Diz o linha-média: É impossível que um papa defeccione na fé. Com efeito, como o mostra São Roberto Bellarmino, o Papa Sisto IV, antes de tudo por meio do Sínodo de Alcalá, e depois por si mesmo, condenou os artigos de um certo Pedro de Oxford, um dos quais afirmava que a Igreja da cidade de Roma poderia errar. Trata-se pois de condenação feita pelo próprio magistério, que, como se sabe, não pode errar. Logo, quando um documento como a declaração Dignitatis humanae, do Concílio Vaticano II, diz coisas que vão aparentemente contra a fé e contra o estabelecido por dois mil anos de magistério infalível, não pode passar disso mesmo: só aparentemente se opõem à fé e ao estabelecido anteriormente pelo magistério. Se porém se mantém a aparência de oposição, não pode dever-se senão a um mau entendimento e pois a um mau juízo. Replica o sedevacantista: De fato é impossível que um papa enquanto papa cometa qualquer atentado contra a fé; se o fizesse, falharia a promessa de indefectibilidade feita por Cristo a Pedro. Por isso, como o diz São Roberto Bellarmino, se segundo suposição um papa defeccionasse na fé, ipso facto perderia a jurisdição, ou seja, deixaria de ser papa, porque – como está implícito no dito – Cristo lhe retiraria a jurisdição no ato mesmo em que defeccionasse na fé. Logo, não pode haver papa herético, ou ao menos publicamente herético. – Por isso, ainda tem razão São Roberto Bellarmino quanto à impossibilidade de que a Igreja de Roma erre, porque, com efeito, o “papa” herético já não é o bispo da Igreja de Roma. E assim as heresias de um Francisco – as quais por evidentes não podem negar-se – não são heresias de um bispo de Roma.
9) Pressuposto, assim, tudo quanto se disse até aqui, deve-se dizer agora que a autoridade enquanto poder ou faculdade ativa é um habitus e, por conseguinte, um acidente predicamental; e, como todo acidente predicamental, não pode existir se não é recebido num sujeito. Que sujeito, ou antes, quem governa legitimamente e quem ilegitimamente? Governa legitimamente quem foi eleito legitimamente pela sociedade para receber a autoridade, e que não tem impedimento para recebê-la. Ilegitimamente aquele que tomou ilegitimamente a autoridade, ou por tê-lo feito sem designação legal, ou, ainda que validamente designado, por ter qualquer impedimento para receber a autoridade. Na sociedade civil, a instituição do sujeito da autoridade pertence ao conjunto da comunidade. “Segundo os tomistas em geral [também traduzimos aqui, à letra, uma frase do Padre Donald J. Sanborn], a comunidade inteira tem o direito de instituir ou escolher tanto a forma de governo quanto o sujeito que receberá a autoridade, mas a comunidade não transmite a própria autoridade, como sustentaram alguns, em particular Suárez. A comunidade simplesmente propõe um sujeito de autoridade. Mas é Deus quem dá a autoridade.” Assim, para que o rei, numa monarquia hereditária, receba legitimamente a autoridade, é mister que o povo aceite, pelo menos implicitamente, o sistema monárquico hereditário. Tudo isso, porém, tem que ver com o governo civil; já a constituição da Igreja, por seu lado, provém de Cristo, é imutável e de modo algum depende da aprovação da comunidade de fiéis. E, ao contrário do que se dá na sociedade civil, os elementos essenciais da constituição da Igreja se estabeleceram por disposição divina direta. A forma que lhe deu Cristo é monárquica, e nem o papa, que enquanto vigário de Cristo desfruta da mesma autoridade que Ele, pode alterá-la.
Não houve maior desgraça
e crise na história da Igreja que a ocasionada pelo Concílio Vaticano II. Comparada
a esta, a crise do arianismo – pela qual, no dizer de São Jerônimo, “o mundo
dormiu cristão e, sobressaltado, acordou ariano” – mostra-se pequena.
E, com efeito, diante da
tremenda crise aberta pelo Concílio Vaticano II, dividiram-se e dividem-se os
católicos.
1.
Uns são fautores do mesmo concílio e de suas sequelas. A estes não podemos
chamar católicos senão ao modo como um câncer pode dizer-se daquele que o
porta. São os que propriamente podemos chamar lobos em pele de cordeiro.
2.
Outros – talvez a maioria – repetiram e repetem os erros desses fautores sem
saber que se trata de erros e crendo-os em perfeita continuidade com o estabelecido
pelo magistério anterior. A estes não podemos chamar propriamente hereges; mas
tampouco se podem ignorar os perigos a que sua alma se encontra exposta.
3.
Outros ainda, diante daquilo que perceberam proscrito pelo magistério anterior e
que, no entanto, era sustentado pela própria hierarquia conciliar, se foram
afastando da vida religiosa e dos sacramentos, e tenderam a perder a fé.
4.
Uma parte, por certo devido a alguma graça para que percebesse mais certeiramente
o infortúnio que implicaram e implicam o Concílio Vaticano II e seu seguimento,
opôs-se e opõe-se ao chamado magistério conciliar. Mas esta parte se subdivide.
a.
Uns, mais próximos da verdade, nem sempre porém sabem fundar sua oposição em doutrina
mais sólida, razão por que alguns destes (como os superiores da atual FSSPX), sustentando
a necessária visibilidade da Igreja e pois a necessidade de sua mesma
regularização canônica, acabam por aderir de algum modo à hierarquia conciliar.
b.
Outros – os sedevacantistas –, julgando absolutamente impossível conciliar
heresia e jurisdição, acabam por atentar contra a necessária visibilidade da
Igreja. Incluem-se aqui, de algum modo, os chamados eclesiavacantistas, para os
quais a Igreja se reduz a eles mesmos, apesar de seu ínfimo número e de sua falta
de jurisdição.
5.
