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domingo, 5 de março de 2017
quinta-feira, 12 de janeiro de 2017
Linha média versus sedevacantismo, ou quando os extremos se tocam
Carlos Nougué (Estudos Tomistas)
Diz o linha-média: É impossível que um papa defeccione na fé. Com efeito, como o mostra São Roberto Bellarmino, o Papa Sisto IV, antes de tudo por meio do Sínodo de Alcalá, e depois por si mesmo, condenou os artigos de um certo Pedro de Oxford, um dos quais afirmava que a Igreja da cidade de Roma poderia errar. Trata-se pois de condenação feita pelo próprio magistério, que, como se sabe, não pode errar. Logo, quando um documento como a declaração Dignitatis humanae, do Concílio Vaticano II, diz coisas que vão aparentemente contra a fé e contra o estabelecido por dois mil anos de magistério infalível, não pode passar disso mesmo: só aparentemente se opõem à fé e ao estabelecido anteriormente pelo magistério. Se porém se mantém a aparência de oposição, não pode dever-se senão a um mau entendimento e pois a um mau juízo. Replica o sedevacantista: De fato é impossível que um papa enquanto papa cometa qualquer atentado contra a fé; se o fizesse, falharia a promessa de indefectibilidade feita por Cristo a Pedro. Por isso, como o diz São Roberto Bellarmino, se segundo suposição um papa defeccionasse na fé, ipso facto perderia a jurisdição, ou seja, deixaria de ser papa, porque – como está implícito no dito – Cristo lhe retiraria a jurisdição no ato mesmo em que defeccionasse na fé. Logo, não pode haver papa herético, ou ao menos publicamente herético. – Por isso, ainda tem razão São Roberto Bellarmino quanto à impossibilidade de que a Igreja de Roma erre, porque, com efeito, o “papa” herético já não é o bispo da Igreja de Roma. E assim as heresias de um Francisco – as quais por evidentes não podem negar-se – não são heresias de um bispo de Roma.
sexta-feira, 22 de abril de 2016
Da necessidade de resistir ao magistério conciliar (I)
Carlos Nougué
Proêmio
Não houve maior desgraça
e crise na história da Igreja que a ocasionada pelo Concílio Vaticano II. Comparada
a esta, a crise do arianismo – pela qual, no dizer de São Jerônimo, “o mundo
dormiu cristão e, sobressaltado, acordou ariano” – mostra-se pequena.
E, com efeito, diante da
tremenda crise aberta pelo Concílio Vaticano II, dividiram-se e dividem-se os
católicos.
1.
Uns são fautores do mesmo concílio e de suas sequelas. A estes não podemos
chamar católicos senão ao modo como um câncer pode dizer-se daquele que o
porta. São os que propriamente podemos chamar lobos em pele de cordeiro.
2.
Outros – talvez a maioria – repetiram e repetem os erros desses fautores sem
saber que se trata de erros e crendo-os em perfeita continuidade com o estabelecido
pelo magistério anterior. A estes não podemos chamar propriamente hereges; mas
tampouco se podem ignorar os perigos a que sua alma se encontra exposta.
3.
Outros ainda, diante daquilo que perceberam proscrito pelo magistério anterior e
que, no entanto, era sustentado pela própria hierarquia conciliar, se foram
afastando da vida religiosa e dos sacramentos, e tenderam a perder a fé.
4.
Uma parte, por certo devido a alguma graça para que percebesse mais certeiramente
o infortúnio que implicaram e implicam o Concílio Vaticano II e seu seguimento,
opôs-se e opõe-se ao chamado magistério conciliar. Mas esta parte se subdivide.
a.
Uns, mais próximos da verdade, nem sempre porém sabem fundar sua oposição em doutrina
mais sólida, razão por que alguns destes (como os superiores da atual FSSPX), sustentando
a necessária visibilidade da Igreja e pois a necessidade de sua mesma
regularização canônica, acabam por aderir de algum modo à hierarquia conciliar.
b.
