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domingo, 15 de abril de 2018

Comentários Eleison DLXI (561) - Anti-Lefebvrismo - II

Por Dom Richard N. Williamson
Tradução: Borboletas ao Luar

14 de abril de 2018


Demos graças a Deus pelo grande presente que nos concedeu:
O Arcebispo Lefebvre, por quem a Tradição ascendeu.

      Existe alguma razão pela qual NM (ver os “Comentários” da semana passada), ao lidar com o problema dos Papas Conciliares, recorre à solução dramática de declarar que eles não são Papas? Parece haver. A Igreja Católica é tanto humana (uma sociedade constituída por seres humanos) como divina (animada especialmente pelo Espírito Santo), e é importante não confundir as duas coisas. Os seres humanos, como tais, são todos falíveis. Somente Deus é infalível. O erro dos católicos que recorrem à solução dramática de NM é que eles estão atribuindo aos Papas humanos muito da infalibilidade que só pode vir de Deus. Vamos usar como exemplo algo que há em uma casa moderna qualquer.

      Quando eu enfio um plugue elétrico em uma tomada na parede, a corrente elétrica não vem do plugue, mas da estação de energia através da parede, e qualquer aparelho precisa receber a corrente elétrica pela tomada no plugue. A central elétrica é Deus. A parede e a tomada são a Igreja. A corrente é a infalibilidade da Igreja, vinda de Deus. O plug são as quatro condições que somente o Papa pode inserir na tomada. Essas condições, claro, são: que ele 1) fale como Papa 2) para definir de uma vez por todas 3) uma questão de fé ou de moral 4) com a intenção de obrigar todos os católicos a aceitá-la. Através do envolvimento das quatro condições pelo Papa, ele somente e ele garantiu o acesso como ser humano à infalibilidade divina da Igreja. As quatro condições envolvem o Papa. A infalibilidade envolve Deus.

      Ocorre também, é claro, que essa tomada específica, conhecida como Magistério Extraordinário da Igreja (ME), não é o único acesso dos seres humanos à infalibilidade da Igreja. Eles aderem a ela muito mais pelo Magistério Ordinário da Igreja (MO), que é a Tradição Católica, ou, o que todos os mestres da Igreja, Papas e Bispos em particular, ensinaram em todo o mundo desde que Jesus Cristo depositou esse Depósito da Fé em Sua Igreja, confirmada infalivelmente nos Apóstolos em Pentecostes e transmitida infalivelmente por eles até que o último deles morreu. A partir de então, essa doutrina passou a estar nas mãos de seres humanos falíveis, a quem Deus deixou o livre arbítrio para ensinar o erro se assim decidissem fazê-lo. Mas, se alguma vez o erro humano tornou duvidoso o que pertenceria à doutrina infalível e o que não pertenceria, Deus deu à Sua Igreja também o Magistério Extraordinário, precisamente para definir de uma vez por todas o que pertence e o que não pertence ao Magistério Ordinário. Assim, o MO está para o ME como o cão está para a cauda, ​​e não como a cauda está para o cão!

      O problema de inúmeros católicos desde a definição solene em 1870 sobre a infalibilidade da Igreja é que, uma vez que o acesso do ME à infalibilidade da Igreja está automaticamente garantido de uma maneira em que o acesso do MO não o está, então o ME parece superior, e os católicos tendem a exagerar o ME e a transferir pessoalmente para o Papa essa infalibilidade que na realidade pertence automaticamente somente à Igreja. Isso significa que se o Papa cometer sérios erros como os dos Papas conciliares, então a única explicação possível é que eles não são Papas. Ou, se são Papas, então é preciso seguir seus erros. A lógica é boa, mas a premissa é falsa. Os Papas não são tão infalíveis quanto a Igreja. Eles podem cometer erros sérios, como o mostraram o Vaticano II e seus Papas Conciliares, como nunca antes em toda a história da Igreja! Mas a Igreja continua infalível, e, portanto, eu sei que a Tradição Católica durará até o final do mundo, apesar do pior que qualquer Papa fraco possa tentar fazer daqui por diante.

      Mas como é que eu sei que para o Papa como Papa pertence somente o acesso privilegiado (quatro condições) à corrente elétrica (infalibilidade), e não a corrente em si que pertence à parede (a Igreja)? Porque é o que diz a própria definição de infalibilidade em 1870! Eu só preciso ler: quando o Papa cumpre com as quatro condições (mencionadas acima), ele então possui “aquela infalibilidade da qual o divino Redentor quis que gozasse Sua Igreja na definição de doutrina relativa à fé ou à moral”.

