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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Sedevacantismo, ou uma conclusão à procura de premissas - Parte VI (Final)

Via Capela Nossa Senhora das Alegrias - Vitória - ES


Professor Carlos Ancêde Nougué


9) Pressuposto, assim, tudo quanto se disse até aqui, deve-se dizer agora que a autoridade enquanto poder ou faculdade ativa é um habitus e, por conseguinte, um acidente predicamental; e, como todo acidente predicamental, não pode existir se não é recebido num sujeito. Que sujeito, ou antes, quem governa legitimamente e quem ilegitimamente? Governa legitimamente quem foi eleito legitimamente pela sociedade para receber a autoridade, e que não tem impedimento para recebê-la. Ilegitimamente aquele que tomou ilegitimamente a autoridade, ou por tê-lo feito sem designação legal, ou, ainda que validamente designado, por ter qualquer impedimento para receber a autoridade. Na sociedade civil, a instituição do sujeito da autoridade pertence ao conjunto da comunidade. “Segundo os tomistas em geral [também traduzimos aqui, à letra, uma frase do Padre Donald J. Sanborn], a comunidade inteira tem o direito de instituir ou escolher tanto a forma de governo quanto o sujeito que receberá a autoridade, mas a comunidade não transmite a própria autoridade, como sustentaram alguns, em particular Suárez. A comunidade simplesmente propõe um sujeito de autoridade. Mas é Deus quem dá a autoridade.” Assim, para que o rei, numa monarquia hereditária, receba legitimamente a autoridade, é mister que o povo aceite, pelo menos implicitamente, o sistema monárquico hereditário. Tudo isso, porém, tem que ver com o governo civil; já a constituição da Igreja, por seu lado, provém de Cristo, é imutável e de modo algum depende da aprovação da comunidade de fiéis. E, ao contrário do que se dá na sociedade civil, os elementos essenciais da constituição da Igreja se estabeleceram por disposição divina direta. A forma que lhe deu Cristo é monárquica, e nem o papa, que enquanto vigário de Cristo desfruta da mesma autoridade que Ele, pode alterá-la.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

NOVA E ESCANDALOSA ENTREVISTA AO P. SCHMIDBERGER



ACI Imprensa: O gesto do papa Francisco [concessão de jurisdição para confessar desde 8 de dezembro de 2015 até 20 de novembro de 2016. Nota do NP] foi disposto para o ano da Misericórdia, mas o papa não dirá, depois de 20 de novembro de 2016, que estará revogado? Você espera ainda outros gestos desta natureza, até a respeito de outros sacramentos?

P. Schmidberger: Certamente, uma restrição para o ano da Misericórdia é dificilmente concebível e provavelmente não corresponda ao pensamento do papa. Talvez seguirão até outros gestos da mesma natureza. Mas, a longo prazo, certamente haverá uma normalização definitiva, com uma estrutura canônica para os sacerdotes da FSSPX.

ACI Imprensa: Já seu predecessor, o papa Bento XVI, buscou uma aproximação com a FSSPX. Agora o papa Francisco escreve em sua carta literalmente: “Confio que no futuro próximo se possam encontrar soluções para recuperar a plena comunhão com os sacerdotes e os superiores da Fraternidade”. Como o senhor considera esta declaração?

P. Schmidberger: Certamente, o papa Francisco vê em nossa Fraternidade uma força que pode ajudar na Nova Evangelização pedida por vários setores. Também nossa obra corresponde ao seu pedido de pobreza, nós não recebemos impostos eclesiásticos e nem mesmo o apoio do Estado, senão que apenas vivemos das doações e do espírito de sacrifício de nossos fiéis. Se o papa realmente considera uma estrutura canônica, isto abriria muitas portas para um trabalho mais extenso de nossos sacerdotes do que agora é possível. Sobretudo, podemos ajudar formando uma geração de novos sacerdotes com grande espírito de fé e zelo apostólico.


Texto completo da entrevista (em alemão) aqui.

domingo, 4 de outubro de 2015

Monsenhor Marcel Lefebvre - No entardecer de uma longa vida...



Trechos de “O Itinerário Espiritual”, ou na edição da Permanência: “A Vida Espiritual Segundo São Tomás de Aquino”, de 1989, aos seus sacerdotes.

Festa da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria

(Possui um pensamento mais maduro de Mons. Marcel Lefebvre a respeito do Concílio e seus problemas.)

No entardecer de uma longa vida — já que, nascido em 1905, cheguei ao ano de 1990 — poderia dizer que esta vida se vê marcada por acontecimentos mundiais excepcionais: três guerras mundiais, a de 1914-1918, a de 1939-1945, e a do Concílio Vaticano II de 1962-1965. 
Os desastres acumulados por estas três guerras, e especialmente pela última, são incalculáveis na ordem das ruínas materiais, mas muito mais espirituais. As duas primeiras prepararam a guerra dentro da Igreja, facilitando a ruína das instituições cristãs e a dominação da Maçonaria, a qual chegou a ser tão poderosa que conseguiu penetrar profundamente, por sua doutrina liberal e modernista, os organismos diretores da Igreja.

(…)

A ruptura se acentuava em Roma e fora de Roma entre o liberalismo e a doutrina da Igreja. Os liberais, depois de conseguirem nomear papas como João XXIII e Paulo VI, viram triunfar sua doutrina por meio do Concílio, meio maravilhoso para obrigar toda a Igreja a adotar seus erros.

(…)

O Concílio passa, as reformas se multiplicam tão rápido como podem. Começa a perseguição contra os cardeais e bispos tradicionais, e veloz, em todas as partes, contra os sacerdotes e religiosos ou religiosas que se esforçam em conservar a tradição. É a guerra aberta contra o passado da Igreja e suas instituições. “Aggiornamento, Aggiornamento!”

(…)

O resultado deste Concílio é muito pior que o da Revolução [Francesa]. As execuções e martírios são silenciosos; dezenas de milhares de sacerdotes, religiosos e religiosas abandonam seus compromissos, outros se laicizam, desaparecem os claustros, o vandalismo invade as igrejas, destroem-se os altares, desaparecem as cruzes... os seminários e noviciados se esvaziam.
As sociedades civis que ainda seguiam sendo católicas laicizam-se sob a pressão das autoridades romanas: Nosso Senhor não tem já por quê reinar na terra! 
O ensinamento católico se faz ecumênico e liberal; mudam os catecismos, que já não são católicos; a Gregoriana em Roma se faz mista, e São Tomás já não é a base do ensinamento.

(…)

É evidente que se muitos bispos houvessem atuado como Monsenhor de Castro Mayer, bispo de Campos no Brasil, a Revolução ideológica dentro da Igreja poderia ter sido limitada, pois não há que ter medo de afirmar que as autoridades romanas atuais, desde João XXIII e Paulo VI, foram colaboradores da Maçonaria judaica internacional e do socialismo mundial. João Paulo II é antes de tudo um político filo-comunista a serviço de um comunismo mundial com teor religioso. Ataca abertamente a todos os governos anticomunistas e não contribui em suas viagens com nenhuma renovação católica. 
Entende-se, pois, que as autoridades romanas conciliares se oponham feroz e violentamente a toda reafirmação do Magistério tradicional. Os erros do Concílio e suas reformas seguem sendo a norma oficial consagrada pela profissão de fé do Cardeal Ratzinger, de março de 1989.

(…)

O mal do Concílio é a ignorância de Jesus Cristo e de seu Reino. É o mal dos anjos maus, o mal que encaminha ao inferno. 
Justamente por haver tido uma ciência excepcional do Mistério de Cristo, São Tomás foi proclamado pela Igreja como seu Doutor. Amemos ler e repassar as encíclicas dos Papas sobre São Tomás e sobre a necessidade de segui-lo na formação dos sacerdotes, a fim de não duvidar um instante sequer da riqueza de seus escritos, e sobretudo de sua Suma Teológica, para comunicarmos uma fé imutável e meio mais seguro de chegarem na oração e na contemplação, aos ribeiros celestiais, que nossas almas abrasadas do espírito de Jesus já não deixarão nunca, apesar de todas as vicissitudes desta vida terrena.

(…)

Outra consequência: todas as sociedades que Nosso Senhor criou devem necessariamente colaborar, segundo sua finalidade, para que as almas se tornem católicas e sigam sendo assim, para lhes conseguir a salvação eterna, fim de toda a Criação, fim da Encarnação e da Redenção. 
Estas conclusões são imortais, imutáveis. São a expressão de toda a Revelação, e foram os princípios diretivos de toda a Igreja até o Concílio Vaticano II. 
[A instauração desta “Igreja Conciliar, imbuída dos princípios da Revolução Francesa, princípios maçônicos sobre a religião e as religiões, sobre a sociedade civil, é uma impostura inspirada pelo inferno para a destruição da religião católica, de seu magistério, de seu sacerdócio e do sacrifício de Nosso Senhor. Logicamente, esta nova Igreja não podia mais cantar os louvores de Jesus Cristo, Rei universal das nações, nem pode ter já os pensamentos de Nosso Senhor sobre o mundo; por isso o espírito da Liturgia foi alterado, modificando muitíssimos detalhes tanto nos textos como nos gestos. A nova Igreja, deste então, impede-nos a contemplação do Verbo Encarnado tal como o canta em todas as festas litúrgicas. Devemos a todo custo permanecer fiéis ao espírito da Igreja católica, se queremos nos dar a contemplação dos mistérios divinos, do mistério do Verbo Encarnado, do mistério da Santíssima Trindade.]

