domingo, 21 de fevereiro de 2016

Sobre as sagrações sem mandato pontifício realizadas por Dom Lefebvre, Dom Antonio de Castro Mayer, Dom Tissier e Dom Williamson

«A Questão da Consagração Episcopal sem Mandato do Papa


Prof. Doutor Rudolf Kaschewsky

1. A consagração de um bispo ocupa, na hierarquia das consagrações, o lugar mais importante; não há, com efeito, consagração para um cardeal ou Papa.

O bispo goza de dois poderes:
1) um poder de consagração;
2) um poder de jurisdição, que só pode exercer se estiver na posse de sua diocese.

2. Um bispo não tem autorização para conferir a ordenação episcopal a ninguém sem mandato do papa (cân. 1013, CIC 1917). Aquele que agir em contrário, incorre em excomunhão, “latae sentenciae”, reservada à Sé Apostólica (cân. 1382, CIC 1983). A excomunhão “latae sentenciae” entra em vigor com o próprio ato, sem portanto ser decretada. Em semelhante caso, o direito antigo ameaçava o infrator unicamente de suspensão (“ipso jure suspensi sunt, donec Sedes Apostolica eos dispensaverit”, cân. 2370, CIC 1917).

Foi somente em 9 de agosto de 1951, por um decreto do Santo Ofício, que a sanção de excomunhão (“ipso facto”), reservada à Santa Sé “specialissimo modo”, foi introduzida para a consagração ilegal dos bispos, e isso devido, sem dúvida nenhuma, à trágica evolução da Igreja na República Popular da China. Essa sanção foi mais tarde confirmada, em sequência das atitudes da seita de Palmar de Troya (Espanha).

3. Por outro lado, o direito canônico está longe de julgar as coisas unicamente segundo os aspectos exteriores. Seria, com efeito, contradizer a concepção jurídica corrente não ter em conta as circunstâncias particulares ou a disposição subjetiva da pessoa em causa.

No caso de uma consagração episcopal sem mandato do Papa, a ameaça de sanção correspondente aos termos do cân. 1382; trata-se realmente da sanção de um ato. Aqui se aplica, no entanto, o princípio: “A sanção de um ato não é executória se existe circunstância atenuante legalmente estabelecida.”

Tem de ser considerado especialmente o estabelecido nos cân. 1323 e 1324 (CIC 1983), aos quais corresponde o cân. 2205, 2 e 3 (CIC 1917), Trata-se de saber se um ato ameaçado de sanção existiu unicamente para evitar um grave inconveniente ou para suprir uma necessidade.

Citamos um extrato do cân. 1323, 3 (CIC 1983): “Não está sujeito a nenhuma pena aquele que, ao violar a lei, procedeu coagido por necessidade.” No mesmo sentido se exprime o velho Códex (cân. 2205, 2) (sobre as restrições mencionadas nos dois casos, veja o parágrafo 7, adiante).

4. Que se entende por “grave inconveniente” e por “necessidade”?
Citaremos o manual de direito eclesiástico de E. Eichmann (Kl. Morsdorf): “O grave inconveniente ou a necessidade é uma situação constrangedora tal, que, sem que haja falta, a pessoa molestada é física e moralmente obrigada a desrespeitar uma lei para afastar o perigo (Necessitas non habet legem). Pode tratar-se de uma ameaça relativa a bens espirituais, à vida, à liberdade ou a outros bens terrestres.”

5. Está estabelecido em geral – e não é seriamente posto em causa por ninguém – que, devido às orientações tomadas após o Concílio, pode verificar-se, no seio da Igreja, uma ameaça séria aos bens espirituais, no que respeita à formação de padres, à Fé, à Moral, às celebrações religiosas. A prova desta afirmação encontra-se em numerosas publicações, entre as quais, e principalmente, a nossa revista Una Voce-Korrespondenz.

O problema é saber se pode e como pode ser combatida essa ofensa aos bens espirituais. Ninguém pode negar que um meio (e não o único) de curar os males de que sofremos consiste no despertar das vocações sacerdotais e na formação de bons padres. Não é raro acontecer que jovens teólogos nos perguntem qual dos seminários diocesanos será mais recomendável, quer dizer, aquele onde a adaptação corruptora ao espírito do mundo ainda não tenha entrado, onde seja ensinada prioritariamente a verdadeira vocação religiosa, onde a adoração de Cristo no Santíssimo Sacramento do Altar seja o cerne da vida sacerdotal, onde a comunhão de joelhos e o uso da batina sejam naturais (isso para falar também dos sinais exteriores, que são sempre indício de disposição interior). E a resposta é: nenhum seminário atual.

6. Assim, a situação de grave inconveniente e de necessidade está suficiente, clara e indiscutivelmente estabelecida. Para ultrapassar essa situação verdadeiramente perigosa, são corretamente formados, fora dos seminários oficiais, candidatos ao sacerdócio, candidatos que, de outro modo, nunca seriam ordenados, quer dizer, não poderiam tornar-se padres.

Encontramo-nos assim numa situação de necessidade tal, que qualquer sanção está excluída. Só a consagração de um bispo que possa ordenar esses candidatos ao sacerdócio pode afastar o perigo descrito. Com efeito, não só estariam perdidos os estudos desses candidatos ao sacerdócio e a sua formação sacerdotal, mas os fiéis deles dependentes não se beneficiariam dos bens espirituais que poderiam receber. Porque os fiéis, por seu lado, também se encontram em situação de “perigo”.

Claro que seria exagero dizer que em nenhuma igreja oficial pós-conciliar se ministram os bens espirituais necessários à salvação das almas; mas a atual situação de desamparo lança os fiéis na incerteza de saber se determinada catequese ou determinado serviço religioso que lhes propõem ainda são verdadeiramente católicos ou não.

Observadores moderados e objetivos da atual situação da Igreja confessam igualmente que, em determinados lugares, a verdadeira intenção do padre, absolutamente indispensável à validade de um sacramento, é duvidosa ou está claramente ausente.

7. No cân. 2205, 2 (XIX 1917), a ameaça de sanção nessas circunstâncias (estado de perigo, situação de perigo) só é levantada quando se trata de lei puramente eclesiástica e não de direito divino. Essa restrição não se encontra no novo Código (1983), e como os que querem falar de direito nessas circunstâncias se servirão, sem dúvida nenhuma, do novo CIC, a restrição mencionada não será considerada critério de julgamento, ainda que quem procedesse à ordenação de um bispo sem mandado a isso se sentisse ligado.

[Nota: É de direito divino que o poder de instituir bispos pertence ao Sumo Pontífice. Porém Cajetano faz notar, no seu De Romani Pontifici Institutione (cap. XIII, ad 6), que importa distinguir entre o poder do Sumo Pontífice e o exercício desse poder, dujo modo pode variar no decorrer dos tempos. As instituições dos bispos feitas durante a vacância da Santa Sé, e consideradas válidas, explicam-se dessa forma. O modo foi fixado por Pio XII para o exercício do poder pontificial é regido pelas leis do direito canônico, e, portanto, aqui se aplicam as normas do direito, explicadas nesse estudo.]

8. Outra restrição: Apenas situações de necessidade de caráter acidental livram da sanção, quer dizer: inconvenientes que estão normalmente relacionados com o cumprimento de certas leis devem ser aceitos e não autorizam a transgredir a lei. Esta restrição não se aplica aqui em nosso desfavor, precisamente porque não é habitual (é acidental) e não natural em sumo grau que o respeito da lei em causa – abster-se de consagrar bispos sem mandato do Papa – provoque uma situação de perigo. O fato de a salvação das almas ser posta em perigo por causa de abstenção da referida consagração de bispos não constitui (em todo o caso, na natureza das coisas) uma situação de perigo ligada ao cumprimento da lei, mas caracteriza a anormal situação atual.

9. Outra restrição consiste no fato de a ação ameaçada de sanção ter sido efetuada para afastar uma situação perigosa. Ela não é, no entanto, isenta de sanção se for intrinsecamente má ou redunde em dano das almas (cân. 1324, 1, no. 5). No antigo direito, os limites da dispensa da sanção eram ainda mais reduzidos (cân. 2205, 2); a ação que levasse ao desprezo da Fé ou da hierarquia era, em todo o caso, condenada.

