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segunda-feira, 14 de maio de 2018

Comentários Eleison DLXV (565) - Sonhos Piedosos - I

Por Dom Richard N. Williamson
Tradução: Introibo ad Altare Dei

12 de maio de 2018

Pobre Menzingen perdida em seus sonhos piedosos.
A gentileza neomodernista não é o que parece.


      Em junho do ano passado um confrade na França escreveu um bom artigo sobre se a Fraternidade Sacerdotal São Pio X deveria ou não obter das autoridades da Igreja em Roma um status canônico que protegeria os interesses da própria Fraternidade. Obviamente, o quartel general desta em Menzingen, na Suíça, acredita que obterá tal status, e se o atual Superior Geral for reeleito para um terceiro mandato em julho, esse é o objetivo que a Fraternidade continuará a perseguir. No entanto, é bastante menos óbvio que esse objetivo deva ser perseguido. Um argumento de oito páginas inteiras de Ocampo nº 127 de junho de 2017 está resumido abaixo em uma única página.

      A posição do artigo é a de que a Fraternidade não pode de modo nenhum colocar-se sob as poderosas autoridades da Igreja imbuídas dos princípios da Revolução Francesa tal como incorporados no Vaticano II, porque são os Superiores que moldam os assuntos, e não o contrário. Dom Lefebvre fundou a Fraternidade para resistir à traição da fé católica pelo Vaticano II. Ao submeter-se aos conciliaristas, a Fraternidade estaria unindo-se aos traidores da Fé.

      As autoridades da Igreja são os bispos diocesanos e o Papa. Quanto aos bispos, aqueles francamente hostis à Fraternidade podem ser menos perigosos do que aqueles que podem ser amigáveis, mas não entendem as exigências absolutas da Tradição Católica, que não são apenas exigências da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Quanto ao Papa, se suas palavras e ações o mostram trabalhando contra a Tradição Católica, a qual é seu dever defender, então os católicos têm o direito e o dever de protegerem-se a si mesmos tanto contra o modo pelo qual ele está abusando de sua autoridade, como contra a própria necessidade inata deles de seguir e obedecer à autoridade católica. Ora, em teoria, um Papa conciliar pode prometer uma proteção especial para a Tradição da Fraternidade, mas na prática ele deve, por suas próprias convicções, esforçar-se para que a Fraternidade reconheça o Concílio e abandone a Tradição. Dada então sua grande autoridade como Papa para impor sua vontade, a Fraternidade deve manter-se fora de seu caminho.

      A experiência mostra que os tradicionalistas que se incorporam à Roma conciliar podem começar simplesmente guardando silêncio sobre os erros conciliares, mas geralmente acabam por aceitar esses erros. O acordo inicial para ficarem silenciosos é, no final das contas, fatal para sua profissão de fé. E pelo declínio natural de um compromisso a outro, eles podem até acabar perdendo a Fé. Foi a Fé que fez o Arcebispo Lefebvre dizer que, a menos que os romanos conciliares voltem à doutrina das grandes encíclicas papais antiliberais – o que eles não fizeram desde o seu tempo e não estão prestes a fazer no momento –, um diálogo maior entre os romanos e os tradicionalistas é inútil, e – ele poderia ter acrescentado – positivamente perigoso para a Fé.

      O artigo também lista oito objeções a essa posição, apresentadas aqui em itálico com as mais breves das respostas:

1 Com a Prelazia Pessoal, Roma oferece à Fraternidade uma proteção especial. Proteção dos bispos diocesanos, talvez, mas não da autoridade suprema do Papa na Igreja.  2 As exigências de Roma para o acordo vêm diminuindo. Somente porque as concessões à cooperação prática são mais eficazes para obter a submissão dos católicos, como bem sabem os comunistas. 3 A Fraternidade insiste em ser aceita por Roma “tal como somos”, isto é, Tradicional. Para os Romanos, isso significa “como vocês serão, uma vez que a cooperação prática tenha feito vocês verem como somos bons”. 4 Assim, a Fraternidade continuará a atacar os erros do Concílio. Nada há de mudar. Roma pode em seu tempo insistir em mudanças cada vez maiores. 5 Mas o Papa Francisco gosta da Fraternidade!  Tanto quanto o grande Lobo Mau gostava de Chapeuzinho Vermelho! 6 A Fraternidade é virtuosa demais para deixar-se enganar por Roma. Tola ilusão! O próprio Arcebispo foi inicialmente enganado pelo Protocolo de 5 de maio de 1988. 7 Várias comunidades tradicionais incorporaram-se à Roma sem perder a verdadeira Missa. Mas várias delas passaram a defender erros importantes do Concílio. 8 O Papa Francisco como pessoa está no erro, mas sua função é sagrada. Reconhecer a sacralidade de sua função não pode-me obrigar a seguir seus erros pessoais, isto é, o mau uso de sua função. A verdadeira Fé está acima do Papa.