(…)

[No entanto, outra das consequências desastrosas do Concílio foi o de tratar de destruir esta espiritualidade tradicional e católica da renúncia, da Cruz, do desprezo pelas coisas temporais, do chamado de levar a própria cruz após Nosso Senhor, para buscar uma justiça social baseada na inveja e o desejo dos bens deste mundo, que lança os povos a lutas fratricidas que multiplicam o número de pobres, quando na realidade a verdadeira espiritualidade é a que converte os corações e os orienta para uma melhor justiça social 
Este mal espírito do concílio, espírito do mundo, invadiu o mundo sacerdotal e religioso, e conduziu a uma destruição do sacerdócio e da vida religiosa sem precedentes. É o grande êxito de Satanás: ter conseguido mediante os homens da Igreja uma destruição que nenhuma outra perseguição havia conseguido.]

(…)

[É difícil medir os estragos espirituais causados pela tendência subjetivista do Concílio, por seu personalismo, que se esforça erroneamente ao fazer a abstração da finalidade da natureza humana, se sua liberdade humana, se sua liberdade finalizada; assim se explica essa exaltação do homem, de seus direitos, de sua liberdade, de sua consciência: humanismo pagão que arruína a espiritualidade católica, o espírito sacerdotal e religioso.].

(...)

O Secretariado para a Unidade dos Cristãos, por meio de concessões mútuas — diálogo —, conduz à destruição da fé católica, à destruição do sacerdócio católico, à eliminação do poder de Pedro e dos bispos; elimina-se o espírito missionário dos apóstolos, dos mártires, dos santos. Enquanto este Secretariado conservar o falso ecumenismo como orientação, e enquanto as autoridades romanas e eclesiásticas continuarem aprovando-o, pode se dizer que seguem em ruptura aberta e oficial com todo o passado da Igreja e com seu Magistério oficial. Por isso todo sacerdote que queira permanecer católico tem o estrito dever de se separar desta Igreja conciliar, enquanto ela não recuperar a tradição do Magistério da Igreja e da fé católica. (Grifos meus)

terça-feira, 21 de julho de 2015

Comentários Eleison CDXVIII (418) - Papas Conciliares V

Por Dom Richard Williamson
Tradução: Andrea Patrícia (blogue Borboletas ao Luar)
18 de julho de 2015

É claro que ao menos a Sua Igreja Deus virá resgatar
Mas os católicos devem, até que fiquem roucos, gritar.


                Os “Comentários” da semana passada foram longe, chegando a sugerir que começar a compreender a mentalidade liberal é importante para manter a Fé nos dias de hoje. Vendo como o liberalismo dissolve a Verdade, entende-se como ele está minando a Fé e destruindo a Igreja. Ao mesmo tempo, vendo como ele corrompe as mentes, compreende-se como os homens da Igreja de hoje estão “diabolicamente desorientados” sem necessariamente estar completamente conscientes de como eles mesmos estão destruindo a Igreja. Então, não é preciso ser nem liberal nem sedevacantista. Vamos dar uma olhada em outro texto clássico de Dom Lefebvre, um trecho do Capítulo XVI, Eles O Destronaram, onde ele examina “A Mentalidade Liberal Católica”:

                “Uma enfermidade da mente. ‘Mais que uma confusão mental, o catolicismo liberal é uma enfermidade da mente’ (Pe. A. Roussel, em seu livro Liberalismo e Catolicismo): a mente é incapaz de permanecer simplesmente na verdade. Não pode afirmar nada sem pensar imediatamente na contra-afirmação que se sente igualmente obrigada fazer. O Papa Paulo VI foi um clássico exemplo de tal mente dividida, de ser um duas caras – podia-se mesmo ler fisicamente em suas feições –, em perpétuo balanço entre duas posições contraditórias e levada por um movimento pendular, oscilando regularmente entre a Tradição e a novidade. A isso não chamariam alguns de esquizofrenia intelectual?

                Penso que o Pe. Clérissac viu mais profundamente a natureza dessa enfermidade. Ela é uma falta de integridade da mente (O Mistério da Igreja, Capítulo VII), de uma mente sem suficiente confiança na verdade...  Quando o liberalismo prevalece, essa falta de integridade da mente mostra-se psicologicamente em duas claras características: liberais são maleáveis e ansiosos: maleáveis porque facilmente assumem o estado de espírito daqueles que estão ao seu redor; ansiosos porque, pelo medo de contrariar esses diferentes estados de espírito, estão continuamente preocupados em justificarem-se a si mesmos; parecem sofrer das dúvidas contra as quais eles mesmos combatem; não têm confiança suficiente na verdade; estão preocupados em justificar sua posição, demonstrando, adaptando ou até mesmo se desculpando.

                Muito preocupados em estar em harmonia com o mundo; desculpando-se! São boas colocações. Eles querem desculpar-se por todo o passado da Igreja: pelas Cruzadas, pela Inquisição, etc. Quando justificam e demonstram, fazem-no muito timidamente, especialmente quando se trata dos direitos de Jesus Cristo; e então buscam adaptar-se ao mundo, e eles o fazem, pois é seu princípio básico. Eles partem do que consideram ser um princípio prático, e de um fato que consideram inegável, a saber, que a Igreja não pode ser concebida nas circunstâncias atuais, nas quais ela tem de cumprir sua missão divina, sem que esteja em harmonia com elas”.

                Desde o tempo de Pe. Clérissac e de Dom Lefebvre, a dissolução das mentes e corações pelo liberalismo só tem feito grandes avanços. No século XXI, há ainda menos traços do antigo sistema de verdades objetivas e de moralidade objetiva que havia no século XX. Assim, a adaptação da Igreja ao ambiente torna-se cada vez mais mortal para a Fé e para a moral católica, que não são nada se não forem objetivas. Como temos sofrido por causa de uma mente que alterna continuamente afirmações e contra-afirmações, uma mente continuamente ansiosa para convencer a ambas as partes, completamente opostas uma a outra, para reconciliar o que é irreconciliável – uma mente que carece não apenas de confiança na verdade, mas até mesmo, tal como parece, de qualquer conhecimento da verdade –, por essa mesma mente poder fazer uma imitação tão boa da verdade! Costumava-se dizer antigamente que uma mente assim pertenceria a um “mentiroso”. E hoje?

                Podemos apenas gritar como o Salmista: Senhor, vossos próprios católicos tornaram-se motivo de zombaria para os não católicos. Por Vossa própria honra e glória, apressai-Vos em resgatar-nos!

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Dom Fernando Arêas Rifan, por Dom Tomás de Aquino OSB

Postado em
Missão Sagrada Família


SUPLEMENTO
Nº 7
Dom Fernando Arêas Rifan




Dom Fernando Rifan sempre foi um líder. Dotado de uma viva inteligência e de contato fácil, ele não teve dificuldades para conquistar a admiração e a confiança de todos.

Ordenado em 1974 por Dom Antônio de Castro Mayer ele não demorou a tornar-se o secretário do bispo de Campos.

Em 1980, por ocasião da minha ordenação, o Rev. Pe. Fernando Rifan encontrou um meio de ir a Ecône. Aproveitando-se de uma visita ad limina que Dom Antônio fazia naquela ocasião, o Rev. Pe. Rifan também visitou nosso mosteiro na França e Dom Gérard logo discerniu nele um futuro bispo. Os acontecimentos darão razão a Dom Gérard, mas de modo bem diferente que se poderia esperar naquela época. Mas não antecipemos.
No Brasil o Pe. Fernando fora solicitado pelos fiéis de Permanência para rezar a missa no Rio. Num simpático diálogo entre o Pe. Fernando Rifan e o Dr. Júlio Fleichman, foi selada uma cooperação entre Campos e a Permanência.


- “Não podemos tirar o pão dos nossos fiéis de Campos para dar aos do Rio”, argumentou o Pe. Rifan que queria evitar este apostolado fora da diocese de Campos. Campos sempre se ressentirá de um certo legalismo que limitará a ação de Dom Antônio de Castro Mayer e de seus padres.
- “Mas os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos filhos”, respondeu o Dr. Júlio que, com esta bela resposta, ganhou a partida.
Campos começou então a atender os fiéis do Rio e quando Santa Cruz foi fundado, em 1987, Campos pensou em nos confiar este apostolado. Consentimos somente numa colaboração, pois não queríamos assumir uma responsabilidade que poderia perturbar a regularidade de nossa vida monástica. Nosso apostolado, segundo nosso fundador, o Rev. Pe. Muard, deve ser mais o das missões do que o das paróquias.

Assim foi até 1989 ou 1990, quando Dom Lourenço assumiu o apostolado no Rio ao qual foi acrescentado, em seguida, o de Niterói.

Mas antes se deram as sagrações de 1988. Numa bela manhã, Dom Antônio de Castro Mayer tomou uma decisão que pegou de surpresa os seus padres. Ir a Ecône para as sagrações. Esta decisão partiu dele mesmo, como o Pe. Possidente repetiu em várias ocasiões. O Pe. Fernando o acompanhou, bem como os Rev. Padres Possidente e Athayde. Na cerimônia de sagração o Pe. Fernando traduziu o pequeno sermão, ou melhor, a profissão de fé que Dom Antônio fez para justificar sua presença naquela cerimônia e declarar publicamente seu apoio à obra de Dom Lefebvre. Este pequeno sermão marcou profundamente aqueles que o escutaram.

Depois das sagrações Dom Antônio e seus padres partiram para o Barroux onde eles não puderam entreter-se com Dom Gérard como desejavam. Dom Gérard os evitava deixando assim perceptível para que lado ele estava inclinado. Saindo do Barroux o Pe. Rifan deixou uma carta a Dom Gérard sobre a imensa confusão e decepção que um acordo entre o Barroux e Roma provocaria na Tradição.