Outros – os sedevacantistas –, julgando absolutamente impossível conciliar
heresia e jurisdição, acabam por atentar contra a necessária visibilidade da
Igreja. Incluem-se aqui, de algum modo, os chamados eclesiavacantistas, para os
quais a Igreja se reduz a eles mesmos, apesar de seu ínfimo número e de sua falta
de jurisdição.
5.
Tem-se por fim a chamada “linha média”, que, sem ver como conciliar a devida docilidade
ao magistério com a oposição ao magistério conciliar, acaba por favorecer, de
maneira vária e mediante os mais diversos artifícios teológicos, a este mesmo
magistério. – Da linha média entram a fazer parte, de algum modo, os que buscam
ou alcançam a referida regularização canônica.
Pois bem, incluímo-nos
entre os que se opõem ao magistério conciliar e não buscam regularizar-se
canonicamente sob este, e que podem beneficiar-se de doutrina a mais sólida
para fundar sua posição: a exposta pelo Padre Álvaro Calderón (da FSSPX) na
questão disputada A Candeia Debaixo do
Alqueire, a qual por sua vez se funda, naturalmente, em tudo quanto fez,
disse ou escreveu Dom Marcel Lefebvre, mas elevando-o ao plano da mais estrita
ciência teológica. Esta questão disputada é o terreno seguro em que podemos
alicerçar nossa postura sem desviar-nos para o sedevacantismo (ou para o
eclesiavacantismo) nem para a linha média e o acordismo.*
Desse modo, a série que
iniciamos com este proêmio visa a mostrar a justeza e a necessidade de
resistir ao magistério conciliar, e especialmente ao papado de Francisco, cujo
caráter catastrófico a chamada linha média e os acordistas do dia se negam de
algum modo a ver perfeitamente. Mas não o poderíamos fazer, insista-se, sem
demonstrar a possibilidade de unir tal resistência à devida docilidade ao
magistério, e esta demonstração é A
Candeia Debaixo do Alqueire a que no-la possibilita cabalmente.
Sucede todavia que esta mesma
questão disputada não é de fácil compreensão para os ainda não dotados do
hábito intelectual da teologia (e teologia tomista). Eis pois a razão central desta
série: tornar A Candeia acessível a
um maior número, e tornar assim mais amplamente compreensível a necessidade de
resistir e seguir resistindo ao chamado magistério conciliar.
Mas há uma razão
suplementar. Não poucos vivem a dizer pelos cantos e pelas sombras que “esse
Carlos Nougué” é cismático, que apoia bispos cismáticos, que é excomungado,
etc. Pois bem, os que assim murmuram terão oportunidade de ver melhor nossas
razões e a resposta que damos a suas objeções à nossa postura (objeções que,
como mandam a boa doutrina e o bom método, hão de expor-se o mais fielmente
antes de ser refutadas). Se ainda assim não se convencerem, fique desde já o
convite a que então busquem refutar-nos publicamente, à luz do dia, em alguma
forma de debate.
Observações.
• Insista-se em que nos
fundaremos muito estritamente em A
Candeia Debaixo do Alqueire. Mas algo será de nossa própria lavra, e
obviamente não deverá imputar-se ao sacerdote da FSSPX.
• Não responderemos diretamente nesta série ao sedevacantismo e ao eclesiavacantismo, o que faremos no livro Do Papa Herético. É aliás quanto ao sedevacantismo
que A Candeia nos parece necessitar de
aprofundamento.**
• Nossa série dividir-se-á
nos seguintes artigos:
1.
Se o chamado magistério conciliar é
infalível;
2.
Se se pode pôr em discussão algum magistério, e especialmente o conciliar;
3.
Se o magistério conciliar tem algum grau de autoridade;
4.
Se o magistério conciliar impõe sua autoridade de modo indireto;
5.
Se a resistência ao magistério conciliar há de ser franca, sistemática e organizada.
• Como cada um destes
artigos será muito longo, dividi-lo-emos em quantas postagens nos parecerem
necessárias.
• E tais postagens não
virão a lume segundo nenhuma periodicidade preestabelecida, mas segundo nossa
própria disponibilidade de tempo para escrevê-las.
(Continua.)
