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sábado, 16 de junho de 2018

Comentários Eleison DLXX (570) - Roma prepara-se?

Por Dom Richard N. Williamson
16 de junho de 2018
Blog Borboletas ao Luar



Como alguém pode fingir que a luta pela fé é inexistente?
O que mais poderia ser nossa situação presente?


      No contexto da crise que envolveu a Igreja Católica no último meio século desde o Vaticano II (1962-1965), dois movimentos recentes das autoridades da Igreja em Roma podem parecer surpreendentes, porque ambos os movimentos parecem favorecer a Tradição Católica que o Papa Francisco dá tantas indicações de querer arrancar de uma vez por todas. O Lobo Mau realmente quer ser gentil com a Chapeuzinho Vermelho da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, ou esses dois outros movimentos astuciosos a prenderão em seu covil Conciliar? Estará Roma também preparando-se para o Capítulo Geral da Fraternidade em meados de julho?

      O primeiro dos dois movimentos foi em meados de fevereiro deste ano, quando a Comissão Ecclesia Dei, lançada em Roma em 1988 para desacelerar a Tradição Católica, porque esta estava ameaçando acelerar, concedeu à semitradicional Fraternidade de São Pedro o uso dos ritos litúrgicos fortemente tradicionais da Semana Santa. Estes são os ritos que se utilizaram durante séculos e séculos antes da reforma da liturgia realizada pelo Cardeal Bugnini na década de 1950, que pavimentou o caminho para a Missa Nova na década de 1960. Como os ritos da Semana Santa, estes mais antigos estão se tornando cada vez mais populares entre os católicos que repudiam a Missa Nova, porque contêm tantas características contrárias a esta liturgia modernista que Paulo VI impôs por meio de enganos administrativos à Igreja Universal em 1969. Roma está finalmente afastando-se da Missa Nova?

      Dificilmente. Como diz a famosa frase de Virgílio: “Seja o que for, não confio nos gregos, mesmo quando trazem presentes”. Este presente para a Tradição pode facilmente ter sido projetado por Roma para persuadir todos os tipos de Chapeuzinhos Vermelhos, especialmente os participantes do Capítulo Geral de Julho, de que o Grande Lobo Mau não é tão mau assim. O Capítulo é importante para Roma: esse bastião da Fé erigido pelo Arcebispo deve ser desmantelado, porque a verdadeira luta do Arcebispo Lefebvre pela Fé foi um obstáculo real na marcha progressiva da Nova Ordem Mundial, fora de toda proporção para o tamanho da Fraternidade. A luta foi severamente enfraquecida desde sua morte, mas Roma teme que o Capítulo a reanime. Roma quer outro liberal como Superior Geral, ou pelo menos um candidato condescendente, mas não um lutador pela fé!

      O outro movimento surpreendente de Roma foi em 16 de maio, quando um conhecido jornalista do Vaticano, Andrea Tornielli, destacou um extrato de um livro recentemente publicado, escrito por um oficial romano sobre o Papa Paulo VI (1963-1978). O extrato é um relato detalhado da conversa de setembro de 1976 entre o Papa e o Arcebispo Lefebvre, tida dois meses depois da Missa celebrada pelo Arcebispo em frente a uma enorme multidão em Lisle, na França. Essa missa marcou o início do movimento tradicional, e então o Papa quis refrear o Arcebispo. A conversa que durou pouco mais de meia hora foi anotada pelos romanos naquela época, e foi descrita de maneira um pouco diferente pelo Arcebispo depois, mas os romanos guardaram o conteúdo para si mesmos nos últimos quarenta e dois anos. Por que publicá-la agora?

      A resposta deve estar no “um pouco diferente”. O admirável site da Internet da América Latina, Non Possumus, publicou, um ao lado do outro, os detalhes divulgados pelos romanos e o relato do próprio Arcebispo sobre a conversa. Os leitores de Non Possumus podem comprovar por si mesmos como os romanos encobriram a cegueira de Paulo VI e sua própria vilania. Exemplo notável: Paulo VI acusou o Arcebispo de fazer seus seminaristas jurarem contra o Papa... algo absolutamente falso. O Arcebispo declarou-se disposto a jurar sobre um crucifixo que o Papa o havia acusado de tal juramento. Um porta-voz romano negou oficialmente que houvesse qualquer menção a esse juramento.

      Do mesmo modo, a versão de Roma passa por cima do abismo entre o modernismo de Paulo VI e a Fé do Arcebispo, como se os capitulares não precisassem se preocupar com a enorme lacuna entre a Roma Conciliar e a Fraternidade: que eles elejam outro liberal para seu Superior, mas um candidato condescendente já será suficiente!

Kyrie eleison.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Comentários Eleison DLX (560) - Argumento (Anti) "Lefebvrista"

Por Dom Richard N. Williamson
Tradução: Introibo ad Altare Dei

07 de abril de 2018


O Arcebispo Lefebvre era sábio – sua regra era de ouro,
“Reconhecer, mas resistir” não é algo tão tolo!



Para atacar os sacerdotes dominicanos franceses de Avrillé por seu “Lefebvrismo”, ou seja, por sua recusa em aceitar que os Papas conciliares desde Paulo VI não foram Papas, um leigo francês – Sr. N. M. – acaba de escrever um artigo acusando os dominicanos de rejeitarem três dogmas católicos: que o Papa tenha primazia de jurisdição sobre a Igreja Universal; que o Magistério Ordinário Universal da Igreja é infalível; que é o Magistério vivo da Igreja que determina o que os católicos devem crer. Normalmente é melhor deixar essas questões de doutrina para os especialistas em doutrina, mas os nossos tempos não são normais. Hoje, os católicos podem confiar em seu bom senso católico para decidir essas questões por si mesmos.

Olhemos para as três perguntas de maneira simples e prática. Se eu quero aceitar que os Papas foram verdadeiros Papas desde Paulo VI, por que eu deveria negar, em primeiro lugar, que o Papa é o Chefe da Igreja; em segundo lugar, que o ensino normal da Igreja é infalível; e, em terceiro lugar, que o Papa reinante me diz em que devo acreditar? Vejamos os argumentos de N. M., um por um.

Quanto ao primeiro ponto, N. M. cita o completamente antiliberal Concílio Vaticano I (1879-1871) no sentido de que o Papa é o Chefe direto e imediato de todas as dioceses, de todos os sacerdotes e de todos os católicos. Se, então, como todos os lefebvristas eu me recuso a obedecê-lo, estou implicitamente negando que ele seja meu Chefe enquanto católico, então estou negando que o Papa é o que o Vaticano I o definiu ser. Resposta: eu não estou de forma nenhuma negando que os Papas conciliares têm a autoridade para comandar-me como católico; estou apenas dizendo que sua autoridade católica não inclui a autoridade para tornar-me um protestante, como farei caso eu siga suas ordens de acordo com o Vaticano II.

Em segundo lugar, N. M. argumenta que o Vaticano I também afirmou que o ensinamento cotidiano do Papa e dos Bispos é infalível. Ora, se alguma vez tivemos um ensinamento sério do Papa e dos Bispos juntos, foi no Vaticano II. Se, então, eu recuso esse ensinamento, estou implicitamente negando que o Magistério Ordinário Universal da Igreja seja infalível. Resposta, não, eu não estou. Reconheço plenamente que quando uma doutrina é ensinada pela Igreja em quase toda parte, em todos os tempos e por todos os Papas e Bispos, ela é infalível, mas se foi ensinada apenas nos tempos modernos do século XX pelos Papas e Bispos do Vaticano II, então é contrária ao que foi ensinado pelos Papas e Bispos em todos os outros tempos da Igreja, e eu não me considero obrigado a aceitá-la. Enquanto eu aceito o MOU consistente de todos os tempos, então eu rejeito o MOU inconsistente de hoje, que o contradiz.