Tem-se por fim a chamada “linha média”, que, sem ver como conciliar a devida docilidade
ao magistério com a oposição ao magistério conciliar, acaba por favorecer, de
maneira vária e mediante os mais diversos artifícios teológicos, a este mesmo
magistério. – Da linha média entram a fazer parte, de algum modo, os que buscam
ou alcançam a referida regularização canônica.
Pois bem, incluímo-nos
entre os que se opõem ao magistério conciliar e não buscam regularizar-se
canonicamente sob este, e que podem beneficiar-se de doutrina a mais sólida
para fundar sua posição: a exposta pelo Padre Álvaro Calderón (da FSSPX) na
questão disputada A Candeia Debaixo do
Alqueire, a qual por sua vez se funda, naturalmente, em tudo quanto fez,
disse ou escreveu Dom Marcel Lefebvre, mas elevando-o ao plano da mais estrita
ciência teológica. Esta questão disputada é o terreno seguro em que podemos
alicerçar nossa postura sem desviar-nos para o sedevacantismo (ou para o
eclesiavacantismo) nem para a linha média e o acordismo.*
Desse modo, a série que
iniciamos com este proêmio visa a mostrar a justeza e a necessidade de
resistir ao magistério conciliar, e especialmente ao papado de Francisco, cujo
caráter catastrófico a chamada linha média e os acordistas do dia se negam de
algum modo a ver perfeitamente. Mas não o poderíamos fazer, insista-se, sem
demonstrar a possibilidade de unir tal resistência à devida docilidade ao
magistério, e esta demonstração é A
Candeia Debaixo do Alqueire a que no-la possibilita cabalmente.
Sucede todavia que esta mesma
questão disputada não é de fácil compreensão para os ainda não dotados do
hábito intelectual da teologia (e teologia tomista). Eis pois a razão central desta
série: tornar A Candeia acessível a
um maior número, e tornar assim mais amplamente compreensível a necessidade de
resistir e seguir resistindo ao chamado magistério conciliar.
Mas há uma razão
suplementar. Não poucos vivem a dizer pelos cantos e pelas sombras que “esse
Carlos Nougué” é cismático, que apoia bispos cismáticos, que é excomungado,
etc. Pois bem, os que assim murmuram terão oportunidade de ver melhor nossas
razões e a resposta que damos a suas objeções à nossa postura (objeções que,
como mandam a boa doutrina e o bom método, hão de expor-se o mais fielmente
antes de ser refutadas). Se ainda assim não se convencerem, fique desde já o
convite a que então busquem refutar-nos publicamente, à luz do dia, em alguma
forma de debate.
Observações.
• Insista-se em que nos
fundaremos muito estritamente em A
Candeia Debaixo do Alqueire. Mas algo será de nossa própria lavra, e
obviamente não deverá imputar-se ao sacerdote da FSSPX.
• Não responderemos diretamente nesta série ao sedevacantismo e ao eclesiavacantismo, o que faremos no livro Do Papa Herético. É aliás quanto ao sedevacantismo
que A Candeia nos parece necessitar de
aprofundamento.**
• Nossa série dividir-se-á
nos seguintes artigos:
1.
Se o chamado magistério conciliar é
infalível;
2.
Se se pode pôr em discussão algum magistério, e especialmente o conciliar;
3.
Se o magistério conciliar tem algum grau de autoridade;
4.
Se o magistério conciliar impõe sua autoridade de modo indireto;
5.
Se a resistência ao magistério conciliar há de ser franca, sistemática e organizada.
• Como cada um destes
artigos será muito longo, dividi-lo-emos em quantas postagens nos parecerem
necessárias.
• E tais postagens não
virão a lume segundo nenhuma periodicidade preestabelecida, mas segundo nossa
própria disponibilidade de tempo para escrevê-las.
(Continua.)
*
Que o Padre Álvaro Calderón pareça contradizer sua doutrina com sua prática não
é assunto que nos interesse aqui.
**
Não dizemos, assinale-se, que erre quanto a ele, senão que, repita-se,
necessita de aprofundamento. E, com efeito, nosso Do Papa Herético ergue-se sobre dois pilares: o dito a respeito deste
assunto pelo tomista Domingo Báñez O. P. (1528-1604)
e a tese da “jurisdição precária” avançada por Arnaldo Xavier da Silveira em suas
Considerações sobre o Ordo
Missae de Paulo VI. Desde
que os lemos pela primeira vez, pareceram-nos grávidos de importantes desdobramentos,
como esperamos mostrar em Do Papa
Herético.
Católicos, sejam generosos! O objetivo de Deus em ação
É salvar muitas almas fora da “Tradição”.
Se a evidência em favor dos milagres eucarísticos que teriam tido lugar dentro da Igreja Novus Ordo (ver CE 436 e 437) é tão séria como parece, segue que os católicos devem conformar suas mentes à mente de Deus e não o contrário. E os Católicos aderidos à Tradição têm uma especial necessidade de resolver o que Deus quis significar com esses milagres, porque estes fiéis da Tradição não entendem facilmente o que Ele tem podido significar quando sabem quão desagradável deve ser para Ele a Missa Novus Ordo (NOM) em si mesma.
Por muitos séculos Deus realizou tais milagres. A razão primária tem sido sempre fortalecer a fé dos Católicos em uma verdade da Fé que não é fácil de crer, mas está muito próxima ao Coração de Deus. Que no instante da Consagração do pão e do vinho durante a Missa, Deus mesmo tome o lugar de suas substâncias, é um acontecimento tão fora do curso normal da natureza, que esta invenção do amor de Deus desejando dar-se a Si mesmo como comida e bebida para o seu rebanho possa ser prática, mas parece também inacreditável. Por isso que em devidos momentos e lugares, Deus tem operado milagres visíveis sob uma ou outra forma para ajudar às almas duvidosas a crer. Uma razão secundária para estes milagres, especialmente onde tenha havido uma ou outra profanação da Sagrada Eucaristia, é para recordar aos Católicos o tratamento sagrado e a adoração que sempre se lhes deve às humildes aparências por trás das quais Deus mesmo se esconde.