O problema é saber se uma ordenação episcopal sem mandado do Papa é uma ação má em si (“intrinsece malum”) e redunda em dano das almas. Isso vai, indiscutivelmente, para além do direito da Igreja e, pelo menos, escapa ao juízo puramente jurídico, e é precisamente aí que as opiniões divergem. Uns falam de um enorme dano das almas, por causa do perigo de cisma; outros, de uma ação inelutavelmente necessária à salvação das almas.

10. No entanto, não é preciso dar resposta a esse problema, porque o cân. 1324, 3 (CIC 1983) constata de modo lapidar: nas circunstâncias descritas no parágrafo 1, o contraventor não incorre em sanção. Por outras palavras, isso significa: ainda que pretendessem que a ordenação episcopal sem mandato do Papa constituísse automaticamente, em qualquer caso, uma ação punível por si mesma, ou que redunda em dano das almas, ficaria, de qualquer maneira, livre de toda a sanção imediata, dada a situação de perigo descrita.

Daí que, com base na situação de perigo indiscutível (cân. 1323, no. 4; 1324, 1, no. 5 e 1324, 3), a ameaça de excomunhão prevista no cân. 1382, para o autor de uma consagração episcopal não autorizada, não se aplica.

11. Ainda que quisessem pôr em dúvida a situação de perigo como foi descrita, convinha verificar o seguinte:

Ninguém pode negar que um bispo, nas circunstâncias acima referidas consagre outro, considera, pelo menos subjetivamente, que existe uma situação de necessidade que redunda em dano das almas. Daí conclui-se que não se pode falar de violação premeditada da lei, porque quem vai contra a lei, acreditando, mesmo sem razão, na justa razão da sua ação, não age de forma premeditada. O novo direito da Igreja exprime-se ainda com maior clareza:

a) Não está sujeito a nenhuma pena aquele que, ao violar a lei ou o preceito, julgou, sem culpa, existir alguma das circunstâncias descritas nos nos. 4 ou 5 do cân. 1323, 7.
b) O autor de uma violação não está isento de punição, mas a pena prevista pela lei ou preceito deve ser atenuada, ou substituída, por uma penitência, se o delito foi cometido por quem, por um erro mas com culpa, julgou existir alguma das circunstâncias referidas no cân. 1323, 4 e 5 (cân. 1324, 1, no. 8).

Mas, ainda que alguém quisesse dizer que ele tinha interpretado a situação de perigo (na realidade inexistente) de maneira punível, isso implicaria que:

1) a excomunhão não se poderia fazer como mencionado no cân. 1382;
2) por outro lado, uma eventual pena que um juiz pudesse aplicar deveria, de qualquer maneira, ser mais clemente do que previsto pela lei, de forma que, também neste caso, a excomunhão não seria de considerar.

Em resumo:

A) Devido à existência de uma real situação de perigo, aquele que ordenasse um bispo sem o fazer em nome do Papa não seria passível de sanção nas circunstâncias descritas.
B) De igual modo, se a situação de perigo não existisse de maneira objetiva, o contraventor ficaria isento de qualquer sanção, dado que teria considerado subjetivamente, e de maneira não culpável, que o perigo de fato existia (cân. 1324, 1, no. 5).
C) Também é preciso dizer que, mesmo havendo suposição errada e punível da existência de um perigo, tal não implicaria, no entanto, sanção e, menos ainda, excomunhão (cân. 1324, 1, no. 8, 3).

RESULTADO

A opinião muitas vezes formulada de que a ordenação de um ou vários bispos sem mandato pontificial implicaria automaticamente a excomunhão e conduziria ao cisma é falsa. Tendo em conta os próprios termos da lei, uma excomunhão no caso de que tratamos não pode ser aplicada, nem ipso facto nem por decisão de um juiz.


BIBLIOGRAFIA
CIC 1917: Codex Iuris Canonici Pii X Pontificis Maximi, Typis Polyglottis Vaticanis, MCMLVI (Estado do Vaticano, 1956).
CIC 1917: Codex Iuris Canonici. Codex des kanonischen Rechtes. Lateinisch-deutsche Ausgabe. Verlag Butzon & Becker Kevelaer, 2. verb. U. vermehrte Aufl., 1984.
Eichmann-Morsdorf, Lehrbuch des Kirchenrechts, I. Band, Paderborn, 8. Aufl., 1953, p. 396.
“Osservatore Romano”, Deutsche Wochenausgabe, I. Oktober 1975, p. 3.
J. Listl, H. Muller, H. Schimtz, Handbuch des Katolischen Kircherechts, Regensburg, 1983, p. 931 f.
III. Band, Prozess-und Strafrecht, Paderborn, 10. Aufl. 1962, p. 314.

“Una Voce-korrespondenz”, 18/2, Marz-April 1988.»



FLEICHMAN, Dom Lourenço OSB. Tradição versus Vaticano - Dossiê completo das negociações entre Mgr. Lefebvre e o Vaticano - 1988-2001. Niterói: Editora Permanência, 2001, pp. 46-51.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Comentários Eleison CDXLIX (449) - Bispos

Tradução: Andrea Patrícia (blog Borboletas ao Luar)


De modo nenhum o perigo na FSSPX deixou de haver.
Os bispos resistentes devem cumprir com seu dever!

Desde o Capítulo Geral de julho de 2012, quando sob a direção de Dom Fellay a Fraternidade Sacerdotal São Pio X deu uma guinada decisiva em direção a um acordo de compromisso com a Roma Conciliar, os católicos da Tradição se perguntam onde estavam os dois outros bispos da FSSPX, Dom Tissier de Mallerais (BpT) e Dom de Galarreta (BpG), porque ambos têm sido bastante discretos desde então. Entretanto, as firmes palavras que foram ditas por cada um no mês passado suscitaram esperanças para o futuro da FSSPX. As esperanças estão justificadas? Os católicos precisam permanecer em guarda...

O sermão de Crisma feito por BpT em 31 de janeiro, em Saarbrücken, na Alemanha, não poderia ter sido mais sincero nem claro. Por exemplo: No embate da FSSPX com Roma, nunca poderá haver compromisso ou jogo duplo. Nunca poderemos negociar com Roma enquanto os representantes da Neoigreja (sic) estiverem agarrados aos erros do Vaticano II. Qualquer conversa prolongada com Roma deve ser sem ambiguidades, e ter como objetivo a conversão dos representantes da Neoigreja para nossa una e única verdade da Tradição Católica. Nada de compromisso nem jogo duplo até que eles tenham superado seus erros conciliares e se convertido de volta à Verdade.

Palavras admiráveis! Sinceridade não é o problema de BpT. Ele não é nada político. Deus o abençoe. Seu problema é que, quando tem de passar das palavras à ação, seu “Cinquentismo” o faz obedecer a seu Superior e se alinhar aos políticos do Quartel-General da FSSPX em Menzingen. Nada indica que isto não acontecerá de novo, mas devemos sempre rezar para que ele finalmente comece a reagir devidamente. BpT está escondendo-se de si mesmo, ou de fato não está conseguindo ver a completa malícia da ação de Menzingen. Não estão em jogo somente a unidade e o bem-estar da FSSPX, mas a Fé Católica.

BpG, pelo contrário, é um político. Infelizmente, não temos o texto completo da conferência que ele deu em Bailly, na França, em 17 de janeiro, porque suas exatas palavras são importantes, de modo que só podemos citá-lo a partir de um resumo de seus pensamentos principais: “as últimas propostas teológicas e canônicas de Roma para um acordo Roma-FSSPX continuam inaceitáveis, mas o Papa certamente quer um acordo, e ele é perfeitamente capaz de passar por cima de seus oficiais e impor um reconhecimento “unilateral” da FSSPX. Tal reconhecimento poderia definitivamente prejudicar a FSSPX internamente, mas se a FSSPX não tiver feito nada para obtê-lo, então não há nada que ela possa fazer para impedi-lo. Entretanto, a Providência olharia uma vez mais para o trabalho do Arcebispo”.