Quando, no Brasil, recebemos a notícia dos acordos entramos em contato com Dom Lefebvre e Dom Castro Mayer para nos orientar sobre o que era mais prudente fazer. O Pe. Rifan, nestas horas difíceis, serviu de intermediário, para nos comunicar os conselhos de Dom Antônio. Sua Excelência e os padres propunham que fechássemos Santa Cruz e nos instalássemos na diocese de Campos. Uma carta de Dom Lefebvre nos fez tomar uma decisão diferente: não entregar o mosteiro e fazer uma declaração pública, expondo as razões de nossa ruptura com Dom Gérard. Os bens da Igreja pertencem ao Cristo Rei, não se deve deixar que caiam nas mãos dos inimigos de Seu reino universal. O Pe. Rifan veio a Nova Friburgo com o Pe. Tam ajudar-nos a redigir esta declaração.
Posteriormente ele voltou mais uma vez para falar sobretudo com Dom José Vannier, que tomara o partido de Dom Gérard mas que tinha consideração pelos padres de Campos. Os Rev. Padres Possidente e Rifan falaram com Dom José, mas sem resultado.

Alguns dias mais tarde, o próprio Dom Gérard apresentou-se ao mosteiro com Dom Emmanuel Butler para tentar reaver o mosteiro. Padre Fernando esteve novamente aqui para nos ajudar nas discussões que tivemos com Dom Gérard. Expressamos aqui nossa gratidão por toda aquela ajuda dada a Santa Cruz que contrasta tanto com o que ele faz hoje.

Logo após estes acontecimentos, ou um pouco antes, o Pe. Rifan veio nos ajudar numa missão em nossa região, com toda sua experiência na matéria. Ao fim da missão plantamos uma cruz com a inscrição « Salva tua alma ».
Os laços entre nós e o Pe. Fernando aumentaram ainda mais por ocasião duma viagem a Alemanha para obter ajuda para o mosteiro e para a paróquia do Rev. Pe. Rifan. Passando por Ecône, Dom Lefebvre nos recebeu com a gentileza que lhe era característica e colocou no bolso do Pe. Rifan uma ajuda substancial para a compra de um terreno onde se construiu uma igreja, a mesma onde, atualmente, ele defende a submissão ao Vaticano II e aos decretos litúrgicos da Igreja Conciliar. Que diria Dom Lefebvre se pudesse prever tão mal uso de sua generosa ajuda?

Depois da morte de Dom Antônio uma questão urgente se impôs aos padres de Campos. Quem substituiria Dom Antônio? Isto já poderia ter sido feito em 1988, mas Campos deixara passar a ocasião. Depois de algumas deliberações o clero fiel decidiu escolher um bispo, e um pequeno “conclave” se reuniu. Dom Antônio indicara, antes de sua morte, dois nomes: o Rev. Pe. Emmanuel Possidente e o Rev. Mons. Licínio Rangel. Pode-se supor que o Rev. Pe. Rifan não tinha pois as preferências de Dom Antônio de Castro Mayer.

O Rev. Mons. Rangel foi escolhido. A sagração de Dom Licínio Rangel realizou-se na cidade de São Fidelis, em 28 de julho de 1991. O bispo consagrante foi Dom Tissier de Mallerais, assistido por Dom Williamson e Dom Galarreta. Apesar do respeito que se tinha por ele, Dom Rangel jamais pertenceu ao trio dirigente do clero de Campos. Os Rev. Pe. Possidente, Rifan e Athayde tinham uma influência que limitava um pouco a ação de Dom Rangel, que era de temperamento bastante reservado e um pouco tímido. Não há nada de pejorativo nisto que é dito aqui de Dom Licínio ou dos três padres mais influentes de sua diocese. Isto é simplesmente um fato. Ele pode talvez explicar, em parte, os acontecimentos que se seguiram.

Convidado pela Fraternidade São Pio X para pregar o retiro sacerdotal que precedeu o Capítulo Geral onde Dom Fellay foi eleito, em 1994, para suceder ao Rev. Pe. Schmidberger, o Rev. Pe. Rifan tornou-se cada vez mais uma referência na Tradição. Assim, quando a Fraternidade entrou em contato com Roma depois do Jubileu de 2000 e convidou Campos para participar, o Pe. Rifan foi escolhido para representar Campos nestas entrevistas. O drama de Campos ia começar.

Quando as condições apresentadas por Roma pareceram inaceitáveis por parte da Fraternidade São Pio X, Campos preferiu não dar marcha ré. É difícil de estabelecer qual é a responsabilidade exata de uns e outros nestes acontecimentos. O que pode-se afirmar com certeza é que o Pe. Fernando tornara-se o homem da situação. Ainda que obedecendo às diretivas de Dom Rangel, ele era o único interlocutor presente em Roma durante as negociações. O Pe. Rifan, deve-se notar, já tinha depois de certo tempo contatos cada vez mais freqüentes com os progressistas e tinha também o costume de obter permissões para rezar a missa de São Pio V nos locais que pertenciam aos adversários. Embora isto não seja necessariamente um mal, isto foi, creio, uma abertura que contribuiu para a queda do Pe. Fernando e de toda a diocese. O simples contato com estes homens imbuídos de modernismo e liberalismo foi o ponto de partida desta queda? Vale à pena fazer-se esta pergunta.

Para a grande decepção dos católicos de todo o mundo, Dom Rangel assinou um acordo com Roma na catedral da cidade de Campos no dia 18 de janeiro de 2002, na presença do Cardeal Castrillon Hoyos; do bispo titular de Campos, Dom Roberto Guimarães, e de outras personalidades do mundo eclesiástico. Foi a sentença de morte da Tradição em Campos, embora o Pe. Fernando repetisse que não se tratava de um acordo, mas de um reconhecimento. Todos os fiéis aceitaram os acordos, enganados por seus padres que, por sua vez, enganaram-se a si mesmos. Na verdade nem todos os fiéis aceitaram estes acordos, mas os que resistiram foram verdadeiramente o “pusillus grex”. Entre eles deve-se destacar aqui o Sr. Hirley Nelson de Souza.

Dom Licínio, atacado por um câncer, faleceu pouco depois, e o Rev. Pe. Rifan o sucedeu à frente da Administração Apostólica, nascida dos acordos com Roma. Sagrado pelo cardeal Hoyos, Dom Fernando revelar-se-á o “ralié”[1] por excelência. Tornando-se amigos de nossos inimigos, ele percorrerá todas as dioceses, abraçando aqueles que outrora ele atacava com um ardor que os progressistas não esquecerão tão cedo. Com a mudança de lado, Dom Rifan vai acumular as provas da sinceridade de seu “alinhamento”[2]. Como disse Abel Bonnard: “Um “ralié” nunca é bastante “ralié” ”. A autoridade do Vaticano II; a legitimidade da missa nova; a obrigação de se submeter ao “magistério vivo” dos Papas liberais; a condenação de Dom Lefebvre, considerado como um cismático: tudo isso Dom Fernando Rifan foi obrigado a aceitar e proclamar.



Todavia, não era isto que os padres de Campos queriam, nem o que eles haviam dito aos fiéis, nem mesmo o que eles haviam dado a entender ao Cardeal Castrillon Hoyos. Prova disso, a declaração que eles redigiram, na qual afirmaram sua determinação de continuar o combate contra o liberalismo, o modernismo e o progressismo que inspirou o Vaticano II. O Cardeal Hoyos, depois de ler a declaração, fez a seguinte reflexão que um dos padres de Campos me relatou: “Sim, foi o que nós combinamos. Mas não é necessário dizer tudo isto. Basta declarar que os senhores farão críticas construtivas conforme permite o Código de Direito Canônico”. “Depois disto, disse o mesmo padre, nosso combate terminou”. Seja por medo de contristar o Papa ou o Cardeal Hoyos, seja por falta de convicção, ou por causa de uma fé abalada, ou por medo de Dom Fernando Rifan, ou por qualquer outra razão, o fato é que Campos tornou-se semelhante a um cachorro mudo. A Roma modernista não tem nada a recear da parte destes padres, apesar deles terem sido formados na escola de um dos grandes bispos do século XX, que se opôs energicamente aos erros modernos. Como explicar isto? Sem querer penetrar no fundo dos corações e ir além daquilo que os fatos nos revelam, penso que, certamente, o contato com as autoridades que não professam a integridade da fé católica só pode levar, pouco a pouco, aqueles que se submetem a elas a compartilhar de suas idéias e de seu modo de ser. Dom Lefebvre alertara o bastante a Dom Gérard sobre isto. Em Roma não se faz o que se quer, mas o que Roma quer. Dom Gérard não levou isso em conta; Dom Fernando, menos ainda.
Mas, da própria diocese é que viria a reação. Os próprios fiéis perceberam com o tempo que alguma coisa estava mudando. Eles apelaram para o mosteiro, e Dom Antônio-Maria foi rezar uma missa para eles numa fazenda que tem o belo nome de Santa Fé. Dom Fernando ficou furioso. Ele reuniu os “culpados” e lhes advertiu duramente.
-“Ai dos senhores, se trouxerem aqui novamente um padre do mosteiro ou da Fraternidade!”
-“Excelência, respondeu um camponês que conhecera Dom Castro Mayer, isto depende só do senhor. Se o senhor perseverar na nova direção que escolheu, eu chamarei, todos os anos, um padre da Fraternidade ou do mosteiro para fazer minha Páscoa, eu e minha família.”
Dom Rifan não pôde obter nada daqueles valorosos camponeses, que atualmente, nas grandes festas, são mais de 250 numa pequena igreja construída por eles, onde os padres da Administração não põem mais os pés.

