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sábado, 12 de dezembro de 2015

Os pecados capitais (vícios capitais)

100. – Os pecados capitais são apetites desordenados dos quais, como de uma fonte, promanam outros pecados. Melhor se diriam vícios capitais.

Chamam-se “capitais” estes pecados não tanto pela gravidade, quanto pelo número e variedade dos pecados que deles nascem. São sete:

I. A soberba. É um desejo desordenado da própria superioridade. É pecado mortal “ex toto genero suo”, quando leva o homem ao desprezo dos Superiores e à desobediência às suas leis. É pecado venial “ex toto genere suo”, quando não chega a tanto, se bem que alimente no homem excessivo desejo de honra e distinção entre seus iguais; pode tornar-se pecado mortal pelas circunstâncias: por exemplo, se leva a desprezar gravemente o próximo; é pecado venial se leva o homem só a ofender levemente os seus iguais.

Filhas da soberba, são: a) a ambição e a presunção, que constituem pecado grave, quando levam a aceitar um emprego que não se está capaz de cumprir; b) a vanglória, que em si é pecado venial, mas pode tornar-se mortal se alguém manifesta a própria superioridade injuriando gravemente os outros, ou coloca nela o fim último de todas as suas ações, pronto a praticar qualquer ação, antes que reprimi-la. Da vanglória nascem: a) a jactância, leve em si mesma, quando alguém se jacta do bem que faz. Constitui, porém, pecado grave, quando alguém se vangloria de matéria gravemente pecaminosa (cf n. 96); b) a hipocrisia, que é simulação de virtudes que não se tem; pode constituir culpa grave, quando redunda em desprezo de Deus, ou em injustiça em relação ao próximo; c) a ostentação que visa fazer-se notar pelo fausto do qual se faz alarido ou por certas singularidades; é pecado mortal quando tem por fim a corrupção dos costumes e é causa de escândalo.

101.- II. A avareza. É o desejo desordenado dos bens da terra. É pecado venial “ex toto genere suo”, se se opõe só a liberdade; é pecado mortal “ex genere suo”, se se opõe à justiça e à caridade.

III. A luxúria. É o desejo desordenado dos prazeres sensuais.

Sobre este pecado cf. o VI Mandamento do Decálogo, n. 211 ss. (será publicado em outro momento)

102. - IV. A gula. É o desejo desordenado da comida e da bebida; é pecado venial “ex genere suo”. Pode, porém, tornar-se mortal se se chega a excessos que impossibilitem uma pessoa de cumprir seus deveres de estado, ou quando se torna causa de pecados graves. Com efeito, a gula pode levar à incontinência, à intemperança da língua, etc.

À gula se referem a intemperança no beber até à perda do uso da razão (embriaguez), a qual, se é perfeita, isto é, se chega a impedir completamente o uso da razão, é pecado mortal “ex genere suo”, se causada sem motivo suficiente.

Por graves razões, provavelmente, pode permitir-se a embriaguez, como por exemplo, para curar uma doença ou para com mais segurança submeter-se alguém a uma operação cirúrgica. Afastar a melancolia não é motivo suficiente para embriagar-se. A embriaguez que priva só parcialmente do uso da razão (imperfeita) é somente pecado venial, mas poderia tornar-se mortal pelo dano ou escândalo produzido, pela tristeza que poderia causar aos pais, etc.

Em relação ao uso de entorpecentes (morfina, cocaína, heroína, clorofórmio, etc.) valem os mesmos princípios, isto é: usados em pequenas doses por motivo suficiente, por exemplo, para acalmar os nervos, dores, etc., são lícitos. Sem motivo justo, porém, é pecado venial.

Mas tomá-los em doses tais que privem o homem do uso da razão, é pecado grave, salvo se há um motivo suficiente proporcionado; por exemplo, uma operação cirúrgica, dar alívio a um paciente, de doenças muito dolorosas, etc.

A eutanásia, ou seja, a morte indolor que alguns desejam proporcionar aos doentes incuráveis e destinados a penosas agonias, ou a todos os que são fisicamente tarados ou portadores de doenças hereditárias, é ilícita.

103. – V. Ira. É um desejo desordenado de vingança.