Mas, Vossa Excelência, Menzingen já há muitos anos tem feito tudo o que pode por meio de negociações políticas para chegar ao reconhecimento oficial por Roma, e o eventual estabelecimento “unilateral” desse acordo seria um mero pretexto para enganar os tradicionalistas, de modo a vender a FSSPX sob a máscara da queixa de ter sido tudo culpa de Roma – sem dúvida com a permissão de Roma por trás dos bastidores. Mas persistirá o fato de que a Fraternidade de Dom Lefebvre será finalmente traída, e você com seu próprio “Não, não, mil vezes não... mas, possivelmente, sim” terá de responder por não ter feito tudo o que poderia e deveria para bloquear a traição dela.

Em resumo, aquele sistema de iluminação de emergência da Igreja Universal na treva conciliar, que é a FSSPX, está ele mesmo oscilando e correndo o risco de nunca mais dar luz. Assim, a equipe de reparo para sustentar a iluminação de emergência, que é a “Resistência”, ainda é necessária, e esse time necessita de um número suficiente de bons superintendentes. Um terceiro bispo para a “Resistência” está previsto, como no ano passado, para o dia 19 de março, no Mosteiro em Nova Friburgo, no Brasil. Ele é seu prior, Dom Tomás de Aquino, fiel guerreiro e veterano da guerra pós-conciliar pela fé. Que Deus esteja com ele, e com todos os humildes e fiéis servos de Deus.

Kyrie eleison.

É verdade que a autodenominada ‘Igreja Ortodoxa' não está 'tão' distante da Igreja Católica? - I

O QUE FOI O CISMA DE BIZÂNCIO (CONSTANTINOPLA)

Por Leão Indômito

Constantinopla foi fundada pelo Imperador Constantino, o Grande, o que deu liberdade aos cristãos, no ano 313, e transferiu o poder imperial para o Oriente, fundando então Constantinopla.

O título de Patriarca era dado apenas aos Bispos de cidades que haviam recebido a pregação de um Apóstolo.

Assim eram reconhecidos como Patriarcas o Bispo de Alexandria , onde pregara o evangelista São Marcos. O Bispo de Jerusalém, onde fora Bispo o Apóstolo São Tiago. O bispo de Antioquia, cidade em que viveu e foi Bipo São Pedro. E , finalmente, Roma , que teve o mesmo São Pedro como seu primeiro Bispo.

É claro que Constantinopla, por ter sido fundada apenas no século IV, não poderia ter, normalmente, o título de Patriarca, pois nenhum Apóstolo pregara nessa cidade, que ainda não existia nos tempos apostólicos.

Entretanto, por ser a capital do Império do Oriente, os Arcebispos de Constantinopla reivindicavam essa honra, que Roma afinal lhe concedeu, a título honorário.

Cedo, alguns Patriarcas orientais, especialmente o de Constantinopla, reivindicaram uma paridade com o Papa, querendo que a Igreja não fosse uma monarquia, e sim uma Pentarquia. ( Erro que está, hoje, em voga entre alguns orientais...).

Pretendia-se que o Papa fosse apenas um chefe honorífico da Igreja, um "primus inter pares", um superior em honra, entre os Patriarcas, que seriam iguais em direito.

Ora, isto vai contra o Evangelho, que mostra Cristo ter fundado a Igreja sobre Pedro apenas. Cristo fez a Igreja monárquica e não pentárquica.

No século IX, o Arcebispo de Constantinopla , Fócio, se rebelou contra o Papa São Nicolau I, que excomungou esse rebelde em 863.

Como resposta, Fócio se autoproclamou Patriarca Ecumênico de Constantinopla e "excomungou" o Papa São Nicolau I. Com a subida ao poder em Constantinopla do Imperador Basílio, o Macedônico, Fócio perdeu o poder que tinha.

A questão entre Roma e Constantinopla foi ainda mais envenenada pelo problema da processão do Espírito Santo, que os Orientais dizem proceder apenas do Pai, enquanto a Igreja ensina que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.

Fócio retomou o poder em Constantinopla, mesmo depois de sua solene condenação, no ano 870. De novo, o Papa João VIII renovou a condenação de Fócio. Com o advento ao trono do Imperador Leão, o Filósofo, Fócio é expulso pela segunda vez de Constantinopla, terminando o cisma, pouco depois.

No século XI, Miguel Cerulário, Patriarca de Constantinopla causou a separação definitiva da Igreja do Oriente separando-a da obediência ao Papa, no tempo do Papa Leão IX. Miguel Cerulário foi excomungado pelo Papa em 1054.

Desde esse tempo, os orientais estão separados de Roma, portanto em cisma. A esse mal, vieram se acrescentar a negação dos dogmas proclamados pela Igreja, após a separação do Oriente. Os Orientais possuem sucessão apostólica, isto é, seus Bispos são legítimos, assim como os seus sacerdotes. Em consequência, seus sacramentos são válidos, embora ilicitamente administrados por causa de sua separação de Roma.


(Na imagem, Fócio, autoproclamado "Patriarca Ecumênico de Constantinopla")

[CONTINUA]

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Em defesa de Dom Williamson - II

Os ataques a Dom Williamson se baseiam em seus escritos e em suas palavras. Examinemos alguns escritos. Seus críticos mais tenazes alegam que é preciso ver o conjunto e concluir pela heterodoxia de Dom Williamson. Se eu fosse comentar cada acusação, uma por uma, isto tomaria um tempo do qual não disponho. Examino aqui apenas uma ideia de Dom Williamson.

Ele diz no Eleison 437 que as “ovelhas” dominadas pelo mundanismo moderno perderam, como punição, o verdadeiro rito da Missa; mas, nem sempre, perderam a missa válida e isto “em recompensa a seu desejo da missa”.

Deve-se daí concluir que a Missa Nova é boa? Não, de modo algum. Mas se deve concluir que Dom Williamson disse que a Missa Nova é boa? Não, de modo algum. Mas então não se deve concluir que há algo de bom na Nova Missa? Sim: Nosso Senhor presente na hóstia consagrada e a renovação incruenta do sacrifício do Calvário quando ela é válida. Mas isto não é absurdo? De modo algum. Mas falando disso não se está induzindo os fiéis a assistirem a Missa Nova? Não. Mas dizendo que alguns, por desejo da missa, não foram privados de uma missa válida, não se está dizendo um absurdo? Também não. Pessoas como Gustavo Corção e quase todos os membros da Permanência no Brasil e da “Cité Catholique” na França assistiam ou assistiram a Missa Nova no início dos anos 70 e a maior parte dos membros da Resistência no Brasil já fizeram o mesmo antes de conhecerem a Tradição. Podemos pensar que, entre tantas pessoas, alguns tenham feito comunhões bem feitas e tenham tirado proveito destas comunhões caso tenham assistido missas válidas ainda que fossem no Novus Ordo. Dom Lefebvre e Dom Antônio nunca negaram esta possibilidade. Penso que Gustavo Corção, meus pais e irmãos, a família Fleischman e tantas outras receberam alguma graça destas comunhões. Mas isto é uma heresia, dirão alguns, ou, ao menos, uma mudança de discurso. Não creio. Isto é um aspecto da confusão na qual vivemos. Isto sim; “As verdades estão diminuídas entre os filhos dos homens” diz o Salmo (11,2).

                Felizes os que receberam a graça de compreender a questão da missa. Corção compreendeu sua malignidade desde o início, mas que não devia assisti-la, ele só o compreendeu depois. Ele levou cerca de quatro anos para tomar a decisão de não ir mais a essa missa. Ele só a tomou depois que Jean Madiran veio da França para lhe falar do assunto, pelo que me lembro ter ouvido. Era Corção um herege? Não. Um mal católico? Também não. Tirou ele algum fruto de suas comunhões diárias (ele ia à Missa todos os dias) na Nova Missa? Creio que sim. Era uma recompensa pelo seu desejo de ter uma missa válida para assistir? É difícil responder. Talvez fosse. Mas ele entendeu que não devia ir pois este rito conduz à heresia e é um mau exemplo ir à Missa Nova. Então ele não foi mais. O Rio de Janeiro acabou tendo a Missa de Sempre, codificada por São Pio V.