Ambas destas razões se aplicam hoje em dia quando o NOM diminuiu severamente o sentido da Presença Real, sem sempre anulá-la (ver CE 437). Quem pode negar que o rito do NOM e sua prática através da Igreja Novus Ordo, por exemplo a Comunhão de pé e na mão, tem conduzido incontáveis Católicos até a descrer na Presença Real e a incontáveis sacerdotes até a falta de devido respeito no manipular da Santa Eucaristia? Quem pode negar que ambos, o decréscimo da fé e a falta de respeito ante Ela, têm imensamente aumentado desde que o NOM foi introduzido em 1969? Humanamente falando, o assombro pode não ser que tenha havido milagres dentro do limite do NOM, mas também que tenha havido muito mais. De qualquer modo, Deus tem sabido como atuar para o melhor.
Por outro lado, estes milagres – sempre e quando são autênticos – deixam lições para os Católicos da Tradição também, que se colocaram mais ou menos distantes do limite do Novus Ordo. A lição mais óbvia é que nem todas as Missas Novus Ordo são inválidas, nem todas as Consagrações episcopais nem todas as Ordenações sacerdotais, como os “Tradicionalistas” podem estar tentados a pensar. Isto é seguramente porque mesmo que desde os anos 1960 uma massa da grei católica tem se tornado demasiadamente mundana para merecer manter o verdadeiro rito da Missa, as ovelhas têm sem dúvida amado suficientemente a Missa para não perdê-la totalmente. O NOM pode ter sido permitido por Deus para tornar mais fácil aos Católicos para que abandonassem a Fé se eles quisessem, mas não impossível de mantê-la, sempre que o quisessem.
Por conseguinte, o NOM e a Igreja Novus Ordo como um todo são perigosos para a Fé, e os Católicos estão corretos por terem aderido à Tradição para evitar o perigo. Mas como tiveram de pôr distância entre eles e a corrente principal da Igreja, assim eles se expuseram ao perigo oposto de um isolamento condutor a um espírito sectário e até farisaico, desligado da realidade. Há verdadeiros sacramentos no Novus Ordo e verdadeiros Católicos, os quais Deus cuida, e os “Tradicionalistas” deveriam estar contentes que os há. Que seu isolamento não os faça sentir que estão obrigados a negar que não haja sequer algo católico que reste no Novus Ordo. Isso é irreal e o pêndulo da realidade oscilará de volta, como com a liderança da FSSPX, que não vê mais suficientemente a necessidade de isolar-se da Igreja neo-modernista. Não. A Tradição necessita de isolamento, mas com um espírito generoso e não isolacionista.
É claro que ao menos a Sua Igreja Deus virá resgatar
Mas os católicos devem, até que fiquem roucos, gritar.
Os “Comentários” da semana passada foram longe, chegando a sugerir que começar a compreender a mentalidade liberal é importante para manter a Fé nos dias de hoje. Vendo como o liberalismo dissolve a Verdade, entende-se como ele está minando a Fé e destruindo a Igreja. Ao mesmo tempo, vendo como ele corrompe as mentes, compreende-se como os homens da Igreja de hoje estão “diabolicamente desorientados” sem necessariamente estar completamente conscientes de como eles mesmos estão destruindo a Igreja. Então, não é preciso ser nem liberal nem sedevacantista. Vamos dar uma olhada em outro texto clássico de Dom Lefebvre, um trecho do Capítulo XVI, Eles O Destronaram, onde ele examina “A Mentalidade Liberal Católica”:
“Uma enfermidade da mente. ‘Mais que uma confusão mental, o catolicismo liberal é uma enfermidade da mente’ (Pe. A. Roussel, em seu livro Liberalismo e Catolicismo): a mente é incapaz de permanecer simplesmente na verdade. Não pode afirmar nada sem pensar imediatamente na contra-afirmação que se sente igualmente obrigada fazer. O Papa Paulo VI foi um clássico exemplo de tal mente dividida, de ser um duas caras – podia-se mesmo ler fisicamente em suas feições –, em perpétuo balanço entre duas posições contraditórias e levada por um movimento pendular, oscilando regularmente entre a Tradição e a novidade. A isso não chamariam alguns de esquizofrenia intelectual?
Penso que o Pe. Clérissac viu mais profundamente a natureza dessa enfermidade. Ela é uma falta de integridade da mente (O Mistério da Igreja, Capítulo VII), de uma mente sem suficiente confiança na verdade... Quando o liberalismo prevalece, essa falta de integridade da mente mostra-se psicologicamente em duas claras características: liberais são maleáveis e ansiosos: maleáveis porque facilmente assumem o estado de espírito daqueles que estão ao seu redor; ansiosos porque, pelo medo de contrariar esses diferentes estados de espírito, estão continuamente preocupados em justificarem-se a si mesmos; parecem sofrer das dúvidas contra as quais eles mesmos combatem; não têm confiança suficiente na verdade; estão preocupados em justificar sua posição, demonstrando, adaptando ou até mesmo se desculpando.
Muito preocupados em estar em harmonia com o mundo; desculpando-se! São boas colocações. Eles querem desculpar-se por todo o passado da Igreja: pelas Cruzadas, pela Inquisição, etc. Quando justificam e demonstram, fazem-no muito timidamente, especialmente quando se trata dos direitos de Jesus Cristo; e então buscam adaptar-se ao mundo, e eles o fazem, pois é seu princípio básico. Eles partem do que consideram ser um princípio prático, e de um fato que consideram inegável, a saber, que a Igreja não pode ser concebida nas circunstâncias atuais, nas quais ela tem de cumprir sua missão divina, sem que esteja em harmonia com elas”.
