isso é católico e divino, caso contrário, é humano e falível.

Demos um exemplo à guisa de comparação: se um sonâmbulo pular de um lugar alto e morrer com a queda, não se lhe pode imputar esse ato como um suicídio, porque a pessoa que age no sono age sem o uso da razão (inteligência e vontade) e, portanto, sem culpa, podendo-se dizer que não foi a pessoa que agiu: foi o seu corpo sem estar sob o império da alma (cujas duas potências são a inteligência e a vontade)

Deve-se observar que entre os pecados que podem haver nos membros do corpo da Igreja, encontra-se a heresia: pecado contra a Fé. Esse pecado, nos bons tempos, levava à exclusão desse membro, por um decreto da hierarquia; mas enquanto esse decreto não é feito, o dito membro continua a ser membro da Igreja (membro morto se a heresia é formal, membro vivo se a heresia é somente material).



Arsenius



U.I.O.G.D

domingo, 5 de junho de 2016

Comentários Eleison CDLXIV (464) - Igreja Abandonada?


Por Dom Richard Williamson
Tradução: Cristoph Klug
Tradução do Salmo: Pe. Matos Soares, Antigo Testamento, 1944.

04 de junho de 2016

Em circunstâncias de massiva desesperação
O Salmista ensina confiança em Deus e oração.

Como dia após dia o caos aumenta em quase tudo e em todos ao nosso redor, e dentro da Igreja parece como se todos estivessem contra todos, certamente é tranquilizador saber que o Salmista de talvez 3000 anos atrás clamou a Deus para que viesse em auxílio de Seu povo, em sofrimento similar por seus inimigos. Então, como agora, eles se levantaram em seu orgulho contra Ele, seu orgulho “ascende continuamente”, eles têm feito todo o possível para destruir Seu Templo e Sua Religião, e Ele parece ter-lhes outorgado muito êxito. Eis aqui o Salmo 73 (74), com pequenas notas entre parêntesis: —

A. Como Deus pode estar permitindo o triunfo de Seus inimigos contra Sua própria Igreja?

[1] Por que razão, ó Deus, nos desamparaste para sempre? (Por que razão) se acendeu o teu furor contra as ovelhas do teu pasto? [2] Lembra-te da tua família (Igreja católica), que possuíste desde o princípio. Tu recuperaste o cetro da tua herança; o monte de Sião (Igreja católica), em que habitaste. [3] Levanta as tuas mãos contra a sua soberba (inimigos de Deus) sem limites. Quantas maldades cometeu o inimigo no santuário! [4] E os que te odeiam, gloriam-se (de te insultar) no meio da tua solenidade. Hastearam os seus estandartes como troféus; [5] e não respeitaram (a santidade de Deus) nem as eminências nem as saídas (portas e cimo do Templo). Como num bosque de árvores com machados [6] despedaçaram à porfia as suas portas; com machado e martelo (Vaticano II) tudo derribaram. [7] Puseram fogo ao teu santuário; na terra profanaram o tabernáculo do teu nome (Igreja católica). [8] Disseram no seu coração com os das suas parentelas: Façamos cessar na terra todos os dias de festas consagrados a Deus (liturgia católica). [9] Não vemos mais os nossos estandartes; já não há um profeta (que nos guie); e (Deus) não nos conhecerá daqui em diante (Deus renunciou. Estamos por nossa conta). [10] Até quando, ó Deus, nos insultará o inimigo? O adversário há de blasfemar sempre? [11] Por quê retrais a tua mão? Por quê não tiras a tua direita do teu seio de uma vez por todas?

B. Porém Deus é o Mestre da salvação, da História e da Natureza.

[12] Mas Deus, que é nosso rei antes dos séculos, operou no meio da terra. [13] Tu com o teu poder deste solidez ao mar (Mar Vermelho), pisaste as cabeças dos dragões nas águas (Egípcios); [14] Tu quebraste as cabeças do dragão (Rei Egípcio); deste-o por comida aos povos da Etiópia. [15] Tu fizeste brotar fontes e torrentes; tu secaste os rios de Etã (de forte corrente; por exemplo Js III). [16] Teu é o dia, e tua é a noite; tu criaste a aurora e o sol. [17] Tu estabeleceste todos os limites da terra; o estio e a primavera tu os formaste.

