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sábado, 1 de abril de 2017

A Doutrina e a Ação


Non Possumus    

     Nos anos 60, o Concílio Vaticano II conseguiu impor, sem grandes dificuldades, todo um ensinamento doutrinal contrário à doutrina tradicional da Igreja. Todos aqueles erros que haviam sido condenados pelo Magistério dos Papas anteriores, apareceram de imediato reabilitados, divulgados, aceitados e praticados, mesmo que aparentemente sem nenhuma ruptura, mediante documentos deliberadamente ambíguo, mas não tanto para que não se pudesse entender aqueles erros que se queriam impor. Alguém se questiona: como pôde ter ocorrido tal coisa? Como os católicos puderam aceitar que de um dia para o outro a Igreja começara a ensinar o oposto que até então havia ensinado? A resposta está na ignorância religiosa da maioria dos católicos de então, e na covardia dos hierarcas da Igreja que não foram partícipes diretos da subversão conciliar.
 
      Se vê claramente que os católicos daquele tempo não conheciam os documentos do Magistério, e quiçá nem sequer bem seu Catecismo. Os magníficos ensinamentos das encíclicas contra os erros modernos de todos os últimos Papas, haviam sido passadas por alto, encobertas, desdenhadas, dando lugar a uma obediência cega, obsequente, cômoda, pela figura do Papa. O render culto ao “doce Cristo na terra” servia de justificativa para evitar os deveres próprios do cristão, em particular a formação sobre as verdades reveladas e na recepção dos ensinamentos magisteriais, verificando se as mesmas se correspondiam ou não com o ensinamento da Tradição (cf. advertência de S. Paulo). Uma despreocupação pela verdade, estimulada pela nova era de conforto trazida pelas repúblicas democráticas, mais um sentimento de orgulho ante o que parecia – americanismo como meio – um triunfo da Igreja no mundo (o “cinquentismo”), criaram o ambiente propício para que os católicos, tendo baixado a guarda, tragaram para si toda a revolução conciliar, sem quase adverti-la e nem ao menos resisti-la. O trabalho combinado das lojas e dos meios de comunicação, além do próprio desinteresse dos católicos pela verdade, renderam seus frutos à Contra-Igreja. A batalha doutrinal modernista foi quase inteiramente ganha, exceto por um pequeno grupo encabeçado por um arcebispo, Mons. Marcel Lefebvre, que amava e conhecia a verdade e teve a graça de resistir. Então a Tradição foi salva.
 
     Quarenta anos depois, a Contra-Igreja já não podia tolerar mais que este grupo recalcitrante, muito maior em número, em obras, em repercussão, continuasse sua tenaz oposição à revolução conciliar. A igreja conciliar havia tentado todas as manobras, todas as argúcias, para intentar submeter a congregação do intransigente Arcebispo. Todas fracassaram. Por quê? Porque em meio a estes estratagemas, estava sempre presente o tema doutrinal. E, diferentemente do que passou nos anos 60, os “lefebvristas” tinham muito claro o problema doutrinal da Roma modernista. Por esse lado, não seria possível capturar a tão ansiada presa. É assim que um astuto político tornado Papa, recebeu a empreitada de pescar em fim o peixe – que havia mordido fazia tempo o anzol – da água, para levá-lo a uma peixaria de Roma.
 