Desde o tempo de Pe. Clérissac e de Dom Lefebvre, a dissolução das mentes e corações pelo liberalismo só tem feito grandes avanços. No século XXI, há ainda menos traços do antigo sistema de verdades objetivas e de moralidade objetiva que havia no século XX. Assim, a adaptação da Igreja ao ambiente torna-se cada vez mais mortal para a Fé e para a moral católica, que não são nada se não forem objetivas. Como temos sofrido por causa de uma mente que alterna continuamente afirmações e contra-afirmações, uma mente continuamente ansiosa para convencer a ambas as partes, completamente opostas uma a outra, para reconciliar o que é irreconciliável – uma mente que carece não apenas de confiança na verdade, mas até mesmo, tal como parece, de qualquer conhecimento da verdade –, por essa mesma mente poder fazer uma imitação tão boa da verdade! Costumava-se dizer antigamente que uma mente assim pertenceria a um “mentiroso”. E hoje?
Podemos apenas gritar como o Salmista: Senhor, vossos próprios católicos tornaram-se motivo de zombaria para os não católicos. Por Vossa própria honra e glória, apressai-Vos em resgatar-nos!
Com outras palavras ele também disse que as mentes estão enlanguescidas.
Muitos leitores destes “Comentários” devem estar pensando agora que aqui se tem tratado muito frequentemente do sedevacantismo, ou seja, da posição de quem sustenta que a Sé de Roma está vacante, que nenhum dos Papas desde o Vaticano II é verdadeiro Papa. Ora, se um católico precisa manter essa opinião para não perder a sua fé católica, que ele a mantenha, porque a sua fé é suprema (Hb 11, 6). Mas a opinião em si mesma é perigosa na medida em que pode ser o início de um deslizamento até a perda da fé, e eis porque estes “Comentários” têm insistido tanto em desencorajar o sedevacantismo. Uma opinião pode vir a tornar-se facilmente um dogma, então o super dogma e a medida de se alguém é ou não católico, de onde se pode deslizar até uma completa descrença na estrutura da Igreja e o isolamento em casa, e mesmo até a perda da fé católica. Considerem o que Dom Lefebvre disse (muito ligeiramente adaptado) perto do fim de 1979 em uma conferência para seminaristas em Écône:
Devemos ser prudentes. É óbvio que se o Papa Paulo VI não era Papa, então os Cardeais que ele nomeou não são Cardeais, e assim não podem ter elegido João Paulo I, nem ter validamente elegido João Paulo II; isto é muito claro. Eu acho que não se pode dizer tais coisas, que são exageros, que é argumentar de uma maneira muito absoluta e precipitada. Acredito que a realidade seja muito mais complexa.
Penso que aqueles que argumentam assim estão, de certo modo, esquecendo teologia moral e ética. Estão sendo especulativos demais. A teologia moral e a ética ensinam-nos a refletir e julgar as pessoas e seus atos de acordo com um completo contexto de circunstâncias que nós devemos ter em conta: “Quem, o que, onde, por quais meios, por que, como, quando” – todas as sete circunstâncias devem ser examinadas se nós nos pomos a julgar a moralidade de um ato. Então, nós não podemos permanecer na pura estratosfera, por assim dizer, no reino da pura teologia dogmática, ao pronunciar, por exemplo, que porque tal ato é herético, quem quer que o tenha praticado é um herege. Mas, estava essa pessoa consciente do que ela estava fazendo, fê-lo realmente por si mesma, não foi ela enganada ou forçada a fazê-lo?
Creio que aqui está o modo de resolver os graves problemas suscitados por João XXIII, Paulo VI e João Paulo I. Os jornais citaram este último a dizer que havia pensado inicialmente que a nova definição conciliar de liberdade religiosa era inaceitável porque a Igreja sempre ensinou o contrário, mas logo após estudar todo o conteúdo do documento do Concílio, percebeu que a Igreja havia-se enganado anteriormente. Pois bem, eu não tenho ideia de qual foram as palavras exatas de João Paulo I, mas dizer que a Igreja estaria enganada em uma matéria como a liberdade religiosa é de deixar a cabeça confusa! Contudo, eu atribuo isso às mentes liberais. O Liberalismo é assim. O Liberalismo afirma algo e então o contradiz, e se alguém demonstra que o que ele disse não é verdade, então ele vem com outra fórmula ambígua, com sentido duplo. A mente liberal está continuamente flutuando por aí, com expressões que não são claras, com coisas que podem ser tomadas de duas maneiras... Quantas coisas como essas há no Concílio, expressões equivocadas e confusas, todas típicas de mentes à deriva, mentes liberais... Do modo que vejo, penso que o fato de que o Papa é um liberal é suficiente para explicar a situação na qual nos encontramos.
Bravo, Sua Excelência! Não está o Arcebispo dizendo aqui exatamente o que estes “Comentários” têm frequentemente dito? E a razão pela qual eles tanto têm feito isso é porque veem aqui a chave para evitar o liberalismo sem te de recorrer ao sedevacantismo.
As mentes dos oficiais da Igreja não estão mais a funcionar?
Pode ser que medidas extremas Deus tenha de tomar.
Os leitores destes “Comentários”, após a leitura de “Papas Conciliares - I” e “Papas Conciliares - II”, de seis e quatro semanas atrás, respectivamente, talvez tenham ficado com a impressão de que eles sustentam que o Papa Francisco “pode ser inculpável por sua ignorância em relação às suas próprias blasfêmias e heresias”, tal como expôs um leitor. Esta impressão é equivocada. O liberalismo universal de hoje pode escusar os Papas “parcialmente” e “relativamente” por destruírem a Igreja Católica, mas é certo que ele não os escusa completamente. A prova de sua culpabilidade ao menos parcial não é difícil de obter.