      Assim, os Papas católicos têm liberdade para cometer erros terríveis, sem que a Igreja seja menos infalível.

      Kyrie eleison.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Comentários Eleison DLX (560) - Argumento (Anti) "Lefebvrista"

Por Dom Richard N. Williamson
Tradução: Introibo ad Altare Dei

07 de abril de 2018


O Arcebispo Lefebvre era sábio – sua regra era de ouro,
“Reconhecer, mas resistir” não é algo tão tolo!



Para atacar os sacerdotes dominicanos franceses de Avrillé por seu “Lefebvrismo”, ou seja, por sua recusa em aceitar que os Papas conciliares desde Paulo VI não foram Papas, um leigo francês – Sr. N. M. – acaba de escrever um artigo acusando os dominicanos de rejeitarem três dogmas católicos: que o Papa tenha primazia de jurisdição sobre a Igreja Universal; que o Magistério Ordinário Universal da Igreja é infalível; que é o Magistério vivo da Igreja que determina o que os católicos devem crer. Normalmente é melhor deixar essas questões de doutrina para os especialistas em doutrina, mas os nossos tempos não são normais. Hoje, os católicos podem confiar em seu bom senso católico para decidir essas questões por si mesmos.

Olhemos para as três perguntas de maneira simples e prática. Se eu quero aceitar que os Papas foram verdadeiros Papas desde Paulo VI, por que eu deveria negar, em primeiro lugar, que o Papa é o Chefe da Igreja; em segundo lugar, que o ensino normal da Igreja é infalível; e, em terceiro lugar, que o Papa reinante me diz em que devo acreditar? Vejamos os argumentos de N. M., um por um.

Quanto ao primeiro ponto, N. M. cita o completamente antiliberal Concílio Vaticano I (1879-1871) no sentido de que o Papa é o Chefe direto e imediato de todas as dioceses, de todos os sacerdotes e de todos os católicos. Se, então, como todos os lefebvristas eu me recuso a obedecê-lo, estou implicitamente negando que ele seja meu Chefe enquanto católico, então estou negando que o Papa é o que o Vaticano I o definiu ser. Resposta: eu não estou de forma nenhuma negando que os Papas conciliares têm a autoridade para comandar-me como católico; estou apenas dizendo que sua autoridade católica não inclui a autoridade para tornar-me um protestante, como farei caso eu siga suas ordens de acordo com o Vaticano II.

Em segundo lugar, N. M. argumenta que o Vaticano I também afirmou que o ensinamento cotidiano do Papa e dos Bispos é infalível. Ora, se alguma vez tivemos um ensinamento sério do Papa e dos Bispos juntos, foi no Vaticano II. Se, então, eu recuso esse ensinamento, estou implicitamente negando que o Magistério Ordinário Universal da Igreja seja infalível. Resposta, não, eu não estou. Reconheço plenamente que quando uma doutrina é ensinada pela Igreja em quase toda parte, em todos os tempos e por todos os Papas e Bispos, ela é infalível, mas se foi ensinada apenas nos tempos modernos do século XX pelos Papas e Bispos do Vaticano II, então é contrária ao que foi ensinado pelos Papas e Bispos em todos os outros tempos da Igreja, e eu não me considero obrigado a aceitá-la. Enquanto eu aceito o MOU consistente de todos os tempos, então eu rejeito o MOU inconsistente de hoje, que o contradiz.

Em terceiro lugar, N. M. argumenta que o verdadeiro Papa tem a autoridade viva para dizer-me como católico no que devo crer hoje. Se então me recuso a acreditar no que os Papas conciliares me disseram para crer, estou rejeitando sua autoridade viva como árbitros da Fé. Resposta: não, eu não estou. Eu estou usando meus olhos para ler, e meu cérebro dado por Deus para julgar, que o que os Papas conciliares me dizem contradiz o que todos os Papas anteriores até São Pedro me disseram, e eu prefiro seguir a consistência de duzentos e sessenta e um Papas dizendo-me no que acreditar do que a inconsistência de seis Papas Conciliares. “Mas então você está rejeitando a autoridade viva do Papa reinante como árbitro da Fé!”. Somente porque eu estou seguindo, obedecendo e submetendo-me aos duzentos e sessenta e um Papas como árbitros dessa Fé que meus olhos e meu cérebro me dizem que os Papas conciliares não estão seguindo. “Mas então você está apoiando seus próprios olhos e cérebro contra o Papa católico!” Deus me deu olhos e um cérebro que funcionam, e quando eu estiver diante Dele para ser julgado, responderei pelo uso que fiz deles.