Em terceiro lugar, N. M. argumenta que o verdadeiro Papa tem a autoridade viva para dizer-me como católico no que devo crer hoje. Se então me recuso a acreditar no que os Papas conciliares me disseram para crer, estou rejeitando sua autoridade viva como árbitros da Fé. Resposta: não, eu não estou. Eu estou usando meus olhos para ler, e meu cérebro dado por Deus para julgar, que o que os Papas conciliares me dizem contradiz o que todos os Papas anteriores até São Pedro me disseram, e eu prefiro seguir a consistência de duzentos e sessenta e um Papas dizendo-me no que acreditar do que a inconsistência de seis Papas Conciliares. “Mas então você está rejeitando a autoridade viva do Papa reinante como árbitro da Fé!”. Somente porque eu estou seguindo, obedecendo e submetendo-me aos duzentos e sessenta e um Papas como árbitros dessa Fé que meus olhos e meu cérebro me dizem que os Papas conciliares não estão seguindo. “Mas então você está apoiando seus próprios olhos e cérebro contra o Papa católico!” Deus me deu olhos e um cérebro que funcionam, e quando eu estiver diante Dele para ser julgado, responderei pelo uso que fiz deles.

É claro que a própria resposta de N. M. ao problema dos Papas protestantes, modernizadores e conciliares é negar que eles sejam Papas. Deveria ser igualmente claro que, para o problema, que é muito real, não estou obrigado a adotar a solução drástica de N. M. Tampouco, se me recuso a adotá-la, sou obrigado a negar três dogmas da Igreja. Que a paz esteja com N. M.

Kyrie eleison.


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Comentários Eleison CDLXXVI (476) - Contra o N.O.M.

Por Dom Richard N. Williamson
Tradução: Borboletas ao Luar
Se se pretende o sacrifício da Missa descartar,
Como poderão os pobres católicos não errar?



O princípio, em tese, é claro: Para seguir Nosso Senhor, nas palavras imortais de Santo Agostinho, precisamos “matar os erros, mas amar os que erram”. Isso significa que nós jamais devemos matar os erros matando também os que erram (ou seja, aqueles que estão em erro, a menos que sejam perigosos e incorrigíveis), e não devemos jamais amar os que erram e então amar também os seus erros. Na prática pode ser muito fácil de escorregar da matança do erro para a matança do que erra, ou escorregar do amor ao que erra para o amor ao seu erro. Em outras palavras: “A Igreja é intolerante nos princípios porque crê, e é tolerante na prática porque ama. Os inimigos da Igreja são tolerantes nos princípios porque eles não creem, e intolerantes na prática porque não amam”. Isto está bem dito.

No caso de alguém ainda pensar que o autor destes “Comentários” escorrega da compaixão pelas ovelhas desgarradas no Novus Ordo para o amor aos erros da Missa Nova de Paulo VI, vão aqui extratos da carta de um leitor mais velho cuja própria amarga experiência levou-o à conclusão de que aos católicos Novus Ordo não merece ser demasiadamente concedido o benefício da dúvida.. Obviamente ele deparou com algo do pior da Neoigreja. Por seus frutos...

Eu era uma criança típica da escola primária em uma paróquia de duas mil e quinhentas famílias em um bairro que era quase 60% católico. Todos nós éramos formados na antiga religião, e quando a revolução conciliar começou a destruir a Igreja nos anos setenta, todos nós tínhamos a sensação de que alguma coisa ia mal. Pois bem, todo católico tem o dever de ser fiel à Tradição e de descobrir onde ela se encontra, por exemplo, nos materiais de leitura disponíveis para todos. Por cinquenta anos eu mesmo tenho argumentado, rogado e orado para que meus amigos católicos e suas famílias leiam as coisas que já li, mas eles simplesmente não querem fazê-lo. A grande maioria gosta da religião conciliar: divórcio e anulações fáceis, pregadores acomodatícios, feminismo, democracia, adultério, homossexualismo e amor meloso mantêm a todos no Novus Ordo, refletindo o oposto de um amor à verdade.

Eu diria que conheço a mentalidade Novus Ordo porque por mais de dois anos eu tive contato próximo com juízes, sacerdotes e leigos do Novus Ordo. Posso assegurar ao senhor que não é o amor pela verdade que os motiva. Pode-se confiar nessas autoridades da Igreja para fazer exatamente o que quase todos, se não todos, os católicos Novus Ordo querem que façam, que é ignorar suas vidas pecaminosas. Parece que os únicos “pecadores” que elas pretendem admoestar, instruir ou aconselhar são os fumantes, poluidores, católicos tradicionalistas insensíveis e responsáveis por famílias numerosas. Lembro que mais de 90% dos católicos casados usam algum tipo de controle de natalidade e ensinam as suas crianças a fazerem o mesmo. O Novus Ordo tornou-se uma organização global de apaziguamento de consciências e fonte de novidades em larga escala. Os católicos Novus Ordo realmente acreditam que todo mundo vai para o Céu. “Trabalhar sua salvação com temor e tremor” (Fl 2, 12) não é um pensamento que os entretenha.


O controle de natalidade foi nos tempos modernos um marco na virada da vontade Deus para a vontade do homem. Não usar controle de natalidade para aqueles que vivem em uma cidade grande pode parecer quase impossível, mas quem está errado: Deus ou a cidade moderna? Deus deu a Sua igreja em 1968 uma grande oportunidade para manter-se nos trilhos quando Ele inspirou um Paulo VI relutante a permanecer fiel à doutrina imutável da Igreja, mas uma grande quantidade de homens da Igreja foram prontamente infiéis ao Papa. E o resultado foi essa “organização de apaziguanemento da consciência” denunciada acima. E quem pode negar que a substituição do verdadeiro sacrifício da Missa tem contribuído imensamente desde 1969 para que um grande número de católicos abandonem suas vidas sacrificatórias que conduzem ao Céu, desfrutar da vida fácil e ir para o Inferno? Que responsabilidade a dos sacerdotes!


Kyrie eleison.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Comentários Eleison CDXLV (445) - Hospedeiro e Parasita I

Por Dom Richard Williamson
Tradução: Andrea Patrícia (Blog Borboletas ao Luar)


Assim como sem o bem o mal não existe,
Sem a verdadeira Igreja a Neoigreja não subsiste.


O motivo de eu ter dito seis meses atrás que um padre não está obrigado, em todas as situações, a proibir um católico de assistir à Nova Missa (NOM) não foi obviamente afirmar que está tudo perfeitamente bem em assistir ao NOM. O rito da Nova Missa é, em si mesmo, o ato central de culto da falsa religião do Vaticano II centrada no homem, cujo despertar se deu em 1969. De fato, a obrigação de manter-se longe do NOM é proporcional ao conhecimento que uma pessoa tenha sobre quão mal ele é. O NOM tem contribuído enormemente para que um incontável número de católicos perca a fé quase sem perceber.