A Igreja Católica pertence a Deus. Ele fundou-a e desenhou-a para funcionar com seres humanos como Seus instrumentos. Ele nunca permitirá que esses oficiais humanos de Sua Igreja destruam-na completamente, mas também jamais tirará o livre-arbítrio deles. Como resultado, cada um deles pode adquirir grande mérito ou demérito, de acordo com o modo com que usa ou abusa de seu ofício. Contudo, desse uso ou abuso depende a salvação de muitas outras almas além das deles mesmos. Como, então, alguém pode imaginar que Deus não ofereça a esses oficiais toda a graça que eles precisam para cumprir com seus deveres oficiais para o bem das almas? Se, então, os Papas conciliares, Cardeais e Bispos são todos verdadeiramente oficiais da Igreja designados, como parecem ser e como poucos que não sejam sedevacantistas negam, então, eles estão recebendo de Deus graças suficientes para conduzir bem a Igreja. Se, então, em âmbito geral, eles a estão derrubando por terra, devem estar recusando graças de estado, graças de seus ofícios. E se eles estão recusando a graça de Deus para o cumprimento de seu dever, não podem ser completamente inculpáveis. Eles podem não ter culpa pelo mundo sentimental em torno deles, mas a graça de Deus, em última instância, poderia livrar suas mentes do sentimentalismo, se eles quisessem. Eles não querem, porque então teriam de confrontar o mundo sentimental.
Imaginemos um exemplo concreto que pode ter acontecido muitas vezes na vida real durante a década de setenta. Uma avozinha consegue aproximar-se do Santo Padre. Em um meio a um mar de lágrimas ela explica que seu neto era um bom menino quando entrou no seminário (conciliar), mas que ele perdeu ali não apenas sua vocação, mas também sua fé e mesmo sua virtude. Se, como é mais provável, o Papa conciliar confia aos oficiais em torno que a retirem dali, ele não é inocente, porque avozinhas tendem a ser inequivocamente sinceras. Mas esses Papas preferem seu sonho conciliar, que está em harmonia com o mundo.
E aqui está um exemplo real ocorrido no Brasil, provavelmente nos anos oitenta. João Paulo II esteve em uma reunião de bispos diocesanos para discutir o apostolado em suas dioceses. Em um dado momento, um jovem bispo levantou-se para dizer que o rebanho em sua diocese estava sendo devastado pela invasão de seitas protestantes oriundas dos EUA promovida pelo ecumenismo; um desastre já conhecido, há muitos anos espalhado pela América Latina. O Papa ouviu o testemunho do bispo, mas poucos minutos depois já estava de volta a promover exatamente aquele ecumenismo que o bispo tinha acabado de denunciar. Quando confrontado com a realidade católica, o Papa preferiu seu sonho conciliar. Como ele poderia ser completamente inocente?
Disso se segue que esses Papas não são totalmente inocentes nem totalmente culpados da presente devastação da Igreja. Quanto de um eles são, e quanto do outro? Só Deus sabe. Mas se um bom Papa fosse designado, (e protegido por Deus!), para peneirar os oficiais da Igreja, limpar os maus e promover os bons, ele designaria um tribunal ou inquisição – sim, inquisição – para forçar cada oficial a escolher abertamente entre a Verdade ou o sentimentalismo. Seria uma tarefa fácil? Não, porque os mercadores de sentimentalismo não têm dificuldade em fazer parecer que eles amam a verdade, e podem facilmente acreditar, eles mesmos, que estão a lidar somente com a verdade. Eles podem ajustar suas mentes para qualquer coisa, e para opor-se a qualquer coisa. Então, o que se pode fazer? Um Castigo, para limpar os estábulos de Aúgias.
Estariam, ao causar danos, os Papas conciliares bem intencionados?
Aguardemos nos braços fortes de Deus. Só por Ele podem eles ser julgados.
Estes “Comentários” sempre voltam ao problema do subjetivismo porque sustentam que a Igreja e o mundo de hoje não podem ser bem compreendidos sem ele. Subjetivismo significa essa podridão da mente pela qual a pessoa, ou sujeito, permite que sua mente se desconecte da realidade, ou objeto, e então fique livre para refazer a realidade de acordo com sua própria fantasia. Daí o mundo de fantasia em toda sua loucura hoje à nossa volta, incluindo a fantasia da Neoigreja (Igreja e mundo são reconciliáveis) e a mesma fantasia da Neofraternidade (Tradição e Neoigreja são reconciliáveis).
Para se manter o apego mental à realidade e o equilíbrio na Fé, é essencial distinguir sempre o subjetivo do objetivo. Por exemplo, os Papas Conciliares estão gravemente equivocados na Fé, objetivamente falando, mas subjetivamente falando, eles estão convencidos de que estão certos, e podem bem estar, ao menos parcialmente, (só Deus sabe) bem intencionados. Mas se eu falho em distinguir entre o objetivo e o subjetivo, posso cair facilmente em um dos dois erros já conhecidos: se digo que esses Papas estão objetivamente equivocados, então eles devem estar subjetivamente equivocados, e assim não poderiam estar bem intencionados, e devem saber o que estão fazendo – portanto eles não podem ser Papas, e eu caio no dogmático sedevacantismo; ou, se eu digo que eles estão convencidos e são convincentes, então eles estão subjetivamente certos e assim devem estar também objetivamente, então eu devo segui-los, e caio no liberalismo (eis como Bento XVI, por exemplo – objetivamente –, enganou muitos bons católicos, quaisquer que fossem as suas intenções).