É claro que a própria resposta de N. M. ao problema dos Papas protestantes, modernizadores e conciliares é negar que eles sejam Papas. Deveria ser igualmente claro que, para o problema, que é muito real, não estou obrigado a adotar a solução drástica de N. M. Tampouco, se me recuso a adotá-la, sou obrigado a negar três dogmas da Igreja. Que a paz esteja com N. M.

Kyrie eleison.


terça-feira, 11 de julho de 2017

Voz de Fátima, Voz de Deus - nº 22






01 de julho de 2017



“Vox túrturis audita est in terra nostra”

(Cant. II, 12)



      Muitos homens eminentes já se perguntaram se os Papas conciliares são verdadeiramente Papas. Dom Lefebvre foi um deles. Mas perguntar-se é uma coisa; afirmar é outra. Dom Lefebvre não o afirmou. Ele não o afirmou porque ele não tinha as premissas que permitissem afirmar que os Papas conciliares não eram Papas. Se não se têm as premissas, a conclusão não se segue. Por isso, Dom Lefebvre não tirou esta conclusão. Nós também não a tiramos. Na dúvida, é melhor respeitar a posse de quem detém o cargo. A perda do pontificado é algo complexo. Os teólogos, o Direito Canônico, os Papas, a História, a Sagrada Escritura e o bom senso nos convidam a uma grande prudência na matéria. Esta foi a atitude de Dom Lefebvre, modelo de todos os que resistem ao modernismo e que trabalham para o triunfo do Cristo Rei. Sigamos seu exemplo.



+ Tomás de Aquino OSB



U.I.O.G.D

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Linha média versus sedevacantismo, ou quando os extremos se tocam

Carlos Nougué (Estudos Tomistas)

Diz o linha-média: É impossível que um papa defeccione na fé. Com efeito, como o mostra São Roberto Bellarmino, o Papa Sisto IV, antes de tudo por meio do Sínodo de Alcalá, e depois por si mesmo, condenou os artigos de um certo Pedro de Oxford, um dos quais afirmava que a Igreja da cidade de Roma poderia errar. Trata-se pois de condenação feita pelo próprio magistério, que, como se sabe, não pode errar. Logo, quando um documento como a declaração Dignitatis humanae, do Concílio Vaticano II, diz coisas que vão aparentemente contra a fé e contra o estabelecido por dois mil anos de magistério infalível, não pode passar disso mesmo: só aparentemente se opõem à fé e ao estabelecido anteriormente pelo magistério. Se porém se mantém a aparência de oposição, não pode dever-se senão a um mau entendimento e pois a um mau juízo. Replica o sedevacantista: De fato é impossível que um papa enquanto papa cometa qualquer atentado contra a fé; se o fizesse, falharia a promessa de indefectibilidade feita por Cristo a Pedro. Por isso, como o diz São Roberto Bellarmino, se segundo suposição um papa defeccionasse na fé, ipso facto perderia a jurisdição, ou seja, deixaria de ser papa, porque – como está implícito no dito – Cristo lhe retiraria a jurisdição no ato mesmo em que defeccionasse na fé. Logo, não pode haver papa herético, ou ao menos publicamente herético. – Por isso, ainda tem razão São Roberto Bellarmino quanto à impossibilidade de que a Igreja de Roma erre, porque, com efeito, o “papa” herético já não é o bispo da Igreja de Roma. E assim as heresias de um Francisco – as quais por evidentes não podem negar-se – não são heresias de um bispo de Roma.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Sedevacantismo, ou uma conclusão à procura de premissas - Parte VI (Final)