C. Ó Deus, não esqueças a teu próprio povo humilde e esmaga a teus orgulhosos inimigos.

[18] Lembra-te disto: o inimigo ultrajou o Senhor, e um povo insensato blasfemou do teu nome. [19] Não entregues às feras as almas que te louvam, e não esqueças para sempre as almas dos teus pobres. [20] Olha para a tua aliança (Novo Testamento), porque todos os lugares obscuros do país estão cheios de antros de iniquidade; [21] Não se volte confundido o humilde; o pobre e o desvalido louvarão o teu nome. [22] Levanta-te, ó Deus, julga a tua causa; lembra-te dos ultrajes feitos contra ti, dos ultrajes com que um povo néscio te injuria continuamente. [23] Não te esqueças dos clamores dos teus inimigos. A soberba daqueles que te aborrecem aumenta continuamente.



Kyrie eleison.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Excerto do sermão do Rev. Pe. René Trincado, do XII Domingo após Pentecostes

11 de agosto de 2013


Permitam-me aqui um parêntesis. Cuidado com o qualificativo de “modernistas”. Não olhemos com desdém ao restante dos católicos, aos que chamamos secamente de modernistas, pois, em sua imensa maioria, são vítimas dos salteadores que os despojam da verdadeira fé. Cuidado, porque esses, muitas vezes, muitíssimas, são isso: vítimas, não vitimadores. Não são os assaltantes da parábola, senão o homem assaltado. Pensemos, por exemplo, no imenso bem espiritual que, em sua grande simplicidade, com suas fervorosas orações fazem essas anciãs “modernistas”, verdadeiras devotas do Rosário, assíduas nas paróquias; pensemos nessas monjas “modernistas” de clausura que, apesar da Missa Nova e das más pregações, vivem inteiramente crucificadas por causa de sua caridade ardentíssima. Pensemos nesses sacerdotes e leigos que se esforçam sinceramente para alcançar a santidade, apesar de ter de respirar cada dia a fumaça liberal que entrou no templo através do buraco escavado desde dentro por uma hierarquia de traidores. Cuidado com o desprezo pelo próximo: não nos vá a suceder que estejamos fazendo às vezes a oração do fariseu: graças te dou, Senhor, porque não sou como os demais homens, nem como esses estúpidos e ignorantes modernistas das paróquias. Cuidado: pior que ser herege material modernista é ser um orgulhoso tradicionalista, porque Deus resiste aos soberbos e dá sua graça aos humildes (1Pd V, 5). Cuidado com a soberba. O orgulho farisaico é a grande tentação dos tradicionalistas. Os fariseus foram os descendentes dos assideus, esses mártires e heróis tradicionalistas que combateram às ordens dos Macabeus. Cuidado com a soberba. A esses que parecem viver de diatribes e discussões, teríamos de lhes perguntar o que é mais importante: se ter razão ou ter caridade. Se os tradicionalistas temos a verdade, é por um presente, uma graça de Deus. Mas a luz da fé verdadeira é para iluminar os homens em ordem à salvação eterna, não para querer deslumbrá-los fazendo gabo de conhecimentos, nem para esmagá-los.


Estimados fiéis: Deus nos faça caridosos e humildes. Certamente, os tradicionalistas devemos ser o bom samaritano especialmente para com todas as pobres ovelhas assaltadas e feridas por esses ministros do diabo que lhes dão a beber o veneno liberal e modernista. Estes últimos se comportam como os ladrões da parábola, de modo muito mais criminoso que o Sacerdote e o levita, que pecaram somente por omissão. Estes ladrões são a Hierarquia liberal que objetivamente despoja e assassina às almas desde essa verdadeira emboscada que foi o Vaticano II. Com estes envenenadores de almas não cabe buscar cooperação nem concórdia alguma, nem menos aceitar a possibilidade de se submeter um dia ao seu poder destruidor. Se o samaritano houvesse pretendido pôr-se às ordens dos ladrões, não teria feito com isso um ato de caridade, senão a maior insensatez imaginável. E teria terminado roubando o assaltado e o deixado mais ferido também. A primeira caridade é a verdade. No caso dos tradicionalistas, a primeira caridade está em conservar a salvo o alimento saudável das almas, o tesouro divino da fé católica, a Verdade, essa Verdade que um dia voltará a resplandecer na Igreja porque as portas do inferno não prevalecerão (Mt XVI, 18).


Que pela intercessão da Santíssima Virgem, Deus nos conceda a humilde caridade fraterna.


Rev. Pe. René Trincado
Sociedade dos Apóstolos de Jesus e Maria (SAJM)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Da seita neomodernista que ocupa a Igreja Católica


Cinquenta anos depois do Concílio Vaticano II e da reação do movimento tradicionalista na subsequente crise da Igreja, podem-se distinguir três tendências divergentes sobre a relação a ter entre a Igreja Católica e a Igreja oficial. Quer dizer, entre o corpo místico de Nosso Senhor Jesus Cristo e os clérigos e fiéis unidos à hierarquia e às reformas pós-conciliares.

