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terça-feira, 1 de maio de 2018

Se o Limbo é eterno


Carlos Nougué

Certo sacerdote defende entre seus fiéis que o limbo não é eterno. Segundo esse sacerdote, imediatamente antes do juízo final Deus dará às almas do limbo uma prova, de modo que, segundo se comportem diante dela, ou serão salvas e, unidas a seu corpo ressurrecto, ascenderão à beatitude eterna, ou, também reunidas a seu corpo, se condenarão ao fogo eterno da geena.
Mas tal “doutrina”, saída não se sabe de que fábrica, vai contra a doutrina tradicional sobre o limbo, e corrompe de algum modo a fé dos fiéis. Para o confirmarmos, mostremos, ainda que brevemente, o que dizem a este respeito o magistério da Igreja e a Tradição, para depois entregar a palavra a Santo Tomás de Aquino.

I

É certo que nunca houve uma declaração solene do magistério quanto ao limbo. Mas as seguintes palavras de Pio VI, pelas quais defendeu justamente a ortodoxia da crença no limbo contra o conciliábulo de Pistoia, devem bastar-nos para que não demos ouvidos a tão estranha tese:

«O papa declara falsa, temerária, injuriosa às escolas católicas a proposição segundo a qual deve rejeitar-se como a uma fábula pelagiana o lugar dos infernos chamado vulgarmente limbo das crianças [ou dos párvulos], no qual a alma daqueles que morrem somente com o pecado original é punida com a pena de dano [privação da visão de Deus] sem a pena do fogo» (DB 1526).

Naturalmente, a tese que combatemos aqui não nega a existência do limbo, apenas diz que é provisório. Mas as referidas palavras de Pio VI, ao reafirmarem uma doutrina ensinada pelas escolas católicas, afirmam implicitamente também que devemos segui-la por pertencer à Tradição, e a Tradição sempre sustentou a eternidade do limbo. Com efeito, os Padres da Igreja sempre sustentaram (com fundamento especialmente em João 3, 5) a exclusão das crianças não batizadas da visão beatífica de Deus. Ora, a tese combatida defende que algumas almas do limbo, vencida certa prova, terão tal visão – sem todavia estarem batizadas. Logo, incorre em negação de uma doutrina tradicional.  

II

Demos agora a palavra a Santo Tomás, transcrevendo parcialmente o artigo sexto da questão 69 (“De his quae spectant ad ressurrectionem”) do Suplemento da Suma Teológica.

«Artigo 6 ─ Se o limbo das crianças [ou dos párvulos] é o mesmo que o dos Patriarcas.

[...]
Em sentido contrário, assim como ao pecado atual é devida uma pena temporal no purgatório, e eterna no inferno, assim também ao pecado original é devida uma pena temporal no limbo dos Pais [os do Antigo Testamento], e eterna no limbo das crianças. [...]
Respondo: deve dizer-se que o limbo dos Pais e o dos párvulos diferem, sem dúvida alguma, quanto à qualidade do prêmio ou da pena. Pois as crianças não têm nenhuma esperança da vida eterna [ou seja, da beatitude eterna], [esperança] que tinham no limbo os Pais, nos quais também refulgia o lume da fé e o da graça. [...].»

III

Quanto à condição dos que estão (eternamente, insista-se) no limbo dos párvulos, já dissera o nosso Doutor Comum (In IV Sent., I.II, dist. XXX, q. 2, a. 2, ad 5):

«Apesar de as crianças não batizadas estarem separadas de Deus no que concerne à visão beatifica, não estão todavia completamente separadas dele. Ao contrário, estão unidas a Deus pela participação nos bens naturais, e podem assim gozar dele também pelo conhecimento natural e pelo amor natural».

IV

Por fim, perguntemo-nos se a tese aqui combatida não tem algum ponto de contato com a tese neomodernista que nega a ortodoxia ou a existência mesma do limbo. Sim, porque o que parece intolerável a ambas é o fato de que as crianças não batizadas se vejam privadas eternamente da visão beatífica. Mas isso é requerido, como o mostra Santo Tomás, pela justiça divina. O que não é requerido por esta, no entanto, é a mesma existência do limbo, lugar de felicidade natural que decorre da pura misericórdia de Deus.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Voz de Fátima, Voz de Deus - Nº 56

Mosteiro da Santa Cruz

03 de abril de 2018



Estamos, neste artigo, continuando as considerações que fizemos em nosso número anterior sobre a Santa Igreja.

A Igreja Católica define-se com mais propriedade como sendo o Corpo Místico de Cristo. E nesse corpo, Nosso Senhor Jesus Cristo é a cabeça e todos os mais que pertencem a esse mesmo corpo (inclusive o Papa) são seus membros.

Dessa Cabeça divina desce a graça santificante a seus membros. E essa graça é para todos os homens (ainda que nem todos a recebam), desde Adão até o último homem que existir. Portanto, mesmo os homens do Antigo Testamento que tiveram a dita de a receber, receberam-na por Nosso Senhor Jesus Cristo, e pertenciam à Igreja Católica. E se alguém, por acaso, se salva com o batismo de desejo, pertencendo externamente a uma falsa religião, na verdade pertence à Igreja Católica, mesmo sem o saber.

Vimos uma primeira distinção em partes, que se pode fazer na Igreja: uma parte é a Cabeça, e a outra os membros. Mas a Igreja é uma realidade complexa, acerca da qual precisamos fazer várias outras distinções para poder bem compreendê-la. Com efeito, sob um outro aspecto, o do lugar onde se encontram os seus membros, podemos distinguir a Igreja triunfante (composta por aqueles que estão no Céu), a Igreja padecente (composta por aqueles que estão no Purgatório) e a Igreja militante (composta por aqueles que estão na Terra). Ainda, sob o aspecto da guarda e da transmissão da Revelação, faz-se a distinção entre a Igreja docente (a que ensina: o Papa e os Bispos) e a Igreja discente (a que é ensinada: os demais membros). Mais outro aspecto: a Igreja, que é comparada a um homem, tem um corpo e uma alma. E nesse corpo podemos distinguir seus membros vivos e seus membros mortos. Os vivos são os que estão recebendo, da Cabeça, a vida sobrenatural da graça santificante. Os mortos são os que não estão recebendo essa vida. São como os membros gangrenados de uma pessoa: esses membros pertencem ao corpo aparentemente, materialmente, mas não formalmente, pois o sangue não os irriga mais; neles não está mais a vida do corpo.

Em uma próxima vez, se Deus quiser, continuaremos nossas considerações sobre este tema.

Arsenius

sábado, 21 de maio de 2016

Comentários Eleison CDLXII (462) - Sentimentos Doutrinais

Por Dom Richard Williamson
Traduzido por Cristoph Klug

21 de maio de 2016

Pelas mulheres dispostas por Cristo a sofrer, graças a Deus.
Para resguardarmo-nos de Sua ira, são elas escudo próprio Seu.

O "Comentário" da semana passada (CE 461) não terá sido do gosto de todos. Os leitores deverão ter adivinhado que a autora não nomeada da longa citação era do mesmo sexo que as também citadas Santa Teresa d'Ávila ("sofrer ou morrer") e Santa Maria Madalena de Pazzi ("sofrer e não morrer"), e a citação anônima pode ter parecido excessivamente emocional. Mas o contraste com os sentimentos do Papa Bento citados na semana anterior (CE 460) foi deliberado. Enquanto o texto do varão mostrou os sentimentos governando a doutrina, o texto da mulher mostrou a doutrina governando aos sentimentos. É melhor, obviamente, a mulher colocando a Deus primeiro, como Cristo no Horto de Getsêmani ("Meu Pai, se é possível, passe este cálice longe de Mim; mas não como Eu quero..."), que o varão colocando os sentimentos primeiro e alterando a doutrina e religião católicas para a religião Conciliar.

O surpreendente contraste destaca que a primazia de Deus significa que a doutrina vem primeiro, enquanto que a primazia dos sentimentos significa que o homem vem primeiro. Mas a vida não se trata de evitar o sofrimento, trata-se de alcançar o Céu. Se então eu deixo de crer em Deus e adoro a Mamon em seu lugar (Mt VI, 24), eu não crerei na vida além e pagarei por drogas mais e mais caras para evitar o sofrimento nesta vida, porque não há outra vida. E assim, as "democracias" ocidentais criam, um após outro, ruinosos Estados de bem-estar porque a maneira mais segura para um político "democrático" de ser eleito ou não é a de tomar uma posição a favor ou contra a medicina pública. O cuidado do corpo é tudo o que resta na vida de muitos homens que não têm Deus. Assim o secularismo arruína o Estado: "Se Javé não edifica a casa, em vão trabalham os que a constroem" (Sl CXXVI, 1), enquanto que "Ditoso é o povo cujo Deus é Javé" (Sl CXLIII, 15). A Religião governa a política e a economia por igual, a falsa religião para seu mal, a religião verdadeira para seu verdadeiro bem.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Comentários Eleison CDXXXVII (437) - Novus Ordo Missae – II

Por Dom Richard Nelson Williamson

Tradução: Cristoph Klug
28 de novembro de 2015

Os milagres eucarísticos estão onde
Deus Mesmo verdadeiramente se esconde.