Mas existem dois fatores que, mesmo nos dias de hoje, têm tornado mais fácil os católicos serem enganados pelo NOM. Em primeiro lugar, ele foi imposto a toda a Igreja de rito latino, porque o Papa Paulo VI fez de tudo que pôde para parecer que o rito fora imposto pela força de sua autoridade papal, a qual em 1969 parecia imensa. Ainda hoje o NOM passa como o rito “ordinário”, enquanto a Missa de sempre é oficialmente reduzida a um rito “extraordinário’. Desse modo, mesmo 47 anos depois, um católico honesto pode sentir-se ainda obrigado pela obediência a assistir ao NOM. É claro que na realidade não pode haver tal obrigação, porque nenhuma lei da Igreja pode obrigar um católico a pôr sua fé em perigo, o que ele normalmente faria se fosse ao NOM, tamanha é a falsidade deste.

Em segundo lugar, o NOM foi introduzido paulatina e notavelmente, por uma série de mudanças habilidosamente graduadas, em 1962, 1964 e 1967, de modo que a revolução generalizada de 1969 encontrou católicos prontos para a novidade. De fato, ainda hoje o rito do NOM inclui opções para o celebrante, que torna a este possível celebrá-lo como uma cerimônia de puro sangue da nova religião humanista, ou como uma cerimônia que lembra a verdadeira Missa, semelhante o suficiente para enganar muitos católicos, fazendo-os acreditar que não há diferença significante entre o velho e o novo rito. É claro que na realidade, como Monsenhor Lefebvre sempre dizia, é melhor o velho rito numa língua moderna, que o novo rito em latim, por causa da diminuição ou clara falsificação da doutrina católica da Missa no NOM.

Além destes dois fatores, a imposição oficial das mudanças e o caráter às vezes opcional destas, intrínsecos ao NOM, são mais que suficientes para explicar porque hoje deve haver milhares de católicos que querem e pretendem ser católicos ainda que assumam que a maneira correta de agir é assistir ao NOM todo domingo. E quem ousará dizer que em meio a essa multidão não há pessoas que ainda estejam alimentando sua fé obedecendo o que lhes parece ser (subjetivamente) sua obrigação (objetiva)? Deus é seu juiz, mas por quantos anos simplesmente a maioria dos seguidores da Tradição católica não teve de ir ao NOM antes de compreender que sua fé a obrigava a não fazer isto? E se o NOM os tivesse feito perder a fé por todos estes anos, como teriam eles chegado à Tradição católica? Dependendo de como o celebrante usa as opções do NOM, nem todos os elementos que podem nutrir a fé são necessariamente eliminados, especialmente se a consagração é válida, uma possibilidade que ninguém que saiba sua teologia sacramental pode negar.

Entretanto, dados a fraqueza da natureza humana e o risco de encorajar os católicos a seguirem a nova e fácil religião por causa destas últimas palavras ditas em favor de seu rito central de culto, por que então dizer uma palavra em favor de qualquer característica da Neoigreja? Por ao menos duas razões. Em segundo lugar, para afastar o desprezo potencialmente farisaico em relação aos crentes que estão fora do movimento tradicional; e, em primeiro lugar, para afastar o que começa a ser chamado de “eclesiavacantismo”, a saber, a ideia de que na Neoigreja não restou nada de católico. Em teoria, a Neoigreja é pura podridão, mas na prática essa podridão não pode existir sem algo que ainda não apodreceu e que está ali com potência para apodrecer. Todo parasita necessita de um hospedeiro. Tendo esse particular hospedeiro: a verdadeira Igreja, desaparecido completamente, não teriam então as portas do inferno prevalecido sobre ela? Mas isto é impossível (Mt. XVI, 18).
                                                                                                                                          
Kyrie eleison.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

UMA HIERARQUIA PARA DUAS IGREJAS – DOMINICANOS DE AVRILLÉ

UMA HIERARQUIA PARA DUAS IGREJAS

DOMINICANOS DE AVRILLÉ

Fonte: Non Possumus

Le Sel de la Terre n°59, inverno de 2006-2007



O Non Possumus torna a publicar este importante texto dos Dominicanos de Avrillé acerca da dualidade “Igreja Católica – igreja conciliar”.

A equivocidade da expressão “igreja conciliar” causa confusão. Ela pode ser entendida ao menos em 4 sentidos principais:

Segundo um primeiro sentido, a “igreja conciliar” é a organização da religião conciliar que coexiste com a Igreja Católica num mesmo sujeito. É o que explicam os Dominicanos de Avrillé neste texto.

Conforme um segundo sentido, a “igreja conciliar” é a Igreja Católica tal e como é atualmente, decaindo e corrompendo-se (em seus aspectos humanos) pelas mãos dos modernistas que controlam a Igreja desde o Concílio Vaticano II.

Estes dois primeiros sentidos da expressão “igreja conciliar” não se excluem reciprocamente, mas se excluem aos dos dois seguintes.

Em um terceiro sentido, a “igreja conciliar” é essa sociedade que as pessoas comuns identificam erroneamente com a Igreja Católica. A sociedade cuja cabeça está Francisco e que é conhecida em todas as partes como “Igreja Católica”, já não é católica. A verdadeira Igreja Católica existe reduzida a dimensões domésticas e individuais. Este terceiro sentido exclui os outros três, é sustentado por muitos sedevacantistas, e se inclina ao sedevacantismo e ao cisma.

Segundo um quarto sentido, a “igreja conciliar” é unicamente um mal espírito (liberal e modernista) existente na Igreja Católica. É o que sustentam Mons. Felay, o pe. Glaize e os acordistas em geral. Este quarto exclui os outros três.


Em uma carta datada de 25 de junho de 1976 enviada a Monsenhor Lefebvre por parte do Papa, Monsenhor Giovanni Benelli emprega pela primeira vez uma expressão que se tornou famosa: “A Igreja Conciliar.” “Se eles (os seminaristas) são de boa vontade e seriamente preparados para um ministério presbiterial na verdadeira fidelidade à Igreja Conciliar, encarregar-nos-emos de encontrar a melhor solução para eles.”

Desta Igreja conciliar temos falado frequentemente em Le Sel de la Terre, mas não é-nos inútil voltar a esta questão já que é tão importante. A questão que particularmente queremos abordar aqui é a seguinte: A Igreja católica e a Igreja conciliar têm uma mesma hierarquia?



ESTADO DA QUESTÃO 


Por princípio, de onde partimos? Procuraremos definir as duas Igrejas em questão. Fá-lo-emos segundo as quatro causas que distinguem geralmente a filosofia escolástica.

Uma sociedade é um ser moral (no caso da Igreja Católica, não há somente união moral. Também há união espiritual devido à participação de bens sobrenaturais (a fé, por exemplo): é uma união de pessoas que estão unidas pelo mesmo fim (um mesmo bem comum). Pode-se distinguir:

- A causa material, são as pessoas que estão unidas na sociedade. Diremos que no caso da Igreja Católica como no da Igreja conciliar, são os batizados (com um batismo válido).

- A causa eficiente é o fundador da sociedade: Nosso Senhor Jesus Cristo no caso da Igreja Católica, os papas do concílio, no caso da Igreja conciliar. Depois da ascensão de seu fundador, é a autoridade quem continua fazendo o rol de causa eficiente e mantém unida à sociedade. Atualmente, é essa mesma hierarquia que cumpre o rol de causa eficiente para a Igreja Católica e para a Igreja conciliar.