                Que concluir disso? Eu concluo que não há porque lançar D. Williamson (e Corção igualmente) na fogueira. Nem um nem outro são hereges. Um demorou a entender que não devia ir à Missa Nova e outro procurou dar uma explicação para este fato. Tanto um como outro me parecem igualmente católicos e igualmente antiliberais pois ambos condenaram a Missa Nova e defenderam a Missa de Sempre.

ir. Tomás de Aquino, OSB

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Comentários Eleison CDXLVIII (448) - Animal Escorregadio

Por Dom Richard Williamson
Tradução: Andrea Patrícia (blog Borboletas ao Luar)

A gente de hoje não é sensata ou normal.
Toda a história mostra que não há veneno igual.

“O modernismo é necessariamente, por sua natureza, um animal singularmente escorregadio”. Sendo ele o atual inimigo mortal da Igreja Católica, nunca pode ser analisado suficientemente. Como inimigo da Igreja em particular, pode ser definido como um movimento de pensamento e de crença que sustenta que a Igreja deve se adaptar ao mundo moderno, por meio da manutenção das aparências do catolicismo concomitantemente à mudança de sua substância. Este movimento infectou um sem-número de católicos desde que ganhou aprovação oficial da mais alta hierarquia da Igreja no Vaticano II, e colocou muitos cardeais, bispos e padres no caminho da eterna perdição, para não mencionarmos os leigos, ao minar sua fé católica. Vejamos novamente porque é escorregadio, e singularmente escorregadio.

É um animal escorregadio porque, como todas as heresias, tem de se disfarçar a fim de parecer aceitável para o seu alvo, os crentes católicos. Deste modo, usa constantemente fórmulas ambíguas de palavras capazes de serem interpretadas num sentido católico ou anticatólico. Os católicos aceitam piedosamente o sentido católico e engolem as palavras, de modo que os modernistas só têm de transformá-las em veneno explorando o sentido anticatólico. O Vaticano II é ambíguo do início ao fim, escolhendo fórmulas que podem deslizar entre a Igreja e o mundo moderno, de modo a ocultar a intrínseca e mútua contradição entre estes dois. Para Paulo VI, que acreditava profundamente em ambos, a Igreja e o mundo (como os concebia), tais fórmulas surgiam instintiva e abundantemente. Os documentos de seu Concílio, o Vaticano II, estão impregnados de ambiguidade. Contudo, por estas ambiguidades Paulo VI realmente pensava que salvaria a ambos, a Igreja e o mundo, exatamente como Monsenhor Fellay hoje espera, falando pelos dois lados de sua boca, salvar a Tradição católica e o Concílio. Vã esperança! Deus “detesta a língua dupla” (Pr. VIII,13). Ela sempre serviu para enganar os católicos e fazê-los abandonar sua fé.

Mas, mais que simplesmente escorregadio, o modernismo é, entre todas as heresias, singularmente escorregadio, porque, como Pio X disse na “Pascendi”, é a heresia das heresias, como o esgoto principal que coleta em si toda a imundície dos encanamentos menores, ou heresias particulares. Isto porque é o produto (e produtor) de mentes que fixaram sua âncora em qualquer verdade, de modo que qualquer contraverdade, ou heresia, está em casa no modernismo. E isto porque seu princípio fundamental é filosófico, a suposta inabilidade da mente humana de conhecer qualquer coisa que esteja além do que aparece aos cinco sentidos externos do homem. Tal mente é como uma garrafa de vinho suja. Ela conspurca qualquer coisa que se despeja nela, mesmo o mais fino dos vinhos ou a mais sublime das verdades. Porque, enquanto qualquer outra heresia ataca uma verdade particular da Fé, o erro filosófico na raiz do modernismo mina a verdade universal, ainda que finja não estar atacando nenhuma verdade em particular. Por exemplo, Bento XVI sem dúvida ficaria horrorizado se fosse acusado de não acreditar em qualquer artigo do Credo, mas isto não o impede de estar pronto para “atualizar” a todos eles.

Nunca tantas mentes desviaram todas as âncoras da verdade objetiva como hoje, sendo tal desvio a libertação final do homem, por meio da qual a realidade não pode mais se impor a mim, senão que eu sim é que posso me impor a toda realidade. Tomei o lugar de Deus. Assim, muitos católicos foram infectados pelo mundo de hoje e deram as boas-vindas ao modernismo quando ele reapareceu no Vaticano II, porque lá estava o próprio Papa dando o aparente selo de aprovação católica à destruição de toda Verdade Católica [que eles promoviam]. Eram livres, e ainda católicos, gritando: liberdade através da Igreja!

Então, como lidar com este “animal singularmente escorregadio?” Certamente não é indo à Roma para misturar-se com suas principais vítimas e perpetradores, os atuais oficiais no topo da Igreja. O próprio Satanás pode não ter uma colher longa o suficiente para cear com segurança com estes (objetivos) tubarões, lobos e raposas, tanto mais perigosos por causa de seu possível (subjetivo) desconhecimento de sua própria condição. Rezem o Rosário para que Nossa Senhora construa ao redor das cabeças e dos corações de vocês sua própria armadura protetora.

Kyrie eleison.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Excerto do sermão do Rev. Pe. René Trincado, do XII Domingo após Pentecostes

11 de agosto de 2013


Permitam-me aqui um parêntesis. Cuidado com o qualificativo de “modernistas”. Não olhemos com desdém ao restante dos católicos, aos que chamamos secamente de modernistas, pois, em sua imensa maioria, são vítimas dos salteadores que os despojam da verdadeira fé. Cuidado, porque esses, muitas vezes, muitíssimas, são isso: vítimas, não vitimadores. Não são os assaltantes da parábola, senão o homem assaltado. Pensemos, por exemplo, no imenso bem espiritual que, em sua grande simplicidade, com suas fervorosas orações fazem essas anciãs “modernistas”, verdadeiras devotas do Rosário, assíduas nas paróquias; pensemos nessas monjas “modernistas” de clausura que, apesar da Missa Nova e das más pregações, vivem inteiramente crucificadas por causa de sua caridade ardentíssima. Pensemos nesses sacerdotes e leigos que se esforçam sinceramente para alcançar a santidade, apesar de ter de respirar cada dia a fumaça liberal que entrou no templo através do buraco escavado desde dentro por uma hierarquia de traidores. Cuidado com o desprezo pelo próximo: não nos vá a suceder que estejamos fazendo às vezes a oração do fariseu: graças te dou, Senhor, porque não sou como os demais homens, nem como esses estúpidos e ignorantes modernistas das paróquias. Cuidado: pior que ser herege material modernista é ser um orgulhoso tradicionalista, porque Deus resiste aos soberbos e dá sua graça aos humildes (1Pd V, 5). Cuidado com a soberba. O orgulho farisaico é a grande tentação dos tradicionalistas. Os fariseus foram os descendentes dos assideus, esses mártires e heróis tradicionalistas que combateram às ordens dos Macabeus. Cuidado com a soberba. A esses que parecem viver de diatribes e discussões, teríamos de lhes perguntar o que é mais importante: se ter razão ou ter caridade. Se os tradicionalistas temos a verdade, é por um presente, uma graça de Deus. Mas a luz da fé verdadeira é para iluminar os homens em ordem à salvação eterna, não para querer deslumbrá-los fazendo gabo de conhecimentos, nem para esmagá-los.