Para terminar, observemos somente que Dom Fernando hoje concelebra com os bispos progressistas e diz que recusar sistematicamente a rezar a Missa Nova é uma atitude cismática. É o que chamamos de traição: ação de faltar com a fidelidade que se deve ter aos princípios católicos, pois eles nos foram confiados pela Santa Igreja, ou seja, por Nosso Senhor. É uma constatação, nada mais. Se se prefere uma outra definição de traição, pode-se aplicar-lhe esta: crime de uma pessoa que passa para o lado do inimigo. É duro, mas é um fato. Todo mundo pode constatar. Que Deus nos preserve de fazer o mesmo, nós que, por nossa fragilidade, podemos cair ainda mais baixo. Atualmente Dom Rifan é amigo daqueles que condenaram Dom Lefebvre e Dom Antônio. Ele chama João XXIII e João Paulo II de beatos. Ele é amigo dos liberais, daqueles que destronaram Nosso Senhor e que promovem a descristianização da sociedade.

Que Nosso Senhor e sua Mãe Santíssima nos preservem de perder a herança que nos foi legada com tanto sofrimento por Dom Marcel Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer, a qual não é senão aquela de que falava São Paulo: “Eu transmiti o que eu recebi” (I Cor. 11, 23)


Ir. Tomás de Aquino O.S.B.

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[1] “Ralié”. Nome que os franceses deram aos que, seguindo diretivas de Leão XIII, aceitaram trabalhar com o governo republicano e maçom da França, no século XIX. As diretivas de Leão XIII se revelaram imprudentes, e os melhores católicos franceses se recusaram a segui-las. Este mesmo governo francês depois expulsou as ordens religiosas do país, obrigando-as a emigrarem para o exterior.
[2] Traduziremos assim o termo “ralliement”, e para “ralié” manteremos a forma francesa.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Sedevacantismo, ou uma conclusão à procura de premissas - Parte V


A TESE DE CASSIACUM

Vale, sem dúvida, para a chamada Tese sedevacantista de Cassiciacum o já dito nas partes I e II deste artigo com respeito ao sedevacantismo em geral: tem ela por ponto de partida a conclusão de que um herético não pode ser cabeça da Igreja. Ora, a partir do Concílio Vaticano II todos os papas se mostraram heréticos; logo, pelo menos desde então a Sede Romana está vacante por defeito de autoridade.

Tal raciocínio se segue, como já dito, da forte impressão causada no espírito de fiéis católicos pelas novidades introduzidas a partir do Concílio Vaticano II, novidades que se chocam frontal e patentemente com o declarado pela totalidade do magistério anterior. Acontece, todavia, que ambas as premissas deste raciocínio são tênues: a primeira porque seria necessário averiguar, antes, se qualquer espécie de heresia impede de fato o ser cabeça da Igreja; a segunda porque, como se verá na refutação da Tese de Cassiciacum, implica um argumento quiainválido para o assunto de que aqui se trata.

Ou seja, entre tais premissas e aquela conclusão há saltos lógicos que tornam frágil o raciocínio. Não obstante, ainda que sabedor disso, o dominicano e bispo francês Michel Louis Guérard des Lauriers (1898-1988), o autor da Tese de Cassiciacum, não buscou investigar profundamente suas premissas iniciais, mas aferrou-se à sua conclusão e saiu em busca de outras premissas, mais sólidas, para ela. Como se dá com todas as outras formas de sedevacantismo, trata-se, na prática, de conclusão apriorística. Como porém chegou ele, de fato, a outra premissa maior, passou a seguir-se dela aquela mesma conclusão, sim, mas algo alterada: já não se trata de que os Papas pós-conciliares simplesmente não sejam Papas; de fato, não o são formalmente (formaliter), mas continuam a sê-lo materialmente (materialiter). Ora, aquela nova premissa maior (a menor permaneceu, obviamente encerrando ainda o já referido argumento quia) encerra, como também já antecipado, uma imprópria e obscura analogia da autoridade (e particularmente da autoridade papal) com o composto humano de corpo e alma.

Essencialmente menos complexa que a tese sedevacantista decorrente da obra A Figura deste Mundo, de Pacheco Salles, a Tese de Cassiciacum, porém, é não só essencialmente bem mais complexa que a dos sedevacantistas que para justificar sua posição se aferram à Bula Cum ex Apostolatus Officio, do Papa Paulo IV, mas muito mais complicada que a primeira tese. Com efeito, as próprias analogias impróprias com a filosofia da natureza de que se tece a Tese de Cassiciacum a tornam intricada e obscura, e duplamente mais trabalhosa de refutar: primeiro, precisamente porque se tem de deslindar (na medida do possível) tal obscuridade; segundo, porque se tem de mostrar que aquelas mesmas analogias, supostamente fundadas na obra de Santo Tomás e na de uma multidão de outros respeitados teólogos, em verdade não se fundam nelas. Por isso, ademais, se para bem refutar qualquer tese adversária é preciso antes expô-la o mais fidedignamente, a exposição da Tese de Cassiciacum já requererá de nós e do leitor um bom e longo esforço, que tomará duas partes deste artigo (esta e a da próxima semana). Comecemos, então, a expô-la: [1]

terça-feira, 21 de abril de 2015

O Discurso da Neo-FSSPX

Tradução: Cristoph Klug


Quantos homens hoje em dia pensam levar ao mundo uma vida nova, a uma era melhor e o conduzem à sua perdição”, disse Blanc de Saint-Bonnet. Assim parece estar ocorrendo hoje com a Neo-FSSPX.

Do excelente livro do Cardeal Billot “O erro do liberalismo”, tomamos as seguintes citações, de onde se tomam palavras dos mesmos liberais, que os caracterizam muito bem. Aplicamos com letras maiúsculas aquilo que bem poderia dizer hoje a cúpula diretriz da Neo-FSSPX, tendo em conta seu discurso e posição perante Roma hoje:

Billot:

“A liberdade PARA A FSSPX é a que restituirá na frente augusta da Igreja a coroa perdida; na liberdade DA FSSPX COM STATUS CANÔNICO DENTRO DA IGREJA se deve confiar como em uma amiga fiel e da liberdade não há que se apartar por princípios a priori, que devem ser desprezados integramente – isso sim, com toda reverência – em sua região ideal.”

Cita Veuillot:

“Católicos intolerantes RESISTENTES, vós sois já mais absolutos que Deus Pai, que criou o homem para a liberdade; mais cristãos que Deus Filho, que não quis estabelecer sua lei senão pela liberdade; ei-vos aqui agora mais católicos que o Papa A QUEM NÃO RECONHECEIS, pois o Papa consagra, aprovando-as, as constituições modernas, que estão todas inspiradas e repletas do espírito de liberdade E ISSO É O QUE RECLAMAMOS, NOSSO DIREITO À LIBERDADE DENTRO DA IGREJA. Digo que o Papa, o Vigário de Jesus Cristo, aprova essas constituições, já que se permite prestar-lhes juramento, obedecê-las e defendê-las. No entanto, a liberdade de cultos está ali, o ateísmo de Estado está ali, NÓS ACEITAMOS OS PRINCÍPIOS LIBERAIS EM NOSSAS ESCOLAS E 95% DO VATICANO II. É preciso passar por isso POIS ESPERAR QUE ROMA VENHA A SE CONVERTER NÃO É SER REALISTA, vós igualmente passareis, não duvidem. Então, por que forçais? Vossa resistência é vã; vossos lamentos não são só insensatos, mas também funestos. Fazem com que odeiem a Igreja e nos impedem muito a nós, liberais CATÓLICOS TRADICIONALISTAS, vossos salvadores, fazendo com que suspeitem de nossa sinceridade AO REALIZAREM ESTA CONSAGRAÇÃO EPISCOPAL. Ao invés, pois, de atrair sobre vós uma derrota certa e provavelmente terrível, corram à liberdade QUE NOS OFERECE ROMA, saudando-a, abraçando-a, amando-a. Ela será uma boa e fiel amiga de vós, e vos dará mais do que jamais poderiam conseguir, POIS AMPLIARÁ VOSSO APOSTOLADO, LIBERANDO-VOS DE COMPLICAÇÕES. (...) O que não empreenderá a Igreja FRATERNIDADE quando puder empreender tudo? Quanto não tocará os corações dos povos, quando a verem abandonada dos poderes do mundo, a viver unicamente de seu gênio e de suas virtudes? Em meio à confusão das doutrinas, dos excessos dos costumes, ela aparecerá como a única pura, a única afirmada no bem. Ela A FRATERNIDADE será o último refúgio, o baluarte inexpugnável da moral, da família, da religião, da liberdade!” (A ilusão liberal, cap. 2)

quinta-feira, 12 de março de 2015

Sedevacantismo, ou uma conclusão à procura de premissas - Parte IV


Professor Carlos Ancêde Nougué

 
Passar-se-á, agora, a responder a cada item da exposição que fizemos da tese de A Figura deste Mundo, de Pacheco Salles. (Essa exposição, numerada, se encontra na Parte II deste artigo, neste mesmo site.) O objetivo de tais respostas particulares é não deixar sem esclarecimento nem sequer o que não é central na tese adversária, e isso porque, conquanto não central, nem por isso deixa de ter importância e conexão no conjunto da tese.