- A causa final, é o bem comum buscado pelos membros da sociedade: no caso da Igreja Católica, o bem que se busca é a salvação; no caso da Igreja conciliar o bem que se busca é – mais ou menos conscientemente – a unidade do gênero humano (o ecumenismo em sentido amplo) “O que define melhor toda a crise da Igreja é verdadeiramente este espírito ecumênico-liberal” (Monsenhor Lefebvre, conferência de 4 de abril de 1978).

- A causa formal é a união dos espíritos e vontades dos membros na busca do bem comum. Na Igreja Católica, há união de espíritos em uma mesma profissão de fé e uma união de vontades na prática de um mesmo culto na obediência aos mesmos pastores (portanto às leis que eles estabelecem, a saber, o Direito Canônico). Na Igreja conciliar, encontra-se também uma união de espíritos na aceitação de um mesmo ensino (o Concílio) e união de vontades na prática de uma nova liturgia e na obediência às novas diretrizes da Igreja conciliar (como o novo código de direito canônico). (Esta união de espíritos e de vontades é muito menos estrita na Igreja conciliar que na Igreja Católica. Basta “aceitar o concílio” e em seguida cada qual por fazer o que quer).

Podemos definir a Igreja católica como a sociedade de batizados que buscam salvar suas almas professando a fé católica, praticando o mesmo culto católico e obedecendo aos mesmos pastores, sucessores dos Apóstolos.

Quanto à Igreja Conciliar, ela é a sociedade de batizados que se submetem às diretivas do papa e os bispos atuais em sua vontade de promover o ecumenismo conciliar e que, por consequência, admitem toda o ensinamento do Concílio, praticando a nova liturgia e submetendo-se ao novo direito canônico.

Nestas condições, é possível que uma mesma hierarquia possa dirigir as duas sociedades?



OBJEÇÕES


- Primeira objeção: Não é possível que uma mesma hierarquia dirija duas Igrejas. Pode se imaginar que um mesmo patriarca possa dirigir os coptas católicos e os coptas ortodoxos? Portanto é impensável imaginar uma hierarquia comum à Igreja Católica e à Igreja Conciliar.

- Segunda objeção: De fato, não há uma hierarquia, senão duas. De um lado estão os bispos conciliares que dirigem a Igreja conciliar e do outro os bispos da Tradição que dirigem a Tradição, ou seja, a Igreja Católica.

- Terceira objeção: Quem não vê que a hierarquia da Igreja Conciliar é uma pseudo-hierarquia? O papa não é papa porque não é católico; quanto aos bispos, não são bispos porque o rito das consagrações episcopais não é válido.

[Nós adicionamos uma quarta objeção, lida na internet. Diz essa objeção: “a religião do Concílio Vaticano II é uma religião especificamente distinta e inclusive oposta à católica. É impossível que a religião conciliar esteja dentro da Igreja Católica”. Respondemos: a ideia é esta: “a religião conciliar é uma heresia e é impossível que haja hereges dentro da Igreja católica”. Mas a verdade é que se pode professar a religião conciliar sem culpa, incorrendo em heresia apenas material, e dado que os batizados que incorrem em heresia unicamente material não deixam de pertencer à Igreja, pode se professar a religião conciliar sem deixar de ser católico ou de estar na Igreja Católica. Nota do blog]



ARGUMENTO DE AUTORIDADE


Nós não somos os primeiros a afirmar que as duas Igrejas têm a mesma hierarquia. Esta afirmação se encontra com a maioria dos que abordaram a a questão antes de nós:

“Que exista no presente duas Igrejas, com um só e mesmo papa Paulo VI à cabeça de uma e outra, nós não o dissemos por nada, não o inventamos, nós constatamos que é assim.” Gustavo Corção na revista Itineraires de novembro de 1974, em seguida o padre Bruckberger no “L’Aurore” de 18 de março de 1976 tem-no sublinhado publicamente: a crise religiosa não é como no século XVI de ter para uma só Igreja dois ou três papas simultaneamente; agora é de ter um só papa para duas Igrejas, a Católica e a pós-conciliar […]

O mundo moderno nos apresenta um espetáculo oposto ao do grande cisma do ocidente: duas Igrejas com um só Papa.

O texto mais interessante é do padre Julio Meinvielle. Data de 1970: é o primeiro texto que conhecemos sobre este assunto. O sacerdote argentino escreveu – e é a conclusão de seu magistral livro “De la Cábala ao progresismo”:

“Um mesmo Papa presidiria ambas Igrejas, que aparente e exteriormente não seriam senão uma. O Papa, com suas atitudes ambíguas daria pé para manter o equívoco. Porque, por um lado, professando uma doutrina inatacável, seria a cabeça da Igreja das Promessas. Por outro lado, produzindo atos equívocos e até reprováveis, apareceria como alentando a subversão e mantendo a Igreja gnóstica da Publicidade.

A eclesiologia não tem estudado suficientemente a possibilidade de uma hipótese como a que aqui propomos. Mas se pensarmos bem, a Promessa de assistência da Igreja se reduz a uma assistência que impeça o erro de introduzir-se na Cátedra Romana e na mesma Igreja, e ademais que a Igreja não desapareça nem seja destruída pelos seus inimigos”.



REFLEXÃO TEOLÓGICA.


Nosso Senhor prometeu que as portas do inferno – os poderes infernais – jamais prevalecerão contra sua Igreja. Portanto ela é indefectível: ela deve continuar até o fim dos tempos para fornecer às almas de boa vontade os meios de salvação, a saber: a sã doutrina, sacramentos válidos, o santo Sacrifício da Missa, uma autêntica vida espiritual; Tudo isto supõe que a hierarquia católica durará até o fim do mundo e poderá – ao menos para os que verdadeiramente o desejam, cumprir com seu fim que é conduzir as almas ao Céu.

Além disso, Nosso Senhor também anunciou que sua segunda vinda seria precedida de uma “tribulação tal que não houve desde o princípio do mundo até agora, e não haverá outra.” (Mt. XXIV, 21). Esta tribulação será acompanhada de uma decaída da fé ao ponto que Nosso Senhor se pergunta se encontrará ainda fé sobre a terra no momento de sua segunda vinda (Lc. XVII, 8). Esta apostasia está profetizada por São Paulo (II Tes. III, 4) e São Tomás de Aquino explica comentando este versículo, que os povos cristãos se emanciparão da fé da Igreja Romana. Isto parece indicar bem que uma boa parte da hierarquia será infiel à sua missão.

No tempo que precede à vinda de Nosso Senhor, o sol e a lua não iluminarão mais (Mt. XVIII, 8), o que, sem sentido simbólico, significa que a Igreja e a sociedade cristã perderão a sua influência.



RESPOSTAS ÀS OBJEÇÕES.


Podemos agora responder às objeções contra a possibilidade de uma única hierarquia para as duas “Igrejas”.

- O erro da primeira objeção é o de imaginar a Igreja conciliar como uma sociedade que impõe formalmente o cisma ou a heresia, tal como uma igreja ortodoxa ou uma comunhão protestante. Se eu me adiro à igreja anglicana, por exemplo, sou formalmente cismático, ou seja, herege, e já não formo parte da Igreja Católica.