Estimados fiéis: Deus nos faça caridosos e humildes. Certamente, os tradicionalistas devemos ser o bom samaritano especialmente para com todas as pobres ovelhas assaltadas e feridas por esses ministros do diabo que lhes dão a beber o veneno liberal e modernista. Estes últimos se comportam como os ladrões da parábola, de modo muito mais criminoso que o Sacerdote e o levita, que pecaram somente por omissão. Estes ladrões são a Hierarquia liberal que objetivamente despoja e assassina às almas desde essa verdadeira emboscada que foi o Vaticano II. Com estes envenenadores de almas não cabe buscar cooperação nem concórdia alguma, nem menos aceitar a possibilidade de se submeter um dia ao seu poder destruidor. Se o samaritano houvesse pretendido pôr-se às ordens dos ladrões, não teria feito com isso um ato de caridade, senão a maior insensatez imaginável. E teria terminado roubando o assaltado e o deixado mais ferido também. A primeira caridade é a verdade. No caso dos tradicionalistas, a primeira caridade está em conservar a salvo o alimento saudável das almas, o tesouro divino da fé católica, a Verdade, essa Verdade que um dia voltará a resplandecer na Igreja porque as portas do inferno não prevalecerão (Mt XVI, 18).


Que pela intercessão da Santíssima Virgem, Deus nos conceda a humilde caridade fraterna.


Rev. Pe. René Trincado
Sociedade dos Apóstolos de Jesus e Maria (SAJM)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A salvação não veio somente para um povo - Santo Agostinho

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” (Jo. XIV, 6)
Essa senda universal de que tanto tempo antes se profetizou:
“E acontecerá nos últimos dias que o monte da casa do Senhor terá os seus fundamentos no cume dos montes, e se elevará sobre os outeiros, e concorrerão a ele todas as gentes. E irão muitos povos, e dirão: Vinde, e subamos ao monte do Senhor, e à casa do Deus de Jacó, e ele nos ensinará os seus caminhos, e nós andaremos pelas suas veredas, porque de Sião sairá a lei, e de Jerusalém a palavra do Senhor.” (Is. II, 2-3).
Essa a senda, que não é de uma nação apenas, mas de todas as nações. E a lei e a palavra do Senhor não permanecerão em Sião e em Jerusalém, mas dali sairão para expandir-se por todo o orbe. Por isso o Mediador disse a seus discípulos, hesitantes depois da ressurreição:

“Era necessário que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés e nos profetas e nos salmos. Então abriu-lhes o entendimento, para compreenderem as Escrituras; e disse-lhes: Assim está escrito, e assim era necessário que o Cristo padecesse e ressuscitasse dos mortos ao terceiro dia; e que em seu nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém.” (Lc. XXIV, 44-47).


Santo Agostinho, “A Cidade de Deus”, Livro X, cap. XXXII, “O caminho universal para a liberação da alma. Por não saber buscá-lo, Porfírio não deu com ele. Somente a graça cristã o descobriu”.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Comentários Eleison CDXLVII (447) - Hospedeiro e Parasita II

De uma mãe leprosa alguns filhos desertarão,
Outros que não forem alertados, demasiadamente se aproximarão.

Há duas semanas, estes “Comentários” voltaram a pisar em campo minado e defenderam a posição de que ainda existe algo de católico no que se tornou a Igreja Católica desde o Vaticano II. Esta posição é altamente disputada. Por exemplo, de um lado os atuais líderes da Fraternidade Sacerdotal São Pio X agem como se a Igreja oficial em Roma fosse ainda tão católica que a FSSPX não pudesse atuar sem seu reconhecimento oficial. Do outro lado, muitas almas que realmente possuem a fé católica repudiam absolutamente a ideia de que ainda resta algo de católico na “Igreja”, agora comandada pelo “Papa” Francisco. O que segue é somente uma tentativa de discernir que verdade pode estar em ambos os lados.

No coração do problema está o modernismo, que foi a doença essencial do Vaticano II. O modernismo é necessariamente, por sua natureza, um animal singularmente escorregadio. Isto porque seu princípio básico é adaptar o catolicismo ao mundo moderno intrinsecamente anticatólico. Assim, Papas conciliares como “Paulo VI” e “Bento XVI” queriam romper e não romper com a Tradição Católica. Para qualquer mente sã isto é impossível porque é contraditório. Mas, dado que estes papas foram eleitos para corresponder ao mundo moderno, eles já não têm mentes sãs. Ao contrário, possuem a contradição da realidade em sua corrente sanguínea. E dado que tiveram aproximadamente 50 anos para conformar a Igreja à sua insanidade, de cima para baixo, uma Igreja tão diferente emergiu a partir da Igreja pré-conciliar, que ela realmente merece o nome de Neoigreja.

Mais ainda, mesmo onde uma prática pré-conciliar é mantida na Neoigreja atual, por exemplo, a Benção do Santíssimo Sacramento, o fundamento mental que descansa nas cabeças daqueles que assistem é passível de ser qualquer coisa que não sólido, porque a doutrina da Real Presença é agora tanto tradicional como não tradicional, já que a consagração é realizada por sacerdotes atualizados, que são ambos, sacerdotes e não sacerdotes. São sacerdotes se você quiser, mas também, ao mesmo tempo, meros presidentes se você quiser. O que quer que você sinta como tal é o que se considera verdadeiro, porque a mente está desenganchada da realidade objetiva. Está nadando em sentimentos agradáveis e subjetivos, e está inconsciente do que está fazendo porque (quase) todos o fazem. Para qualquer um que tem a Fé real, tal carência de objetividade está longe de ser agradável: é nauseante. Não é de estranhar que tais almas possam repudiar a totalidade da Neoigreja.

Mas se alguém respeita a realidade, está obrigado a admitir que ainda há fé na Neoigreja. Um leigo disse-me que seu pai tem ido fielmente ao NOM pelos últimos 45 anos, e ele ainda mantém a fé. Um padre me contou que se lembrava de uma leiga apresentando ao próprio Arcebispo Lefebvre suas razões sobre a necessidade que tinha de assistir ao NOM, e ele só encolheu os ombros. E eu poderia multiplicar esses testemunhos que chegaram a mim sobre a fé católica sobrevivendo a ataques de tudo o que é errado no NOM. A razão para tais testemunhos serem reais deveria ser óbvia. 

Como uma parte essencial da religião subjetiva e ambígua, o NOM pode ser o que você faz dele. Um padre pode celebrá-lo “decentemente”, um católico pode assisti-lo “devotamente”. As aspas são para aplacar os linha-duras que insistirão que com o NOM não pode haver nem verdadeira decência nem verdadeira devoção. Mas quando eles dizem tais coisas, penso que estão indo contra a realidade. Graças a Deus, Deus é juiz! Não há dúvida que o NOM, como se apresenta, está constantemente minando e erodindo a decência e a devoção católicas, mas dizer que não restou absolutamente nada disso na “Neoigreja” parece-se ser um grave exagero.

Não é que os líderes da FSSPX estão certos em querer ser reincorporados à Neoigreja. Longe disso. Quaisquer ovelhas ali dentro que ainda não estejam infectadas pelo subjetivismo, estão abertas ao terrível perigo. Nem os pastores estão imunes. Ai dos bispos que falharam em manter o subjetivismo fora da Igreja católica! Estes carregam uma responsabilidade tremenda.

Kyrie eleison.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Da seita neomodernista que ocupa a Igreja Católica


Cinquenta anos depois do Concílio Vaticano II e da reação do movimento tradicionalista na subsequente crise da Igreja, podem-se distinguir três tendências divergentes sobre a relação a ter entre a Igreja Católica e a Igreja oficial. Quer dizer, entre o corpo místico de Nosso Senhor Jesus Cristo e os clérigos e fiéis unidos à hierarquia e às reformas pós-conciliares.

Para uns, são duas igrejas substancialmente distintas, absolutamente separadas, e não se pode pertencer às duas ao mesmo tempo. Estas duas igrejas tem uma fé diferente, ritos diferentes, uma legislação diferente. A lógica os leva também a já não rezar publicamente pelo papa atualmente reinante, porque ele é papa de outra Igreja, que não é – ou já não é – católica.

Para outros, ao contrário, a Igreja oficial, hierárquica, romana, conciliar não é uma Igreja à parte, mas sim a Igreja Católica real, una, a verdadeira, a visível, a Igreja de hoje, e é inadmissível fazer uma distinção real entre a Igreja conciliar, oficial, e a Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo. A lógica levará também a procurar a pertença oficial, visivelmente, canonicamente, a esta hierarquia, para bem assegurar a pertença à única Igreja, católica e apostólica.