*
Que o Padre Álvaro Calderón pareça contradizer sua doutrina com sua prática não
é assunto que nos interesse aqui.
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Magistério Conciliar,
Padre Álvaro Calderón,
Prof. Carlos Nougué
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
“Como é possível milagre fora da Igreja Católica”, pelo Cardeal Lépicier*
Prof. Carlos Nougué
«Põe-se aqui uma grave questão: pode haver milagre fora da Igreja Católica? Nossa resposta é que se pode, em verdade, sustentar a possibilidade e até a existência de verdadeiros milagres fora da religião católica. Isso não pode dar-se por uma lei ordinária, mas somente por exceção e em casos isolados, e jamais fora do fim que distingue a verdadeira religião de Jesus Cristo. Por isso dizemos que o milagre pode dar-se fora do corpo desta religião, mas não fora de sua alma. Como fato sistemático, que constitui, por assim dizer, um sistema, um todo harmonioso governado por princípios invariáveis e por uma lei fixa, o milagre existe somente na religião que se intitula universal ou católica, porque fundada pela Causa Primeira que reuniu tudo, e em favor da qual foram operados os milagres mesmos da antiga lei.
Em verdade, pode admitir-se que, de maneira excepcional, e em casos isolados, o milagre se dê fora do corpo da religião católica, sendo livre o Espírito Santo para escolher seus instrumentos por onde quer que queira. Isso não deve constituir nenhuma dificuldade, sobretudo se o taumaturgo é um homem de vida santa e não busca outra coisa em suas obras que a honra de Deus.
Será bom, a este respeito, lembrar aqui o que lemos em São Marcos. Tendo dito a Jesus o Apóstolo João: “Mestre, vimos um homem, que não vai conosco, expulsar os demônios em vosso nome, e lho impedimos”, Nosso Senhor falou nestes termos: “Não o impeçais, pois ninguém pode fazer milagre em meu nome e logo depois falar mal de mim. Quem não é contra vós é por vós”. Isto equivale a dizer que, se algum milagre se cumpre por um homem fora do corpo da Igreja de Jesus Cristo, tal fato é necessariamente ordenado à manifestação da verdade pregada pelo Salvador, e de modo algum em favor do erro.
É neste sentido que se devem explicar os milagres atribuídos, em tempos muito próximos dos nossos, a um padre ortodoxo grego de grande piedade, chamado Ivã ou João Serguief, da principal igreja de Cronstadt. A fama de santidade deste padre era tal que, no mês de outubro de 1894, o imperador Alexandre III, morrendo, o chamou na esperança de obter por sua intercessão um alívio para seus sofrimentos.
Tais milagres, supondo-os autênticos, seriam fatos isolados, cumpridos aparentemente fora da Igreja Católica, mas lhe pertenceriam de direito, porque não tinham por objeto a confirmação de uma falsa doutrina, mas antes a recompensa de uma santidade em harmonia com os princípios proclamados precisamente pela Igreja Católica. Tais milagres teriam tido pois por fim fornecer novas provas da existência da ordem sobrenatural.
Santo Agostinho expõe luminosamente esta verdade quando, comentando precisamente o fato contado por São Marcos na passagem há pouco citada, explica que as palavras pronunciadas então por Nosso Senhor: “Quem não é contra vós é por vós”, não contradizem as referidas em São Mateus: “Quem não está comigo é contra mim”. “Nesse caso”, diz o santo Doutor de Hipona (o daquele que expulsara o demônio), “ele não era contra os discípulos, mas, ao contrário, era por eles, enquanto operava curas pelo nome de Cristo... Ele devia ser confirmado na veneração de tal nome e, portanto, não era contra Igreja, mas pela Igreja.” Lembremos ainda, aqui, o episódio tão interessante contado no livro dos Números. Dois indivíduos, Eldad e Medad, embora não tivessem ido com os outros ao tabernáculo, profetizaram todavia no campo na ausência e sem o conhecimento de Moisés. O chefe do povo de Deus, tendo-o sabido, quis que eles fossem deixados livres para profetizar.»