Pelo contrário, se eu tenho uma fé clara e sei distinguir entre a realidade objetiva e a fantasia universal de hoje, então, ao medir em última análise Roma pela Fé e não a Fé por Roma, eu posso perceber que os Papas Conciliares podem estar convencidos e ter, ao menos em parte – Deus sabe –, boas intenções, mas eu jamais os seguirei toda vez que tentarem me distanciar da verdadeira Fé e da verdadeira Igreja. Por outro lado, não excluirei a possibilidade de uma medida de boas intenções de sua parte, nem vou ter como pessoal o juízo dessa medida, mas esperarei que a Igreja julgue, depois de uma audiência, sua pertinácia e heresia.
Mas os homens da Igreja de hoje estão tão universalmente infectados pela fantasia da liberdade, igualdade e direitos do homem em oposição ao dever, à hierarquia e aos direitos de Deus, que a probabilidade de tal audiência se dar em algum momento próximo é mínima. Portanto, em minha própria mente eu posso ter de deixar em suspenso a questão desses Papas. Tal suspensão não é confortável, mas eu sei que Deus em Seu próprio bom tempo há de vir restaurar Seu Papado.
Enquanto isso, toda a estrutura de Sua Igreja, pela qual toda autoridade descende desde o Papa, não mudou. Assim, como o Papa Francisco condena a Tradição sempre que tem chance, a Tradição não pode fazer mais que permanecer lutando para sobreviver. Quanto à fundação de Dom Lefebvre e a liderança da Fraternidade Sacerdotal São Pio X que se seguiu, a aprovação oficial de seus Estatutos por parte do bispo diocesano local foi de imensa importância. Isso fez da FSSPX a luz de emergência da Igreja oficial, e o movimento da “Resistência” só pode ser uma tentativa de reparar essa luz de emergência da Igreja oficial. Esta tentativa está sendo prejudicada tanto pelos eletricistas oficiais quanto pelos da emergência? Que assim seja. Mas devem-se manter ao menos umas poucas luzes na Igreja. Contudo, que ninguém espere da “Resistência” prodígios ou maravilhas contra tal oposição dos colegas eletricistas. Paciência. Deus tem tudo sob controle.
Kyrie eleison.
N.B. Eu deverei estar Confirmando neste verão: (na França) próximo a Pau em 7 de junho, próximo a Vichy em 14 de junho; (no Canadá) em Calgary no dia 29 de junho; e (nos EUA) em Denver no dia 1º de julho, em Nashville no dia 2 de julho e em Jacksonville no dia 5 de julho. Papas Conciliares I | Papas Conciliares III | Papas Conciliares IV | Papas Conciliares V
Jamais, porém, como no mundo atual, corrupto como nunca se viu.
Quando alguém alega que os Papas conciliares podem estar ao menos parcialmente de boa fé, há normalmente católicos que protestam. Eles dirão que os Papas são homens da Igreja inteligentes e educados, e então é impossível que eles não percebam totalmente o que estão fazendo. A teoria “mentevacantista”, segundo a qual esses Papas têm a mente vacante, a ignorar parcialmente as consequências de suas próprias ações, é absurda para esses críticos. Pode-se entender o protesto, mas deixem-me citar um amigo que compreende o “mentevacantismo” tal como deve ser compreendido:
A ideia de que os Papas podem estar enganados de boa fé porque sustentam que certos erros não se opõem à Fé, requer atenção, porque as pessoas têm um conceito de papado muito destacado do mundo, enquanto que toda a história dos Papas é uma história de homens de seu tempo sujeitos à compartilhar todos os bons e maus hábitos e vícios daquele período. A diferença reside no poder do erro, que nunca foi tão forte como é atualmente; a humanidade nunca foi, não se deve esquecer, tão degenerada como hoje.
Pois de fato o liberalismo está agora em todo lugar, e a dominar; não é mais um mero pensamento ou maneira de pensar, mas um verdadeiro modo de ser que permeia todo homem vivo, seja ele um liberal absoluto em si mesmo, ou um agente do liberalismo e de sua subversão, ou meramente uma de suas ferramentas. Tal é o caso dos Papas conciliares. Eles acham que estão a se aproximar do mundo para curá-lo, sem se dar conta de que é o mundo que se aproxima deles para infectá-los e controlá-los.
Em uma situação como essa, pode-se certamente falar de Papas liberais, mas não de Papas não católicos, já que está faltando o primeiro requisito para tal condenação, a saber, a vontade pessoal deles de ser liberais e não católicos. Ninguém pode fazer outra coisa que reconhecer que nesses Papas há uma vontade pessoal de ser católicos e não liberais anticatólicos, já que para eles não há contradição entre os dois, longe disso. Segundo seu teólogo e pensador, Joseph Ratzinger, o liberalismo é um dos bons produtos derivados do catolicismo, que precisa apenas ser purificado de certas distorções estranhas trazidas para dentro dele. Assim, quanto à destruição da Igreja, torna-se lógico que os Papas, por acreditarem em tal catolicismo comprometido, não podem evitar que uma das consequências de suas ações seja essa destruição.
Em relação a Dom Lefebvre, dado que ele cresceu em uma Igreja muito diferente da Igreja de hoje, eu posso apenas concluir que para ele era impossível que um católico agisse como instrumento de subversão sem se dar conta do que está fazendo. Menos ainda poderia um Papa não percebê-lo. Por ler nas entrelinhas de certos escritos do Arcebispo, eu acredito que enquanto sua visão do mundo certamente incluía o processo de degeneração chegando ao fim dos tempos, ela não incluía esse processo a envolver de alguma maneira clara também a Igreja.
Eu posso imaginar leitores objetando a esse tipo de análise: “Oh, Excelência, por favor, pare de defender os Papas conciliares. É preto ou branco. Se eles são pretos, serei um sedevacantista feliz. Se são brancos, serei um liberal feliz. Seus cinzas só estão me confundindo!”.