Os fatos são obstinados – sempre e quando são fatos. Se leitores duvidam que o milagre eucarístico de 1996 em Buenos Aires é um fato, que eles realizem sua própria investigação: comecem, por exemplo, com http://youtu.be/3gPAbD43fTI. Mas se sua investigação deste caso os deixa sem se convencer, que eles então busquem o caso paralelo de Sokólka na Polônia onde todo um centro de peregrinação tem surgido em torno de um milagre eucarístico em 2008: vejam, por exemplo, jloughnan.tripod.com/sokolka.htm. E um pouco mais de investigação na internet descobrirá seguramente mais notícias dos tais milagres Novus Ordo, e ao menos alguns deles pareceriam autênticos.

Mas, como isso é possível? Os Católicos Tradicionais absorvem desde o início que o novo rito da Missa (NOM) é uma abominação aos olhos de Deus, e que tem ajudado a inúmeros Católicos a perder a Fé. Pois o NOM, tanto como o Vaticano II que ele seguiu, é ambíguo, favorece a heresia e tem conduzido a inumeráveis almas para fora da Igreja, para as quais a assistência regular ao rito protestantizado tem-nas convertido praticamente em protestantes. A maioria dos católicos tradicionais devem estar familiarizados com os sérios problemas doutrinais deste novo rito, elaborado para diminuir as doutrinas católicas essenciais da Presença Real, do Sacrifício propiciatório e do sacerdócio sacrificante, entre outros. Então, como pode Deus realizar milagres eucarísticos com este rito, tal como ele que fez de Sokólka um centro nacional de peregrinação para toda a Polônia?

Doutrinalmente, o NOM é ambíguo, num equilíbrio suspenso entre a religião de Deus e a religião Conciliar do homem. Porém, em questões de fé, a ambiguidade é mortal por estar normalmente feita para destruir a fé, como faz frequentemente o NOM. Mas como a ambiguidade está precisamente aberta a duas interpretações, assim o NOM não excluiu absolutamente a antiga religião. Através de um sacerdote devoto, suas ambiguidades podem ser todas dirigidas à direção antiga. Isso não torna o NOM aceitável como tal, porque sua ambiguidade intrínseca ainda favorece à nova direção, mas significa, por exemplo, que a Consagração pode mesmo assim ser válida, como Monsenhor Lefebvre nunca o negou. Mais ainda, se os milagres eucarísticos são genuínos, claramente nem todas as Consagrações de bispos Novus Ordo nem Ordenações de sacerdotes Novus Ordo são inválidas, Resumindo, o NOM como tal é mau como um todo, mau em partes, mas não mau em todas as suas partes.

Contudo, imaginemos com o maior dos respeitos, como Deus Todo-Poderoso se posiciona sobre o novo rito da Missa. Por um lado, Deus ama à Sua Igreja como a menina de Seus olhos e a preservará até o fim do mundo (Mt. XVI, 18). Por outro lado, Ele escolheu confiar seu governo a homens da Igreja humanos e falíveis, aos quais Ele guiará, mas a cujo livre arbítrio outorga evidentemente um grau notável de jogo livre para governá-la bem ou mal, começando com a traição a Seu próprio Filho. Agora, em tempos modernos, a Revolução, seja judaica, maçônica, comunista ou globalista, encontra seu principal adversário em Sua Igreja tem convertido especialmente os líderes da Igreja para destruir à Igreja. Seu êxito mais terrível foi o Vaticano II e sua NOM, os quais foram seguramente muitos mais pela culpa dos pastores que de suas ovelhas. “A fortaleza foi traída por aqueles mesmos que a deviam defendê-la”, disse São João Fisher em um momento paralelo da Reforma. Então, como cuidará Deus de Suas ovelhas, muitas das quais – não todas – são relativamente inocentes da traição Conciliar?

Depois do Vaticano II, alguns sacerdotes e leigos tiveram a graça de ver imediatamente que era como traição, e em uns poucos anos o movimento tradicional estava caminhando. A outras ovelhas Deus lhes conheceu a graça de percebê-lo mais tarde. Porém, não podemos todos admitir que há muitos bons católicos que confiaram em seus bispos, como bons católicos normalmente devem fazer? E, não é que todos estes bispos insistiram na mentira de que o NOM não era diferente da verdadeira Missa? O que especificou ao Vaticano II e à NOM foi precisamente a oficialização da heresia modernista dentro da Igreja. Então, não é que tem sentido que em castigo por sua mundanidade moderna estas ovelhas amplamente perderiam o verdadeiro rito da Missa, enquanto que em recompensa por seu desejo da Missa elas não perderiam uma Missa válida? Sem dúvida, o futuro da Igreja depende das almas que compreendem a essência da Revolução, e repudiam absolutamente todas as ambiguidades do Vaticano II e do NOM.


Comentários Eleison CDXXXVI (436) - Novus Ordo Missae – I

Por Monsenhor Richard Nelson Williamson

Tradução: Cristoph Klug
21 de novembro de 2015

Deus tem realizado milagres com a Nova Missa?
Quê!? Pois isso é o que sugere a pesquisa.

“Os fatos são coisas obstinadas” é uma famosa frase do segundo Presidente dos Estados Unidos, John Adams (1735–1826), “e quaisquer que sejam nossos desejos, nossas inclinações ou os ditames de nossa paixão, não podem alterar o estado dos fatos e a evidência.”. Concernente ao Novo Ordinário da Missa imposto para a Igreja inteira por Paulo VI em 1969, existem alguns fatos obstinados aptos a perturbar os “desejos e inclinações” dos católicos adeptos pela Tradição católica. Que sucessivos números destes “Comentários” mostrem, em primeiro lugar, alguns destes fatos; em segundo lugar vejamos como podem ser explicados, apesar do desastroso papel jogado durante os últimos 46 anos pelo NOM em ajudar aos católicos a perderem a Fé; e em terceiro lugar deliberemos sobre que conclusões deve um católico sábio tirar. Primeiro de tudo, alguns fatos:—

Em 18 de agosto de 1996, na Igreja Paroquial de Santa María no centro de Buenos Aires, o padre Alejandro Pezet terminava de distribuir a comunhão (de uma Missa nova, possivelmente), quando uma mulher lhe disse que havia uma hóstia descartada na saída da Igreja. Deve ter caído ao sair da Igreja um paroquiano que havia recebido a comunhão na mão e a abandonou no solo por não estar mais apta a ser consumida. O padre Pazet a levantou, pô-la corretamente em um vaso com água e a colocou no Tabernáculo onde em uns poucos dias normalmente se dissolveria e poderia ser descartada. Porém, quando em 26 de agosto o sacerdote abriu o Tabernáculo, qual não foi sua surpresa ao constatar que a hóstia havia se transformado em uma substância sangrenta. Fotos que foram tiradas 11 dias depois por ordens do Bispo Bergoglio, mostraram que havia aumentado consideravelmente de tamanho. Por três anos, manteve-se em estrito segredo no Tabernáculo, mas em 1999 o então Arcebispo Bergolgio decidiu levar a cabo uma análise científica. Em 15 de outubro de 1999, com a presença de testemunhas, ele permitiu ao Dr. Ricardo Castañón, neuro-psico-fisiólogo aprovado por Roma, tomar uma amostra para fazer provas.

O Dr. Castañón levou a mostra primeiramente a um laboratório forense em San Francisco que reconheceu DNA humano. Um Dr. Robert Lawrence localizou glóbulos brancos. Um Dr. Ardonidoli na Itália pensou que provavelmente fora tecido cardíaco. Um professor australiano, John Walker, reconheceu tecido muscular com glóbulos brancos intactos. Para eliminar qualquer dúvida, o Dr. Castañón se dirigiu a um renomado cardiologista e patologista da Universidade de Columbia, Nova York, o Dr. Frederico Zugibe, sem lhe dizer de onde provinha o espécime.