Estas duas concepções, durante já cerca de meio século de debates entre tradicionalistas, dividiu-os e levou-os a formar duas pontas extremas, conhecidas comumente por “sedevacantistas” e “acordistas”. Nossa análise pode parecer sumária, mas a experiência o tem provado: quando um tradicionalista, clérigo ou leigo, já não faz a distinção entre a Igreja oficial e a Igreja católica, ele acaba um dia ou outro se colocando a serviço da primeira, e assim abandona o combate da fé exigido pela segunda nestes tempos de clara e geral apostasia.

Na verdade, o problema é mal colocado, e permanece um dilema entre dois termos de uma alternativa. Pois há uma distinção a fazer entre a Igreja oficial e a Igreja Católica, e ela foi feita por todos os nossos antigos combatentes da fé depois do concílio. Basta que refresquemos a memória e nos lembremos de fórmulas bem conhecidas: “A Igreja ocupada”, “Roma ocupada”.

A Igreja conciliar e neomodernista não é portanto nem uma Igreja substancialmente diferente da Igreja Católica nem absolutamente idêntica; ela tem misteriosamente algo de um e de outra: é um corpo estranho que ocupa a Igreja Católica. É preciso distingui-las sem separá-las.

Precisemos bem: um “corpo”, e não uma “doença”, uma “tendência”, um “espírito”, uma “concepção falsa” como se procura demonstrar no DICI n°273, recusando em princípio considerar a Igreja conciliar como uma “sociedade distinta de outra” (p. 8). Esta negação poderia, rigorosamente, ser admitida no sentido definido acima, de uma sociedade absolutamente, substancialmente diferente da Igreja Católica. Mas ela nos parece perigosa, em seu sentido óbvio, e, em todo caso, contrária à doutrina de São Pio X, que qualifica os modernistas de associação secreta (cladestinum foedus; Motu proprio de 1 de setembro de 1910) que se oculta no seio mesmo e no coração da Igreja (sinu gremioque Ecclesiae; Pascendi, 1907).

O que o magistério ensina originalmente como modernismo, nossos antigos o chamaram em termos enérgicos de sujeito do neomodernismo, qualificando suas hierarquias de “seita”; e não se vê em que o princípio tenha mudado hoje em dia... Que se nos permita, mesmo se este debate desagrade hoje em dia a alguns na Tradição, trazer à memória algumas citações lapidares:

Dom Lefebvre: Isso é uma seita que se apossou de Roma, se apossou da alavanca de comando da Igreja” (Conferência em Flavigny, dezembro 1988, Fideliter n° 68, p. 10).

Padre Tissier de Mallerais: “[...] nas circunstâncias de uma Igreja ocupada pela seita progressista [...]” (Fideliter n° 53, p. 38, set-out 1986).

Padre Calmel: “[...] organizações ocultas de uma falsa Igreja, de uma Igreja aparente” (Itinéraires n° 123, p. 174, maio 1968); “Igreja aparente no seio mesmo da Igreja verdadeira” [...]” (Itinéraires n° 106, p. 178, set. 1966).

Padre Marcille: “[...] a seita no poder na Igreja [...] a seita conciliar a favor do poder que ela ocupa [...]” (Fideliter n° 96, pp. 67 e 71, nov-dez 1993).

Marcel de Corte: “É a parte que se erige para tudo, a seita que se erige na Igreja una, santa, católica, apostólica e romana. Por um instante, a parte permanece no todo que ela corrompe pouco a pouco” (Itinéraires n° 131, p. 266, março de 1969).

Jean Madiran: “[...] a seita campeada na Igreja [...]” (Itinéraires n° 137, p. 28, nov. 1969).
Henri Rambaud: “[...] a seita, pequena pelo nome em relação ao resto do rebanho, mas instalada nos postos de comando [...]” (Itinéraires n° 143, p. 111, maio 1970).

Resumindo com o Padre Berto: “Jacques Maritain, em 1966, falou de ‘febre’ neomodernista. Mas ele esquece que [se trata de] neomodernistas que jamais se admitirão tais, que permanecerão a todo o preço no interior da Igreja, para ‘fazê-la crescer de dentro uma mutação substancial que não lhe deixará da Igreja senão o nome [...]; eles constituem na Igreja uma associação secreta de assassinos da Igreja” (Itinéraires n° 112, p. 69, abril 1967).

Em 1964, em pleno concílio, Jean Madiran escreveu um artigo especial intitulado “A sociedade secreta do modernismo”, em Itinéraires. Cinquenta anos depois, seu diagnóstico permanece ainda válido:

"Uma sociedade secreta que consegue sobreviver quando é combatida, não vai ela conseguir prosperar quando já não for combatida? Depois da morte de São Pio X, ocupam-se de outra coisa, incluindo o modernismo doutrinal, jurídico, social, mas já não se ocupam da sociedade secreta instalada no seio da Igreja. A consequência de tal abstenção é que a sociedade secreta reforçou sua instalação, multiplicou seus progressos, desenvolveu seu poder; que é poder oculto e se torna muito maior; que ela foi muito mais forte para colocar à frente seus adeptos, para liquidar seus adversários, e para prevenir que se fale dela: impor um silêncio público a respeito dela mesma é o objetivo de todas as sociedades secretas." (Itinéraires n° 82, abril 1964, p. 100.)

Reduzir a Igreja conciliar e neomodernista a um conceito, uma tendência, um espírito, recusando-lhe o status de seita, de sociedade, de associação (Ecclesia = assembleia em grego), em que ela deve necessariamente se encarnar, e para qual de fato ela se move concretamente e eficazmente, é ignorar os ensinamentos de São Pio X e de nossos antepassados na Tradição. Isso não é somente um erro teórico, mas também, em suas consequências práticas, uma predisposição de espírito a identificar puramente e simplesmente a Igreja Católica, a que todos querem pertencer, e a hierarquia oficial e visível que a ocupa e a dirige depois de décadas, de que nós não fazemos (ainda) parte. Situação portanto “anormal”, que convém regularizar de uma maneira ou de outra.

Citemos algumas frases significativas de Dom Fellay: “O fato de ir a Roma não quer dizer que se esteja de acordo com eles. Mas é a Igreja. E é a verdadeira Igreja” (Sermão em Flavigny, em 2-9-2012, Nouvelles de Chrétiente, n° 137, p. 20.)

“A Igreja do Cristo está presente e move-se como tal, quer dizer, como única arca de salvação, somente lá onde está o vigário de Cristo” (Carta aos amigos e benfeitores de 13-04-2014).

“A Igreja oficial é a Igreja visível; é a Igreja Católica, e ponto final” (Sermão no Seminário de la Reja, 20-12-2014).

Compare-se com o que Dom Lefebvre disse a nossos padres reunidos em Écône, em 9 de setembro de 1988: “Nestes últimos tempos, disseram-nos que era necessário que a Tradição entrasse na Igreja visível. Eu penso que se comete nisso um erro gravíssimo, [...] isso é enganar-se assimilando Igreja oficial e Igreja visível. Nós pertencemos à Igreja visível, à sociedade de fiéis submissos ao Papa, pois não recusamos a autoridade do papa, mas o que ele faz... Saímos, então, da Igreja oficial? De certa maneira sim, evidentemente. Todo o livro de M. Madiran A Heresia do 20° século é a história da heresia dos bispos, deve-se então sair do meio destes bispos, se não se quer perder sua alma” (Fideliter n° 66, nov.-dez.1988, pp. 27-28).

Concluímos: com são Pio X, guardemos sempre no espírito que os neomodernistas formam uma seita que não quer jamais deixar a Igreja Católica, que a subverte do interior, e que são seus piores inimigos, verdadeiros lobos revestidos de pele de ovelha.