1) Em resposta ao item 1, deve-se dizer que pela graça santificante certamente se dá um novo nascimento, o do novo homem em Cristo (“Não te maravilhes de ter dito: Necessário vos é nascer de novo. O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai: assim é todo aquele que é nascido do Espírito”, Jo., III, 7-8; “sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre”, I Ped., I, 23; “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram: eis que tudo se fez novo”, II Coríntios, V, 17); assim como também certamente a fé teologal é infalível em seu ato interno (cf. Santo Tomás, Suma Teológica, II-II, q. 1, a. 3). Sucede todavia que como esse ato é, nesta vida, essencialmente indiscernível de qualquer disposição natural que se lhe assemelhe (cf. nossa Refutação, e especialmente Padre Álvaro Calderón, A Candeia Debaixo do Alqueire, p. 290), para que saibamos com toda a certezaem que devemos crer — e pois o que é o erro ou heresia —, as verdades de fé têm de ser propostas por um mestre infalível em seu ato externo: Nosso Senhor Jesus Cristo e o Magistério da Igreja, este como prolongamento d’Aquele e cingido aos princípios de fé dados pela Revelação e pelo Traditum.

2) Em resposta ao 2, deve-se dizer que a afirmação segundo a qual “a fé teologal e a graça santificante são a essência mesma do Cristianismo, e delas depende tudo o mais”, já em si mereceria reparos: porque, com efeito, não é possível a caridade não ser da essência mesma da vida do cristão, se é ela “o vínculo da perfeição” (Col., III, 14); se “ainda que eu tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e tivesse toda a fé, até o ponto de transportar montes, se não tiver caridade, não sou nada” (I Cor., XIII, 2; grifo nosso); se agora “permanecem [...] a fé, a esperança e a caridade; porém a maior delas é a caridade”, que “nunca há de acabar” (I Cor., XIII, 13 e 8); enquanto passarão, no céu, não só as profecias e a esperança, mas a própria fé. Quanto ao que aqui mais importa, porém, o fato é que o fim da civilização cristã, a partir do século XIII, se deveu não a um crescente culto do dever em geral e a uma crescente obediência cega às autoridades da Igreja, e sim a um crescente culto do dever meramente político e a uma crescentemente exclusiva obediência às autoridades temporais — em detrimento não só do verdadeiro dever de religião para com Cristo, mas do devido assentimento e obediência a seu Vigário. É bem verdade que mesmo a defesa católica, incluída a tomista, contra tal tendência aceitou defender a moral no novo terreno perigosamente subjetivo da consciência: “Embora”, escreve o Padre Calderón em Concilio Vaticano II: la religión del hombre, “sustentassem a legitimidade da sabedoria cristã como regra de conduta, deixaram que se estabelecesse a consciência como regra imediata, o que, conquanto não chegue a ser falso, é desnecessário e inconvenientemente expresso. Pois bem”, prossegue o Padre, “à medida que a crítica que o pensamento moderno e as novas ciências faziam à teologia e à filosofia escolástica foi ganhando terreno, introduzindo o veneno do subjetivismo, o tribunal interior da consciência ia livrando-se da tirania da teologia, abrindo as portas para relativismo moral.” Mas uma coisa é reconhecê-lo, e reconhecê-lo como algo que conduziria ao Concílio Vaticano II, o que é de todo correto; outra, muito diferente, é atribuir à docilidade e obediência ao magistério da Igreja tal efeito, o que, por quanto vimos, é de todo falso.

3) Em resposta ao 3, deve-se dizer que sem dúvida a graça não é um mero auxílio ao bom comportamento e ao combate aos vícios e paixões; mas não deixa de sê-lo também, e em alto grau; e, se nos ordena ela, antes de tudo, a prestar a devida glória a Deus, ordena-nos também a que tenhamos a devida docilidade e obediência ao magistério da Igreja, que, como vimos na “Refutação da primeira ideia básica da tese adversária”, é a regra próxima da fé. A fé, obviamente, não decorre da obediência, dando-se antes o inverso; mas, com respeito ao magistério da Igreja, a implica. Ora, a heresia protestante minou a fé solapando, antes de tudo e precisamente, sua ordenação à docilidade e obediência ao magistério da Igreja, porque, com efeito, a esse solapar leva não só o princípio luterano da sola scriptura, mas também o do livre exame, pelo qual, precisamente, se “atribui o carisma da infalível verdade à fé individual” (P. Calderón, ibid., p. 291). Vê-se, pois, em que ponto e de que modo se tocam a tese sedevacantista aqui tratada e a heresia luterana (mas veremos que, em última instância, todas as versões do sedevacantismo têm este ponto de contato com o protestantismo).

4) Em resposta ao 4, deve-se dizer que, se a razão formal da fé de fato não é propriamente a autoridade do magistério eclesiástico, mas a mesma autoridade divina e sua Revelação (Santo Tomás, Suma Teológica, II-II, q. 1, a. 1, corpus: “[...] pois a fé de que falamos não dá seu assentimento a algo que não seja revelado por Deus [...]”; Suma contra os Gentios, I, IX, 3 (53): “Ora, não cremos em verdades que excedam a capacidade da razão humana se não tiverem sido reveladas por Deus)”, permanece, todavia, o fato já firmado de que é o magistério da Igreja a regra próxima da fé. Em outras palavras: não podemos crer senão no que a Igreja afiança tratar-se de verdade divinamente revelada (Santo Tomás, Suma Teológica, II-II, q. 1, a. 10, corpus: “Tem autoridade para fazê-lo [ou seja, para publicar um Símbolo da fé] quem pode determinar em última instância o que é de fé, para que todos possam a ela aderir de maneira inabalável. Isso, todavia, é da alçada do Sumo Pontífice [...].”) Não é pois verdade que o tomar o magistério da Igreja como regra próxima da fé “reduz a fé teologal a mera fé humana”; antes pelo contrário, é o que assegura tratar-se de fé efetivamente sobrenatural e não meramente humana. E, se por um lado é a fé sobrenatural “a única que salva”, por outro lado, repita-se, só o magistério da Igreja nos pode afiançar que se trata de fé teologal, e não de nenhuma contrafação sua.

5) Em resposta ao 5, deve-se dizer que efetivamente, como estabelece Santo Tomás de Aquino, toda e qualquer virtude é a perfeição de determinada potência. Assim, como diz a tese adversária, qualquer ato da potência intelectiva, potência que tem por objetivo a verdade, será bom se alcançar a verdade; em outras palavras, não tornarão virtuosa a inteligência humana senão os atos seus que alcancem o verdadeiro.

6) Em resposta ao 6, deve-se dizer que de fato nossa inteligência não tem capacidade de conhecer infalivelmente ou com certeza as verdades divinas; com efeito, não as puderam conhecer assim, ou seja, infalivelmente ou com certeza, nem sequer homens como Platão e Aristóteles. Também é verdade, como já dito, que enquanto virtude teologal infusa a fé é infalível em seu ato interno, ou seja, na adesão da inteligência às verdades divinas; mas, como também já visto, não é verdade que seja tal ato ou adesão o que torna discerníveis ou certas aos homens as verdades de fé, porque o que as torna discerníveis ou certas é a regra próxima da fé: o magistério da Igreja. Por outro lado, ao contrário do que faz a tese adversária, deve-se falar de todo diferentemente quando se trata dos anjos ou de comparar o intelecto humano e o angélico; peca a tese adversária por simplificação “angelista”, um pouco à maneira não só de um Jacques Maritain, mas até de um Descartes ou de um Malebranche. Sim, porque (e citemos extensamente, uma vez mais, o Padre Calderón, ibid., pp. 288-289), “naturalmente, [de potentia absoluta] Deus poderia ter proposto [aos homens] as verdades de fé por uma locução interior tal, que fosse por si mesma critério evidentíssimo e infalível do caráter revelado de tal verdade, como ocorreu de fato com os anjos. No primeiro instante de sua criação, os anjos ainda não tinham a luz da glória, mas a luz da fé pela qual deviam crer em certas verdades reveladas por Deus. Pois bem, nem sequer a natureza angélica pode conhecer a essência sobrenatural do ato de fé; se cada anjo sabia com toda a certeza aquilo em que objetivamente devia crer, é porque a autoridade imediata de Deus formou sobrenaturalmente em sua inteligência certas espécies ao modo de revelação interior. Mas para os homens não convinha essa maneira de revelação, porque ela vai contra sua natureza social. É próprio de homem chegar à verdade ensinado pelo magistério oral de suas autoridades naturais. Daí que Deus, que faz tudo com ordem, nos tenha feito chegar sua revelação não por locução imediata interior, mas por mediação da palavra de mestres dotados de sua mesma autoridade divina”. Assim é que, se de fato, como diz a tese adversária, sem aquela adesão da inteligência às verdades de fé não se ordenaria o homem a seu fim sobrenatural, nem por isso, e muito ao contrário do que diz a referida tese, tal adesão não se dá por uma suposta “ciência infusa” ao modo angélico, nem o cristão é provido da prerrogativa de inerrância no que diz respeito a quanto necessita para a sua salvação senão enquanto adere aos dados da fé mediante a regra próxima desta, que por própria dotação e assistência divina é o mesmo carisma magisterial da Igreja.