Via Capela Nossa Senhora das Alegrias - Vitória - ES


Professor Carlos Ancêde Nougué


9) Pressuposto, assim, tudo quanto se disse até aqui, deve-se dizer agora que a autoridade enquanto poder ou faculdade ativa é um habitus e, por conseguinte, um acidente predicamental; e, como todo acidente predicamental, não pode existir se não é recebido num sujeito. Que sujeito, ou antes, quem governa legitimamente e quem ilegitimamente? Governa legitimamente quem foi eleito legitimamente pela sociedade para receber a autoridade, e que não tem impedimento para recebê-la. Ilegitimamente aquele que tomou ilegitimamente a autoridade, ou por tê-lo feito sem designação legal, ou, ainda que validamente designado, por ter qualquer impedimento para receber a autoridade. Na sociedade civil, a instituição do sujeito da autoridade pertence ao conjunto da comunidade. “Segundo os tomistas em geral [também traduzimos aqui, à letra, uma frase do Padre Donald J. Sanborn], a comunidade inteira tem o direito de instituir ou escolher tanto a forma de governo quanto o sujeito que receberá a autoridade, mas a comunidade não transmite a própria autoridade, como sustentaram alguns, em particular Suárez. A comunidade simplesmente propõe um sujeito de autoridade. Mas é Deus quem dá a autoridade.” Assim, para que o rei, numa monarquia hereditária, receba legitimamente a autoridade, é mister que o povo aceite, pelo menos implicitamente, o sistema monárquico hereditário. Tudo isso, porém, tem que ver com o governo civil; já a constituição da Igreja, por seu lado, provém de Cristo, é imutável e de modo algum depende da aprovação da comunidade de fiéis. E, ao contrário do que se dá na sociedade civil, os elementos essenciais da constituição da Igreja se estabeleceram por disposição divina direta. A forma que lhe deu Cristo é monárquica, e nem o papa, que enquanto vigário de Cristo desfruta da mesma autoridade que Ele, pode alterá-la.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Da necessidade de resistir ao magistério conciliar (I)