     A manobra, então, não apontou a doutrina, senão a ação. Por demais atentos à doutrina, a subversão dos agentes liberais de dentro se centrou na forma de atuar com Roma, que mudou e se opôs à forma de atuar anterior. A doutrina foi deixara a um lado, para centrar o foco na maneira de atuar da congregação. Ninguém questionaria em Roma sua defesa da doutrina, senão seu modo “restritivo”, quase “sectário” de defendê-la. Era preciso compartilhar essa doutrina com os outros, e para isso, voltar a Roma, pois senão se corria o risco de tornar-se “cismáticos”. “É cismático não o que não obedece senão o que não convive. Por isso estaria mais na Verdade o ecumênico rabino que o isolado Mons. Lefebvre” (Pe. Calderón, “A Candeia Embaixo do Alqueire”, p. 127, em espanhol). Mas, como os membros da congregação não viam esta manobra astuta dos inimigos romanos para procurar capturá-los? Simples: eles não esqueceram a doutrina, mas esqueceram a forma de atuar de seu fundador. Mediante a linguagem ambígua ou a dupla linguagem, em cada ocasião sobre Roma sempre pareceu continuar ileso o tema doutrinal. Então não pareceu que se corria risco ao continuar os diálogos, as negociações, a tratativas, os encontros cordiais, com os liberais de Roma, Assim como os católicos cinquentistas fechavam os olhos ante tudo o que vinha desde o Papa, assim estes “lefebvristas” fechavam os olhos ante tudo o que vinha de seu Superior Geral. Como já se criam na posse da verdade, e esta a tinham bem guardada em seus depósitos, não podiam perdê-la, não deviam temer o risco de deixar de tê-la, não necessitavam revisar suas vasilhas de barro, para ver se conservavam todo o conteúdo ou não. Acreditaram-se seguros, porque tinham a boa doutrina. E esqueceram que os inimigos não só podem estar defronte, como também que a manobra mais exitosa do inimigo é infiltrar-se dentro das próprias filas. Mais ainda, nos mais altos postos das próprias filas.
 
     “O que fazia falta na tormenta que ameaça afundar a barca de Pedro, não era justamente o Concílio (Vaticano II), mas sim que a mão firme do Papa manteve o timão na direção dos princípios de sempre, pois parece certo que o nosso não é tempo de especulação, mas sim de ação”. Esta citação do Pe. Calderón (de seu livro “A Candeia Embaixo do Alqueire”, os negritos são nossos) nos leva a dizer (coisa que não diz ou não vê o próprio Pe. Calderón) que o que fazia falta na tormenta que ameaçava a Tradição (e a FSSPX) não eram justamente diálogos e negociações com Roma, senão que o Superior geral manteve o timão na direção dos princípios de sempre, ensinados por Mons. Lefebvre, que podem resumir-se nesta frase: “Todo sacerdote que queira permanecer católico tem o estrito dever se separar-se desta igreja conciliar.” Mas Mons. Fellay é um diplomático, Mons. de Galarreta um político, e Mons. Tissier um teórico, nenhum dos quais estava preparado para a ação de combate nesta guerra entre a Igreja e a Contra-Igreja. O único bispo de ação contrarrevolucionária foi Mons. Williamson, alguém que compreendeu melhor que os outros a Mons. Lefebvre, o qual entendeu perfeitamente que a doutrina não se sustenta por si mesma, mas sim por aqueles homens que combatem por ela. Hoje, associados ao bispo inglês, temos a outros dois bispos íntegros, fiéis filhos de Mons. Lefebvre: Mons. Faure e Mons. Dom Tomás de Aquino OSB. E proximamente a um quarto, Pe. Zendejas. Os bispos, como afirma São Pio X, devem preservar as almas dos erros e das seduções que por todas as partes saem ao caminho, devem instruí-las, preveni-las, animá-las e consolá-las (cfr. "Vehementer nos”). Lhes pedimos que sigam por este caminho, com mão firme no timão. E para isso procuramos ajudá-los filialmente, desde estas páginas ou desde a trincheira donde Deus nos queira usar.
 
Qual manobra utilizará o inimigo para intentar sucumbir a esta pequena Resistência? No momento, contra esses dois erros fatais que sempre mencionara Mons. Lefebvre, o ralliement liberal com Roma, e o farisaico sedevacantismo, desde a SAJM foram tomadas as medidas necessárias – desde seus próprios estatutos – para colocar-se em guarda contra eles. Mas, como os homens são débeis e o diabo não descansa, deverá se estar sempre em guarda, com os olhos abertos, e de joelhos implorando, à espera do triunfo de Maria, de seu Imaculado Coração.