Pode ser má por dois motivos: a) pelo objeto, se alguém procura vingar-se de um inocente, ou se procura a vingança, não enquanto é justa, mas para satisfazer um sentimento de malevolência; é, nesse caso, pecado mortal “ex genere suo”, porque se opõe à caridade e à justiça; b) pelo modo de vingar-se, se se está demasiado exaltado exteriormente, na manifestação desta paixão, é então pecado venial, mas poderia tornar-se moral, se a tais exaltações se seguissem blasfêmias, imprecações, escândalos, etc.

É lícita a ira justa, manifestada pela indignação razoável por causa de um pecado, ou que exige a justa punição dele.

Filhas da ira, são: a indignação e o mau-humor, o endurecimento do coração, as blasfêmias, as contumélias, etc.

104. – VI. A Inveja. É o descontentamento que se sente pelo bem alheio considerado como diminuição da própria excelência. É pecado mortal “ex genere suo”, porque se opõe diretamente à caridade, a qual, quer que nos alegremos com o bem do próximo. Quanto maior o bem invejado, tanto mais grave é o pecado.

Muitas vezes se confunde a inveja com o ciúme: este consiste no amor excessivo do próprio bem acompanhado com o receio de que outros no-lo tirem. Há também diferença entre inveja e emulação. Esta é um sentimento louvável que nos leva a imitar, a igualar e se possível, superar, com meios justos, as boas qualidades do próximo.

105. – VII. A Acídia. a) Em sentido geral: é o aborrecimento das coisas espirituais pelo esforço que as acompanha.

b) Em sentido particular, é o desgosto da amizade divina por causa dos sacrifícios que esta impõe para a sua conservação.

A acídia considerada sob o primeiro aspecto torna-se pecado mortal quando por ela se viola um preceito afirmativo ou negativo. Considerada sob outro aspecto, é pecado mortal “ex toto genere suo”, porque se opõe diretamente ao amor de Deus.


Del Greco, Padre Teodoro da Torre. Teologia Moral. São Paulo: Edições Paulinas, 1959.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

A Curiosidade, por Santo Agostinho de Hipona


À tentação sobredita [a sedução pelas coisas belas] junta-se outra, mais perigosa sob múltiplos aspectos. Além da concupiscência da carne – que vegeta na deleitação de todos os sentidos e prazeres, e mata a todos os que a servem, isto é, àqueles que se afastam para longe de Vós – pulula na alma, em virtude dos próprios sentidos do corpo, não um apetite de se deleitar na carne, mas um desejo de conhecer tudo, por meio da carne.

Este desejo curioso e vão, disfarça-se sob o nome de “conhecimento” e de “ciência”. Como nasce da paixão de conhecer tudo, é chamado nas divinas Escrituras a concupiscência dos olhos(1), por serem estes os sentidos mais aptos para o conhecimento.

É aos olhos que propriamente pertence o ver. Empregamos, contudo, este termo, mesmo em relação aos outros sentidos, quando os usamos para obter qualquer conhecimento. Assim, não dizemos: “ouve como brilha”, “cheira como resplandece”, “saboreia como reluz”, “apalpa como cintila”. Mas já podemos dizer que todas essas coisas se vêem. Por isso não só dizemos: “vê como isto brilha” – pois só os olhos o podem sentir, – mas também: “vê como ressoa, vê como cheira, vê como sabe bem, vê como é duro”. É por isso, como já disse, que se chama concupiscência dos olhos à total experiência que nos vem pelos sentidos. Apesar do ofício da vista pertencer primariamente aos olhos, contudo os restantes sentidos usurpam-no por analogia, quando procuram um conhecimento qualquer.

Daqui se vê claramente quanto a volúpia e a curiosidade agem em nós pelos sentidos: o prazer corre atrás do belo, do harmonioso, do suave, do saboroso, do brando; a curiosidade, porém, gosta às vezes de experimentar o contrário dessas sensações, não para se sujeitar a enfados dolorosos, mas para satisfazer a paixão de tudo examinar e conhecer.