Para uns, são duas igrejas substancialmente distintas, absolutamente separadas, e não se pode pertencer às duas ao mesmo tempo. Estas duas igrejas tem uma fé diferente, ritos diferentes, uma legislação diferente. A lógica os leva também a já não rezar publicamente pelo papa atualmente reinante, porque ele é papa de outra Igreja, que não é – ou já não é – católica.

Para outros, ao contrário, a Igreja oficial, hierárquica, romana, conciliar não é uma Igreja à parte, mas sim a Igreja Católica real, una, a verdadeira, a visível, a Igreja de hoje, e é inadmissível fazer uma distinção real entre a Igreja conciliar, oficial, e a Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo. A lógica levará também a procurar a pertença oficial, visivelmente, canonicamente, a esta hierarquia, para bem assegurar a pertença à única Igreja, católica e apostólica.

Estas duas concepções, durante já cerca de meio século de debates entre tradicionalistas, dividiu-os e levou-os a formar duas pontas extremas, conhecidas comumente por “sedevacantistas” e “acordistas”. Nossa análise pode parecer sumária, mas a experiência o tem provado: quando um tradicionalista, clérigo ou leigo, já não faz a distinção entre a Igreja oficial e a Igreja católica, ele acaba um dia ou outro se colocando a serviço da primeira, e assim abandona o combate da fé exigido pela segunda nestes tempos de clara e geral apostasia.

Na verdade, o problema é mal colocado, e permanece um dilema entre dois termos de uma alternativa. Pois há uma distinção a fazer entre a Igreja oficial e a Igreja Católica, e ela foi feita por todos os nossos antigos combatentes da fé depois do concílio. Basta que refresquemos a memória e nos lembremos de fórmulas bem conhecidas: “A Igreja ocupada”, “Roma ocupada”.

A Igreja conciliar e neomodernista não é portanto nem uma Igreja substancialmente diferente da Igreja Católica nem absolutamente idêntica; ela tem misteriosamente algo de um e de outra: é um corpo estranho que ocupa a Igreja Católica. É preciso distingui-las sem separá-las.

Precisemos bem: um “corpo”, e não uma “doença”, uma “tendência”, um “espírito”, uma “concepção falsa” como se procura demonstrar no DICI n°273, recusando em princípio considerar a Igreja conciliar como uma “sociedade distinta de outra” (p. 8). Esta negação poderia, rigorosamente, ser admitida no sentido definido acima, de uma sociedade absolutamente, substancialmente diferente da Igreja Católica. Mas ela nos parece perigosa, em seu sentido óbvio, e, em todo caso, contrária à doutrina de São Pio X, que qualifica os modernistas de associação secreta (cladestinum foedus; Motu proprio de 1 de setembro de 1910) que se oculta no seio mesmo e no coração da Igreja (sinu gremioque Ecclesiae; Pascendi, 1907).

O que o magistério ensina originalmente como modernismo, nossos antigos o chamaram em termos enérgicos de sujeito do neomodernismo, qualificando suas hierarquias de “seita”; e não se vê em que o princípio tenha mudado hoje em dia... Que se nos permita, mesmo se este debate desagrade hoje em dia a alguns na Tradição, trazer à memória algumas citações lapidares:

Dom Lefebvre: Isso é uma seita que se apossou de Roma, se apossou da alavanca de comando da Igreja” (Conferência em Flavigny, dezembro 1988, Fideliter n° 68, p. 10).

Padre Tissier de Mallerais: “[...] nas circunstâncias de uma Igreja ocupada pela seita progressista [...]” (Fideliter n° 53, p. 38, set-out 1986).

Padre Calmel: “[...] organizações ocultas de uma falsa Igreja, de uma Igreja aparente” (Itinéraires n° 123, p. 174, maio 1968); “Igreja aparente no seio mesmo da Igreja verdadeira” [...]” (Itinéraires n° 106, p. 178, set. 1966).

Padre Marcille: “[...] a seita no poder na Igreja [...] a seita conciliar a favor do poder que ela ocupa [...]” (Fideliter n° 96, pp. 67 e 71, nov-dez 1993).

Marcel de Corte: “É a parte que se erige para tudo, a seita que se erige na Igreja una, santa, católica, apostólica e romana. Por um instante, a parte permanece no todo que ela corrompe pouco a pouco” (Itinéraires n° 131, p. 266, março de 1969).