Mas eu posso ser conciliar – ou seja, para simplificar, ecumenista – conservando a fé católica. Sem dúvida que ponho minha fé, e a de outros, em perigo. Mas não abjuro dela em seguida.

É por isso que os membros da hierarquia, desde o momento em que não levam seus erros ao ponto de renegar a fé católica, continuam sendo membros da hierarquia católica, inclusive quando são conciliares.

O que concedemos ao objetante é que os bispos da Tradição não formam parte da Igreja conciliar.

- Contrariamente ao que declara a segunda objeção, os bispos conciliares e os bispos da Tradição não constituem duas hierarquias. Monsenhor Lefebvre, ao consagrar os bispos em 30 de junho de 1988, protestou contra a ideia de estabelecer outra hierarquia. Não há mais do que uma hierarquia, tendo em sua cabeça o papa e sob ele todos os bispos católicos (compreendidos os da Tradição).

Quando um sacerdote da Tradição celebra a santa Missa, nomeia no cânon os membros da hierarquia: o papa e o bispo do local.

O que dá uma aparência de verdade à objeção, é que o papa e os bispos atuais, muito frequentemente, atuam como representantes da Igreja conciliar>: nesta qualidade – quando promovem os novos sacramentos, o novo catecismo, etc. – os bons católicos, com razão, não os obedecem.

- Quanto à terceira objeção, esta repousa em afirmações gratuitas, como temos explicado muitas vezes nesta revista. Ninguém jamais apontou a prova decisiva de que o papa não seja papa, nem que os bispos atuais sejam consagrados com um rito inválido. Temos de tê-los – pela falta de prova em contrário – por representantes da hierarquia, resistindo-lhes quando utilizam sua posição para impor os erros conciliares.



ANEXO SOBRE A IGREJA CONCILIAR

Monsenhor Lefebvre:


Um tempo após haver recebido a carta de Monsenhor Benelli, em 29 de julho, Monsenhor Lefebvre comentou também esta expressão “igreja conciliar”:

"Nada mais claro! De agora em diante, é a igreja conciliar se deve obedecer e ser fiel, já não à Igreja católica. Esse é precisamente todo o nosso problema. Nós estamos suspensos a divinis pela Igreja conciliar, e para a Igreja conciliar, da qual nós não queremos formar parte.

Esta igreja conciliar é uma igreja cismática, porque ela rompe com a Igreja católica de sempre. Tem seus novos dogmas, seu novo sacerdócio, suas novas instituições, seu novo culto já condenado pela Igreja em repetidos documentos oficiais e definitivos.

É por isso que os fundadores da igreja conciliar insistem tanto sobre a obediência hoje em dia, fazendo abstração da Igreja de ontem, como se ela já não existisse.

(…)A igreja que afirma semelhantes erros, é por sua vez cismática e herética. Estra igreja conciliar não é, portanto, católica. Na medida em que o papa, os bispos, sacerdotes ou fiéis aderem a esta nova igreja, eles se separam da igreja católica. A igreja de hoje não é a verdadeira Igreja mais que na medida que ela continue em unidade com a Igreja de ontem e de sempre. A norma de fé católica é a Tradição”.

Outras citações de Monsenhor Lefebvre:

"Deste concílio nasceu uma nova igreja reformada que o mesmo Monsenhor Benelli chama a igreja conciliar.

É muito fácil pensar que qualquer um que se oponha ao concílio, seu novo evangelho, será considerado como fora da comunhão da Igreja. Podemos lhes perguntar: de qual Igreja? Eles respondem: da igreja conciliar. (Acuso o Concílio, pg. 7)

Este concílio representa, tanto aos olhos das autoridades romanas como aos nossos, uma nova igreja que eles chamam “a igreja conciliar”. (…)

Todos os que cooperam na aplicação desta alteração, aceitam e aderem a esta nova igreja conciliar, como a designou Monsenhor Benelli na carta que me enviou da parte do Santo Padre, em 25 de junho passado (1976), entram no cisma” (Um Bispo Fala, pgs. 97 e 98).

"A nova missa, como a nova igreja conciliar, está em ruptura profunda com a Tradição e o magistério da Igreja. É uma concepção mais protestante que católica que explica tudo o que está indevidamente exaltado e tudo o que tem sido reduzido (...) A reforma litúrgica de estilo protestante é um dos maiores erros da igreja conciliar e um dos mais ruinosos da fé e da graça (Carta Aberta ao Papa, suplemento nº 37 de Fideliter, janeiro-fevereiro de 1984, pg. 10).

"Os católicos que que assustam com a nova linguagem utilizada pela igreja conciliar, têm a vantagem de saber que este não é novo, que Lamennais, Fuchs, Loisy o iniciaram desde um século atrás, e que eles mesmos não fizeram mais reunir todos os erros que correram no curso dos séculos” (Carta Aberta aos Católicos Perplexos, cap. 16).

"O cardeal Ratzinger se esforça uma vez mais em dogmatizar o Vaticano II. Nos deparamos com pessoas que não têm nenhuma noção da Verdade. Estaremos cada vez mais forçados a atuar considerando esta nova igreja como já não católica” (Carta de Monsenhor Lefebvre a Jean Madiran, em 29 de janeiro de 1986).

"Louis Veuillot disse: “Dois poderes vivem e estão em guerra no mundo: A Revelação e a Revolução”. Escolhemos conservar a Revelação enquanto que a igreja conciliar escolheu a Revolução. A razão de nossos vinte anos de combate está nesta escolha” (Conferência em Ecône em setembro de 1986, Fideliter 55, pg. 18).

"Como é este espírito de diálogo liberal que é inculcado desde o início aos sacerdotes e missionários, compreendemos por que a igreja conciliar tem perdido completamente seu zelo missionário, o espírito mesmo da Igreja” (O Destronaram, pg. 104).

(…) "Esperando que vós possais realizar meu desejo de uma revisão que destrua os erros do concílio e da igreja conciliar professados cada vez mais abertamente pelo papa e a cúria romana, tirando à luz a doutrina católica. Agora enfrentamo-nos com os assassinos da fé católica, sem nenhuma vergonha” (Carta de Monsenhor Lefebvre ao padre prior de Avrillé, 7 de janeiro de 1991).

Terminemos com um extrato do sermão de Monsenhor Lefebvre em 30 de junho de 1988, durante a consagração dos quatro bispos:

"Penso que vossos aplausos de uns momentos atrás eram uma manifestação espiritual que traduzam vossa alegria por ter enfim bispos e sacerdotes católicos que salves vossas almas, que deem a vossas almas a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, através da doutrina, os sacramentos, a fé e o Santo Sacrifício da Missa. A vida de Nosso Senhor, da que tendes necessidade para ir ao Céu, está desaparecendo em todas as partes nesta igreja conciliar, Segue uns caminhos que não são os caminhos católicos. Simplesmente conduzem à apostasia. (...)

Se estou no erro, se ensino erros, está claro que se me deve trazer de novo à verdade, de acordo com os que me enviam este protocolo para ser firmado reconhecendo meus erros. Como se me dissessem: se reconhece seus erros, lhe ajudaremos para que volte à verdade. Que verdade é esta, segundo eles, senão a verdade do Vaticano II, a verdade desta igreja conciliar? Portanto é certo que para o Vaticano a única verdade que existe hoje é a verdade conciliar, o espírito do Concílio, o espírito de Assis. Essa é a verdade de hoje. E isso não o queremos por nada do mundo.”