Olhando em seu microscópio, o Dr. Zugibe haveria dito, “Posso dizer-lhe claramente o que é. É parte do músculo que se acha na parede do ventrículo esquerdo do coração, que faz bater o coração e que lhe dá sua vida ao corpo. Entremeado no tecido há células brancas sanguíneas o qual me diz, em primeiro lugar, que o coração estava vivo no momento quando a mostra foi tomada porque as células brancas sanguíneas morrem fora do organismo vivo e, sem segundo lugar, porque as células vão em auxílio de uma lesão, então este coração sofreu. Este é o tipo de coisas que vejo em pacientes que foram golpeadas no peito”. Quando se lhe perguntou por quanto tempo estas células permaneceram vivas se provinham de uma amostra conservada em água, o Dr. Zugibe respondeu que haveriam deixado de existir em questão de minutos.

Quando, em junho de 1976, o Arcebispo Lefebvre estava perto de ordenar seu primeiro grande grupo de Sacerdotes da FSSPX, apesar da depreciação de Roma, um oficial romano veio lhe prometer o fim de todos os seus problemas com Roma se ele somente celebrasse um NOM. Baseado em princípios, por razões doutrinais, ele se negou. Então, como pode o Bom Deus ter realizado milagres eucarísticos com e por esta nova Missa? Leiam aqui na próxima semana uma resposta sugerida.


domingo, 5 de julho de 2015

Comentários Eleison CDCVI (416) - Papas Conciliares III

Por Dom Richard Williamson
Tradução: Andrea Patrícia (blogue Borboletas ao Luar)


As mentes dos oficiais da Igreja não estão mais a funcionar?
Pode ser que medidas extremas Deus tenha de tomar.  


            Os leitores destes “Comentários”, após a leitura de “Papas Conciliares - I” e “Papas Conciliares - II”, de seis e quatro semanas atrás, respectivamente, talvez tenham ficado com a impressão de que eles sustentam que o Papa Francisco “pode ser inculpável por sua ignorância em relação às suas próprias blasfêmias e heresias”, tal como expôs um leitor. Esta impressão é equivocada. O liberalismo universal de hoje pode escusar os Papas “parcialmente” e “relativamente” por destruírem a Igreja Católica, mas é certo que ele não os escusa completamente. A prova de sua culpabilidade ao menos parcial não é difícil de obter.

            A Igreja Católica pertence a Deus. Ele fundou-a e desenhou-a para funcionar com seres humanos como Seus instrumentos. Ele nunca permitirá que esses oficiais humanos de Sua Igreja destruam-na completamente, mas também jamais tirará o livre-arbítrio deles. Como resultado, cada um deles pode adquirir grande mérito ou demérito, de acordo com o modo com que usa ou abusa de seu ofício. Contudo, desse uso ou abuso depende a salvação de muitas outras almas além das deles mesmos. Como, então, alguém pode imaginar que Deus não ofereça a esses oficiais toda a graça que eles precisam para cumprir com seus deveres oficiais para o bem das almas? Se, então, os Papas conciliares, Cardeais e Bispos são todos verdadeiramente oficiais da Igreja designados, como parecem ser e como poucos que não sejam sedevacantistas negam, então, eles estão recebendo de Deus graças suficientes para conduzir bem a Igreja. Se, então, em âmbito geral, eles a estão derrubando por terra, devem estar recusando graças de estado, graças de seus ofícios. E se eles estão recusando a graça de Deus para o cumprimento de seu dever, não podem ser completamente inculpáveis. Eles podem não ter culpa pelo mundo sentimental em torno deles, mas a graça de Deus, em última instância, poderia livrar suas mentes do sentimentalismo, se eles quisessem. Eles não querem, porque então teriam de confrontar o mundo sentimental.

            Imaginemos um exemplo concreto que pode ter acontecido muitas vezes na vida real durante a década de setenta. Uma avozinha consegue aproximar-se do Santo Padre. Em um meio a um mar de lágrimas ela explica que seu neto era um bom menino quando entrou no seminário (conciliar), mas que ele perdeu ali não apenas sua vocação, mas também sua fé e mesmo sua virtude. Se, como é mais provável, o Papa conciliar confia aos oficiais em torno que a retirem dali, ele não é inocente, porque avozinhas tendem a ser inequivocamente sinceras. Mas esses Papas preferem seu sonho conciliar, que está em harmonia com o mundo.

E aqui está um exemplo real ocorrido no Brasil, provavelmente nos anos oitenta. João Paulo II esteve em uma reunião de bispos diocesanos para discutir o apostolado em suas dioceses. Em um dado momento, um jovem bispo levantou-se para dizer que o rebanho em sua diocese estava sendo devastado pela invasão de seitas protestantes oriundas dos EUA promovida pelo ecumenismo; um desastre já conhecido, há muitos anos espalhado pela América Latina. O Papa ouviu o testemunho do bispo, mas poucos minutos depois já estava de volta a promover exatamente aquele ecumenismo que o bispo tinha acabado de denunciar. Quando confrontado com a realidade católica, o Papa preferiu seu sonho conciliar. Como ele poderia ser completamente inocente?

            Disso se segue que esses Papas não são totalmente inocentes nem totalmente culpados da presente devastação da Igreja. Quanto de um eles são, e quanto do outro? Só Deus sabe. Mas se um bom Papa fosse designado, (e protegido por Deus!), para peneirar os oficiais da Igreja, limpar os maus e promover os bons, ele designaria um tribunal ou inquisição – sim, inquisição – para forçar cada oficial a escolher abertamente entre a Verdade ou o sentimentalismo. Seria uma tarefa fácil? Não, porque os mercadores de sentimentalismo não têm dificuldade em fazer parecer que eles amam a verdade, e podem facilmente acreditar, eles mesmos, que estão a lidar somente com a verdade. Eles podem ajustar suas mentes para qualquer coisa, e para opor-se a qualquer coisa. Então, o que se pode fazer? Um Castigo, para limpar os estábulos de Aúgias.


sábado, 30 de maio de 2015

Reflexões sobre o Fim dos Tempos

O MISTÉRIO DA INIQUIDADE E O PROPÍNQUO FIM DOS TEMPOS


«O “mistério da iniquidade”, que culminará no Anticristo e seu triunfo sobre os que crerão na mentira[1] por não haver aceitado o “mistério da sabedoria”[2], já está operando desde o princípio, em forma dissimulada de joio misturado com o trigo e de peixes maus entre a rede[3], por causa do domínio adquirido por Satanás sobre Adão, e mantendo sobre todos os seus descendentes que não fazem pleno proveito da redenção de Cristo. 

É não somente o grande mistério da existência do pecado e do mal no mundo, não obstante a onipotente bondade de Deus, senão principalmente, e em especial, esse mistério da apostasia[4], que levará ao triunfo do Anticristo sobre os santos[5], à falta de fé na terra[6], e, em uma palavra, à aparente vitória do diabo e aparente derrota do Redentor até que Ele venha a triunfar gloriosamente nos mistérios mais adiante assinalados para o fim. 

As armas do Anticristo são falsas ideologias e doutrinas[7] que Satanás, “o príncipe deste mundo”, introduz desde agora sob etiquetas de cultura, progresso e ainda de virtudes humanas que matam a fé, e graças aos meios que a técnica moderna lhe dá para monopolizar a opinião pública. Um autor americano recente vê o mistério da iniquidade no “conformismo”, ou seja, na acomodação dos cristãos ao mundo, na infiltração do mundo nas fileiras dos discípulos de Cristo (Hanley Furley, The Mistery of Iniquity).»

Monsenhor Johannes Straubinger, comentário ao II Tessalonicenses. 



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[1] Gl II, 11: “Para que sejam condenados todos os que não deram crédito à verdade, mas se comprazeram na iniquidade. 
[2] I Cor II, 7: “Mas pregamos a sabedoria de Deus no mistério, que está encoberta, e que Deus predestinou antes dos séculos para nossa glória.” 
[3] Mt XIII, 47-50: “O reino dos céus é ainda semelhante a uma rede lançada ao mar, que colhe toda a casta de peixes. Quando está cheia, (os pescadores) tiram-na para fora, e, sentados na praia, escolhem os bons para os vasos, e deitam fora os maus. Será assim no fim dos séculos: virão os anjos, e separarão os maus do meio dos justos, e lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes.” 
[4] 2 Ts II, 3: “Ninguém de modo algum vos engane; porque (isto não será) sem que antes venha a apostasia (quase geral dos fiéis), e sem que tenha aparecido o homem do pecado, o filho da perdição.” 
[5] Ap XIII, 7: “E foi-lhe permitido fazer guerra aos santos, e vencê-los. E foi-lhe dado poder sobre toda a tribo, e povo, e língua, e nação.” 
[6] Mt XXIV, 24: “Porque se levantarão falsos cristos e falsos profetas, e farão grandes milagres e prodígios, de tal modo que (se fosse possível) até os escolhidos se enganariam.” Lc XVIII, 8: “Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Mas, quando vier o Filho do homem, julgais vós que encontrará fé sobre a terra?” 
[7] Por exemplo, o Comunismo, o Socialismo, o Sionismo, o Americanismo, o Neo-Ecumenismo pós-Conciliar, o Materialismo, o Laicismo, entre outros.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

A Infalibilidade Papal - Pe. Júlio Maria Lombaerde

A infalibilidade do Papa e da Igreja católica manifesta-se por palavras expressas, indicando em termos claros e precisos, que o Papa, ao dar uma decisão, no-la dá, como Soberano Pontífice, gozando e usando neste momento da prerrogativa da infalibilidade, que lhe outorgou Jesus Cristo.