7) Em resposta ao 7, deve-se dizer que sem dúvida os fiéis devem lutar por sua fé, razão por que, como diz Santo Tomás, Deus não os deixa cair em erro (“si nos fecerimus quod in nobis est [...] Deus non deficiet nobis ab eo quod nobis est necessarium”, De veritate, q. 14, a. 2). Aquela luta convém com o nosso livre-arbítrio, que não é suprimido pela graça (assim, Nossa Senhora não deixa de exercer seu livre-arbítrio ao dizer “Eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a vossa palavra”, ainda que fosse imperiosa e ineludível a graça de que era cheia para poder ser a Mãe de Deus); enquanto este “não deixar cair em erro” convém com a graça divina (imenso mistério: tudo é graça, mas permanece o livre-arbítrio; e, conquanto a predestinação dos eleitos seja anterior à previsão de seus méritos, nem por isso deixa de dizer São Pedro (II, I, 10), para explicar que os méritos são causa não da predestinação, mas sim da salvação efetiva: “Portanto, irmãos, ponde cada vez maior cuidado em tornardes certa a vossa vocação e eleição por meio das boas obras, porque fazendo isto não perecereis jamais”). Mas nada disso implica nenhum “instinto” da fé ou, em outras palavras, nenhum sensus fidei individual certo sem confirmação do magistério da Igreja, “instinto” que como já vimos é de corte luterano; implica, porém, a docilidade ao mesmo magistério da Igreja, o único que, como regra próxima da fé — e ao contrário do que diz a tese adversária —, é capaz de fazer ter certeza com relação aos artigos e sutilezas da fé e, pois, de fazer evitar ou rejeitar os erros com respeito a eles.

8) Em resposta ao 8, deve-se dizer que, obviamente, sem professar a existência de Deus ninguém pode professar nenhuns artigos e sutilezas da fé. E, se o afirmar a existência de Deus pertence antes aos preâmbulos da fé, Deus mesmo no-la revelou porque, no estado de natureza ferida, o obscurecimento ou enceguecimento de nosso intelecto por defeitos físicos ou pelas paixões nos pode levar até ao próprio ateísmo (Santo Tomás, Suma Teológica, I, q. 1, a. 2: “Até com relação ao que a razão humana pode investigar a respeito de Deus era preciso que o homem também fosse instruído por revelação divina. Com efeito, a verdade de Deus, investigada pela razão humana, chegaria apenas a poucos [indivíduos], e depois de longo tempo, e com mescla de muitos erros [...]: no entanto, do conhecimento desta verdade depende a salvação do homem, que se encontra em Deus. Para que a salvação, portanto, chegasse aos homens conveniente e certamente, foi necessário que eles fossem instruídos sobre o divino por revelação divina”). Naturalmente, esse mesmo ato de professar a existência de Deus e seus corolários pode dar-se e se dá no interior de almas individuais; com efeito, dissemos nós na “Refutação da primeira idéia básica da tese adversária”: “Imagine-se a robustez da fé de que Deus dotou um Santo Agostinho ou um Santo Tomás de Aquino, e entender-se-ão em parte os fulgores de inteligência dos mistérios divinos que lhes saíam da mente como em cascata.” “Mas o católico”, prosseguíamos, “incluindo Santo Agostinho e Santo Tomás, só pode ter certeza daquilo que discerne interiormente pela fé [ou, de certo modo e em certa medida, até pela razão natural, no tocante ao que de Deus pode ela investigar e concluir] ‘se o confirmar’, como diz o Padre Calderón (em A Candeia Debaixo do Alqueire), ‘e no grau em que o confirmar o magistério da Igreja’.” Ora, por isso mesmo não é exato dizer, como o faz a tese adversária, que “as verdades em que o cristão deve crer são-nos como que reveladas por Deus” individualmente, nem, muito menos, que, se “tais verdades nos são ordinariamente propostas pela pregação dos homens da Igreja, e conquanto comumente tal pregação seja a condição para a crença nelas, dizer condição não quer dizer suficiência — ela não basta para que tenhamos fé, e isso porque com ela não pode ter senão caráter de persuasão. Mais: não tem ela autoridade para tal, ainda que confirmada por milagres. O ato primordial de fé é posto, é infundido por Deus mesmo, e é por ele que o homem se torna o fiel de Cristo que crerá em todas as Suas verdades”. Por tudo quanto já vimos, tudo isso não passa, de certo modo, de luteranismo mitigado: porque, ao contrário do que quer fazer crer a tese adversária, o magistério da Igreja, enquanto prolongamento de Cristo mesmo e enquanto regra próxima para a crença dos fiéis, é a própria autoridade vicária em matéria de fé. É verdade que não basta o magistério da Igreja para que tenhamos fé; mas é de todo inverdade que, para este efeito, ele não possa ter senão caráter de persuasão; ao contrário, é ele a única garantia de verdade e certeza com respeito à sobrenaturalidade dos dados da fé e, de certo modo e em certa medida, como vimos, até à própria naturalidade de seus preâmbulos.

9) Em resposta ao 9, deve-se dizer que a solução para o dilema causado pelo Concílio Vaticano II e pelo Magistério que dele emerge não pode dar-se com o abandono da “verdadeira docilidade que o católico deve guardar diante do magistério da Igreja” (Padre Calderón, ibid., p. 75). Não se trata de arrostar um “falso dogma de obediência incondicional ao Papa como obrigação primeira dos católicos”, como propõe a tese adversária. Não é em si veraz nenhuma oposição entre “o governo do Deus invisível da pura fé” e “um soberano [o Papa] evidente e acessível aos sentidos” que pudesse mudar-se “de vigário de Cristo em substituto de Nosso Senhor”. “A Igreja”, diz ainda o Padre Calderón (idem), “é fundada sobre Pedro, e a solidez desta Pedra reside principalmente na autoridade de seu magistério. Por isso, para romper o dilema atual, não se deve prejulgar a credibilidade do magistério com algum critério diferente do que oferece de si mesma a legítima autoridade, porque então se atentará contra a docilidade católica, que tem como única regra próxima da fé o magistério vivo da Igreja.” Este ponto, porém, se desenvolverá na próxima parte deste artigo, quando se refutar a sedevacantista Tese de Cassiciacum, exposta pela primeira vez, em 1973, por M. Guérard des Lauriers, e segundo a qual os papas conciliares são materialiter (materialmente) papas, mas não o são formaliter (formalmente). Veremos então que esta tese peca desde a base, ou seja, desde a utilização imprópria, incomum e obscura de uma analogia da autoridade, e da autoridade papal em particular, com o sínolo humano de corpo e alma.[1]

10) Em resposta ao 10, deve-se dizer que afirmar, como o faz a tese adversária, que “a luta pela fé foi absorvida e neutralizada numa obediência beata, cega e incondicional ao rei terreno” é, por tudo quanto vimos aqui, pelo menos equívoco. É verdade que tal obediência “implica um axioma imoral: o de que a ordem do superior livra o subordinado de qualquer responsabilidade própria”; mas, no caso, de uma responsabilidade própria diante de Deus e da fé. Ora, o “rei terreno”, que é a maneira imprópria e pejorativa como se refere ao Papa a tese adversária, não é “rei” senão por prolongamento e delegação da própria Realeza de Cristo. Logo, obedecer e ser dócil ao “rei terreno” é, em princípio, cumprir precisamente com a devida responsabilidade diante de Deus e da fé. Para que se incorresse, em tal caso, na referida imoralidade, seria preciso ou que o referido “rei” de algum modo não fosse “rei” (opinião defendida, exatamente, pelos sedevacantistas), ou que, conquanto “rei”, não empenhasse a sua “realeza”, isto é: não comprometesse, como Papa, sua suprema autoridade (tese do Padre Calderón, que decorre, naturalmente, dos princípios por que se fundou e se mantém a Sociedade São Pio X, e à qual, como é óbvio, aderimos plenamente). Ora, ao tratar da virtude da obediência, o Doutor Comum naturalmente a põe abaixo das virtudes teologais (fé, esperança e caridade), porque, ainda se tratando de obediência a Deus, que implica o desapego dos bens criados e o desprezo da vontade própria, a obediência não é senão um meio para aquela adesão. Corretamente, portanto, afirma a tese adversária que “as virtudes teologais sobrepujam todas as virtudes morais, porque concernem diretamente a Deus, enquanto estas concernem apenas ao meio mais adequado para nosso fim último, que é Deus mesmo. E, se é verdade que entre as virtudes morais a obediência ressalta, justamente por implicar o desprezo do maior dos bens (a vontade própria), isso em nada muda o fato de que a obediência é uma virtude subalterna, que depende da mesma subordinação às virtudes mais altas para que ela própria seja virtude. Faltando essa subordinação, deixará a obediência de ser virtude, e se mudará em vício”. Sucede, porém, que a fé a que a obediência deve subordinar-se depende, para sua certeza, da própria autoridade do magistério da Igreja enquanto regra próxima. Logo, a virtude da obediência só se mudará em vício ou se se ordenar a um Magistério que deixe de comprometer sua autoridade enquanto infalivelmente assistida pelo Espírito Santo, ou se se ordenar anterior ou preferentemente a outra autoridade, a saber, a autoridade política, com o que se rompe a devida e essencial subordinação do temporal ao espiritual. E, com efeito, ambas as coisas ocorreram desde o começo da ruína da Cristandade até o Concílio Vaticano II, mas aquela em decorrência desta, o que porém não consegue perceber quem defenda a tese de Pacheco Salles: porque, como vimos suficientemente, para sustentar sua conclusão sedevacantista, ela opera tanto uma reconstrução ideal da história quanto um recorte da doutrina dos doutores da Igreja, especialmente Santo Tomás de Aquino, e do próprio magistério da Igreja. Se assim não fosse, não se vê como se coadunariam a tese adversária de que o magistério da Igreja não pode ter sobre o fiel católico senão caráter de persuasão e a seguinte declaração magisterial (cujo teor também se encontra em numerosíssimos outros documentos do magistério e na totalidade da obra dos doutores da Igreja):

● “Por conseguinte, Nós declaramos, dizemos e definimos que é absolutamente necessário para a salvação de qualquer criatura humana ser submissa ao pontífice romano” (Bonifácio VIII, Bula Unam sanctam, 18 de novembro de 1302).