   
      Kyrie eleison.

terça-feira, 13 de março de 2018

Comentários Eleison DLVI (556) - Paternidade Hoje - III

Por Dom Richard N. Williamson
Tradução: Introibo ad Altare Dei

10 de março de 2018


O Paraíso é custoso, porém inestimável,
Ainda que meus esforços eu precise redobrar!


      O CE 553 (“Paternidade Hoje – I”, de 17 de fevereiro) atingiu um nervo. Não é de surpreender. O Diabo tem praticamente toda a sociedade em seu poder. O campo de batalha se mudou para aquelas famílias que ainda não estão em seu poder. Pais, não desesperem de Deus (que é o que o Diabo quer que vocês façam), mas meçam a medida da gravidade da situação e vejam a lógica das duas contramedidas propostas por Deus através de Sua Mãe para esta situação. Então façam o melhor que puderem e entreguem seus filhos nas mãos de Nossa Senhora.

      Muitos leitores reagiram até agora ao “Paternidade Hoje – I”, e certamente haverá mais. Um primeiro leitor lamenta que a análise do Pe. Delagneau se encaixe exatamente em sua própria família. No dia seguinte ao Natal, no ano passado, sua filha mais velha, com apenas 20 anos, virou as costas para a família, deixou o estilo de vida tradicional católico da família “de uma vez por todas”, e se entregou ao mundo com um casamento iminente, um contrato para o qual ela não está pronta. No entanto, uma centelha de esperança é que o jovem em questão não tem religião, o que significa que ele pode encontrar seu caminho para Deus com ela com mais facilidade do que se ele tivesse alguma religião! Outra centelha de esperança é sempre que a maternidade pode trazê-la de volta à realidade, como ela fez com Marya Shatova no romanece “Os Dêmonios” de Dostoievski (que viu o mundo moderno chegar).

      Uma segunda leitora, dada a precisão do retrato do Pe. Delagneau dos jovens de hoje, pergunta-se por que estes “Comentários” recomendam aos homens jovens em geral que se casem. Ela escreve que quase não há homens ou mulheres genuínos ao redor, porque “o material básico mudou”. Não seria tempo, ela pergunta, de considerar a possibilidade de que Deus deseja que mais homens e mulheres permaneçam solteiros e sofram na solidão, mas pela liberdade dos compromissos familiares terem mais tempo para a luta celibatária e para o sacrifício? No local de trabalho, ela diz que a geração crescente de trabalhadores quer dinheiro, poder e tempo livre, que eles não têm ideia, mesmo em teoria, de qualquer ethos de trabalho, e quase todos vivem em pecado, com “parceiros” ou segundos esposos ou alguma perversão ou outra coisa. “Jesus, tenha misericórdia”, conclui.

      Um terceiro leitor sugere que está certo que o Pe. Delagneau recorra aos pais, mas o que a Igreja está fazendo agora para defender as famílias? Considerando que o próprio leitor tem idade suficiente para ser capaz de olhar para trás com carinho para a década de 1960, quando sua própria mãe estava sempre em casa para cuidar dos filhos, agora ele diz que poucas famílias podem sobreviver sem que a mãe tenha que sair de casa para trabalhar, e as crianças devem ser entregues aos cuidados do estado, porque a Igreja oficial está na forca, e a Tradição Católica está distante. As condições de vida para as famílias são determinadas pelo estado, que não favorece as famílias e não tem nenhuma das habilidades da Igreja para poder ajudar com os problemas humanos de uma família. Este leitor conclui que estamos escravizados, como os judeus no Egito. Mas ele também diz que, como Deus deixou as famílias na situação de hoje, deve haver algo que elas possam fazer sobre isso.

      De fato. "Onde há vontade, há um caminho", diz o provérbio. E o Concílio de Trento cita Santo Agostinho no sentido de que Deus não pode abandonar uma alma que não o abandonou primeiro. Como disse Solzhenitsyn, a Rússia nunca teria caído no inferno comunista se não tivesse dado as costas a Deus. O Deus Todo-Poderoso permitiu o inferno para que a "Santa Rússia" voltasse para Ele. Demorou vários anos, mas esse retorno a Deus agora está acontecendo em toda a Rússia, mesmo que a conversão ainda não seja católica. Paciência. A Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria cuidará disso. "No sofrimento está o aprendizado". E agora famílias em todo o Ocidente consumista estão sofrendo intensamente. Paciência.