Para que uma decisão do Papa seja infalível, e obrigue a todo o católico, sob pena de heresia, são exigidas as três condições seguintes:

1. — Que o OBJETO desta decisão seja a fé, a moral ou a disciplina geral da Igreja

2. — Que esta decisão seja dada pelo Papa, não como Doutor privado, mas sim como Pastor e DOUTOR SUPREMO de todos os cristãos, sendo isto particularmente especificado.

3. — Que esta decisão seja dada pelo Papa, COMO OBRIGATÓRIA, para a Igreja universal.

Cumpridos estes três requisitos, diz-se que o Papa falou ex Cathedra, isto é, como estando sentado no trono de Pedro, definindo que uma doutrina sobre a fé e sobre a moral deve ser acreditada pela Igreja universal.

Eis a infalibilidade.

Ela não pertence propriamente À PESSOA do Papa, como tal, mas sim à sua FUNÇÃO, ou antes, ela é inerente a uma de suas funções, a de DOUTOR SUPREMO dos cristãos.

Para ser infalível, não é bastante ser Papa, nem exercer tal ou tal função do Papado: É mister exercer a função específica de falar ex Cathedra – super cathedram Petri, e falar à Igreja universal.

Há muitos Papas que nunca usaram deste privilégio, embora exercessem os outros misteres de chefe da Igreja. Não tiveram ocasião de exercê-lo.

Tais Papas possuíam a infalibilidade como prerrogativa, sem exercê-la, do mesmo modo que São Francisco de Assis possuía o poder de consagrar o Corpo e o Sangue do Salvador, embora a sua humildade o conservasse afastado do Altar, sem que jamais tenha celebrado a Santa Missa.

Quantos médicos, advogados, engenheiros, são formados na respectiva arte, sem exercer as funções desta arte! Possuem a prerrogativa, sem entretanto exercê-la.

Tudo o que faz um médico, não pertence à medicina; nem tudo o que um advogado faz, pertence à magistratura. Assim, tudo o que o Papa faz e diz não pertence à infalibilidade; são somente infalíveis aqueles ATOS DETERMINADOS, com os requisitos já mencionados.

Este ponto é importante e é necessário sublinhá-lo, pois é aí que está a fonte dos erros que correm a esse respeito e das confusões que reinam em certos espíritos a respeito deste dogma.

“O Papa não é infalível, nem como homem, nem como sábio, nem como sacerdote, nem como bispo, nem como príncipe temporal, nem como juiz, nem como legislador”, diz muito bem uma Instrução pastoral, altamente aprovada por Pio IX.

“O Papa não é infalível, nem impecável em sua vida, em seu comportamento, em suas visitas políticas, em suas relações com os príncipes, e nem sequer no governo da Igreja; mas ele o é única e exclusivamente quando, em sua qualidade de DOUTOR SUPREMO da Igreja, define assuntos de fé e de moral, decisões que devem ser aceitas e consideradas obrigatórias para todos os fiéis.

O cardeal Manning exprime-se do mesmo modo: Pelas palavras: ex Cathedra, acham-se excluídas da infalibilidade, diz ele, todos os atos do Pontífice como pessoa privada, ou como doutor particular, ou como bispo local, ou como soberano de um Estado.

Em todos estes atos o Papa está sujeito ao erro. Ele está isento de erro numa única circunstância, quando, como Doutor Supremo, ensina à Igreja universal, acerca da fé e da moral. (Hist. Conc. Vat.).

Podemos ir além, e restringir ainda mais a infalibilidade.

Eis um Papa assentado na Sé de S. Pedro, e que aí fala livremente ex Cathedra, à Igreja universal a respeito de um ponto de fé ou de moral. Tudo o que ele diz não é, por isso, infalível.

Até nos decretos ou bulas dogmáticas, diz um teólogo secretário geral do Concílio do Vaticano I (Dom Fessler) não se deve considerar tudo indistintamente como decisão dogmática, e, por conseguinte, como objeto da infalibilidade.

Em particular, não se deve considerar como infalível, o que é apenas mencionado de passagem, ou o que serve de introdução ou de consideração.

Todos os teólogos estão de acordo a esse respeito (Melchior Cano: De locis theol.).

A única coisa infalível no Papa é o DOUTOR SUPREMO da Igreja universal, acerca de fé e de moral.

Tudo o que contém uma bula dogmática não é, pois, infalível.

As considerações, os diversos argumentos que preparam o espírito estão excluídos, ficando o ATO DE FÉ reservado às palavras próprias da definição: palavras claras, precisas, muito solenes, pelas quais o Papa afirma que tal ou tal verdade é revelada por Deus, e que deve ser aceita, sob pena de anátema ou exclusão da Igreja.

Os termos das definições dogmáticas são os seguintes: Eis porque, apoiando-nos fielmente sobre a tradição que remonta até ao começo da fé cristã, para a glória de Deus nosso Salvador e a salvação dos povos cristãos, nós ensinamos e definimos que é um dogma devidamente revelado: a saber: ... Docemus et divinitus revelatum dogma esse definimus:

Aplicando estes termos à própria definição da infalibilidade, temos a seguinte declaração de fé:

“Que o Pontífice romano, quando fala ex Cathedra, isto é, quando preenchendo o cargo de Pastor e Doutor de todos os cristãos, em virtude de sua autoridade apostólica, define que uma doutrina sobre a fé ou a moral deve ser acreditada pela Igreja universal, goza plenamente, pela assistência divina, que lhe fora prometida na pessoa do Bem-aventurado Pedro, desta infalibilidade de que o divino Redentor quis dotar a sua Igreja, definindo a respeito da fé ou moral; e que, por conseguinte, tais definições do Pontífice Romano são irreformáveis por si mesmas, e não em virtude do consentimento da Igreja.

Se alguém, que Deus não o permita, tivesse a temeridade de contradizer a nossa definição, seja ele anátema.”


Eis um ato emanando do Doutor Supremo, sobre um ponto determinado da doutrina católica: tal ato é, pois, uma sentença da infalibilidade.

sábado, 2 de maio de 2015

Comentários Eleison - CDVII (407) - Bom Senso Sobre a Vacância da Sé - II

Por Dom Richard Williamson
Tradução: Cristoph Klug

Um Papa herege é todavia chefe da Igreja,
Ainda que como membro pessoal, esteja morto.



Em relação à deposição de um Papa herege, os Dominicanos Tradicionais de Avrillé na França nos tem feito um grande favor ao publicar não somente as considerações clássicas de João de São Tomás (cf. CE 405), mas também as de outros teólogos proeminentes. Concisamente, as melhores mentes da Igreja ensinam que um simples e popular argumento hoje em dia, por exemplo, de que um Papa herege não pode ser um membro da Igreja, e consequentemente muito menos seu chefe, é por demais simples. Concisamente, há mais no Papa que simplesmente o católico individual que, por cair em heresia, perde a fé e com ele sua comunhão na Igreja. Para a Igreja, o Papa é muito mais que um católico individual. Para esclarecer, apresentamos os argumentos destes teólogos em forma de perguntas e respostas:


Primeiro de tudo, é possível para um Papa cair em heresia?

Se ele compromete todas as quatros condições de seu Magistério Extraordinário, ele não pode ensinar heresia, mas que ele possa pessoalmente cair em heresia é a opinião mais provável ao menos nos teólogos antigos.

Então se ele certamente cai em heresia, isso não faz com que ele cesse de ser um membro da Igreja?

Como uma pessoa católica individual sim, mas como Papa, não necessariamente, porque o Papa é muito mais que simplesmente um católico individual. Como disse Santo Agostinho, o sacerdote é católico para si mesmo, mas é sacerdote para os demais. O papa é papa para a Igreja inteira.

Mas, supondo que a grande maioria dos católicos possam ver que ele é um herege porque ele o é obviamente, não seria nesse caso que sua heresia torne impossível que ele ainda seja Papa?