Com Monsenhor Lefebvre, não nos juntemos aos “católicos que confundem a Igreja Católica e romana eterna com a Roma humana e suscetível de ser invadida pelos inimigos cobertos de púrpura” (Carta ao Figaro, de 02-08-1976).

Revista “Le Sel de la terre” dos dominicanos de Avrillé, edição de inverno de 2015

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Em defesa de Dom Williamson (I), por D. Tomás de Aquino

Dom Williamson escreveu no seu Comentário Eleison 438: “Se a evidência dos milagres ocorridos dentro da Igreja do Novus Ordo é tão séria quanto parece, então os católicos têm de conformar suas mentes à mente de Deus, e não o inverso."


Muitos atacaram Dom Williamson por causa destes comentários a respeito do possível milagre eucarístico ocorrido em Buenos Aires. Entre os argumentos utilizados retenho os seguintes:

1- Fora da Igreja não pode haver milagres. A Igreja conciliar não é a Igreja católica. Logo não houve milagre em Buenos Aires.
2-Ninguém age sem um fim. Um milagre na Missa Nova não poderia ter outro fim senão induzir os fiéis a assistirem a Missa Nova. Logo não houve milagre em Buenos Aires.
3-O milagre é a assinatura de Deus. Deus não pode assinar uma heresia. A Missa Nova favorece a heresia. Logo não houve milagre em Buenos Aires.

Vejamos cada um desses argumentos.

1- O primeiro simplifica em demasia a questão e simplificando-a ele confunde duas questões. Uma é a de saber se pode ou não haver milagres fora da Igreja. A outra é a de se saber se a Igreja conciliar é totalmente alheia à Igreja católica ou não.

À primeira questão deve-se responder com santo Tomás que sim. Pode haver milagres "fora da Igreja" dentro de certas condições. Veja-se os artigos do Prof. Carlos Nougué a esse respeito. O que Deus não faz é confirmar o erro ou o vício com um milagre, mas ele pode confirmar a verdade ou a virtude com um milagre, e isto, mesmo entre os pagãos. Se alguns bens foram realizados entre os pagãos, estes bens foram realizados por inspiração ou ação de Deus (cf. De Potentia, questão VI, artigo V, ad 5um). No mesmo artigo santo Tomás diz ser possível que Deus tenha feito um milagre para atestar a castidade de uma virgem pagã. Pode-se lembrar também o milagre da mula de Balaão que falou distintamente como se lê nas Sagradas Escrituras. Ora Balaão era um mago pagão. A mula falou porque Deus queria adverti-lo de não levar adiante seu intento de amaldiçoar os judeus. (Num XXII)

À segunda pergunta deve-se responder que as autoridades da Igreja conciliar, constituem uma seita modernista a qual, ocupando os postos chaves da Igreja, a mantêm cativa. Não se pode dizer de maneira absoluta nem que a Igreja conciliar seja a Igreja católica, nem que ela não o seja. Pela doutrina modernista e a intenção de destruir a Igreja católica ela não o é, evidentemente; mas pelo fato de deter em seu poder uma jurisdição que pertence à Igreja católica, ela tem algo de católico em seu poder. Se o Papa atual se convertesse ele exerceria catolicamente um poder que hoje ele exerce modernisticamente.
Esta parece-me ter sido a posição que Dom Lefebvre sempre adotou.

2- Ninguém age sem um fim. Mas que fim Deus poderia ter fazendo um milagre na Missa Nova?

Dom Faure já respondeu a esta pergunta. Se Nosso Senhor está presente na hóstia consagrada numa Missa Nova com o agravante desta hóstia ter sido profanada não parece absurdo que Deus faça um milagre para indicar a gravidade desta profanação.

Mas, dirão alguns, Dom Williamson citou também um suposto milagre ocorrido na Polônia. O mesmo raciocínio se impõe. Onde há presença real pode haver milagre sem se faltar com a verdade.

Mas não seria isso aprovar a Missa Nova?
Não, assim como não é aprovar o paganismo que demostrar, através de um milagre, a inocência de uma virgem pagã.

3- O milagre é uma assinatura de Deus e Deus não pode assinar uma heresia. Mas este milagre, se milagre houve, não é uma assinatura do novo rito da missa mas sim da presença real. O sacramento recebido na Igreja conciliar pode ser verdadeiro e a doutrina que o acompanha pode ser falsa. Mas são duas coisas distintas. Uma não anula a outra. Afirmar um, mesmo com milagre, não é afirmar o outro, como provar a inocência de uma virgem pagã não é aprovar o paganismo.

Os argumentos apresentados não me parecem conclusivos. Seja como for, eles não podem servir para desacreditar Dom Williamson que permanece o Bispo que se opôs à política suicidária dos acordistas e que sagrou Dom Faure, ordenou padres para a Resistência, confirmou inúmeros fieis dando assim a todos a esperança de continuar o bom combate de Dom Lefebvre que não é outro senão o bom combate da Santa Igreja una, católica, apostólica e romana e, como dizia São Pio X, perseguida.


Ir. Tomás de Aquino O.S.B

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Tríduo a São Luiz Gonzaga



(Padroeiro da juventude)

Ó Luiz santo, adornado de angélicos costumes, nós, vossos indigníssimos devotos, vos recomendamos especialmente a castidade de nosso corpo e de nossa alma. Rogamo-vos, pela vossa angélica pureza, que nos recomendeis ao Cordeiro imaculado, Cristo Jesus, e à sua Mãe santíssima, a Virgem das virgens, e nos preserveis de todo o pecado. Não permitais que sejamos manchados com nódoa alguma e impureza; mas quando nos virdes em tentação ou perigo de pecar, afastai de nossos corações todos os pensamentos e afetos impuros e, despertando em nós a lembrança da eternidade e de Jesus crucificado, imprimi profundamente em nossos corações o sentimento do santo temor de Deus; e, afervorando-nos no amor divino, fazei que vos imitemos na terra, para que mereçamos gozar de Deus convosco no céu. Assim seja.

Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
V. Rogai por nós, São Luis.
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo

OREMOS

Ó Deus, distribuidor dos dons celestiais, vós unistes no angélico jovem São Luiz uma admirável inocência de vida à prática da penitência; concedei-nos por seus méritos e preces que o imitemos na penitência, já que não o acompanhamos na inocência. Por Cristo, Senhor nosso.
R. Amém.


Retirado de "Manual de Cânticos e Orações". Porto Alegre: Oficinas Gráficas da Livraria Selbach de Selbach & Cia, 1948, 2ª edição.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Comentários Eleison CDXLV (445) - Hospedeiro e Parasita I

Por Dom Richard Williamson
Tradução: Andrea Patrícia (Blog Borboletas ao Luar)


Assim como sem o bem o mal não existe,
Sem a verdadeira Igreja a Neoigreja não subsiste.


O motivo de eu ter dito seis meses atrás que um padre não está obrigado, em todas as situações, a proibir um católico de assistir à Nova Missa (NOM) não foi obviamente afirmar que está tudo perfeitamente bem em assistir ao NOM. O rito da Nova Missa é, em si mesmo, o ato central de culto da falsa religião do Vaticano II centrada no homem, cujo despertar se deu em 1969. De fato, a obrigação de manter-se longe do NOM é proporcional ao conhecimento que uma pessoa tenha sobre quão mal ele é. O NOM tem contribuído enormemente para que um incontável número de católicos perca a fé quase sem perceber.

Mas existem dois fatores que, mesmo nos dias de hoje, têm tornado mais fácil os católicos serem enganados pelo NOM. Em primeiro lugar, ele foi imposto a toda a Igreja de rito latino, porque o Papa Paulo VI fez de tudo que pôde para parecer que o rito fora imposto pela força de sua autoridade papal, a qual em 1969 parecia imensa. Ainda hoje o NOM passa como o rito “ordinário”, enquanto a Missa de sempre é oficialmente reduzida a um rito “extraordinário’. Desse modo, mesmo 47 anos depois, um católico honesto pode sentir-se ainda obrigado pela obediência a assistir ao NOM. É claro que na realidade não pode haver tal obrigação, porque nenhuma lei da Igreja pode obrigar um católico a pôr sua fé em perigo, o que ele normalmente faria se fosse ao NOM, tamanha é a falsidade deste.