      Os pais precisam acima de tudo compreender a urgência da necessidade de recorrer aos dois remédios de Nossa Senhora, o Rosário e a Devoção dos Primeiros Sábados, para fazer reparação ao seu Imaculado Coração. Pois quem pode dizer que qualquer um destes remédios é absolutamente impossível? Que os pais façam um verdadeiro esforço com ambos – cinco Mistérios com os filhos, outros dez individualmente, se possível, e o que for necessário para os Primeiros Sábados; e então, como Nossa Senhora poderia abandoná-los? Não é possível!

      Kyrie eleison.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Comentários Eleison DXV (515) - Defendendo o Matrimônio

Por Dom Richard N. Williamson
Tradução: Introibo ad Altare Dei

27 de maio de 2017

Quem um verdadeiro protesto tenta esmagar,
Desafia a Verdade, e melhor não se sairá.

Muitos de vocês já devem conhecer a Carta Aberta de sete sacerdotes superiores da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, Carta co-assinada por Superiores de outras três Congregações tradicionais, na qual todos os dez protestaram há três semanas contra a tentativa das autoridades romanas de interferir em matrimônios celebrados dentro da Tradição pelos sacerdotes da Fraternidade. Muito tipicamente, as autoridades da Fraternidade ficaram do lado da Roma Conciliar e estão em processo de punir seus sete sacerdotes “subversivos”. Mas a verdadeira subversão vem daquela Roma que subverte a família e o casamento cristãos, por exemplo, através da Amoris Laetitia. Os líderes da Fraternidade estão dando mais uma prova de sua cegueira suicida. Aqui está a essência da bem escrita Carta:

Dirigida aos fieis da Fraternidade para evitar que eles sejam confundidos pela interferência de Roma, a Carta Aberta começa estabelecendo que os matrimônios celebrados pela Fraternidade nos últimos 40 anos foram e são certamente válidos. Isso porque, para fortalecer os matrimônios, o Concílio de Trento decretou que deveriam ser testemunhados por um pároco ou por seu delegado para serem válidos. No entanto, se por 30 dias não é possível sem “grave inconveniência” encontrar um tal sacerdote, então o casal pode casar-se validamente diante de simples testemunhas leigas, o que se conhece como a forma extraordinária do matrimônio (Cânon 1098 do Antigo Código).

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Comentários Eleison CXI (511) - Deus Convoca

Por Dom Richard N. Williamson
Tradução: Introibo Ad Altare Dei
26 de abril de 2017

Deus é o Mestre da estrutura cósmica.
Os homens contorcem-se, o Céu enche-se da mesma forma.


O padre Jean-Michel Gleize, professor de Teologia no Seminário de Écône da Fraternidade São Pio X, escreveu dois artigos sobre problemas candentes de hoje que lançam uma interessante luz sobre as suas soluções. Em primeiro lugar, pode o Papa cair em heresia formal? Resposta: talvez, porque os Papas nem sempre foram tidos como isentos de erros, como tem sido sustentado nos últimos séculos. Em segundo lugar, o documento papal Amoris Laetitia mostra que o Papa Francisco caiu em heresia formal? Resposta: estritamente falando, não, mas, na verdade, pode-se afirmá-lo, porque o neomodernismo mina a doutrina enquanto finge sustentá-la. Esta segunda pergunta terá de esperar por outro número destes “Comentários”, pois se o Pe. Gleize não quis ser apanhado entre o sedevacantismo e o liberalismo, ele teve de abordar a primeira questão antes.

No primeiro e mais curto artigo, ele diz que a partir da “Reforma” Protestante, os teólogos católicos em geral, notadamente S. Roberto Belarmino, sustentaram que o Papa não pode cair na negação consciente e pertinaz do dogma da Igreja, isto é, em heresia formal. Eles citam Nosso Senhor dizendo a Pedro para confirmar seus irmãos na Fé (Lc XXII, 32), o que pressupõe que Pedro não pode perdê-la. E eles argumentam que nunca na História da Igreja um Papa caiu em heresia formal. Por outro lado, antes da revolução protestante, diz o Pe. Gleize, os teólogos católicos do século XII ao XVI geralmente julgaram que um Papa pode cair em heresia formal, e esta opinião tem continuado, embora com menos frequência, até os tempos modernos.

Comentários Eleison DX (510) - Predições Sobre a Igreja

Por Dom Richard N. Williamson
Tradução: Borboletas ao Luar
 
22 de abril de 2017


Tudo no horizonte da Igreja é obscuro, obscuro.
Mas não tenha dúvida - Deus salvará a barca de Pedro.