Não, porque ainda que sua heresia fosse óbvia, ainda assim muitos católicos podem negá-lo, por exemplo, por causa de sua “piedade” pelo Papa e, por consequência, para prevenir uma confusão surgindo através de toda a Igreja, seria necessária uma declaração oficial da heresia do Papa para vincular aos católicos que permaneçam unidos. Tal declaração deveria proceder de um Concílio da Igreja congregado para tal propósito.

Mas se a heresia fosse pública e óbvia, não seria isso seguramente suficiente para depô-lo?

Não, porque em primeiro lugar cada herege deve ser oficialmente advertido antes de ser deposto, para o caso de que ele se retrate de sua heresia. E, em segundo lugar, na Igreja ou no Estado, cada oficial de alta esfera está servindo ao bem comum e, pelo bem comum, ele deve permanecer no ofício até que ele seja oficialmente deposto. Assim, tal como um bispo permanece no ofício até que ele seja deposto pelo Papa, assim o Papa permanece no ofício até que a declaração oficial de sua heresia por um Concílio da Igreja permite a Cristo depô-lo (cf. CE 405).

Mas, se um herege não é membro da Igreja, como pode ele ser seu chefe, o membro mais importante?

Porque sua pertença pessoal é algo diferente de sua autoridade oficial. Pela sua pertença pessoal ele recebe santificação da Igreja. Pela sua autoridade oficial ele manifesta o governo oficial da Igreja. E receber não é manifestar. Por cair em heresia, o Papa cessa de ser um membro vivo da Igreja, isso é certo, porém com isso não cessa de estar capacitado, ainda como membro morto, de governar a Igreja. Sua pertença na Igreja por fé e caridade é incompatível com a heresia, mas seu governo da Igreja por sua jurisdição oficial, não requerendo nem fé nem caridade, é compatível com a heresia. 

Mas por sua heresia é um Papa que já perdeu seu papado!

Pessoalmente e em privado isso é certo, mas isso não é público e oficialmente certo até que um Concílio da Igreja tenha tornado sua heresia não somente pública, mas também oficial. Até então o Papa deve ser tratado como Papa, porque para a tranquilidade e o bem comum da Igreja, Cristo mantém Sua jurisdição.


Kyrie eleison.

domingo, 19 de abril de 2015

Comentários Eleison - CDV (405) - Bom Senso Sobre a Vacância da Sé - I

Por Dom Richard Nelson Williamson
Traduzido por Andrea Patrícia (blogue Borboletas ao Luar)


18 de abril de 2015

Concílios da Igreja podem desligar um Papa herege,
Mas Cristo o depõe, pois de sua total destruição Ele a protege.


Os sacerdotes Dominicanos de Avrileé, França, fizeram a todos nós um grande favor ao republicar as considerações sobre a Sé vacante de Roma escritas há uns quatrocentos anos por um famoso teólogo tomista da Espanha, João de Santo Tomás (1589-1644). Por ser um fiel sucessor de Santo Tomás de Aquino, ele se beneficia daquela sabedoria superior da Idade Média, época em que os teólogos podiam medir os homens por Deus ao invés de medir Deus pelos homens, uma tendência que começou como uma necessidade (se as almas não podiam mais tomar a penicilina medieval, teriam de tomar um remédio menos eficaz), mas que culminou no Vaticano II. Eis aqui, de forma bem resumida, as principais ideias de João de Santo Tomás sobre a deposição de um Papa:

I. Pode um Papa ser deposto?
Reposta: sim, pois os católicos são obrigados a se separar dos hereges depois destes terem sido advertidos (Tt III, 10). Além disso, um Papa herético põe toda a Igreja em um estado de legítima defesa. Mas o Papa deve ser primeiro advertido tão oficialmente quanto seja possível, para que possa se retratar. Também sua heresia deve ser pública, e declarada tão oficialmente quanto seja possível, para evitar confusão generalizada entre os católicos, vinculados entre si pela obediência.

II. Por quem ele deve ser oficialmente declarado herege?
Resposta: não pelos Cardeais, porque embora eles possam eleger um Papa, não podem depor nenhum, porque é a Igreja Universal que é ameaçada por um Papa herético, e então a maior autoridade universal possível da Igreja é a única que pode depô-lo, a saber, um Concílio da Igreja composto de um quorum de todos os Cardeais e Bispos da Igreja. Estes poderiam ser convocados não autorizadamente (o que só o Papa pode fazer), mas entre eles.

III. Por qual autoridade poderia um Concílio da Igreja depor o Papa?
(Aqui está a principal dificuldade, porque Cristo dá ao Papa poder supremo sobre toda a Igreja, sem exceção, tal como o Vaticano I definiu em 1870. Já João de Santo Tomás deu argumentos de autoridade, razão e Direito Canônico para provar esse supremo poder do Papa. Então, como pode um Concílio, sendo inferior ao Papa, ainda assim depô-lo? João de Santo Tomás adota a solução fornecida por outro famoso teólogo dominicano, Tomás Caetano (1469-1534). A deposição do Papa por parte da Igreja cairia não sobre o Papa enquanto Papa, mas sobre a ligação entre o homem e seu Papado. Isso pode parecer um tanto sutil, mas é lógico.)

Por um lado, nem mesmo o Concílio da Igreja tem autoridade sobre o Papa; mas por outro lado, a Igreja é obrigada a evitar os hereges e a proteger o rebanho. Portanto, como em um Conclave os Cardeais são os ministros de Cristo para vincular esse homem ao Papado, mas somente Cristo dá a ele sua autoridade papal; assim o Concílio da Igreja seria por sua declaração solene os ministros de Cristo para desvincular esse herege do Papado, mas somente Cristo, por sua autoridade divina acima do Papa, poderia autorizadamente depô-lo. Em outras palavras, o Concílio da Igreja deporia o Papa não autorizadamente, mas apenas ministerialmente. João de Santo Tomás confirma esta conclusão com base no Direito Canônico da Igreja, que afirma em muitos lugares que somente Deus pode depor o Papa, mas que a Igreja pode julgar sua heresia.

Infelizmente, como assinalam os Dominicanos de Avrilée, quase todos os Cardeais e Bispos da Igreja hoje estão tão infectados pelo modernismo que não há esperança humana de um Concílio da Igreja que veja de modo claro o bastante para condenar o modernismo dos Papas conciliares. Nós podemos apenas orar e esperar pela solução divina, que virá na boa hora de Deus. 

A seguir: não estaria um Papa automaticamente deposto por uma simples heresia sua?



Kyrie eleison.

sábado, 7 de março de 2015

Comentários Eleison CCCXCIX (399) - Enfermidade Inimaginável

Por Dom Richard Williamson
Tradução: Andrea Patrícia (blogue Borboletas ao Luar)
07 de março de 2015


Nos Papas modernos, uma tal enfermidade nós podemos perceber,
E nenhuma mente saudável a ela pode conceber.


No verão de 1976, um tanto “quente” para a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, depois de Paulo VI ter “suspendido” Dom Lefebvre por ordenar 14 sacerdotes para a Tradição, o conflito entre o Papa e a Tradição Católica estava tão acentuado, que em agosto se deu um dos dois momentos em que o Arcebispo chegou a considerar mais seriamente se a Sé de Roma estaria vacante. É o que se pode ouvir na gravação de suas palavras, quando então disse que estava a agonizar em razão do conflito: como é possível que um verdadeiro Vigário de Cristo esteja destruindo a Igreja? O Arcebispo nunca chegou a adotar a solução sedevacantista, mas vamos ver o quão claramente ele abordou o problema, e então oferecer uma linha a mais de solução, que possivelmente teria sido pensada por ele caso não estivesse a viver um período tão conturbado. Aqui está um resumo de suas palavras proferidas em agosto de 1976: 

As pessoas me perguntam o que eu penso do Papa Paulo VI. É um incrível mistério. O verdadeiro Papa é a unidade da Igreja, inspirado pelo Espírito Santo e protegido pela promessa de Nosso Senhor para defender a Fé. Mas graças ao Vaticano II, Paulo VI está sistematicamente destruindo a Igreja. Nada é poupado: catecismo, universidades, Congregações, seminários, escolas. Tudo o que é católico está sendo destruído. É preciso que se encontre uma solução.

Uma série de falsas explicações devem ser deixadas de lado, como, por exemplo, a de que Paulo VI é um prisioneiro, drogado, vítima de seus subordinados, etc. Pois, quando ele abençoou os carismáticos, ou beijou o pé do Patriarca Ortodoxo, ele tinha por acaso um revólver em sua cabeça? Eu o tenho observado em audiências públicas, falando com a habilidade, presença de espírito, pertinência e inteligência de um homem em plena posse de suas faculdades. O Cardeal Benelli me disse que foi o próprio Papa quem me escreveu essas cartas (que reprimem a Tradição), que ele está completamente informado, que sabe exatamente o que está fazendo, que é de sua vontade, que as decisões são suas. O Cardeal disse que sempre se reporta ao Papa, e o fará novamente logo após a nossa conversa. 