Caro leitor, preto é preto, branco é branco, mas raramente na vida real nós encontramos o branco puro, e nunca o preto puro (tudo o que é, por pior que seja, tem a bondade de ser). Se vocês querem entender essa escusa relativa dos Papas conciliares, a chave é compreender que o mundo nunca foi tão profundamente mal como é hoje. A partir dessa degeneração sem precedente, é óbvio que os Papas conciliares são a esse respeito mais escusáveis por deslizar na Fé que qualquer um de seus predecessores.
Por Dom Richard Williamson Tradução: Cristoph Klug Um Papa herege é todavia chefe da Igreja,
Ainda que como membro pessoal, esteja morto.
Em relação à deposição de um Papa herege, os Dominicanos Tradicionais de Avrillé na França nos tem feito um grande favor ao publicar não somente as considerações clássicas de João de São Tomás (cf. CE 405), mas também as de outros teólogos proeminentes. Concisamente, as melhores mentes da Igreja ensinam que um simples e popular argumento hoje em dia, por exemplo, de que um Papa herege não pode ser um membro da Igreja, e consequentemente muito menos seu chefe, é por demais simples. Concisamente, há mais no Papa que simplesmente o católico individual que, por cair em heresia, perde a fé e com ele sua comunhão na Igreja. Para a Igreja, o Papa é muito mais que um católico individual. Para esclarecer, apresentamos os argumentos destes teólogos em forma de perguntas e respostas:
Primeiro de tudo, é possível para um Papa cair em heresia?
Se ele compromete todas as quatros condições de seu Magistério Extraordinário, ele não pode ensinar heresia, mas que ele possa pessoalmente cair em heresia é a opinião mais provável ao menos nos teólogos antigos.
Então se ele certamente cai em heresia, isso não faz com que ele cesse de ser um membro da Igreja?
Como uma pessoa católica individual sim, mas como Papa, não necessariamente, porque o Papa é muito mais que simplesmente um católico individual. Como disse Santo Agostinho, o sacerdote é católico para si mesmo, mas é sacerdote para os demais. O papa é papa para a Igreja inteira.
Mas, supondo que a grande maioria dos católicos possam ver que ele é um herege porque ele o é obviamente, não seria nesse caso que sua heresia torne impossível que ele ainda seja Papa?
Não, porque ainda que sua heresia fosse óbvia, ainda assim muitos católicos podem negá-lo, por exemplo, por causa de sua “piedade” pelo Papa e, por consequência, para prevenir uma confusão surgindo através de toda a Igreja, seria necessária uma declaração oficial da heresia do Papa para vincular aos católicos que permaneçam unidos. Tal declaração deveria proceder de um Concílio da Igreja congregado para tal propósito.
Mas se a heresia fosse pública e óbvia, não seria isso seguramente suficiente para depô-lo?
Não, porque em primeiro lugar cada herege deve ser oficialmente advertido antes de ser deposto, para o caso de que ele se retrate de sua heresia. E, em segundo lugar, na Igreja ou no Estado, cada oficial de alta esfera está servindo ao bem comum e, pelo bem comum, ele deve permanecer no ofício até que ele seja oficialmente deposto. Assim, tal como um bispo permanece no ofício até que ele seja deposto pelo Papa, assim o Papa permanece no ofício até que a declaração oficial de sua heresia por um Concílio da Igreja permite a Cristo depô-lo (cf. CE 405).
Mas, se um herege não é membro da Igreja, como pode ele ser seu chefe, o membro mais importante?
Porque sua pertença pessoal é algo diferente de sua autoridade oficial. Pela sua pertença pessoal ele recebe santificação da Igreja. Pela sua autoridade oficial ele manifesta o governo oficial da Igreja. E receber não é manifestar. Por cair em heresia, o Papa cessa de ser um membro vivo da Igreja, isso é certo, porém com isso não cessa de estar capacitado, ainda como membro morto, de governar a Igreja. Sua pertença na Igreja por fé e caridade é incompatível com a heresia, mas seu governo da Igreja por sua jurisdição oficial, não requerendo nem fé nem caridade, é compatível com a heresia.
Mas por sua heresia é um Papa que já perdeu seu papado!
Pessoalmente e em privado isso é certo, mas isso não é público e oficialmente certo até que um Concílio da Igreja tenha tornado sua heresia não somente pública, mas também oficial. Até então o Papa deve ser tratado como Papa, porque para a tranquilidade e o bem comum da Igreja, Cristo mantém Sua jurisdição.
Vale, sem dúvida, para a chamada Tese sedevacantista de Cassiciacum o já dito nas partes I e II deste artigo com respeito ao sedevacantismo em geral: tem ela por ponto de partida a conclusão de que um herético não pode ser cabeça da Igreja. Ora, a partir do Concílio Vaticano II todos os papas se mostraram heréticos; logo, pelo menos desde então a Sede Romana está vacante por defeito de autoridade.
Tal raciocínio se segue, como já dito, da forte impressão causada no espírito de fiéis católicos pelas novidades introduzidas a partir do Concílio Vaticano II, novidades que se chocam frontal e patentemente com o declarado pela totalidade do magistério anterior. Acontece, todavia, que ambas as premissas deste raciocínio são tênues: a primeira porque seria necessário averiguar, antes, se qualquer espécie de heresia impede de fato o ser cabeça da Igreja; a segunda porque, como se verá na refutação da Tese de Cassiciacum, implica um argumento quiainválido para o assunto de que aqui se trata.
Ou seja, entre tais premissas e aquela conclusão há saltos lógicos que tornam frágil o raciocínio. Não obstante, ainda que sabedor disso, o dominicano e bispo francês Michel Louis Guérard des Lauriers (1898-1988), o autor da Tese de Cassiciacum, não buscou investigar profundamente suas premissas iniciais, mas aferrou-se à sua conclusão e saiu em busca de outras premissas, mais sólidas, para ela. Como se dá com todas as outras formas de sedevacantismo, trata-se, na prática, de conclusão apriorística. Como porém chegou ele, de fato, a outra premissa maior, passou a seguir-se dela aquela mesma conclusão, sim, mas algo alterada: já não se trata de que os Papas pós-conciliares simplesmente não sejam Papas; de fato, não o são formalmente (formaliter), mas continuam a sê-lo materialmente (materialiter). Ora, aquela nova premissa maior (a menor permaneceu, obviamente encerrando ainda o já referido argumento quia) encerra, como também já antecipado, uma imprópria e obscura analogia da autoridade (e particularmente da autoridade papal) com o composto humano de corpo e alma.