     Juan Infante

sábado, 18 de março de 2017

Neocatecumenato - Uma Seita Judaizante



    Um dos sintomas mais inquietantes da protestantização geral que se verificou no seio da Igreja católica a partir do pontificado de João XXIII é dado pela extraordinária difusão do caminho neocatecumenal, que muitos membros da hierarquia celebram como intérprete ideal dos impulsos inovadores promovidos pelo Concílio Vaticano II.
    Declarando alcançar o redescobrimento da vocação batismal aos seus próprios adeptos, o movimento fundado por Kiko Argüello e Carmen Hernández, alicerçado pelo decisivo apoio e das reiteradas aprovações dos Padres pós-conciliares, considera-se a si mesmo representante privilegiado de uma nova “Igreja”, febrilmente propensa a se livrar da tutela opressiva de estruturas hierárquicas e de princípios dogmáticos hostis à espontânea efervescência carismática, anunciadora de uma religiosidade mais vital e positiva.

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    Com base em tais premissas, presunçosamente derivadas de uma “cultura” teológica aproximativa e superficial, os neocatecumenais se erigem como genitores de uma pseudo-evangelização que, desvinculando o evento da Ressurreição do caráter essencialmente expiatório da Redenção realizada por Nosso Senhor Jesus Cristo, priva a conotação sacrificial da Liturgia para reduzi-la a um convite profano dominado pela descomposta sentimentalidade de uma assembleia que nega também o valor do sacerdócio.
    Com inqualificável desconsideração, se intenta demolir o fundamento sobrenatural da Liturgia, centrada no dogma da Transubstanciação, em nome dos pretendidos “carismas” de personagens que beberam nas fontes envenenadas do pior protestantismo e foram rapidamente assumidos como líderes do neomodernismo que, desde há muitos anos, devasta a vida da Igreja.
    É doloroso constatar como a aberrante e diabólica dessacralização da Missa tem sido objeto de comprazidos apreços por parte de não poucos Pastores, para os quais o entreter-se das estridentes sonoridades e dos ridículos bailados que servem de marco às sacrílegas cerimônias neocatecumenais têm parecido uma válida alternativa à divina grandeza do Rito; mas, ainda que semelhante falsificação da Fé possa suscitar indignação e tristeza, será menos surpreendente se se pensa na sutil obra de desagregação perpetrada há decênios contra a Tradição e culminada nas escandalosas revalorizações da pseudo-teologia de Lutero.

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    Apesar da persistente heterodoxia que prejudica uma reta formação espiritual dos crentes, não receberam nenhuma atenção nem as denúncias embasadas relativas aos abusos litúrgicos cometidos pelos neocatecumenais (sacrilégios eucarísticos, desvalorização do sacramento da penitência em favor de “confissões públicas”, estimuladas mediante pressões psicológicas, etc.) nem as observações teológicas propostas por valentes sacerdotes como o padre Enrico Zoffoli, que revelou com autoridade as explícitas tendências heréticas do caminho de Kiko e Carmen.
    A raiz das anotações críticas expressadas por mons. Landucci em um artigo publicado em Sim Sim Não Não em 31 de janeiro de 1983, o citado autor, fazendo uso amplamente do texto “secreto” das catequeses redigidas pelos “líderes carismáticos” para deformar e desviar as mentes de seus sequazes, demonstrou que os neocatecumenais retomam a tese luterana do “servo arbítrio”, a qual, como é conhecido, afirma que a natureza humana, ao estar totalmente corrompida pelo pecado dos progenitores, não tem a capacidade de cooperar ativamente com a Graça divina na atuação de seu próprio fim último.

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    É evidente que o consenso explícito tributado por Papas e Bispos aos agentes da subversão anti-eclesiástica equivale a uma objetiva desaprovação do Magistério, culpavelmente ocultado pelo descaro sectário de grupos heréticos, afins por mentalidade ao Judaísmo e à Maçonaria.
    A boa fé daqueles que se unem a semelhantes grupos sem conhecer seu perigo não é razão suficiente para dissuadir aos católicos fiéis à Tradição do dever de desmascarar a grande apostasia carismática e neocatecumenal, que tende a se configurar como um cisma “legalmente” dirigido e encoberto pelos vértices da Igreja.
    
    Non nobis, Domine, non nobis, sed nomini Tuo da gloriam!

R. Pa.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Voz de Fátima, Voz de Deus - Nº 6


11 de março de 2017

“Vox túrturis audita est in terra nostra”

(Cant. II, 12)

O Apocalipse nos apresenta os fatos que sucederão quando o Anticristo aparecer.