Jean Madiran: “[...] a seita campeada na Igreja [...]” (Itinéraires n° 137, p. 28, nov. 1969).
Henri Rambaud: “[...] a seita, pequena pelo nome em relação ao resto do rebanho, mas instalada nos postos de comando [...]” (Itinéraires n° 143, p. 111, maio 1970).

Resumindo com o Padre Berto: “Jacques Maritain, em 1966, falou de ‘febre’ neomodernista. Mas ele esquece que [se trata de] neomodernistas que jamais se admitirão tais, que permanecerão a todo o preço no interior da Igreja, para ‘fazê-la crescer de dentro uma mutação substancial que não lhe deixará da Igreja senão o nome [...]; eles constituem na Igreja uma associação secreta de assassinos da Igreja” (Itinéraires n° 112, p. 69, abril 1967).

Em 1964, em pleno concílio, Jean Madiran escreveu um artigo especial intitulado “A sociedade secreta do modernismo”, em Itinéraires. Cinquenta anos depois, seu diagnóstico permanece ainda válido:

"Uma sociedade secreta que consegue sobreviver quando é combatida, não vai ela conseguir prosperar quando já não for combatida? Depois da morte de São Pio X, ocupam-se de outra coisa, incluindo o modernismo doutrinal, jurídico, social, mas já não se ocupam da sociedade secreta instalada no seio da Igreja. A consequência de tal abstenção é que a sociedade secreta reforçou sua instalação, multiplicou seus progressos, desenvolveu seu poder; que é poder oculto e se torna muito maior; que ela foi muito mais forte para colocar à frente seus adeptos, para liquidar seus adversários, e para prevenir que se fale dela: impor um silêncio público a respeito dela mesma é o objetivo de todas as sociedades secretas." (Itinéraires n° 82, abril 1964, p. 100.)

Reduzir a Igreja conciliar e neomodernista a um conceito, uma tendência, um espírito, recusando-lhe o status de seita, de sociedade, de associação (Ecclesia = assembleia em grego), em que ela deve necessariamente se encarnar, e para qual de fato ela se move concretamente e eficazmente, é ignorar os ensinamentos de São Pio X e de nossos antepassados na Tradição. Isso não é somente um erro teórico, mas também, em suas consequências práticas, uma predisposição de espírito a identificar puramente e simplesmente a Igreja Católica, a que todos querem pertencer, e a hierarquia oficial e visível que a ocupa e a dirige depois de décadas, de que nós não fazemos (ainda) parte. Situação portanto “anormal”, que convém regularizar de uma maneira ou de outra.

Citemos algumas frases significativas de Dom Fellay: “O fato de ir a Roma não quer dizer que se esteja de acordo com eles. Mas é a Igreja. E é a verdadeira Igreja” (Sermão em Flavigny, em 2-9-2012, Nouvelles de Chrétiente, n° 137, p. 20.)

“A Igreja do Cristo está presente e move-se como tal, quer dizer, como única arca de salvação, somente lá onde está o vigário de Cristo” (Carta aos amigos e benfeitores de 13-04-2014).

“A Igreja oficial é a Igreja visível; é a Igreja Católica, e ponto final” (Sermão no Seminário de la Reja, 20-12-2014).

Compare-se com o que Dom Lefebvre disse a nossos padres reunidos em Écône, em 9 de setembro de 1988: “Nestes últimos tempos, disseram-nos que era necessário que a Tradição entrasse na Igreja visível. Eu penso que se comete nisso um erro gravíssimo, [...] isso é enganar-se assimilando Igreja oficial e Igreja visível. Nós pertencemos à Igreja visível, à sociedade de fiéis submissos ao Papa, pois não recusamos a autoridade do papa, mas o que ele faz... Saímos, então, da Igreja oficial? De certa maneira sim, evidentemente. Todo o livro de M. Madiran A Heresia do 20° século é a história da heresia dos bispos, deve-se então sair do meio destes bispos, se não se quer perder sua alma” (Fideliter n° 66, nov.-dez.1988, pp. 27-28).

Concluímos: com são Pio X, guardemos sempre no espírito que os neomodernistas formam uma seita que não quer jamais deixar a Igreja Católica, que a subverte do interior, e que são seus piores inimigos, verdadeiros lobos revestidos de pele de ovelha.

Com Monsenhor Lefebvre, não nos juntemos aos “católicos que confundem a Igreja Católica e romana eterna com a Roma humana e suscetível de ser invadida pelos inimigos cobertos de púrpura” (Carta ao Figaro, de 02-08-1976).

Revista “Le Sel de la terre” dos dominicanos de Avrillé, edição de inverno de 2015