Carlos Nougué

Proêmio

Não houve maior desgraça e crise na história da Igreja que a ocasionada pelo Concílio Vaticano II. Comparada a esta, a crise do arianismo – pela qual, no dizer de São Jerônimo, “o mundo dormiu cristão e, sobressaltado, acordou ariano” – mostra-se pequena.
E, com efeito, diante da tremenda crise aberta pelo Concílio Vaticano II, dividiram-se e dividem-se os católicos.
1. Uns são fautores do mesmo concílio e de suas sequelas. A estes não podemos chamar católicos senão ao modo como um câncer pode dizer-se daquele que o porta. São os que propriamente podemos chamar lobos em pele de cordeiro.
2. Outros – talvez a maioria – repetiram e repetem os erros desses fautores sem saber que se trata de erros e crendo-os em perfeita continuidade com o estabelecido pelo magistério anterior. A estes não podemos chamar propriamente hereges; mas tampouco se podem ignorar os perigos a que sua alma se encontra exposta.
3. Outros ainda, diante daquilo que perceberam proscrito pelo magistério anterior e que, no entanto, era sustentado pela própria hierarquia conciliar, se foram afastando da vida religiosa e dos sacramentos, e tenderam a perder a fé.
4. Uma parte, por certo devido a alguma graça para que percebesse mais certeiramente o infortúnio que implicaram e implicam o Concílio Vaticano II e seu seguimento, opôs-se e opõe-se ao chamado magistério conciliar. Mas esta parte se subdivide.
a. Uns, mais próximos da verdade, nem sempre porém sabem fundar sua oposição em doutrina mais sólida, razão por que alguns destes (como os superiores da atual FSSPX), sustentando a necessária visibilidade da Igreja e pois a necessidade de sua mesma regularização canônica, acabam por aderir de algum modo à hierarquia conciliar.
b. Outros – os sedevacantistas –, julgando absolutamente impossível conciliar heresia e jurisdição, acabam por atentar contra a necessária visibilidade da Igreja. Incluem-se aqui, de algum modo, os chamados eclesiavacantistas, para os quais a Igreja se reduz a eles mesmos, apesar de seu ínfimo número e de sua falta de jurisdição.
5. Tem-se por fim a chamada “linha média”, que, sem ver como conciliar a devida docilidade ao magistério com a oposição ao magistério conciliar, acaba por favorecer, de maneira vária e mediante os mais diversos artifícios teológicos, a este mesmo magistério. – Da linha média entram a fazer parte, de algum modo, os que buscam ou alcançam a referida regularização canônica.  
Pois bem, incluímo-nos entre os que se opõem ao magistério conciliar e não buscam regularizar-se canonicamente sob este, e que podem beneficiar-se de doutrina a mais sólida para fundar sua posição: a exposta pelo Padre Álvaro Calderón (da FSSPX) na questão disputada A Candeia Debaixo do Alqueire, a qual por sua vez se funda, naturalmente, em tudo quanto fez, disse ou escreveu Dom Marcel Lefebvre, mas elevando-o ao plano da mais estrita ciência teológica. Esta questão disputada é o terreno seguro em que podemos alicerçar nossa postura sem desviar-nos para o sedevacantismo (ou para o eclesiavacantismo) nem para a linha média e o acordismo.*
Desse modo, a série que iniciamos com este proêmio visa a mostrar a justeza e a necessidade de resistir ao magistério conciliar, e especialmente ao papado de Francisco, cujo caráter catastrófico a chamada linha média e os acordistas do dia se negam de algum modo a ver perfeitamente. Mas não o poderíamos fazer, insista-se, sem demonstrar a possibilidade de unir tal resistência à devida docilidade ao magistério, e esta demonstração é A Candeia Debaixo do Alqueire a que no-la possibilita cabalmente.
Sucede todavia que esta mesma questão disputada não é de fácil compreensão para os ainda não dotados do hábito intelectual da teologia (e teologia tomista). Eis pois a razão central desta série: tornar A Candeia acessível a um maior número, e tornar assim mais amplamente compreensível a necessidade de resistir e seguir resistindo ao chamado magistério conciliar.
Mas há uma razão suplementar. Não poucos vivem a dizer pelos cantos e pelas sombras que “esse Carlos Nougué” é cismático, que apoia bispos cismáticos, que é excomungado, etc. Pois bem, os que assim murmuram terão oportunidade de ver melhor nossas razões e a resposta que damos a suas objeções à nossa postura (objeções que, como mandam a boa doutrina e o bom método, hão de expor-se o mais fielmente antes de ser refutadas). Se ainda assim não se convencerem, fique desde já o convite a que então busquem refutar-nos publicamente, à luz do dia, em alguma forma de debate.
Observações.
• Insista-se em que nos fundaremos muito estritamente em A Candeia Debaixo do Alqueire. Mas algo será de nossa própria lavra, e obviamente não deverá imputar-se ao sacerdote da FSSPX.
• Não responderemos diretamente nesta série ao sedevacantismo e ao eclesiavacantismo, o que faremos no livro Do Papa Herético. É aliás quanto ao sedevacantismo que A Candeia nos parece necessitar de aprofundamento.**
• Nossa série dividir-se-á nos seguintes artigos:
1.  Se o chamado magistério conciliar é infalível;
2. Se se pode pôr em discussão algum magistério, e especialmente o conciliar;
3. Se o magistério conciliar tem algum grau de autoridade;
4. Se o magistério conciliar impõe sua autoridade de modo indireto;
5. Se a resistência ao magistério conciliar há de ser franca, sistemática e organizada.
• Como cada um destes artigos será muito longo, dividi-lo-emos em quantas postagens nos parecerem necessárias.
• E tais postagens não virão a lume segundo nenhuma periodicidade preestabelecida, mas segundo nossa própria disponibilidade de tempo para escrevê-las.

(Continua.)          
  





* Que o Padre Álvaro Calderón pareça contradizer sua doutrina com sua prática não é assunto que nos interesse aqui.  
** Não dizemos, assinale-se, que erre quanto a ele, senão que, repita-se, necessita de aprofundamento. E, com efeito, nosso Do Papa Herético ergue-se sobre dois pilares: o dito a respeito deste assunto pelo tomista Domingo Báñez O. P. (1528-1604) e a tese da “jurisdição precária” avançada por Arnaldo Xavier da Silveira em suas Considerações sobre o Ordo Missae de Paulo VI. Desde que os lemos pela primeira vez, pareceram-nos grávidos de importantes desdobramentos, como esperamos mostrar em Do Papa Herético. 

sábado, 5 de dezembro de 2015

Comentários Eleison CDXXXVIII (438) - Novus Ordo Missae - III

Por Dom Richard Williamson

Tradução: Cristoph Klug
05 de dezembro de 2015

Católicos, sejam generosos! O objetivo de Deus em ação
É salvar muitas almas fora da “Tradição”.