Dom Emmanuel, abade beneditino do século XIX e pároco da aldeia de Mesnil-Saint-Loup, nos descreve em temos proféticos o esforço de sedução que precederá e acompanhará a vinda do homem de pecado, que fará prestar a si mesmo as honras devidas a Deus. Para angariar discípulos, o Anticristo não poupará esforços para se ver aceito por adeptos de toda sorte de falsas religiões e procurará conquistar mesmo os católicos. Escutemos o que ele nos diz:

“É muito crível também que o Anticristo disporá, para subir, de todos os partidários das falsas religiões. Ele se anunciará como cheio de respeito pela liberdade de cultos, uma das máximas e uma das mentiras da besta revolucionária. Dirá aos budistas que é um Buda; aos muçulmanos, que Maomé é um grande profeta. Nada impede que o mundo muçulmano aceite o falso messias dos judeus como um novo Maomé.

O que sabemos? Talvez irá até dizer, em sua hipocrisia, como Herodes seu precursor, que quer adorar Jesus Cristo. Mas isso não passará de uma zombaria amarga. Malditos os cristãos que suportam sem indignação que seu adorável Salvador seja posto lado a lado com Buda e Maomé, em não sei que panteão de falsos deuses!”

Quem não reconhece nesta descrição profética o ecumenismo inspirado pelo Concílio Vaticano II?

Mas haverá algum ecumenismo superior, uma unidade transcendente das religiões, onde as religiões estariam unificadas “pelo topo”, como diz Olavo de Carvalho?

Não, de modo algum. Religião, ou seja, conjunto de verdades e de preceitos pelos quais nossa vida é ordenada a Deus, só existe uma. É a religião católica, com exclusão de todas as outras.

Com a graça de Deus, voltaremos ao assunto num próximo número.

+ Tomás de Aquino OSB

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Sedevacantismo, ou uma conclusão à procura de premissas - Parte VI (Final)

Via Capela Nossa Senhora das Alegrias - Vitória - ES


Professor Carlos Ancêde Nougué


9) Pressuposto, assim, tudo quanto se disse até aqui, deve-se dizer agora que a autoridade enquanto poder ou faculdade ativa é um habitus e, por conseguinte, um acidente predicamental; e, como todo acidente predicamental, não pode existir se não é recebido num sujeito. Que sujeito, ou antes, quem governa legitimamente e quem ilegitimamente? Governa legitimamente quem foi eleito legitimamente pela sociedade para receber a autoridade, e que não tem impedimento para recebê-la. Ilegitimamente aquele que tomou ilegitimamente a autoridade, ou por tê-lo feito sem designação legal, ou, ainda que validamente designado, por ter qualquer impedimento para receber a autoridade. Na sociedade civil, a instituição do sujeito da autoridade pertence ao conjunto da comunidade. “Segundo os tomistas em geral [também traduzimos aqui, à letra, uma frase do Padre Donald J. Sanborn], a comunidade inteira tem o direito de instituir ou escolher tanto a forma de governo quanto o sujeito que receberá a autoridade, mas a comunidade não transmite a própria autoridade, como sustentaram alguns, em particular Suárez. A comunidade simplesmente propõe um sujeito de autoridade. Mas é Deus quem dá a autoridade.” Assim, para que o rei, numa monarquia hereditária, receba legitimamente a autoridade, é mister que o povo aceite, pelo menos implicitamente, o sistema monárquico hereditário. Tudo isso, porém, tem que ver com o governo civil; já a constituição da Igreja, por seu lado, provém de Cristo, é imutável e de modo algum depende da aprovação da comunidade de fiéis. E, ao contrário do que se dá na sociedade civil, os elementos essenciais da constituição da Igreja se estabeleceram por disposição divina direta. A forma que lhe deu Cristo é monárquica, e nem o papa, que enquanto vigário de Cristo desfruta da mesma autoridade que Ele, pode alterá-la.

domingo, 7 de agosto de 2016

Comentários Eleison CDLXXII (472) - Tomismo Autêntico

Por Dom Richard N. Williamson
Tradução: Borboletas ao Luar
Verdade que é verdade exclui toda contradição.
“Verdade” que admite o erro é verdadeira ficção.