Outras citações:

Não foi Monsenhor Lefebvre o único em utilizar esta expressão. O Padre Calmel, em 1071, falava da falsa igreja pós-conciliar.

"A falsa igreja que vemos entre nós desde o curioso concílio Vaticano II, afasta-se sensivelmente, ano a ano, da Igreja fundada por Jesus Cristo. A falsa igreja pós-conciliar se divide cada vez mais da Santa Igreja que salva as almas há vinte séculos. A pseudo-igreja em construção se divide cada vez mais da Igreja verdadeira, a única Igreja de Cristo, pelas inovações mais estranhas, tanto na constituição hierárquica como no ensino da moral”.


Sob expressões análogas, encontramos a mesma noção em Gustavo Corção, em 1974 e 1978:

"Esta desordem que reina no cristianismo, aplica-se dia a dia, e nos deixa em uma situação única na histórica depois da santa natividade de Nosso Senhor: nós já não sabemos onde está nossa Igreja! Pelos sinais visíveis, temos uma ideia de pesadelo: o mundo moderno nos apresenta um espetáculo oposto ao do grande Cisma do Ocidente: duas Igrejas com um só papa.

Ora, minha sofrida e firme convicção, tantas vezes sustentada aqui, ali e acolá é que existe, entre a Religião Católica professada em todo o mundo católico até poucos anos atrás e a religião ostensivamente  apresentada como "nova", "progressista", "evoluída", uma diferença de espécie ou diferença por alteridade. São portanto duas as Igrejas atualmente governadas e servidas pela mesma hierarquia: a Igreja Católica de sempre, e a Outra..(…)

E note bem, leitor: quando acaso der a essa outra o nome de Igreja pós-conciliar não quero de modo algum insinuar a infeliz ideia de que, após o Concílio, a Igreja de Cristo se teria transformado a ponto de tornar-se irreconhecível, devendo os fiéis de bem forma­da doutrina católica acreditar nessa nova forma visível da Igreja, por pura disciplina, ainda que a maioria das pregações e dos novos ensinamentos sejam ostensivamente diversos e as vezes opostos à doutrina católica. Não! A Igreja Católica e Apostólica continua a existir na era pós-conciliar, submetida a duras provações, mas sempre permanente e fiel guardiã do depósito sagrado.

Se o leitor me perguntasse agora quais são as essenciais diferenças que separam as duas religiões, eu responde­ria: diferença de espírito, diferença de doutrina, diferença de culto e diferença moral. Como terei chegado a tão assustadora convicção? Com muito sofrimento e muito trabalho, são milhares os católicos que chegaram à mesma convicção. Começamos por confrontar os novos textos, as novas alocuções, as novas publicações pastorais com a doutrina ensinada até anteontem. A começar pelos textos emanados dos mais altos escalões, citemos alguns daqueles que mais dolorosamente e mais irresistivelmente nos levaram à conclusão de que se inspiram em outro espírito e se firmam em outra doutrina.”

Em 1976, no Supplement-Voltigeur da revista Itineraires, Jean Madiran escreveu:



"FORA DE QUAL IGREJA?

Em seu discurso ao consistório de 24 de maio (1976), onde Monsenhor Lefebvre é mencionado muitas vezes, Paulo VI (...) o acusa de se colocar fora da Igreja”.

Porém fora de qual Igreja? Há duas. E Paulo VI não renunciou a ser papa destas duas igrejas simultaneamente. Nestas condições, “fora da Igreja” resulta em equívoco e não resolve nada.

Que haja na atualidade duas Igrejas com um só e mesmo Paulo VI à frente de uma e da outra, não o inventamos, constatamos que é assim.

Alguns episcopados que se declaram em comunhão com o papa, e que o papa não nega sua comunhão, têm saído objetivamente da comunhão católica (...) Sim, mas prevaricadores, desertores, impostores, Paulo VI segue sendo sua cabeça sem desaprová-los e nem corrigi-los, conserva-os em sua comunhão, ele preside esta igreja também (...).

Se o concílio tem sido interpretado corretamente como o foi, é com o consentimento ativo ou passivo dos bispos em comunhão com o papa. Assim se constituiu uma igreja conciliar, diferente da Igreja Católica. (…)

Há duas Igrejas sob Paulo VI. Não ver que são duas, ou não ver que são completamente diferentes uma da outra, ou não ver que Paulo VI até agora preside uma e outra, é a cegueira, e em certos casos pode ser uma cegueira invencível. Mas tendo-o visto e não tendo-o dito seria a cumplicidade de seu silêncio e uma anomalia monstruosa.

Gustavo Corção na revista Itinerários de novembro de 1974, logo em seguida o Padre em L’Aurore de 18 de março de 1976, expressaram-no publicamente: A crise religiosa já não é como no século XV, quando se teve uma só Igreja e dois ou três papas simultaneamente: Hoje é ter um só papa para duas Igrejas, a católica e a pós-conciliar " (...)

O Padre Meinvielle, em 1970, falava da Igreja da publicidade para designar o que chamamos a igreja conciliar: mas ele descreve muito bem a situação atual, de uma mesma hierarquia governando duas Igrejas:

"Não é necessária muita sagacidade para ver que desde há cinco séculos o mundo se está conformando à tradição cabalística – O mundo do Anticristo de adianta velozmente. Tudo ocorre para a unificação totalitária do filho da perdição. Daqui também o êxito do progressismo. O cristianismo se seculariza ou vai se tornando ateu.

Como se hão de cumprir, nesta idade cabalística, as promessas de assistência do Divino Espírito à Igreja e como se verificará o portae in feri non prevalebunt, as portas do inferno não prevalecerão, não cabe na mente humana. Mas assim como a Igreja começou sendo uma semente pequenina (1), e se fez árvore frondosa, assim pode reduzir-se em sua frondosidade e ter uma realidade muito mais modesta. Sabemos que o mysterium iniquitatis já está trabalhando (2); mas não sabemos os limites de seu poder. Por outro lado, não há dificuldade em admitir que a Igreja da publicidade possa ser enganada pelo inimigo e converter-se de Igreja Católica em Igreja gnóstica. Pode haver duas Igrejas, uma, a da publicidade, Igreja magnificada na propaganda, com bispos, sacerdotes e teólogos publicitários, e ainda com um Pontífice de atitudes ambíguas; e outra, Igreja do silêncio, com um Papa fiel a Jesus Cristo em seu ensinamento e com alguns sacerdotes, bispos e fiéis que lhe sejam dependentes, espalhados como "pusillus grex" por toda a terra. Esta segunda seria a Igreja das promessas, e não aquela primeira, que pudesse defeccionar. Um mesmo Papa presidiria ambas Igrejas, que aparente e exteriormente não seria senão uma. O Papa, com suas atitudes ambíguas, daria pé para manter o equívoco. Porque, por um lado, professando uma doutrina intocável seria cabeça da Igreja das promessas. Por outro lado, produzindo atos equívocos e ainda reprováveis, apareceria como alentando a subversão e mantendo a Igreja gnóstica da Publicidade.

A eclesiologia não estudou suficientemente a possibilidade de uma hipótese como a que aqui propusemos. Mas se se pensa bem, a Promessa de Assistência da Igreja se reduz a uma Assistência que impeça que o erro se introduza na Cátedra Romana e na mesma Igreja, e além disso que a Igreja nem seja destruída por seus inimigos. ".