Se a evidência em favor dos milagres eucarísticos que teriam tido lugar dentro da Igreja Novus Ordo (ver CE 436 e 437) é tão séria como parece, segue que os católicos devem conformar suas mentes à mente de Deus e não o contrário. E os Católicos aderidos à Tradição têm uma especial necessidade de resolver o que Deus quis significar com esses milagres, porque estes fiéis da Tradição não entendem facilmente o que Ele tem podido significar quando sabem quão desagradável deve ser para Ele a Missa Novus Ordo (NOM) em si mesma.

Por muitos séculos Deus realizou tais milagres. A razão primária tem sido sempre fortalecer a fé dos Católicos em uma verdade da Fé que não é fácil de crer, mas está muito próxima ao Coração de Deus. Que no instante da Consagração do pão e do vinho durante a Missa, Deus mesmo tome o lugar de suas substâncias, é um acontecimento tão fora do curso normal da natureza, que esta invenção do amor de Deus desejando dar-se a Si mesmo como comida e bebida para o seu rebanho possa ser prática, mas parece também inacreditável. Por isso que em devidos momentos e lugares, Deus tem operado milagres visíveis sob uma ou outra forma para ajudar às almas duvidosas a crer. Uma razão secundária para estes milagres, especialmente onde tenha havido uma ou outra profanação da Sagrada Eucaristia, é para recordar aos Católicos o tratamento sagrado e a adoração que sempre se lhes deve às humildes aparências por trás das quais Deus mesmo se esconde.

Ambas destas razões se aplicam hoje em dia quando o NOM diminuiu severamente o sentido da Presença Real, sem sempre anulá-la (ver CE 437). Quem pode negar que o rito do NOM e sua prática através da Igreja Novus Ordo, por exemplo a Comunhão de pé e na mão, tem conduzido incontáveis Católicos até a descrer na Presença Real e a incontáveis sacerdotes até a falta de devido respeito no manipular da Santa Eucaristia? Quem pode negar que ambos, o decréscimo da fé e a falta de respeito ante Ela, têm imensamente aumentado desde que o NOM foi introduzido em 1969? Humanamente falando, o assombro pode não ser que tenha havido milagres dentro do limite do NOM, mas também que tenha havido muito mais. De qualquer modo, Deus tem sabido como atuar para o melhor. 

Por outro lado, estes milagres – sempre e quando são autênticos – deixam lições para os Católicos da Tradição também, que se colocaram mais ou menos distantes do limite do Novus Ordo. A lição mais óbvia é que nem todas as Missas Novus Ordo são inválidas, nem todas as Consagrações episcopais nem todas as Ordenações sacerdotais, como os “Tradicionalistas” podem estar tentados a pensar. Isto é seguramente porque mesmo que desde os anos 1960 uma massa da grei católica tem se tornado demasiadamente mundana para merecer manter o verdadeiro rito da Missa, as ovelhas têm sem dúvida amado suficientemente a Missa para não perdê-la totalmente. O NOM pode ter sido permitido por Deus para tornar mais fácil aos Católicos para que abandonassem a Fé se eles quisessem, mas não impossível de mantê-la, sempre que o quisessem.

Por conseguinte, o NOM e a Igreja Novus Ordo como um todo são perigosos para a Fé, e os Católicos estão corretos por terem aderido à Tradição para evitar o perigo. Mas como tiveram de pôr distância entre eles e a corrente principal da Igreja, assim eles se expuseram ao perigo oposto de um isolamento condutor a um espírito sectário e até farisaico, desligado da realidade. Há verdadeiros sacramentos no Novus Ordo e verdadeiros Católicos, os quais Deus cuida, e os “Tradicionalistas” deveriam estar contentes que os há. Que seu isolamento não os faça sentir que estão obrigados a negar que não haja sequer algo católico que reste no Novus Ordo. Isso é irreal e o pêndulo da realidade oscilará de volta, como com a liderança da FSSPX, que não vê mais suficientemente a necessidade de isolar-se da Igreja neo-modernista. Não. A Tradição necessita de isolamento, mas com um espírito generoso e não isolacionista.


terça-feira, 21 de julho de 2015

Comentários Eleison CDXVIII (418) - Papas Conciliares V

Por Dom Richard Williamson
Tradução: Andrea Patrícia (blogue Borboletas ao Luar)
18 de julho de 2015

É claro que ao menos a Sua Igreja Deus virá resgatar
Mas os católicos devem, até que fiquem roucos, gritar.