O modo como o modernismo pode combinar sinceridade aparente e boa fé com dissolução da verdade é tão perigoso para a fé real dos católicos que dificilmente consegue ser descrito ou analisado com muita frequência. A pergunta recente de um leigo tradicionalista provê outra oportunidade para fazê-lo. Ele pergunta se um sacerdote da Fraternidade Sacerdotal São Pio X estaria sendo sensato ao ler regularmente uma revista tomista conciliar, baseando-se no fato de que a FSSPX não forneceu até o momento esse material de leitura regular sobre o pensamento e a doutrina do grande filósofo e teólogo da Igreja, Santo Tomás de Aquino. A resposta é que é melhor que esse sacerdote, no mínimo, seja muito cuidadoso, porque o tomismo conciliar é uma contradição em termos reais que pode, em termos modernistas, facilmente fingir-se – e aqui está o problema – de não contraditório.


O tomismo conciliar é uma contradição em termos reais porque o ensinamento de Santo Tomás se esforça, e normalmente é bem sucedido, em se conformar à ordem una e única plantada nas coisas reais, fora de nossas mentes, pelo uno e único Deus real. De modo contrário, o Vaticano II procedeu de uma suposição de que o homem moderno desestabilizou essa ordem nas coisas, centrada em Deus e estática (ver a seção de abertura da “Gaudium et Spes”), e, portanto, para a religião de Deus fazer algum sentido para o homem moderno, deve ser remodelada em termos dinâmicos e centrados no homem, o que faz com que o tomismo não seja mais unicamente fiel à realidade, mas seja de algum modo antiquado.


Em termos modernistas o tomismo pode permanecer um monumento histórico do pensamento humano, um sistema intelectual magnífico, cuja lógica e consistência são totalmente admiráveis. Assim, os seminaristas da FSSPX, por exemplo, podem aprendê-lo como um catálogo telefônico, mas se eles se deixam levar pelo feitiço do Vaticano II, não verão mais o tomismo como o único modo de combater os erros modernos, e serão facilmente encantados e seduzidos por muitas outras maneiras mais “atualizadas” de pensar sobre o mundo. Resumindo, os modernistas não desafiarão o tomismo em seu próprio território, de fato eles poderão alegar que concordam totalmente com ele no território deles. Eles simplesmente alegarão que em tempos modernos o terreno foi modificado, e então o tomismo não é mais unicamente válido, ou já não é mais o único modo de chegar à verdade. Assim, os seguidores do Vaticano II podem realmente pensar que concordam com o tomismo, mas não concordam com ele absolutamente.

Deixemos a aritmética elementar ilustrar mais uma vez a questão. Dois e dois são quatro, e na vida real, na realidade, não podem ser nada mais, nem três nem cinco. Mas um aritmético moderno poderia dizer: “dizer que dois e dois são unicamente ou exclusivamente quatro, é ter a mente muito fechada. É muito mais criativo e progressista dizer que podem também ser cinco ou seis – vamos abrir a mente – seis milhões!”. E porque esse aritmético moderno não exclui dois e dois como sendo quatro, mas alegremente inclui isto em sua ampla mentalidade, ele pode acreditar sinceramente que sua aritmética não contradiz a velha aritmética. Mas quem não pode ver que na realidade ele está minando completamente a “antiga” e verdadeira aritmética? Aquela aritmética que corresponde à única realidade fora de nossas mentes não somente inclui que dois e dois são quatro, mas também exclui absolutamente que seja outra coisa. E é somente essa aritmética que corresponde àquela realidade única, ou seja, que é verdadeira. Assim a crença e o pensamento que correspondem à única ordem de realidade natural e sobrenatural de Deus existiram evidentemente por muitos séculos antes de Santo Tomás de Aquino (1225-1274). Ele simplesmente reuniu tudo em um sistema incomparável. Mas não é o sistema que faz com que sejam verdadeiros. O que os torna unicamente verdadeiros como um sistema é a sua correspondência única como um sistema com a realidade.