(1) Mq 13, 32.
(2) 2 Ts 2, 7.

domingo, 25 de outubro de 2015

Um dia o povo inglês acordou protestante


Gustavo Corção

Postado originalmente em Mosteiro da Santa Cruz



Trago ainda Hoje, e ainda motivada pelo affaire Lefebvre uma interessante contribuição de Jean Dutourd publicada em France Soir, no qual a situação do Bispo francês é comparada à do bispo inglês John Fisher, único opositor de Henrique VIII que levou se testemunho até o martírio. Eis o resumo daquele longo e doloroso histórico: “Em 1535 John Fisher, bispo de Rochester, foi executado por ordem de Henrique VIII, “defensor da fé”, porque, único entre os prelado ingleses, recusou a transformar a missa, que é a renovação do sacrifício da Cruz, num simples “serviço de comunhão”. Em outras palavras, foi ele o único a se opor à protestantização da Igreja da Inglaterra. Protestantização que se estabeleceu sorrateiramente depois da morte do último obstáculo.”

“O povo, vendo que as caras eram as mesmas, julgou que a religião não mudara.”

Interrompo Jean Dutourd para resumir seu texto num susto aplicável a toda a atualidade católica: amanhã ou depois o povo católico do mundo inteiro, na sua brutal e mole maioria acordará protestante, ou nem sequer acordará.

A nova religião das Conferências Episcopais ou do Homem que se faz Deus, segundo a lógica interna da mudança perpétua, que os tolos tomam como manifestação de vitalidade quando, na verdade, são sinais de desmoronamento e de morte, essa nova religião em perpétuo devenir depressa atingirá as mais desordenadas formas de protestantismo, não conseguindo sequer manter as formas mais altas e tradicionais da Reforma. No ponto em que se acha o fenômeno, essa igreja ainda reclama para si o Papa eleito na Religião Católica – um Papa diminuído pela colegialidade que já renunciou o báculo e já se desfez da tiara.

Não estamos exagerando, nem gracejando, mas observando três fatos de brutal objetividade: a troca de báculo, sinal de autoridade e de governo, por um bastão de peregrino, o desaparecimento da tiara em torno da qual se tecem as mais variadas suposições, e a hipertrofia das conferências episcopais, tudo isto converge para um sombrio prognóstico.

Teilhard de Chardin lançou uma fórmula que não tem sentido nenhum na sua fenomenologia: “Tudo o que sobe converge”. Ao contrário, onde a lei da matéria se sobrepõe à do espírito, é mais acertado dizer que “tudo o que cai converge”.

No caso, vemos em todas as tendências da outra igreja uma convergência para baixo: uma naturalização do que era sobrenatural, de uma democratização do que era hierárquico, de uma protestantização do que era católico. E isto tudo se passa sem parecer acordar as consciências do povo adormecido. Amanhã ou depois, as Conferências Episcopais julgarão desnecessárias a eleição de um novo Papa. Para quê? Caberá aos católicos que permanecem católicos o encargo de restabelecer a continuidade interrompida. O affaire Lefevbre terá servido para alertar as consciências dos bispos ainda católicos, ou se perderá na tempestade apocalíptica que já se anuncia. O autor do artigo publicado em France Soir continua nestes termos: “Quatrocentos anos mais tarde, Fisher foi canonizado. Será que dentro de quatrocentos anos ou até antes D. Lefebvre não estará também canonizado?”

“Seu crime é exatamente o mesmo que o de Fisher. Ainda não lhe cortaram a cabeça, mas não é impossível que este ancião morra de tristeza depois da decisão tomada pelo Papa.”

“Tudo é obscuro no affaire D. Lefbvre, que parece mais uma escamoteação. Proíbe-se D. Lefebvre de celebrar a missa, de administrar os sacramentos e de pregar.”

“Mas Por quê? Ninguém o esclarece. Será porque ele diz o Pai nosso e o Credo em latim, porque mantém a liturgia tradicional, prepara seminaristas como eram formados há apenas vinte anos atrás?”

“Nenhum ato de acusação foi publicado. Parece que lhe reclamam o não ter aceito as orientações do último Concílio, o qual aliás tinha explicitamente afirmado que não era “doutrinal” mas “pastoral”. O crime de D. Lefebvre seria então o de se apegar tradição de Santo Tomás de Aquino, e do Concílio de Trento sobre a qual a Igreja viveu mais de setecentos anos.”

“O mínimo que se pode dizer desse papa é que é um personagem ondulante e diverso. Um dia declara as coisas mais santamente tradicionalistas às quais todos os Lefebvre da cristandade poderiam subscrever; no outro dia afirma que ele mais do ninguém tem o “culto do homem”. No século XIV, havia um papa e um anti-papa que se excomungavam mutuamente. Hoje tem-se por vezes a impressão que o papa e o anti-papa estão unidos na mesma pessoa, pelo modo com que a dita pessoa sofra o frio e o calor.”

“Somos sempre mais impiedosos com os irmãos ou parentes próximos. O papa que várias vezes recusou receber D. Lefebvre, que o condenou sem ouvi-lo recebe acintosamente o Sr. Gromyko que é ateu, representa o Gulag e que pertence a um governo que há sessenta anos persegue os cristãos.”

Não acompanho o paralelo traçado por Jean Dutourd, entre o caso Fisher e o caso Lefebvre, porque para imaginar a possibilidade de uma canonização é preciso, previamente confiar na continuidade da Igreja Católica Militante. Não me parece provável a canonização de Dom Lefebvre; mas parece-me certa a ideia de que, desde já, sua mansa e inabalável permanência seja no Céu festejada pela alegria dos santos e dos anjos. Hoje, sem atrevimento, talvez possamos dizer que haverá igual ou maior alegria no céu pelos justos que perseveram até o martírio embora sem efusão de sangue por falta de coragem de seus perseguidores.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Padre Pio, o Concílio e a Missa Nova

A reação de São padre Pio ao concílio e à missa nova



Publicamos a seguir um extrato do artigo do Frei João, capuchinho de Morgon (França), publicado na Carta aos amigos de São Francisco, n° 17, de 02/02/1999:


«Modelo de respeito e de submissão para com os seus superiores eclesiásticos e religiosos, em particular por ocasião das perseguições contra a sua pessoa, o Padre Pio de Pietrelcina não podia ficar mudo perante um desafio nefasto à Igreja.

Antes mesmo do fim do concílio, em fevereiro de 1965, anunciaram-lhe que seria preciso em breve celebrar a missa segundo um novo rito “ad experimentum”, em língua vulgar, e elaborado por uma comissão litúrgica conciliar para responder às aspirações do homem moderno.

Antes mesmo de ter o seu texto debaixo dos olhos, escreveu imediatamente a Paulo VI pedindo-lhe fosse dispensado desta experiência litúrgica e pudesse continuar a celebrar a missa de São Pio V.

Tendo-se o cardeal Bacci deslocado em pessoa para lhe levar esta autorização, Padre Pio deixou escapar esta queixa junto do enviado do Papa: “O Concílio, por piedade, acabai com ele depressa!”

Papa Paulo VI

No mesmo ano, na euforia conciliar que prometia uma “nova primavera” para a Igreja e para o mundo, confiava a um de seus filhos espirituais: “Rezemos nesta época de trevas. Façamos penitência pelos eleitos.

[...]