Assim, poderia Paulo VI não ser um verdadeiro Papa? Esta é uma hipótese possível. Os teólogos têm estudado o problema. Eu não sei. Não digam que eu disse o que eu não disse. Mas o problema parece teologicamente insolúvel.

Dom Lefebvre falava de Paulo VI, mas o problema é essencialmente o mesmo com todos os seis Papas conciliares (exceto, talvez, João Paulo I). Dividamos o problema em dois: como pode o verdadeiro Deus permitir tal destruição de Sua Igreja? Como podem ser Seus verdadeiros Vigários os principais destruidores?

Quanto ao Deus Todo-Poderoso, em primeiro lugar, a destruição será ainda pior no fim do mundo (Lc 18, 8). Em segundo lugar, pode bem ser que Deus esteja a purificar Sua Igreja para preparar o Triunfo do Imaculado Coração de Sua Mãe. Em terceiro lugar, Deus protegeu Paulo VI de destruir completamente a Igreja, quando, por exemplo, ele tomou providências para que Paulo VI descobrisse, “por acaso”, um plano para dissolver o Papado por meio do texto da Lumem Gentium, e assim o Papa pôde bloquear o plano ao acrescentar a Nota Praevia.

Quanto aos Vigários, Dom Lefebvre nunca pareceu ter considerado a solução seguinte, e isso pode ser a razão pela qual naquele mesmo agosto ele parecia estar prestes a ser espetado pelos chifres do dilema sedevacantista-liberal. Mas se a cada ano o liberalismo se aproxima mais e mais para confundir a mente de cada homem na terra, como poderiam os Papas escapar da enfermidade universal de estar “sinceramente” equivocados? Por serem homens instruídos? Mas o liberalismo reina especialmente nas escolas e universidades. Assim, se os Papas conciliares mal instruídos estão “sinceramente” convencidos de que a “verdade” evolui, eles não estarão, por seus erros graves, nem mesmo negando com pertinácia o que sabem ser definido como Verdade Católica, pois mesmo a Verdade definida, por ser “verdade”, evolui na direção deles.


Kyrie eleison.

domingo, 1 de março de 2015

Comentários Eleison CCCXCVIII (398) - Sinal Encorajador

Por Dom Richard Williamson
Tradução: Andrea Patrícia (blogue Borboletas ao Luar)
28 de fevereiro de 2015


SINAL ENCORAJADOR



Disse um bispo: dar testemunho é o que a Tradição deve fazer.
Mas bispo, por favor, faça mais do que isso, para que as ovelhas não venham a perecer.


Depois de três números destes “Comentários’ terem tentado mostrar o novo modo de pensar pelo qual a Fraternidade Sacerdotal São Pio X de Dom Lefebvre está sendo mortalmente envenenada, vamos apresentar um sinal encorajador de que sua Fraternidade não está ainda completamente morta: citações de um sermão dado em 1º de janeiro deste ano em Chicago por Dom Tissier de Mallerais, um dos quatro bispos consagrados para a FSSPX em 1988. As pessoas frequentemente perguntam por que tão pouco é ouvido dele, e isto se dá porque ele é conhecido por ser um homem tímido, mas honesto, e com uma fé forte, uma mente clara e um grande conhecimento e amor pelo Arcebispo. Talvez ele tenha amado a Fraternidade “não sabiamente, mas muito bem”, e por isso não esteja vendo, ou não querendo ver, como seus superiores têm, já por muitos anos, traído lentamente, mas firmemente, a luta de Dom Lefebvre pela Fé. Será que o Bispo está a pôr a unidade da Fraternidade acima da Fé da Igreja? Mas no mês passado ele disse muitas coisas que não poderiam ser ditas de melhor forma. 

Ele citou os escritos do Arcebispo em seu Itinerário Espiritual (cap. III, p.11 da versão espanhola em PDF): É, portanto, todo sacerdote que quer permanecer católico tem por estrito dever de separar-se da Igreja conciliar enquanto ela não reencontre a Tradição da Igreja e da Fé católica. Então, para enfatizar, Dom Tissier disse: “Permitam-me repetir isto”, e leu a citação mais uma vez.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Comentários Eleison CCCXVCII (397) - O Pensamento da NeoFraternidade - III

Por Dom Richard Williamson
Tradução: Andrea Patrícia (blogue Borboletas ao Luar)

21 de fevereiro de 2015


A Fraternidade deseja a Roma conciliar?

Se não, acordem! Pois em breve ela será o seu novo lar.


Estes “Comentários” declararam (395) que o Primeiro Assistente da Neofraternidade carece de doutrina, e (396) que essa carência de doutrina é um problema tão amplo quanto possa ser, nomeadamente: a modernidade em sua integralidade contra a integralidade da Verdade; e resta agora mostrar como esse problema universal se manifesta em uma série de erros particulares na entrevista que o Pe. Pfluger deu na Alemanha perto do fim do ano passado. Para abreviar, nós teremos de fazer uso do resumo (não essencialmente inexato) de seu pensamento mostrado aqui há duas semanas. Suas proposições estão em itálico:

A Igreja Católica é muito mais ampla do que somente o movimento Tradicional.

Sim, mas a doutrina do movimento Tradicional não é mais nem menos ampla do que a doutrina da Igreja Católica, pois é idêntica a ela, e essa doutrina é o coração e a alma do movimento Tradicional.

Nós nunca tornaremos a Tradição atrativa ou convincente se permanecermos mentalmente estagnados nas décadas de 50 ou 70.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Sobre as orações indulgenciadas e seu valor

"Uma obra indulgenciada não adquire sentido e valor senão quando, ao mesmo tempo, é uma verdadeira oração segundo o Espírito de Deus. Seria abusar da oração e lamentavelmente desconhecer-lhe o sentido e a essência a ela ligada, sem fazer dela uma conversa íntima com Deus. Vida nova em Deus e, por isto, libertação do pecado e da pena eterna que lhe é devida: tal o fim primeiro da piedade cristã. Nenhuma indulgência o pode dispensar. O ganho das indulgências supõe naturalmente essa necessidade indispensável. É claro que, sem o perdão do pecado e de sua pena eterna , não se poderia pensar em remissão da pena temporal. A prática das indulgências contribui, pelo menos indiretamente, para a purificação da alma e o desenvolvimento da vida nova. Não é, diga-se o que se quiser, uma instituição destinada a fazer toda exterior a vida cristã: serve, pelo contrário, a aprofundá-la e enriquecê-la: premente chamamento à penitência, espécie de necessidade que nos impele a incorporar-nos, primeiro, como membro vivo ao Cristo, para podermos esperar o seu auxílio. Como, aliás, as Indulgências não remitem pura e simplesmente ao fiel a pena temporal, mas, sim, só o libertam dela na medida em que ele concorre com suas próprias obras satisfatórias, ordenadas, com precisão, pela Igreja, aos merecimentos do Cristo e dos seus santos, são elas de molde a sacudir as consciências retas, a torná-las mais atentas e sensíveis à terrível seriedade do pecado, assim como ao incomparável tesouro espiritual que se encontra na comunhão dos membros do Cristo."

Karl Adam, in "A Essência do Catolicismo".

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

A Catolicidade da Igreja que iniciava

"Manifestação do divino, o Pentecostes dos primeiros discípulos, apresenta dois caracteres: catolicidade ou universalidade e rigorosa unidade. A catolicidade, que faz com que ela convenha a todos, é essencial ao que é divino. Onde está Deus, não há "acepção de pessoas". Fora impossível que a realidade divina aparecida no Cristo se destinasse a uns e não a outros, aos judeus e não aos bárbaros. O que é divino convém evidentemente a todos. Deus só pode operar na plenitude, no conjunto dos homens, e não em alguns apenas. Um Cristo limitado não seria um Cristo. Esta característica do primeiro Pentecostes se mostra no milagre de línguas: "Como pode acontecer que os entendamos falar cada um no idioma particular de nossa terra natal? Nós todos, partos, medas, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia"... (At. 2, 8 e 9). No mesmo tempo em que a fé nova fazia sua entrada no mundo, abarcava a humanidade inteira, era uma fé católica. "A Igreja nascente já era anunciada em todas as línguas" (2) -- E essa catolicidade era uma catolicidade na unidade. Estavam todos conjugados em torno do colégio apostólico, em torno de Pedro, e todos os compreendiam. Um só Deus, um só Cristo, uma só fé, uma só língua. Plenitude na unidade, unidade na plenitude. Foi assim que a nova fé fez a sua entrada no mundo."
(2) Sto. Agostinho, Sermo 266,2.