Portanto, se os escritores dessa revista tomista são também professos seguidores do Vaticano II, eles certamente não acreditarão que o tomismo seja, no sentido apresentado aqui, único. Nesse caso, eles podem ser chamados de “tomistas de catálogo telefônico”, mas seguramente não são verdadeiros tomistas. Será que o sacerdote supramencionado saberá fazer sempre a distinção? Não se ele está agora se permitindo ser conduzido pelo Vaticano II.
 
 
Kyrie eleison

quinta-feira, 7 de julho de 2016

CONFERÊNCIA DADA EM 19/12/02 POR MONS. WILLIAMSON - Extratos Significativos


Buenos Aires, 19 de dezembro de 2002.
Stat Veritas
S.E.R. Richard Williamson

Em outubro [2002] houve em Paris um congresso [organizado por Sim Sim Não Não] com vistas ao 40º aniversário do início do Concílio, em outubro de 1962. Para preparar este congresso, estudei e li novamente os documentos para tratar de ter uma vista de conjunto, do todo, das ideias-chave que estão por detrás de todos esses documentos. O primeiro que pensei foi na deificação; a divinização do homem. “O homem é deus” – rejeição do sobrenatural – e este é o princípio supremo do Concílio. Em sequência vem este outro: “todo homem é bom” – rejeição do pecado original – . Mas os revolucionários tinham de enganar os católicos, os bispos católicos que todavia estavam no Concílio. Monsenhor Lefebvre sempre dizia: de 2000 bispos, 200 eram católicos, 200 eram liberais e 1600 seguiam o Papa.

Os liberais que haviam preparado sua revolução teriam de enganar os católicos e aos que estavam no centro – digamos – e para realizar isto, teriam que ocultar suas ideias-chave. Por isso, todo documento do Vaticano II é ambíguo. O caráter essencial deste Concílio é a ambiguidade. Nosso Senhor disse “sim, sim; não, não”, o Concílio disse “sim, não” ou “não, sim” ao mesmo tempo. Tudo mesclado constantemente de maneira muito hábil. É necessário ser hábil para encontrar palavras que dizem coisas opostas ao mesmo tempo. Modernidade e catolicidade são inconciliáveis, porque o catolicismo é Deus em primeiro lugar, com Dez Mandamentos e toda a Igreja Católica.

domingo, 19 de junho de 2016

Comentários Eleison CDXLVI (466) - A Trapaça do Antissemitismo

Por Dom Richard Williamson
Tradução: Andrea Patricia (blog Borboletas ao Luar)
18 de junho de 2016
É a palavra “antissemita” brandida como uma espada?
Apenas peça a quem a brande para que a defina.



Há palavras traiçoeiras que parecem significar uma coisa, mas que são empregadas para significar outra completamente diferente. Uma das mais traiçoeiras de todas é a palavra “antissemitismo”. Esta parece significar oposição a todos os judeus pura e simplesmente porque são judeus; nesse sentido, ela condena corretamente algo mau, porque alguns judeus são perversos, mas é certo que nem todos o são. Por outro lado, é frequentemente utilizada para condenar qualquer oposição a tudo que os judeus fazem, e então a palavra está erradamente condenando algo bom, porque sempre que os judeus fizerem algo ruim, então a oposição a eles é boa. Mas os judeus fazem coisas ruins? Obviamente. Eles criaram o islã para os árabes, a maçonaria para os gentios e o comunismo para o mundo moderno, todos os três, primeiramente, para lutar contra Jesus Cristo e o Cristianismo e, então, enviar almas para o inferno.

Um livro que todos os católicos deveriam ler, os que querem defender a Igreja contra o islã, a maçonaria e o comunismo, agora globalismo, é Complô Contra a Igreja, de Maurice Pinay. O livro foi escrito pouco antes do Vaticano II para ser posto nas mãos de todos os padres conciliares e alertá-los sobre o grande perigo no qual a Igreja se encontraria no Concílio. Efetivamente. Os padres do Concílio acabaram por louvar o islã (Unitatis Redintegratio), adotar princípios maçônicos (Dignitatis Humanae) e nunca mencionar, e menos ainda condenar, o maléfico sistema comunista. Eis como em seu capítulo “Antissemitismo e Cristianismo”, Maurice Pinay analisa a traição da palavra “antissemitismo”:

domingo, 5 de junho de 2016

Comentários Eleison CDLXIV (464) - Igreja Abandonada?