11) Em resposta ao 11, deve-se dizer que, segundo o visto nas primeiras partes deste artigo, o processo de que resultou o Concílio Vaticano II não é o indicado por Pacheco Salles, nem pela conclusão decorrente de sua tese, a saber: “Com uma cristandade inerme, ou seja, destituída do sensus fidei, que é a razão formal da autoridade e pois da legitimidade da Sede de Pedro, esta não poderia senão acabar por ser ocupada pelo inimigo – e a partir desse momento estará propriamente vacante.” Já se mostrou a insustentabilidade daquela premissa, restando porém por refutar a conclusão mesma de sedevacância, que é o que faremos ao longo da refutação da Tese de Cassiciacum e da dos sedevacantistas que se agarram, para defender sua tese, sobretudo à Bula Cum ex Apostolatus Officio, do Papa Paulo IV.[2]




(Continua, com a exposição e o começo da refutação da Tese de Cassiciacum.)


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[1] Para a Tese de Cassiciacum, cf. a revista Sodalitium, especialmente a série “La Papauté matérielle”, ed. francesa, nos 46, 48 e 49, e a “Entrevista a Monseñor Guérard des Lauriers”, no 13.

[2] Repita-se, uma vez mais: não dizemos que Pacheco Salles sustente o sedevacantismo em A Figura deste Mundo. Mas dizemos que é precisamente do argumento esgrimido nessa obra que se valem muitos sedevacantistas isolados. Cf. nota 6 da primeira seção do artigo.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Sedevacantismo, ou uma conclusão à procura de premissas - Parte III

Autor: Prof. Carlos Andêde Nougué

II) Refutação da segunda idéia básica da tese adversária


Como se disse, a premissa menor da tese de Pacheco Salles em A Figura deste Mundo constitui propriamente a “reconstrução ideal da história” que nos ocupa neste artigo. Segundo esta, lembremo-nos, desde o fim da civilização cristã (século XIII) a fé teologal se foi deslocando nas almas católicas de sua posição central, para ser pouco a pouco substituída por um culto do dever de corte kantiano e por uma obediência cega à autoridade papal. Deixando-se de lado, sempre segundo a tese adversária, a luz infusa que Deus acende na alma dos cristãos para guiá-los pela senda da verdade que salva, acabou-se por erigir, de modo tácito, o falso dogma da obediência incondicional ao Papa como obrigação primeira dos católicos. Já sem poderem suportar o governo absoluto do Deus invisível da pura fé, quiseram um soberano evidente e acessível aos sentidos, mudando-se o Papa de vigário de Cristo em substituto de Nosso Senhor.

Para refutar esta idéia, deve-se dizer que ela inverte o que de fato se deu historicamente. Sim, porque o que em essência acabou por desembocar no Concílio Vaticano II e na apostasia quase geral da Cristandade não foi uma progressiva substituição da fé e da vida da graça por uma obediência cega, incondicional, de corte kantiano, ao Papa, por já não se suportar o governo invisível de Deus; foi antes, pela perda progressiva da fé, uma paulatina insubmissão dos estados e dos homens ao Vigário de Cristo. Ao contrário, pois, do que diz a tese de Pacheco Salles, o que progressivamente se tornou insuportável para os homens foi a devida obediência ao representante visível de Deus; e tal progressiva insubmissão, resultante da revolta da carne e do amor-próprio contra o espiritual, é conseqüência direta da perda da fé, porque, como vimos na refutação à primeira idéia central deste tipo de sedevacantismo, o próprio magistério do Papa é que é aregra próxima da fé. Vejamos, porém, o desenrolar histórico desse processo, para que assim se patenteie inequivocamente a fragilidade do argumento adversário.

Como diz o Padre Calderón em El Reino de Dios en el Concilio Vaticano II, Jesus Cristo, “ao estabelecer sua Igreja na terra, não arrebata os cetros temporais, senão que, se se submetem a Ela, lhes comunica verdadeira eficácia”. Pois é exatamente no terreno das relações entre os poderes temporais e o poder espiritual que, a partir de Cristo — cuja Vida, Paixão, Morte na Cruz e Ressurreição constituíram a consumação dos tempos —, se traçam os desígnios de Deus para o percurso histórico da Igreja militante. E este percurso começa com efusão de sangue: por três séculos consecutivos, o martírio dos cristãos obra pela purificação e conversão do Império Romano.

Não por nada São Pedro, auxiliado por São Paulo, vai enraizar a Igreja no solo da Cidade “Eterna”. Já lhes viera o Espírito Santo em Pentecostes, e já lhes tinha falado o próprio Cristo ressurrecto; e eles por certo estavam divinamente orientados para colocar a Pedra no centro daquela civilização que a mesma Providência Divina preparara para ser batizada e dar à luz a Cristandade. E, com efeito, no começo do século IV Constantino se rende ao Vigário de Cristo. Sucede, todavia, que o Império Romano já agonizava, por seus mesmos defeitos originais e sua caducidade, razão por que o Papado herdaria a própria jurisdição temporal imperial: como diz ainda o Padre Calderón, “suprindo os ofícios civis ante o povo romano”, os Papas acabaram por “dobrar sua coroa de Imperador espiritual do Orbe com a de Imperador temporal da Urbe” (ibid.). É este o primeiro momentoda Cristandade.

Com a queda do Império pelas mãos dos bárbaros do Norte, e após o reconhecimento por Carlos Magno, no século XVIII, do poder temporal do Papa, inicia-se o segundo momento da Cristandade, o medieval, que mais propriamente se estende da Espanha visigótica de São Isidoro de Sevilha [século VIII] à afronta de Filipe, o Belo, a Bonifácio VIII [século XIII], mas alcança, na Península Ibérica e na América, os séculos XVI/XVII — é a Christianitas minor dos reis católicos Isabel e Fernando, Carlos V e Filipe II. Pois é sobretudo a este segundo momento que se refere o Papa Leão XIII ao dizer, na Encíclica Immortale Dei, que “tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os estados. Naquela época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil”. É o momento em que se traduz plenamente na realidade a doutrina da subordinação essencial do poder político ao poder eclesiástico, longamente desenvolvida por Santo Hilário, São Gregório Nazianzeno, São João Crisóstomo, Santo Ambrósio e, especialmente, Santo Agostinho e São Gregório Magno, e consolidada pelo próprio Magistério romano e por teólogos como Hugo de São Vítor, São Bernardo e Santo Tomás de Aquino.

Muito mais que serem uma espécie de “apoio” ou “respaldo” para a Igreja, os reinos medievais eram instituídos por Ela. Explicita-o a tese teológica dos “dois gládios”. “Há dois poderes”, escrevia já o Papa Gelásio I (492-496) em carta ao Imperador, “pelos quais é regido o mundo: a sagrada autoridade pontifícia e o poder régio. Deles, o primeiro é muito mais importante, pois os homens, incluindo os reis, prestarão contas perante o Tribunal Divino. Pois saiba, clemente filho nosso, que embora ocupes o lugar da mais alta dignidade entre os homens, em tudo deves submeter-te fielmente àqueles que têm a seu cargo as coisas divinas e defendê-los, tendo em vista a tua salvação.”[1]

“As palavras do Evangelho”, escreverá o Papa Bonifácio VIII na Bula Unam Sanctam, de 18/11/1302, “nos ensinam: esta potência comporta duas espadas, ambas em poder da Igreja: a espada espiritual e a espada temporal. Mas esta última deve ser usada para a Igreja, enquanto a primeira deve ser usada pela Igreja. O espiritual deve ser manuseado pela mão do sacerdote; o temporal, pela mão dos reis e cavaleiros, com o consenso e segundo a vontade do sacerdote. Uma espada deve estar subordinada à outra espada; a autoridade temporal deve ser submissa [essencialmente, como se acaba de ver] à autoridade espiritual.”

É neste segundo momento da trajetória da Igreja militante que, sob a tutela de sua Hierarquia, os antigos povos bárbaros, agora cristãos, erguem as ordens políticas mais sãs e mais florescentes que já houve na terra. A subordinação dos poderes civis ao poder eclesiástico foi-se “plasmando em ritos e costumes, muito especialmente a coroação eclesiástica de imperadores e reis” (Padre Calderón,ibid.), o que permitiu, por exemplo, que um Papa como São Gregório VII (1073-1085) pudesse depor, além de excomungar, o tão poderoso imperador HenriqueIV: “Bem-aventurado Pedro, príncipe dos apóstolos, creio que por ti me veio de Deus o poder ligar e desligar no céu e na terra. Assim, confiando nesta fé, da parte de Deus todo-poderoso e em virtude de teu poder e de tua autoridade, tiro ao Rei Henrique o governo de todo o reino da Alemanha e da Itália; desligo todos os cristãos dos vínculos do juramento que lhe fizeram ou que lhe farão, e proíbo que qualquer o reconheça por rei”.[2] É neste segundo momento que aparecem ordenações como as Siete Partidas (circa 1270) do Rei Afonso X, segundo as quais “todas as coisas pertencem à Igreja Católica”;[3] ou como as Ordenações Del-Rei Dom Duarte (circa 1436), pelas quais se “manda que as leis e constituições de Portugal não sejam contrárias aos cânones e direitos da Santa Igreja”.[4]

E, mais ainda que serem instituídos pela Igreja, os reinos cristãos faziam parteda Igreja. “Assim como Deus, criador de todas as cosas”, explica-o Inocêncio III, “pôs dois grandes astros no céu, o astro maior para presidir o dia, e o astro menor para presidir a noite, assim também, no firmamento da Igreja universal, que é chamada pelo nome de céu, constituiu duas grandes dignidades: a maior, para que, como durante os dias, presida as almas, e a menor, para que, como durante as noites, presida os corpos, e estas são a autoridade pontifícia e a autoridade real. Ademais, assim como a lua recebe sua luz do sol e em verdade é menor que ele tanto em quantidade como em qualidade, e também quanto à sua situação e ao seu efeito, assim também o poder real recebe da autoridade pontifícia o esplendor de sua dignidade; quanto mais se detém a olhá-la, mais se embeleza com a luz maior, e, quanto mais se afasta de seu olhar, mais perde seu esplendor”.[5]

E efetivamente, à medida que “os reis enfraqueçam o domínio do poder eclesiástico sobre a ordem política, vão enfraquecer seu próprio poder e autoridade: se Cristo não reina sobre eles, eles não reinam sobre os povos” (Padre Calderón, ibid.), processo que culminará em revoluções como a francesa.