Quão significativas outras cenas: essas reações em face do “aggiornamento” que as ordens religiosas assimilaram no dia seguinte ao Vaticano II (citações extraídas duma obra munida de imprimatur): 

“O Padre Geral (dos franciscanos) veio de Roma antes do capítulo especial para as constituições, em 1966, para pedir ao Padre Pio orações e bênçãos. Encontrou o Padre Pio no corredor do convento: ‘Padre, vim para vos recomendar o capítulo especial para as novas constituições...’ Apenas ouviu ‘capítulo especial’, Padre Pio fez um gesto violento e gritou: ‘Não são senão parlapatices e ruínas!’ ‘Mas que quereis, Padre?

As novas gerações... os jovens evoluem à sua maneira... há novas exigências...’ ‘É o cérebro e o coração que faltam, eis tudo, a inteligência e o amor’.

Em seguida avançou para a sua cela, deu meia-volta, apontou o dedo dizendo: ‘Não nos desnaturemos, não nos desnaturemos! Quando Deus nos julgar, São Francisco não nos reconhecerá como filhos!’ 

Padre Pio de Pietrelcina


“Um ano depois, a mesma cena para o “aggiornamento” dos capuchinhos: “Um dia, confrades com o Padre Definidor Geral discutiam sobre a Ordem, quando o Padre Pio, tomando uma atitude espantosa, se pôs a gritar ao mesmo tempo que fixava o olhar ao longe: ‘Mas o que estais prestes a fazer em Roma? Que combinais vós? Quereis mesmo mudar a Regra de São Francisco!’ E o Definidor diz: ‘Padre, propõem-se estas mudanças porque os jovens nada querem saber da tonsura, do hábito, dos pés descalços...’

‘Expulsai-os fora! Expulsai-os fora! Mas quê? São eles que vão fazer um favor a São Francisco ao tomarem o hábito e ao seguirem o seu modo de vida, ou é antes São Francisco que lhes faz um grande dom?’”

Se se considera que o Padre Pio foi um verdadeiro alter Christus, que toda a sua pessoa, corpo e alma, foi tão perfeitamente conforme quanto possível à de Jesus Cristo, esta recusa nítida das inovações da Missa e do “aggiornamento” deve ser para nós uma lição a reter.

É também notável que o Bom Deus tenha querido lembrar-se dele, seu fiel servidor, pouco tempo antes da imposição implacável das reformas do Concílio no seio da Igreja e da ordem capuchinha. E que Katarina Tangari, uma das suas filhas espirituais mais privilegiadas, tenha apoiado tão admiravelmente os padres de Écône até à morte, um ano após as sagrações episcopais.

E Padre Pio ainda era menos complacente em face da ordem — ou antes da desordem — social e política: “confusão de ideias e reino dos ladrões” (em 1966).

Profetizou que os comunistas chegariam ao poder “por surpresa, sem desfechar golpe... Nós nos daremos conta disso da noite para o dia”.

Chegou a precisar até, a Monsenhor Piccinelli, que a bandeira vermelha flutuará sobre o Vaticano, “mas isso passará”.

Ainda aqui a sua conclusão coincide com a da Rainha dos Profetas: “Mas por fim o meu Coração Imaculado triunfará!”»

Texto enviado por Rev. Pe. Ernesto Cardoso.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Comentários Eleison CDXVII (417) - Papas Conciliares IV

Por Dom Richard Williamson
Tradução: Andrea Patrícia (blogue Borboletas ao Luar)
11 de julho de 2015


Dom Lefebvre nunca falou de “mentes apodrecidas”?
Com outras palavras ele também disse que as mentes estão enlanguescidas.

            Muitos leitores destes “Comentários” devem estar pensando agora que aqui se tem tratado muito frequentemente do sedevacantismo, ou seja, da posição de quem sustenta que a Sé de Roma está vacante, que nenhum dos Papas desde o Vaticano II é verdadeiro Papa. Ora, se um católico precisa manter essa opinião para não perder a sua fé católica, que ele a mantenha, porque a sua fé é suprema (Hb 11, 6). Mas a opinião em si mesma é perigosa na medida em que pode ser o início de um deslizamento até a perda da fé, e eis porque estes “Comentários” têm insistido tanto em desencorajar o sedevacantismo. Uma opinião pode vir a tornar-se facilmente um dogma, então o super dogma e a medida de se alguém é ou não católico, de onde se pode deslizar até uma completa descrença na estrutura da Igreja e o isolamento em casa, e mesmo até a perda da fé católica. Considerem o que Dom Lefebvre disse (muito ligeiramente adaptado) perto do fim de 1979 em uma conferência para seminaristas em Écône:

            Devemos ser prudentes. É óbvio que se o Papa Paulo VI não era Papa, então os Cardeais que ele nomeou não são Cardeais, e assim não podem ter elegido João Paulo I, nem ter validamente elegido João Paulo II; isto é muito claro. Eu acho que não se pode dizer tais coisas, que são exageros, que é argumentar de uma maneira muito absoluta e precipitada. Acredito que a realidade seja muito mais complexa.

              Penso que aqueles que argumentam assim estão, de certo modo, esquecendo teologia moral e ética. Estão sendo especulativos demais. A teologia moral e a ética ensinam-nos a refletir e julgar as pessoas e seus atos de acordo com um completo contexto de circunstâncias que nós devemos ter em conta: “Quem, o que, onde, por quais meios, por que, como, quando” – todas as sete circunstâncias devem ser examinadas se nós nos pomos a julgar a moralidade de um ato. Então, nós não podemos permanecer na pura estratosfera, por assim dizer, no reino da pura teologia dogmática, ao pronunciar, por exemplo, que porque tal ato é herético, quem quer que o tenha praticado é um herege. Mas, estava essa pessoa consciente do que ela estava fazendo, fê-lo realmente por si mesma, não foi ela enganada ou forçada a fazê-lo?

            Creio que aqui está o modo de resolver os graves problemas suscitados por João XXIII, Paulo VI e João Paulo I. Os jornais citaram este último a dizer que havia pensado inicialmente que a nova definição conciliar de liberdade religiosa era inaceitável porque a Igreja sempre ensinou o contrário, mas logo após estudar todo o conteúdo do documento do Concílio, percebeu que a Igreja havia-se enganado anteriormente. Pois bem, eu não tenho ideia de qual foram as palavras exatas de João Paulo I, mas dizer que a Igreja estaria enganada em uma matéria como a liberdade religiosa é de deixar a cabeça confusa! Contudo, eu atribuo isso às mentes liberais. O Liberalismo é assim. O Liberalismo afirma algo e então o contradiz, e se alguém demonstra que o que ele disse não é verdade, então ele vem com outra fórmula ambígua, com sentido duplo. A mente liberal está continuamente flutuando por aí, com expressões que não são claras, com coisas que podem ser tomadas de duas maneiras... Quantas coisas como essas há no Concílio, expressões equivocadas e confusas, todas típicas de mentes à deriva, mentes liberais... Do modo que vejo, penso que o fato de que o Papa é um liberal é suficiente para explicar a situação na qual nos encontramos.

            Bravo, Sua Excelência! Não está o Arcebispo dizendo aqui exatamente o que estes “Comentários” têm frequentemente dito? E a razão pela qual eles tanto têm feito isso é porque veem aqui a chave para evitar o liberalismo sem te de recorrer ao sedevacantismo.