Essencialmente menos complexa que a tese sedevacantista decorrente da obra A Figura deste Mundo, de Pacheco Salles, a Tese de Cassiciacum, porém, é não só essencialmente bem mais complexa que a dos sedevacantistas que para justificar sua posição se aferram à Bula Cum ex Apostolatus Officio, do Papa Paulo IV, mas muito mais complicada que a primeira tese. Com efeito, as próprias analogias impróprias com a filosofia da natureza de que se tece a Tese de Cassiciacum a tornam intricada e obscura, e duplamente mais trabalhosa de refutar: primeiro, precisamente porque se tem de deslindar (na medida do possível) tal obscuridade; segundo, porque se tem de mostrar que aquelas mesmas analogias, supostamente fundadas na obra de Santo Tomás e na de uma multidão de outros respeitados teólogos, em verdade não se fundam nelas. Por isso, ademais, se para bem refutar qualquer tese adversária é preciso antes expô-la o mais fidedignamente, a exposição da Tese de Cassiciacum já requererá de nós e do leitor um bom e longo esforço, que tomará duas partes deste artigo (esta e a da próxima semana). Comecemos, então, a expô-la: [1]
Por Dom Richard Nelson Williamson Traduzido por Andrea Patrícia (blogue Borboletas ao Luar)
18 de abril de 2015
Concílios da Igreja podem desligar um Papa herege, Mas Cristo o depõe, pois de sua total destruição Ele a protege.
Os sacerdotes Dominicanos de Avrileé, França, fizeram a todos nós um grande favor ao republicar as considerações sobre a Sé vacante de Roma escritas há uns quatrocentos anos por um famoso teólogo tomista da Espanha, João de Santo Tomás (1589-1644). Por ser um fiel sucessor de Santo Tomás de Aquino, ele se beneficia daquela sabedoria superior da Idade Média, época em que os teólogos podiam medir os homens por Deus ao invés de medir Deus pelos homens, uma tendência que começou como uma necessidade (se as almas não podiam mais tomar a penicilina medieval, teriam de tomar um remédio menos eficaz), mas que culminou no Vaticano II. Eis aqui, de forma bem resumida, as principais ideias de João de Santo Tomás sobre a deposição de um Papa:
I. Pode um Papa ser deposto?
Reposta: sim, pois os católicos são obrigados a se separar dos hereges depois destes terem sido advertidos (Tt III, 10). Além disso, um Papa herético põe toda a Igreja em um estado de legítima defesa. Mas o Papa deve ser primeiro advertido tão oficialmente quanto seja possível, para que possa se retratar. Também sua heresia deve ser pública, e declarada tão oficialmente quanto seja possível, para evitar confusão generalizada entre os católicos, vinculados entre si pela obediência.
II. Por quem ele deve ser oficialmente declarado herege?
Resposta: não pelos Cardeais, porque embora eles possam eleger um Papa, não podem depor nenhum, porque é a Igreja Universal que é ameaçada por um Papa herético, e então a maior autoridade universal possível da Igreja é a única que pode depô-lo, a saber, um Concílio da Igreja composto de um quorum de todos os Cardeais e Bispos da Igreja. Estes poderiam ser convocados não autorizadamente (o que só o Papa pode fazer), mas entre eles.
III. Por qual autoridade poderia um Concílio da Igreja depor o Papa?
(Aqui está a principal dificuldade, porque Cristo dá ao Papa poder supremo sobre toda a Igreja, sem exceção, tal como o Vaticano I definiu em 1870. Já João de Santo Tomás deu argumentos de autoridade, razão e Direito Canônico para provar esse supremo poder do Papa. Então, como pode um Concílio, sendo inferior ao Papa, ainda assim depô-lo? João de Santo Tomás adota a solução fornecida por outro famoso teólogo dominicano, Tomás Caetano (1469-1534). A deposição do Papa por parte da Igreja cairia não sobre o Papa enquanto Papa, mas sobre a ligação entre o homem e seu Papado. Isso pode parecer um tanto sutil, mas é lógico.)
Por um lado, nem mesmo o Concílio da Igreja tem autoridade sobre o Papa; mas por outro lado, a Igreja é obrigada a evitar os hereges e a proteger o rebanho. Portanto, como em um Conclave os Cardeais são os ministros de Cristo para vincular esse homem ao Papado, mas somente Cristo dá a ele sua autoridade papal; assim o Concílio da Igreja seria por sua declaração solene os ministros de Cristo para desvincular esse herege do Papado, mas somente Cristo, por sua autoridade divina acima do Papa, poderia autorizadamente depô-lo. Em outras palavras, o Concílio da Igreja deporia o Papa não autorizadamente, mas apenas ministerialmente. João de Santo Tomás confirma esta conclusão com base no Direito Canônico da Igreja, que afirma em muitos lugares que somente Deus pode depor o Papa, mas que a Igreja pode julgar sua heresia.
Infelizmente, como assinalam os Dominicanos de Avrilée, quase todos os Cardeais e Bispos da Igreja hoje estão tão infectados pelo modernismo que não há esperança humana de um Concílio da Igreja que veja de modo claro o bastante para condenar o modernismo dos Papas conciliares. Nós podemos apenas orar e esperar pela solução divina, que virá na boa hora de Deus.
A seguir: não estaria um Papa automaticamente deposto por uma simples heresia sua?