Em segundo lugar, o NOM foi introduzido paulatina e notavelmente, por uma série de mudanças habilidosamente graduadas, em 1962, 1964 e 1967, de modo que a revolução generalizada de 1969 encontrou católicos prontos para a novidade. De fato, ainda hoje o rito do NOM inclui opções para o celebrante, que torna a este possível celebrá-lo como uma cerimônia de puro sangue da nova religião humanista, ou como uma cerimônia que lembra a verdadeira Missa, semelhante o suficiente para enganar muitos católicos, fazendo-os acreditar que não há diferença significante entre o velho e o novo rito. É claro que na realidade, como Monsenhor Lefebvre sempre dizia, é melhor o velho rito numa língua moderna, que o novo rito em latim, por causa da diminuição ou clara falsificação da doutrina católica da Missa no NOM.

Além destes dois fatores, a imposição oficial das mudanças e o caráter às vezes opcional destas, intrínsecos ao NOM, são mais que suficientes para explicar porque hoje deve haver milhares de católicos que querem e pretendem ser católicos ainda que assumam que a maneira correta de agir é assistir ao NOM todo domingo. E quem ousará dizer que em meio a essa multidão não há pessoas que ainda estejam alimentando sua fé obedecendo o que lhes parece ser (subjetivamente) sua obrigação (objetiva)? Deus é seu juiz, mas por quantos anos simplesmente a maioria dos seguidores da Tradição católica não teve de ir ao NOM antes de compreender que sua fé a obrigava a não fazer isto? E se o NOM os tivesse feito perder a fé por todos estes anos, como teriam eles chegado à Tradição católica? Dependendo de como o celebrante usa as opções do NOM, nem todos os elementos que podem nutrir a fé são necessariamente eliminados, especialmente se a consagração é válida, uma possibilidade que ninguém que saiba sua teologia sacramental pode negar.

Entretanto, dados a fraqueza da natureza humana e o risco de encorajar os católicos a seguirem a nova e fácil religião por causa destas últimas palavras ditas em favor de seu rito central de culto, por que então dizer uma palavra em favor de qualquer característica da Neoigreja? Por ao menos duas razões. Em segundo lugar, para afastar o desprezo potencialmente farisaico em relação aos crentes que estão fora do movimento tradicional; e, em primeiro lugar, para afastar o que começa a ser chamado de “eclesiavacantismo”, a saber, a ideia de que na Neoigreja não restou nada de católico. Em teoria, a Neoigreja é pura podridão, mas na prática essa podridão não pode existir sem algo que ainda não apodreceu e que está ali com potência para apodrecer. Todo parasita necessita de um hospedeiro. Tendo esse particular hospedeiro: a verdadeira Igreja, desaparecido completamente, não teriam então as portas do inferno prevalecido sobre ela? Mas isto é impossível (Mt. XVI, 18).
                                                                                                                                          
Kyrie eleison.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

ACERCA DO SUMO PONTÍFICE, SUA SANTIDADE BENTO XV (1914-1922)




Não foi apenas com João XXIII (1958-1963), que tivemos pela primeira vez um papa neo-ecumenista ou com tendências ao neo-ecumenismo. Nos tempos de Bento XV, no século Giacomo Della Chiesa, o número de publicações condenadas no Index Librorum Prohibitorum caiu consideravelmente em relação aos pontificados de Leão XIII e de São Pio X, seus predecessores. Ademais, o neo-ecumenismo em seu tempo deu passos significativos, embora não revolucionários como o fizeram João XXIII e Paulo VI.

Em uma praça pública de Constantinopla (Turquia), a 11 de dezembro de 1921, foi inaugurada em homenagem a Bento XV (1914-1922) uma estátua, em cujo sopé se lê o seguinte:

«Al grande Pontefice 
dell'ora tragica mondiale 
Benedetto XV 
Benefattore dei popoli 
senza distinzione 
di nazionalità e di religione 
in segno di riconoscenza
l’Oriente 
1914-1919».

("Ao grande Pontífice
de um momento trágico do mundo
Bento XV
Benfeitor dos povos
sem distinção
de nacionalidade e de religião
como um sinal de gratidão
do Oriente.")

Fontes: Documentos da Igreja. "Documentos de Pio X e de Bento XV. São Paulo: Paulus, 2002.
Site da Santa Sé. Biografia de Bento XV. Disponível em http://goo.gl/nXisUg. Acesso em 12/01/2016

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Pe. Bruno OSB: "Nos reconhecer tal como somos"?



Pe. Bruno OSB

Ao final da “palavra do superior geral” (1º de novembro de 2015) do último boletim do Cor Unum, Mons. Fellay precisa algumas coisas aos membros da Fraternidade sobre “a situação da Igreja e nossas relações romanas”. 

Há muitos pontos que poderiam ser comentados: “a santa Igreja, enferma, [...] perdendo cada dia mais sua unidade” (?) – “o papa [...] está mais ao lado dos progressistas” (sério?) – “a graça da fidelidade a esta obra maravilhosa que é a FSSPX”...

Tomemos aqui simplesmente o que nos parece mais importante: Mons. Fellay, depois de ter explicado que “em julho Roma fez novas proposições para uma regularização”, afirma que “a condição sine qua non de nossa aceitação” é a expressão “nos reconhecer tal como somos”. Ele indica ali as “aplicações práticas”: curiosamente, já somente se trata da missa e dos sacramentos (em resumo: “que Roma não nos peça para participar na nova missa”), mas de nenhum modo dos problemas doutrinais e da necessária denúncia dos erros e escândalos.

A fórmula “nos reconhecermos tal como somos” reaviva as dolorosas recordações deste antigo membro do Barroux [mosteiro beneditino que esteve vinculado a Mons. Lefebvre. NP] que eu sou: Dom Gérard [superior desse mosteiro. NP] tinha a mesma linguagem em 1988, insistindo vigorosamente: “sem contraprestação, sem concessões, sem renegar.” E em sua famosa declaração de 18 de agosto de 1988, colocou os pingos nos i’s: “Que nenhuma contraprestação doutrinal ou litúrgica seja exigida de nós, e que nenhum silêncio seja imposto à nossa pregação antimodernista”. Sabemos, desgraçadamente, o que aconteceu com estas belas resoluções.

A experiência nos ensina que quando Roma diz: “se lhes reconhecem tal como são”, Roma pensa de fato: “os reconhecemos tal como vocês serão”, tal como aquilo em que vocês, lenta porém seguramente, vão se converter (e talvez não tão lentamente). Roma prevê com razão que depois de um pacto (se lhe chame acordo, reconhecimento, regularização), o grupo que está submetido à sua autoridade irá evoluir, sobretudo se a evolução já começou há muito... Roma sabe bem que a integração dos “integristas” será sua desintegração.

Rezemos para que entre os sacerdotes da Fraternidade – todos receberam este texto de seu superior – ao menos alguns salvem a honra, opondo-se publicamente a esta deriva. Que eles tenham o valor de dizer bem alto: “nós queremos permanecer tal como somos, e é por isso que não podemos sob nenhum preço aceitar que a Roma conciliar nos reconheça tal como somos”.

A verdadeira “condição sine qua non de nossa aceitação”, a formulou Mons. Lefebvre de maneira simples e luminosa: que Roma volte a coroar Nosso Senhor. “Quando se nos coloca a questão de saber quando haverá um acordo com Roma, minha resposta é simples: quando Roma voltar a coroar Nosso Senhor Jesus Cristo”. (Conferência em Flavigny, dezembro de 1988). Em outros termos: que Roma reconheça a Cristo tal qual Ele é: o único Rei, o único Deus, o único Salvador.

Hoje em dia estamos bastante longe disto, com o odioso sincretismo do papa Francisco, do qual acaba de dar uma prova suplementar com seus desejos para o ano novo. 

Antes de “nos reconhecer tal como somos”, que Roma o reconheça tal qual é a Ele, Nosso Senhor Jesus Cristo.


Padre Bruno.