Como seria de esperar, tem havido não pequenas reações de leitores ao retrato da Fraternidade Sacerdotal São Pio X "declinando lentamente", como apresentado em dois números recentes destes "Comentários". A reação mostra que nem todos os católicos estão cegos ou sem pensar. Aqui estão dois leitores especulando, um sobre o futuro próximo da Fraternidade, o segundo sobre o futuro mais distante da Igreja. Eis o primeiro:

A desestabilização, a confusão e o abrandamento das mentes dos sacerdotes e leigos da Fraternidade, infelizmente continuarão, e para muitos se tornará ainda mais doloroso, porque a liderança atual da Fraternidade perseverará e continuará seguindo em frente com o jogo que estabeleceu com os semiconservadores. A consagração dos bispos "urgentemente necessários" (Dom Tissier) não será mencionada. E quando a eleição dos superiores da Fraternidade já não puder ser evitada no Capítulo Geral normalmente previsto para julho de 2018, os atuais líderes da Fraternidade farão tudo o que estiver ao seu alcance para assegurar que sua busca pelo reconhecimento por Roma continue ininterrupta.

Dependendo de quantas orações sejam feitas para o resgate da fortaleza da verdadeira Fé construída pelo Arcebispo Lefebvre, o Deus Todo-Poderoso pode intervir com um milagre para salvá-la, mas humanamente falando, dir-se-ia que a podridão se alastrou muito para que ela seja salva. Assim, o apostolado mundial da Fraternidade necessita urgentemente de alguns bispos novos e mais jovens, mas como eles podem ser escolhidos para servir a verdadeira Fé anticonciliar sem se indispor com os romanos conciliares que são os únicos que podem dar à Fraternidade o reconhecimento tão desesperadamente perseguido pelo Quartel General da Fraternidade em Menzingen? O Arcebispo Lefebvre disse em 1988 que essa perseguição seria a "Operação Suicídio" da Fraternidade, mas desde quando os liberais ao fazerem cruzada já recuaram? A cruzada pela sua Admirável Nova Ordem Mundial é sua verdadeira religião, esqueça o catolicismo.

O segundo leitor pressupõe que o suicídio da Fraternidade é um trato feito, e ele olha para o futuro da Fé sem a Fraternidade, mais de um ponto de vista divino.

O silêncio que vem de Écône sobre a 'regularização' no momento é ensurdecedor. Parece que o acordo é, na realidade, um "fato consumado". Nesse caso, podemos agora voltar a nossa atenção para o longo caminho de recuperação e cuidado que os Refugiados Católicos Tradicionais certamente precisarão. Uma restauração da ordem a partir do caos e um bote salva-vidas para agarrar, enquanto o navio de Roma que afunda suga os fracos na fé para o fundo do mar. A Fé está diminuindo ou simplesmente se purgando daqueles que têm sido infiéis? Deus nos ajude!

Quando pensamos no futuro da Igreja hoje, devemos ter em mente que a situação é tão dramática que tudo pode acontecer, ou seja, que ninguém sabe de nada, porque se a Fraternidade que tem atuado como uma boia para a Verdadeira Fé por 40 anos está realmente afundando, então o que ainda impede a Roma Conciliar de sugar os fracos na fé até o fundo do mar? Mas Deus é Deus, e Ele pode intervir a qualquer momento e de várias maneiras para interromper o caminho da Sua Igreja para a destruição. No entanto, o pessimismo humano deste leitor parece bem justificado neste momento.

Menos fácil de entender é seu otimismo pelo futuro de uma restauração da ordem e o lançamento de um bote salva-vidas, se os Papas permanecerem conciliares. Pois se há alguma lição a extrair da história da "Resistência" desde 2012, é a extrema dificuldade de fundar uma obra católica sem a aprovação do que pelo menos parece ser a Igreja oficial. A Verdade Católica é imensamente forte por si mesma, mas sem o apoio e a proteção da Autoridade Católica, que é a autoridade de Nosso Senhor, a Verdade permanece altamente vulnerável. Por exemplo, dentro de uma estrutura de autoridade um sacerdote pode facilmente submeter-se a uma proposição com a qual ele discorda, mas fora de qualquer estrutura, ele pode facilmente contestar a sabedoria da mais sábia das proposições.

Paciência. O problema é insolúvel. Oremos e esperemos que o Deus Todo-Poderoso nos atordoe com a Sua solução!


Kyrie eleison.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Comentários Eleison DIX (509) - Ressurreição Argumentada




Por Dom Richard N. Williamson
15 de abril de 2017


Jesus ressuscitou dos mortos? Como diz a Escritura,
Eu não preciso de fé para argumentar que Ele o fez.