                Os “Comentários” da semana passada foram longe, chegando a sugerir que começar a compreender a mentalidade liberal é importante para manter a Fé nos dias de hoje. Vendo como o liberalismo dissolve a Verdade, entende-se como ele está minando a Fé e destruindo a Igreja. Ao mesmo tempo, vendo como ele corrompe as mentes, compreende-se como os homens da Igreja de hoje estão “diabolicamente desorientados” sem necessariamente estar completamente conscientes de como eles mesmos estão destruindo a Igreja. Então, não é preciso ser nem liberal nem sedevacantista. Vamos dar uma olhada em outro texto clássico de Dom Lefebvre, um trecho do Capítulo XVI, Eles O Destronaram, onde ele examina “A Mentalidade Liberal Católica”:

                “Uma enfermidade da mente. ‘Mais que uma confusão mental, o catolicismo liberal é uma enfermidade da mente’ (Pe. A. Roussel, em seu livro Liberalismo e Catolicismo): a mente é incapaz de permanecer simplesmente na verdade. Não pode afirmar nada sem pensar imediatamente na contra-afirmação que se sente igualmente obrigada fazer. O Papa Paulo VI foi um clássico exemplo de tal mente dividida, de ser um duas caras – podia-se mesmo ler fisicamente em suas feições –, em perpétuo balanço entre duas posições contraditórias e levada por um movimento pendular, oscilando regularmente entre a Tradição e a novidade. A isso não chamariam alguns de esquizofrenia intelectual?

                Penso que o Pe. Clérissac viu mais profundamente a natureza dessa enfermidade. Ela é uma falta de integridade da mente (O Mistério da Igreja, Capítulo VII), de uma mente sem suficiente confiança na verdade...  Quando o liberalismo prevalece, essa falta de integridade da mente mostra-se psicologicamente em duas claras características: liberais são maleáveis e ansiosos: maleáveis porque facilmente assumem o estado de espírito daqueles que estão ao seu redor; ansiosos porque, pelo medo de contrariar esses diferentes estados de espírito, estão continuamente preocupados em justificarem-se a si mesmos; parecem sofrer das dúvidas contra as quais eles mesmos combatem; não têm confiança suficiente na verdade; estão preocupados em justificar sua posição, demonstrando, adaptando ou até mesmo se desculpando.

                Muito preocupados em estar em harmonia com o mundo; desculpando-se! São boas colocações. Eles querem desculpar-se por todo o passado da Igreja: pelas Cruzadas, pela Inquisição, etc. Quando justificam e demonstram, fazem-no muito timidamente, especialmente quando se trata dos direitos de Jesus Cristo; e então buscam adaptar-se ao mundo, e eles o fazem, pois é seu princípio básico. Eles partem do que consideram ser um princípio prático, e de um fato que consideram inegável, a saber, que a Igreja não pode ser concebida nas circunstâncias atuais, nas quais ela tem de cumprir sua missão divina, sem que esteja em harmonia com elas”.

                Desde o tempo de Pe. Clérissac e de Dom Lefebvre, a dissolução das mentes e corações pelo liberalismo só tem feito grandes avanços. No século XXI, há ainda menos traços do antigo sistema de verdades objetivas e de moralidade objetiva que havia no século XX. Assim, a adaptação da Igreja ao ambiente torna-se cada vez mais mortal para a Fé e para a moral católica, que não são nada se não forem objetivas. Como temos sofrido por causa de uma mente que alterna continuamente afirmações e contra-afirmações, uma mente continuamente ansiosa para convencer a ambas as partes, completamente opostas uma a outra, para reconciliar o que é irreconciliável – uma mente que carece não apenas de confiança na verdade, mas até mesmo, tal como parece, de qualquer conhecimento da verdade –, por essa mesma mente poder fazer uma imitação tão boa da verdade! Costumava-se dizer antigamente que uma mente assim pertenceria a um “mentiroso”. E hoje?

                Podemos apenas gritar como o Salmista: Senhor, vossos próprios católicos tornaram-se motivo de zombaria para os não católicos. Por Vossa própria honra e glória, apressai-Vos em resgatar-nos!