Que gosto há em ver um cadáver dilacerado, a que se tem horror? Apesar disso, onde quer que esteja, toda a gente lá acorre ainda que, vendo-o, se entristeça e empalideça. Depois, até em sonhos temem vê-lo, como se alguém os tivesse obrigado a ir examiná-lo, quando estavam acordados, ou como se qualquer anúncio de beleza os tivesse persuadido a lá irem.

O mesmo se dá com os outros sentidos. Iríamos longe se os percorrêssemos a todos. Por causa desta doença da curiosidade, exibem-se no teatro cenas monstruosas de superstição. Dela nasce o desejo de perscrutar os segredos preternaturais que afinal nada nos aproveita conhecer, e que os homens anseiam saber, só por saber.

É ainda a curiosidade que, com o mesmo intuito de alcançar uma ciência perversa, faz recorrer o homem às artes mágicas. Enfim é ela que, até na religião, nos arrasta a tentar a Deus, pedindo-Lhe milagres e prodígios, não porque os exija a salvação das almas, mas só porque se deseja fazer a experiência.

Neste bosque imenso, repleto de tantas insídias e perigos, cortei e expulsei da minha alma muitos males. Vós assim me o concedestes, ó Deus da minha salvação. Mas quando no meio de tantas tentações desta espécie, que por todos os lados me circundam a vida quotidiana, ousarei afirmar que nenhuma delas me há de ver, nem me ei de deixar arrastar por nenhuma curiosidade vã?

Os teatros, é certo, já me não arrebatam nem procuro conhecer o curso dos astros, nem nunca a minha alma esperou as respostas das sombras de que se vale a magia para as suas respostas. Detesto todos estes ritos sacrílegos. Mas, ó Senhor meu Deus, a quem devo servir na humilhação e simplicidade, com quantas maquinações me incita o inimigo a pedir-Vos um sinal! Contudo suplico-Vos pelo nosso Chefe e nossa Pátria – a pura e casta Jerusalém – que assim como até agora esteve longe de mim este consentimento, assim continue a estar cada vez mais. Quando Vos peço a salvação de alguém, o fim do meu intento é muito diferente. Concedei-me agora e no futuro a graça de Vos servir jubilosamente fazendo Vós o que quiserdes.

Contudo, quem poderá contar as insignificantes e desprezíveis misérias que todos os dias tentam a nossa curiosidade, e o número de vezes em que escorregamos? Quantas e quantas vezes não ouvimos contar banalidades! Ao princípio toleramo-las, só para não ofender os fracos; mas depois ouvimo-las com gosto sempre crescente!

Já não contemplo um cão a correr atrás duma lebre quando isso sucede no circo. Mas se a caçada for no campo, que eu casualmente atravesso, talvez ela me distraia de um pensamento importante e, se me não obriga a mudar de caminho para a seguir a cavalo, sigo-a ao menos com um desejo de coração; se imediatamente por meio da minha já tão conhecida fraqueza, me não avisardes que me liberte desse espetáculo. E se eu me não elevar até Vós com alguma consideração, ou desprezando-o por completo ou passando adiante, ficarei loucamente absorvido.

Quando estou sentado em casa não me prende também, muitas vezes a atenção, um estelião(2) a caçar moscas, ou uma aranha enredando as que se atiram às suas teias? Acaso, por serem animais pequenos, a curiosidade deixará de ser a mesma? É certo que disto me aproveito para Vos louvar, ó Criados admirável e Coordenador de todas as coisas. Mas não é isso o que primeiro me desperta a atenção. Uma coisa é levantar-me após a queda, e outra coisa é não cair nunca.

De tais misérias está repleta a minha vida. A minha única esperança é a Vossa infinita misericórdia. como o nosso coração é recipiente de todas estas misérias e porque traz essa imensa multidão de vaidades, muitas vezes as nossas orações interrompem-se e perturbam-se.

Enquanto na Vossa presença elevamos até junto de Vossos ouvidos a voz da nossa alma, não sei donde provêm tantos pensamentos fúteis, que se despenham sobre nós e nos cortam a atenção em coisa tão importante.


Santo Agostinho de HiponaConfissões, Segunda Parte, Livro X, cap. 35.


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(1) I Jo. II, 16
(2) Espécie de lagartixa do Norte da África que no dorso apresenta manchas parecidas a estrelas.