Por Dom Richard Williamson
Tradução: Cristoph Klug
Tradução do Salmo: Pe. Matos Soares, Antigo Testamento, 1944.

04 de junho de 2016

Em circunstâncias de massiva desesperação
O Salmista ensina confiança em Deus e oração.

Como dia após dia o caos aumenta em quase tudo e em todos ao nosso redor, e dentro da Igreja parece como se todos estivessem contra todos, certamente é tranquilizador saber que o Salmista de talvez 3000 anos atrás clamou a Deus para que viesse em auxílio de Seu povo, em sofrimento similar por seus inimigos. Então, como agora, eles se levantaram em seu orgulho contra Ele, seu orgulho “ascende continuamente”, eles têm feito todo o possível para destruir Seu Templo e Sua Religião, e Ele parece ter-lhes outorgado muito êxito. Eis aqui o Salmo 73 (74), com pequenas notas entre parêntesis: —

A. Como Deus pode estar permitindo o triunfo de Seus inimigos contra Sua própria Igreja?

[1] Por que razão, ó Deus, nos desamparaste para sempre? (Por que razão) se acendeu o teu furor contra as ovelhas do teu pasto? [2] Lembra-te da tua família (Igreja católica), que possuíste desde o princípio. Tu recuperaste o cetro da tua herança; o monte de Sião (Igreja católica), em que habitaste. [3] Levanta as tuas mãos contra a sua soberba (inimigos de Deus) sem limites. Quantas maldades cometeu o inimigo no santuário! [4] E os que te odeiam, gloriam-se (de te insultar) no meio da tua solenidade. Hastearam os seus estandartes como troféus; [5] e não respeitaram (a santidade de Deus) nem as eminências nem as saídas (portas e cimo do Templo). Como num bosque de árvores com machados [6] despedaçaram à porfia as suas portas; com machado e martelo (Vaticano II) tudo derribaram. [7] Puseram fogo ao teu santuário; na terra profanaram o tabernáculo do teu nome (Igreja católica). [8] Disseram no seu coração com os das suas parentelas: Façamos cessar na terra todos os dias de festas consagrados a Deus (liturgia católica). [9] Não vemos mais os nossos estandartes; já não há um profeta (que nos guie); e (Deus) não nos conhecerá daqui em diante (Deus renunciou. Estamos por nossa conta). [10] Até quando, ó Deus, nos insultará o inimigo? O adversário há de blasfemar sempre? [11] Por quê retrais a tua mão? Por quê não tiras a tua direita do teu seio de uma vez por todas?

B. Porém Deus é o Mestre da salvação, da História e da Natureza.

[12] Mas Deus, que é nosso rei antes dos séculos, operou no meio da terra. [13] Tu com o teu poder deste solidez ao mar (Mar Vermelho), pisaste as cabeças dos dragões nas águas (Egípcios); [14] Tu quebraste as cabeças do dragão (Rei Egípcio); deste-o por comida aos povos da Etiópia. [15] Tu fizeste brotar fontes e torrentes; tu secaste os rios de Etã (de forte corrente; por exemplo Js III). [16] Teu é o dia, e tua é a noite; tu criaste a aurora e o sol. [17] Tu estabeleceste todos os limites da terra; o estio e a primavera tu os formaste.

C. Ó Deus, não esqueças a teu próprio povo humilde e esmaga a teus orgulhosos inimigos.

[18] Lembra-te disto: o inimigo ultrajou o Senhor, e um povo insensato blasfemou do teu nome. [19] Não entregues às feras as almas que te louvam, e não esqueças para sempre as almas dos teus pobres. [20] Olha para a tua aliança (Novo Testamento), porque todos os lugares obscuros do país estão cheios de antros de iniquidade; [21] Não se volte confundido o humilde; o pobre e o desvalido louvarão o teu nome. [22] Levanta-te, ó Deus, julga a tua causa; lembra-te dos ultrajes feitos contra ti, dos ultrajes com que um povo néscio te injuria continuamente. [23] Não te esqueças dos clamores dos teus inimigos. A soberba daqueles que te aborrecem aumenta continuamente.



Kyrie eleison.