Karl Adam, in "A Essência do Catolicismo".

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

As boas leituras - São João Bosco

Boas leituras e palavra de Deus


Além do tempo destinado às orações da manhã e da noite, eu vos aconselho que dediqueis algum tempo à leitura de livros que tratem de coisas espirituais, como A Imitação de Cristo; a Filotéia, de São Francisco de Sales; a Preparação para a morte, de Santo Afonso Maria de Ligório; Jesus ao coração do jovem, vidas de santos e outros livros semelhantes.

Grandes vantagens vossa alma obterá com a leitura desses livros; e maior será o vosso merecimento aos olhos de Deus se contais a outros o que ledes, ou se fizerdes a leitura em sua presença, sobretudo se for para pessoas que não sabem ler.

Se vos recomendo a leitura dos bons livros, devo também vos recomendar encarecidamente que fujais, como da peste, dos maus livros e das más publicações.

Os livros, jornais ou impressos em que a religião e a moral são menosprezadas, lançai-os ao fogo como faríeis com o veneno. Imitai os cristão de Éfeso, que logo que ouviram de São Paulo o mal que produziam tais livros, apressaram-se a levá-los à praça pública, e fizeram com eles uma fogueira, preferindo que antes caíssem os livros no fogo do que suas almas no inferno.

Nosso corpo se debilita e morre se não o alimentamos; do mesmo modo nossa alma perde o vigor se não lhe damos aquilo de que ela necessita: o alimento da alma é a palavra de Deus, quer dizer, a pregação e a explicação do Evangelho, o catecismo.

Apressai-vos, pois, a ir logo à igreja: permanecei nela com a maior atenção e aproveitai-vos dos conselhos que vos sejam úteis.

É muito conveniente e até necessário para vós a assistência ao catecismo. Não vos escuseis dizendo que já fizestes a Primeira Comunhão: pois mesmo depois dela tendes necessidades de sustentar a alma, como alimentais diariamente o corpo: e se a privais desse alimento espiritual, ela ficará exposta a grandes males.

Quando ouvirdes a palavra de Deus, evitai as sugestões do demônio que vos engana dizendo-vos: "Isto o pregador está dizendo por causa de fulano, ou de sicrano". Não, meus caros filhos! O pregador se dirige a cada um de vós, e quer que apliqueis a cada um de vós as verdades que está expondo.

Além do mais, se um conselho não servir para vos corrigir de algo que tenhais feito no passado, ele servirá para vos preservar de cair no futuro.

Quando ouvirdes a palavra de Deus, tratai de recordá-la durante o dia; e à noite, antes de vos deitardes, parai um pouco refletindo no que foi ouvido; desse modo tirareis grande proveito para a alma.

Também vos recomendo cumprir os deveres religiosos, na medida do possível, na vossa própria paróquia, pois o pároco é a pessoa destinada especialmente por Deus para cuidar de vossa alma.


São João Bosco, "Carta aos jovens de todos os tempos", pp. 21-23. Artpress, 2006.

sábado, 27 de julho de 2013

Acerca dos extraterrestres

Frequentemente vemos na mídia notícias relacionadas com o aparecimento de óvnis ou sinais vindos supostamente de outros planetas, com mensagens até interessantes ou, no mínimo, divertidas, como por exemplo mostra o vídeo abaixo relacionado:


Por conta disso, a Iesus Christus entrevistou o Rev. Pe. Jesús Maria Mestre, professor de Espiritualidade e Sagrada Escritura do Seminário Internacional Nossa Senhora Corredentora (FSSPX) da Argentina sobre a questão para ilustrar as almas demasiado e curiosamente levianas.

Publicado na edição número 117.



REVISTA “IESUS CHRISTUS”: Reverendo Padre, há algumas semanas o diretor do Observatório Astronômico do Vaticano, o sacerdote argentino José Gabriel Funes, S.J., declarou em uma entrevista que a ideia de que exista vida extraterrestre não tem nada de estranha. O que o senhor sabe dessas declarações?

R. P. JOSÉ MARIA MESTRE ROC: O que foi publicado pela agência de notícias Zenit do último dia 16 de maio, do qual fizeram eco todos os meios de imprensa.

REVISTA “IESUS CHRISTUS”: Pode-nos resumir o ponto de vista do Padre Funes?

R. P. JOSÉ MARIA MESTRE ROC: Claro. Segundo ele, poderiam existir outros seres vivos além dos conhecidos. Se não concedêssemos essa possibilidade, estaríamos limitando a liberdade criadora de Deus.

Apelando logo a São Francisco de Assis – que como todos sabem, falava do “irmão sol” e da “irmã lua” – surge a questão: Por que não poderíamos falar também de um “irmão extraterrestre”?

Para apoiar seu ponto de vista, recorre à imagem do Bom Pastor, que vai em busca da ovelha perdida: “Neste universo podem haver cem ovelhas – estou lendo o que declarou no ZENIT –, correspondentes às diversas formas de criaturas. Nós, que pertencemos ao gênero humano, poderíamos ser justamente a ovelha perdida, os pecadores que precisam do pastor”.

Por fim, visto que aqui surge um problema a respeito da redenção operada por Nosso Senhor Jesus Cristo, complementa que ainda que existissem outros seres inteligentes, isso não quer dizer que tenham necessidade de serem redimidos como os homens, já que poderiam ter permanecido em amizade plena com seu Criador.

REVISTA: Pois bem, não admitir a vida extraterrestre, implica realmente – como diz o Padre Funes – restringir a liberdade de Deus para criar quantos seres quisesse?

R. P. MESTRE: De forma alguma. É certo que Deus é infinitamente livre ao criar e para criar; mas não é menos certo que Deus nos deu a conhecer o desígnio que teve ao fazê-lo. Isso é a própria revelação. Não é, pois, que negando a vida extraterrestre vimos coagir a liberdade de Deus, senão que atemo-nos ao que Ele mesmo nos disse.

REVISTA: De todos os modos, Padre, como conciliar a possibilidade de que haja vida extraterrestre com a redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo? Seriam os extraterrestres seres “imaculados”, no sentido de que não precisariam dela?

R. P. MESTRE: Pois que aqui entramos no terreno da pura hipótese, nada mais, e o que se possa dizer de uma hipótese, não é uma afirmação, senão outra hipótese ou, em outros termos, uma afirmação condicional...

Por isso ele emprega um tempo potencial, o modo condicional, indicando que, se existissem, isso não implica que precisariam ser redimidos já que “poderiam ter permanecido em amizade plena com seu Criador”. No entanto, se tivessem pecado, “de algum modo teriam a possibilidade de gozar da misericórdia de Deus, como sucedeu a nós”.

REVISTA: Em outra parte de sua entrevista, o Padre Funes tenta sustentar indiretamente sua opinião argumentando que não há contradição entre a fé e o que diz a ciência; ou seja, que não há razão para contrapor as conclusões da ciência com...

R. P. MESTRE: ... sim, com o revelado por Deus. Mas o ponto não é esse. Não há contradição entre a fé e a razão, isso é claro. O tema é que a ciência esteve provando realmente até agora que não existem seres extraterrestres...

É importante enfatizá-lo: além de todas as elucubrações, os cientistas vêem-se obrigados a reconhecer que, apesar de todas as antenas e telescópios que têm apontados para o espaço para receber sinais de vida inteligente em outros planetas ou galáxias, até hoje não receberam nada. O espaço mantém-se absolutamente mudo. Essa é a prova...

Sem ânimo de gerar falsas ilusões nas pessoas e induzir-lhes a equívocos, mais que dizer que a ciência não está em contradição com a fé, há que se dizer que a ciência – que se atém às provas – somente pôde demonstrar, quer queira quer não, que não há nada fora de nós...

REVISTA: Então o senhor é um cético?

R. P. MESTRE: Acredito que temos que nos situar em um ponto de vista realista e de senso comum, e não cair nas ficções. Em uma novela pode-se falar de “nossos irmãos extraterrestres”, assim como São Francisco falava do “irmão sol” ou da “irmã lua”. Aqui falamos de maneira própria. Aqui falamos de ciência. Nesse contexto, suposições como as desse gênero implicam simplesmente cair em uma ficção teológica. Pois bem, a teologia não versa sobre ficções, mas sobre realidades.

O caso é, pois, que partindo do que Deus mesmo nos disse na revelação, e procedendo, não por argumentos fechados da Escritura ou da Tradição, mas ao menos por argumentos de analogia teológica, temos que descartar a existência de seres inteligentes extraterrestres como sendo inconciliável com o dado teológico certo. Contudo, antes teríamos que definir bem o que se entende por “seres extraterrestres”, porque em sentido amplo os anjos, bons ou maus, são também “seres extraterrestres”... O Padre Funes não se refere a eles, mas a criaturas inteligentes, semelhantes aos homens, isto é, compostos de corpo e alma, e vivendo em algum outro planeta. A esses mesmos também eu me refiro aqui.