Na véspera do Dia de Páscoa, lembremo-nos de quão razoável é acreditar em um acontecimento tão extraordinário como o de um ser humano falecido irrompendo da sepultura por trás de uma pedra normalmente pesada o suficiente para impedi-lo de sequer sonhar em fazer tal coisa. Vamos, em primeiro lugar, ao "Como" teológico da Ressurreição, e depois ao histórico "Se" aconteceu.

Para os católicos que pela dádiva da fé sobrenatural acreditam que na Encarnação da segunda Pessoa divina da Santíssima Trindade, em plena posse da completa Natureza divina, uniu a si mesma uma natureza humana completa, fazendo duas naturezas numa Pessoa divina, não é difícil entender como a Ressurreição ocorreu. Na Cruz, a Pessoa divina verdadeiramente morreu, não em Sua Natureza divina imortal, mas em sua natureza humana, capaz de morrer como qualquer outro homem mortal pela separação de sua alma humana de seu corpo humano. No entanto, embora estes dois em Jesus Cristo pudessem ser separados um do outro, nenhum deles foi separado da Pessoa divina, razão pela qual os católicos recitam em seu Credo que Ele (corpo e alma) "sofreu e morreu", e que Ele (o corpo) "foi sepultado", e que Ele (alma) "desceu aos Infernos” (não o Inferno dos condenados, mas o Limbo das almas boas mortas que esperavam a morte redentora de Cristo para abrir para elas as portas do Céu fechadas por Adão e Eva). Como tanto o corpo humano quanto a alma humana de Cristo permanecem cada um deles unidos à Pessoa divina, pode não ter sido fácil para essa Pessoa morrer a morte atroz na Cruz, mas foi fácil reunir Sua alma humana com Seu corpo humano no sepulcro, para que Sua natureza humana voltasse à vida. E nenhuma pedra na Terra poderia ter sido pesada o suficiente para impedi-lo de voar imediatamente para Sua Mãe para consolá-la.

Mas será que uma alma deve então possuir o dom sobrenatural da fé para aceitar a realidade da Ressurreição? Não necessariamente. Se uma mente descrente, mas reta, considerar os argumentos meramente naturais tirados da psicologia natural e da história humana, ela pode facilmente concluir que somente algum evento pelo menos tão sensacional como a Ressurreição pode explicar os fatos como os conhecemos (e que ninguém diga que a Ressurreição é tão doce, pegajosa e agradável que ninguém precisa de argumentos! Os homens necessitam de argumentos! Deus não colocou nossas cabeças no topo à toa!).

Em primeiro lugar, vejamos a psicologia humana argumentando a partir dos Apóstolos. Durante três anos eles aprenderam a crer, confiar e amar o Mestre divino. Então ele é executado em público como um criminoso comum, depois do que todos eles fugiram no Jardim do Getsêmani. E depois da Paixão eles estão totalmente desanimados (Jo. XX, 19), algo absolutamente normal naquelas circunstâncias. No entanto, dentro de 50 dias aqui eles estão de volta a Jerusalém, enfrentando os judeus e convertendo-os a crer em Jesus Cristo, milhares de uma vez (Atos II, 41, IV, 4). E dentro de mais 300 anos esses Apóstolos e seus sucessores terão convertido o próprio Império Romano. Esses são os fatos da história. O que poderia ter acontecido e que fosse inferior a algo tão sensacional como a Ressurreição para explicar tal transformação psicológica de cães chicoteados (por assim dizer) em conquistadores do mundo?

Em segundo lugar, vejamos a história humana argumentando a partir dos judeus. Eles odiaram a Cristo e mataram-no, e eles têm-se esforçado para destruir Sua Igreja desde então. No entanto, dentro de 50 dias aqui estão seus seguidores, ordenando-os a serem batizados em nome de Jesus Cristo, usando a Ressurreição como seu principal argumento. Não seria a melhor maneira de detê-los mostrar o corpo morto de Cristo? E podemos duvidar que, então, assim como agora, eles não tinham todo o dinheiro, a polícia e o poder à sua disposição para encontrar algum cadáver se ainda estivesse ali para ser encontrado? Mas a Cristandade, em vez de ser parada, decolou. A única explicação que pode ser dada é que não havia nenhum cadáver para ser encontrado. A Ressurreição é verdadeira. Não é preciso sequer ter uma fé sobrenatural para aceitá-la. Então, Pedro estava certo – Atos II, 38 –: "Façam penitência e sejam batizados em nome de Jesus Cristo".


Kyrie eleison.

Tradução: Borboletas ao Luar