E o fato é que, logo após o ápice do século XIII, logo após a consolidação das Universidades regidas pela Sagrada Teologia, logo após a construção das esguias igrejas góticas, logo após o erguimento dessa catedral que é a obra de Santo Tomás de Aquino, a Cristandade começa a acabar, com o fim da perfeita ordenação da jurisdição temporal à espiritual. A querela entre o Papa Bonifácio VIII e Felipe, o Belo, e a já referida afronta deste àquele prenunciam a decadência da Cidade cristã. Os reis e demais governantes progressivamente já não quererão estar sob o cetro de Jesus Cristo, deixando de aceitar o que a Verdade atesta, a saber, que a potestade espiritual tem não só de instituir a temporal, mas, por isso mesmo, deve “julgá-la se não for boa […]. Logo, se a potestade terrena se desviar, será julgada pela potestade espiritual [...]. Pois bem, submeter-se ao Romano Pontífice, Nós o declaramos, dizemos, definimos e pronunciamos como de toda a necessidade para a salvação de qualquer humana criatura” (Bula Unam Sanctam). Começa, assim, com a negação desta necessidade, “o ocaso da fé no Ocidente” (Padre Calderón, ibid.), e o mundo que era composto de reinos vassalos de Cristo Rei sob a paz de seu Vigário se transformará, entre o século XIV e o XVIII, no mundo das monarquias absolutas e dos “sóis que nunca se põem”. É a ante-sala das revoluções e suas guilhotinas, fuzilamentos e massacres, das quais brotará o mundo francamente anticatólico que chafurda no pecado à espera do Anticristo.

Múltiplos e complexos são, sim, os fatores que determinaram aquela rebelião dos reis, rebelião que, como já dito, se pode reduzir à da carne e do amor-próprio contra a primazia do espírito e da glória devida a Deus. Entre tais fatores, certamente está a influência de homens como o franciscano Duns Scott (1270-1308) e sua hipertrofia da vontade; Dante (1265-1321) e seus dois fins últimos do homem, um espiritual e outro temporal; o também franciscano Guilherme de Ockham (1300-1349) e sua navalha, que em verdade também corta não só os universais, mas o próprio império espiritual da Igreja sobre os poderes políticos; o dominicano Francisco de Vitória (1483-1512) e seu direito natural independente do direito positivo divino; Maquiavel (1469-1527) especialmente, com sua transformação da ética em assunto de foro íntimo e da política em mera questão de manutenção do poder a qualquer custo; o jesuíta Francisco de Suárez (1548-1617)e sua redução do político a uma pretensa soberania popular; etc., etc., etc. Mas sem sombra de dúvida, como também já dito, o principal dos fatores que determinaram aquele processo foi a diminuição da fé. “O poder político”, como escreve o Padre Calderón (ibid.), “necessita subordinar-se essencialmente ao eclesiástico para poder cumprir sua missão; mas a potestade da Igreja sobre a ordem temporal é de natureza espiritual, e, portanto, a eficácia de seu poder depende da viveza da fé. A Igreja não tem exército e polícia para obrigar os recalcitrantes.” Tal relação de subordinação se pode comparar, analogicamente, à relação entre a alma e o corpo: com efeito, na mesma medida em que diminui a fé, perde o poder eclesiástico — a alma — domínio sobre o corpo social, “e são cada vez mais fracos os remédios que pode aplicar e cada vez mais violentos os ataques que há de sofrer” (idem). Em razão desse processo, os Papas já não terão efetivas condições de instituir e destituir os governantes, porque os reinos e seus reis já não serão suficientemente cristãos para que o possam fazer; os Papas só têm efetivo poder para firmar bons governos temporais e impedir os perversos ou tirânicos enquanto se mantém viva a fé do povo e dos reis. Com efeito, lê-se no Livro de Jó (XXXIV, 30) que Deus “faz reinar o homem hipócrita por causa dos pecados do povo”; e completa-o Santo Tomás:[6] “É preciso, portanto, eliminar o pecado, para que cesse a ferida da tirania.” Mas, como se disse, a potestade espiritual não o podia fazer senão enquanto seguisse vigente na sociedade a fé. Não seguiu; e o povo deixou de ver no Magistério da Igreja a autoridade delegada por Cristo para impor infalivelmente doutrina e costumes, e para instituir reinos segundo o que se lê em Jerônimo I, 10: “Eis que ponho em tua boca minhas palavras; veja que te constituo hoje sobre as nações e reinos para arrancar e destruir, para arruinar e assolar, para edificar e plantar”, brandindo sempre, como se diz em Efésios VI, 17, “a espada do espírito, que é a palavra de Deus”. Daí que, como escreve o Padre Calderón (ibid.), “ao quererem sacudir o suave jugo de Nosso Senhor, necessariamente a primeira medida dos reis será voltar a espada que tinham recebido de Deus para a vindita do mal – ‘não em vão tem a espada, porque é ministro de Deus, vingador para castigo daquele que age mal’ (Rom., XIII, 4) – contra a espada espiritual que a sujeita e domina”. A harmonia (tão perfeita quanto possível no estado de natureza ferida) que se alcançou na Idade Média entre os dois poderes, com a devida subordinação essencial do temporal ao espiritual, muda-se então em dura guerra, e a partir de então “os Papas deverão pagar a preço de sangue a audácia de recordar às potestades temporais a doutrina daUnam sanctam” (Padre Calderón, ibid.).

Sangue, mas também omissão da íntegra doutrina da ordenação do poder político ao eclesiástico. Com efeito, desde a Bula de Bonifácio VIII até parte do magistério de Leão XIII — ou seja, durante cerca de sete séculos —, o tom do Papado quanto a esta matéria capital é antes apologético. A Igreja é uma cidade sitiada. Será preciso esperar São Pio X e especialmente Pio XI para que o tema volte aos documentos papais com todos os seus contornos e vigor, e caberá a este último Papa fazê-lo ganhar corpo doutrinal definitivo com a Encíclica Quas primas, a Constituição do Reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo. Infelizmente, porém, a Cidade espiritual já não está apenas sitiada; já está minada por um longo trabalho de sapa, que a carcome do interior; o resultado será a desolação operada pelo Concílio Vaticano II e a consolidação, na maior parte da Hierarquia e dos fiéis, da Religião do Homem que se quer Deus.

Dessa desolação e dessa conseqüente consolidação da Religião do Homem decorre, sim, uma obediência cega por parte dos fiéis ao Papa. Mas não se trata da devida obediência aos Papas em seu ofício de impor e imperar doutrina sob a assistência do Espírito Santo, com o que seu magistério se torna regra próxima da fé; trata-se de obediência cega a uma potestade carente de verdadeira autoridade doutrinal, e exercida, por isso mesmo, de modo maquiavélico.

Ao contrário, portanto, do que diz a tese de Pacheco Salles, aquela obediência cega é resultado, sim, de uma perda da fé, mas de uma perda da fé no magistério eclesiástico como autoridade e regra para a crença do conjunto da Igreja; e, ao contrário ainda do que pode fazer crer a tese adversária, é resultado também da renúncia da mesma Hierarquia, a partir do Concílio Vaticano II, à sua própria autoridade doutrinal, sendo em função dessa renúncia que ela passa a governar a Igreja ao modo de qualquer governo democrático liberal. A tese adversária, todavia, para justificar seu sedevacantismo pré-concluído, tem de encontrar para ele premissas mais sólidas, e encontra a premissa menor numa “reconstrução ideal da história” que inverte os dados da realidade tal como mostrado aqui.
Refuta-se assim, suficientemente, a segunda idéia básica da tese de A Figura deste Mundo.



(Continua, com as respostas particulares aos diversos itens numerados na exposição da tese adversária.)



[1] Patrologia Latina Migne, t. LIV, col. 42.
[2] Citado por Glez, Pouvoir du Pape dans l’ordre temporel, en DTC, col. 2714, apud Padre Calderón, op. cit.
[3] Las Siete PartidasBOE, 1999 (edição fac-similar da edição de 1555, com glosas de Gregorio López).
[4] Cód. 9614 dos Reservados da Biblioteca Nacional de Lisboa. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1988.
[5] Carta Sicut universitatis, 30-10-1198, Denzinger-Hünermann 767; negrito nosso.
[6] De regno, lib. 1, cap. 7.