REVISTA: Hoje em dia, além da novela e da ficção, são muitos os que crêem sem mais na existência de seres extraterrestres, mesmo entre os católicos. Que argumentos há que se invocar para negar essa possibilidade?

R. P. MESTRE: Os argumentos podem ser de duas classes, filosóficos e teológicos.

REVISTA: Como a nossa é uma publicação religiosa, e quem se referiu ao tema é um sacerdote, explique-nos melhor o argumento teológico.

R. P. MESTRE: De acordo. Para isso nos serviremos da analogia. Se existem outros seres intelectuais, teríamos que dizer que deveriam ter sido elevados necessariamente à ordem sobrenatural, e isso por motivos de harmonia com a revelação.

Santo Tomás afirma claramente que os anjos foram criados em estado de graça, e que os homens também o foram, estes pelo mesmo motivo que aqueles, a saber, porque deveram ser criados em estado perfeito, ou seja, incluindo de alguma maneira tudo o que chegariam a ser mais tarde; e assim, tanto anjos como homens, visto que estavam preordenados à gloria, deveram ter já desde sua criação uma semente da mesma gloria a qual é a graça,

Pois bem: sobre existir esses outros seres, Deus teria obrado a seu respeito tal como fez com os anjos e com os homens: se os fez capazes de conhecê-Lo e amá-Lo – com inteligência e vontade, assim como fez com anjos e homens – também os preordenou para a gloria. Nada indica, teologicamente falando, que teria obrado com os extraterrestres de modo distinto que com anjos e homens... Agora bem, elevados os “extraterrestres” ao estado sobrenatural, como foi explicado, de duas uma: ou permaneceram fieis à sua justiça original, ou pecaram, como os anjos e os homens.

REVISTA: Este é o “nó górdio”?

R. P. MESTRE: Digamos que sim. Porque se foram fiéis, e como diz o Padre Funes “permaneceram na amizade plena com seu Criador (...) não precisando então da redenção”, seguem vários inconvenientes.

REVISTA: Quais e por que?

R. P. MESTRE: Porque forma parte do dado revelado que os homens saibam quem forma parte da Igreja, seja militante, seja purgante, seja triunfante. Sabemos que a Igreja militante é formada pelos que receberam o batismo, professam a fé verdadeira e se submetem às autoridades estabelecidas por Cristo; dela excluem-se os infiéis, hereges e cismáticos. Sabemos igualmente que a Igreja triunfante é composta por anjos e homens.

Se houvessem extraterrestres, teríamos que sabê-lo, porque um dia seriam nossos companheiros no céu, e Deus teria que ter nos feito saber. Se sabemos teremos por companheiros os anjos, a quem não podemos ver, como não íamos saber que também seriam os “venusianos”, “marcianos” ou “jupterianos”, com quem supostamente poderíamos nos contactar algum dia?

REVISTA: Não é pouca coisa como argumento a fortiori...

R. P. MESTRE: Mas não é tudo. Tem mais. Se supusermos por um momento que Deus não quisesse nos revelar que um dia teríamos extraterrestres como companheiros no céu, aconteceria que eles, os marcianos, teriam que professar um credo bastante estranho...

REVISTA: Como é isso?

R. P. MESTRE: Consequência lógica. É dogma de fé que ninguém pode se salvar se não tem fé em um Deus único e trino, e além disso na Encarnação redentora. Sobre esse último pesa o argumento.

Esses marcianos creriam sem dificuldade no dogma do Deus uno e no dogma da Trindade, mas o dogma da Encarnação, que não os afetaria nem um pouco, faria um tanto curioso seu “Credo”: “Creio em Jesus Cristo, que se fez homem (o que é isso?) no planeta Terra (onde está?) para redimi-los de seu pecado (e o que eu tenho com isso?) e levá-los ao céu; e que enviou-lhes o Espírito Santo, o qual falou-lhes através dos profetas e das escrituras, e promete ressuscitá-los no fim dos tempos...”, etc., etc.

Em uma palavra: toda a fé que deveriam crer para se salvarem... referir-se-ia a nós, não a eles! O mínimo que se poderia dizer é que tal coisa é sumamente ridícula e inconveniente.

REVISTA: E o que pensar se, ao invés de permanecerem fiéis, tivessem pecado?

R. P. MESTRE: Também aí surgem graves inconvenientes. Por que, se Deus os chamou ao céu e foram infiéis e pecaram – o qual seria probabilíssimo, pois não caíram somente os homens mas também os anjos (os maus) – então não podem entrar na gloria se antes não fossem redimidos...
E essa redenção, ou não a tiveram, e então estariam irremediavelmente condenados – coisa dificilmente conciliável com o ensinamento de Cristo, o bom pastor que, se vê uma de suas ovelhinhas em perigo, deixa as outras noventa e nove em lugar seguro e vai pela perdida –; ou se a tiveram, e também seu “Credo” voltaria a ser estranhíssimo.
Porque Cristo somente pode morrer uma vez, e uma vez ressuscitado já não pode voltar a morrer. Pois então teriam sido redimidos juntamente conosco, sem contar com uma redenção “própria”, e deveriam rezar: “Creio em Jesus Cristo, que me redimiu, venusiano, fazendo-se homem (o que é “homem” para um extraterrestre?) no planeta Terra, do sistema solar da galáxia Via Láctea, e que ali morreu por mim numa cruz, e ali instituiu o sacerdócio que me santifica (quem são esses sacerdotes que me santificam?), e os sacramentos do batismo, da confirmação, da extrema-unção, da eucaristia (que somente os homens podem administrar; não podem fazê-lo os anjos, e pelo mesmo motivo, tampouco os marcianos, a quem Cristo não conferiu o sacerdócio), e enviou-lhes o Espírito Santo (e eu de alguma maneira me aproveito dele)...”

REVISTA: Desculpe, Padre, mas isso excede o limite do crível... É um “Credo” estranhíssimo o “Credo marciano”...

R. P. MESTRE: E, no entanto, é verdade. É assim. Admitida ou suposta uma coisa, seguem-se uma série de consequências, mais ainda, de implicações teológicas, que são completamente inegáveis, por mais extravagantes que pareçam...

REVISTA: Parece mais fácil, então, negar que existam os extraterrestres...

R. P. MESTRE: Independentemente do ponto de vista, tal possibilidade é realmente impossível. Não se pode dizer que quem a afirme seja um herege. No entanto, tem que se enfatizar que não existe nenhum fundamento para aceitá-la, nem na revelação, nem na criação natural, e que por outro lado, traz muitíssimos inconvenientes do ponto de vista filosófico e teológico.

REVISTA: A esta altura, Reverendo Padre, a possibilidade de vida extraterrestre, mais que ficção, parece um verdadeiro absurdo.

R. P. MESTRE: Eu não sei se absurdo, mas é que é inconciliável com o que conhecemos pela revelação. São mais, muitíssimos mais os questionamentos que abre e deixa insolúveis, que as soluções que aporta a qualquer pergunta a respeito.


Pensemos no que ensina São Paulo. O Apóstolo ensina que Cristo, Verbo feito homem, é o centro da Criação, a síntese de toda ela, o fim para o qual tudo – tudo – foi criado; que é vontade de Deus “restaurar tudo em Cristo”, tanto o mundo angélico como o humano. Pergunta-se então: Como se levaria a cabo esta restauração de tudo em Cristo no mundo venusiano, marciano ou extraterrestre? De que maneira eles se veriam ordenados a Cristo? Que sentido tem a existência de outros seres intelectuais distintos do homem, se o fim da criação já se consegue com a entrada do Criador na humanidade, com os mistérios de sua vida humana e com a comunicação de seus merecimentos à raça humana?

Acredito que abrir a possibilidade de crer na existência de outros seres inteligentes no cosmos fosse do homem, e não ver nele nenhuma incompatibilidade com a doutrina católica, como diz o Padre Funes, somente se explica pelo relativismo teológico e religioso ambiente.

Semelhante teoria nasce e conduz inevitavelmente ao relativismo, porque equivale, no pouco ou em todo, ao seguinte: esses bichos, se existem, salvam-se igualmente; podem ser católicos sem Cristo e sem a Igreja; acreditem no que quiserem, estão igualmente orientados a Cristo, ou a Deus, ou ao que seja, de modo não diferente como o estão – segundo se afirma hoje – os protestantes, judeus, muçulmanos, budistas... e até mesmo os ateus!