* * *
1) Ademais, “A generalidade dos Padres e dos teólogos admitiu a possibilidade de milagres entre os hereges”, como se lê no prestigioso DTC:
2) Por fim, como nos escreveu um sacerdote, “o milagre da liquefação do sangue de São Genaro, que desde há 45 anos se vem produzindo no âmbito do Novus Ordo, devemos atribuí-lo agora aos demônios? Diga-se o mesmo do milagre permanente da conservação da tilma de Guadalupe. Segundo os que negam a possibilidade de milagre no âmbito da Igreja conciliar, esse tecido já deveria ter-se desfeito ‘porque Deus não pode aprovar o N.O.’. E assim com os muitos milagres permanentes na Igreja conciliar em todo o mundo” – e que de modo algum, acrescentamos, se ordenam a aprovar a Igreja conciliar no que tem de conciliar, senão que se ordenam à manifestação da verdade sobrenatural da Igreja Católica.
____
* Sobre el Card. Lépicier:
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Afirmar que ninguém fora da Igreja se salva, extraordinariamente e apesar de sua falsa religião, é herético
Professor Carlos Nougué
Afirmar que ninguém fora da Igreja se salva, extraordinariamente, é herético, porque nega o que sempre disse o Magistério infalível (como o Concílio de Trento) e a Tradição bimilenar. E isto não implica contradição com o axioma “Fora da Igreja não há salvação”, porque, ao se salvar pela graça final e eficaz, o que estava fora da Igreja entra automaticamente para a Igreja. Isto, repita-se, é extraordinário, excepcional, mas efetivo. Quem quer que tenha estudado os documentos do Magistério da Igreja o sabe. E negá-lo, repito, implica indocilidade ao Espírito Santo. Naturalmente, se alguém que está fora da Igreja se salva, salva-se apesar de sua religião: e por isso mesmo é que entra para a Igreja Católica na hora da morte. Transcrevo abaixo trechos da Resposta a uma pergunta acerca da possibilidade de milagres fora da Igreja.
«2) Em resumo, diz Santo Tomás duas coisas: uma, que os demônios podem fazer coisas que se assemelham a milagres mas não o são; outra, que Deus, pelo ministério dos anjos, podia fazer milagres entre os pagãos (ou seja, não apenas entre o povo eleito), assim como, embora ordinariamente a salvação das almas se desse entre os judeus, também se dava, extraordinariamente, entre os pagãos, como sempre disseram nossos Doutores. Santo Agostinho, por exemplo, pensava que Cícero se teria salvado, o que se provaria pelo que disse antes de morrer: “Causa causarum, miserere mei” (Causa das causas, tem misericórdia de mim).
3) Ademais, como diz o sacerdote que lhe escreveu, parece que “se encontram alguns casos de milagre entre os ortodoxos, por exemplo para testemunhar a verdade do Novo Testamento diante de um judeu” – o que de algum modo concorre para o bem da Igreja. – Aliás, todos os que se salvaram antes de Cristo (judeus ou pagãos) não o fizeram senão em ordem a Cristo, que é o eixo dos tempos. E os que extraordinariamente se salvam fora da Igreja depois de Cristo (o que é afirmado, entre outros, pelo Concílio de Trento) tornam-se da Igreja no ato mesmo em que são salvos, razão por que não há contradição com o axioma “fora da Igreja não há salvação”.
4) Mas a melhor passagem de Santo Tomás de Aquino para entender o assunto ainda me parece a da Suma Teológica, II-II, q. 178, a. 2 (“Se os maus podem fazer milagres”), ad 3: “Por isso, os maus que ensinam falsas doutrinas [ou seja, os heréticos] não poderiam jamais fazer verdadeiros milagres para confirmar seu ensinamento, embora, às vezes, possam fazê-los em nome de Cristo, que eles invocam, e pela virtude dos sacramentos que administram”. E isso, que, como dito, sempre será extraordinário, Deus não o faz senão por algum bem, ou imediatamente da Igreja, ou porque se destina a cumprir a predestinação de quem atualmente não está no seio da Igreja, ou por qualquer outra razão que esteja entre os ocultos desígnios de Deus.»
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