sábado, 24 de janeiro de 2015

Carta Aberta de Dom Williamson a Dom Fellay

Londres, 19 de outubro de 2012.


Excelência:




Obrigado por sua carta de 4 de outubro em que o senhor me informou de parte sua, do Conselho Geral e do Capítulo Geral sua “constatação”, “declaração” e “decisão” de que já não sou membro da Fraternidade São Pio X. As razões que o senhor dá para sua decisão de expulsar seu servidor seriam: ele continuou a publicar seus “Comentários Eleison”; ele atacou as autoridades da Fraternidade; ele fez um apostolado independente; ele causou confusão entre os fiéis; ele apoiou os sacerdotes rebeldes; ele desobedeceu de maneira formal, obstinada e “pertinaz”; ele se separou da Fraternidade; ele não se submete a nenhuma autoridade.

Todas essas razões não se podem resumir em desobediência? Sem dúvida, no curso dos últimos 12 anos seu servidor teve palavras e ações que foram, diante de Deus, inadequadas e excessivas, mas creio que bastaria fossem assinaladas, em particular, para que nos escusássemos, segundo a verdade e a justiça. Mas, sem dúvida, estamos de acordo em que o problema essencial não se situa nos detalhes, que ele se resume em uma palavra: desobediência. Então, assinalemos antes de tudo quantas ordens mais ou menos desagradáveis do Superior Geral seu servidor obedeceu sem falta. Em 2003, ele deixou um apostolado importante nos Estados Unidos para ir para a Argentina. Em 2009, ele deixou o cargo de diretor do seminário e deixou a Argentina para mofar em um sótão em Londres, sem palavra nem ministério episcopal, porque estava proibido. Ele não tinha praticamente mais que o ministério dos “Comentários Eleison”, e a recusa a suspendê-los constitui a maior parte dessa “desobediência” pela qual é criticado. E desde 2009 os Superiores da Fraternidade se deram o direito de desacreditá-lo e injuriá-lo tanto quanto quisessem, e em todo o mundo incentivaram cada membro da Fraternidade que o quisesse a fazê-lo também. Seu servidor reagiu muito pouco, preferindo o silêncio a confrontos escandalosos. Poder-se-ia dizer até que ele se obstinou em não desobedecer. Mas passemos adiante, porque o verdadeiro problema não está aí.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Sobre as orações indulgenciadas e seu valor

"Uma obra indulgenciada não adquire sentido e valor senão quando, ao mesmo tempo, é uma verdadeira oração segundo o Espírito de Deus. Seria abusar da oração e lamentavelmente desconhecer-lhe o sentido e a essência a ela ligada, sem fazer dela uma conversa íntima com Deus. Vida nova em Deus e, por isto, libertação do pecado e da pena eterna que lhe é devida: tal o fim primeiro da piedade cristã. Nenhuma indulgência o pode dispensar. O ganho das indulgências supõe naturalmente essa necessidade indispensável. É claro que, sem o perdão do pecado e de sua pena eterna , não se poderia pensar em remissão da pena temporal. A prática das indulgências contribui, pelo menos indiretamente, para a purificação da alma e o desenvolvimento da vida nova. Não é, diga-se o que se quiser, uma instituição destinada a fazer toda exterior a vida cristã: serve, pelo contrário, a aprofundá-la e enriquecê-la: premente chamamento à penitência, espécie de necessidade que nos impele a incorporar-nos, primeiro, como membro vivo ao Cristo, para podermos esperar o seu auxílio. Como, aliás, as Indulgências não remitem pura e simplesmente ao fiel a pena temporal, mas, sim, só o libertam dela na medida em que ele concorre com suas próprias obras satisfatórias, ordenadas, com precisão, pela Igreja, aos merecimentos do Cristo e dos seus santos, são elas de molde a sacudir as consciências retas, a torná-las mais atentas e sensíveis à terrível seriedade do pecado, assim como ao incomparável tesouro espiritual que se encontra na comunhão dos membros do Cristo."

Karl Adam, in "A Essência do Catolicismo".

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

A Catolicidade da Igreja que iniciava

"Manifestação do divino, o Pentecostes dos primeiros discípulos, apresenta dois caracteres: catolicidade ou universalidade e rigorosa unidade. A catolicidade, que faz com que ela convenha a todos, é essencial ao que é divino. Onde está Deus, não há "acepção de pessoas". Fora impossível que a realidade divina aparecida no Cristo se destinasse a uns e não a outros, aos judeus e não aos bárbaros. O que é divino convém evidentemente a todos. Deus só pode operar na plenitude, no conjunto dos homens, e não em alguns apenas. Um Cristo limitado não seria um Cristo. Esta característica do primeiro Pentecostes se mostra no milagre de línguas: "Como pode acontecer que os entendamos falar cada um no idioma particular de nossa terra natal? Nós todos, partos, medas, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia"... (At. 2, 8 e 9). No mesmo tempo em que a fé nova fazia sua entrada no mundo, abarcava a humanidade inteira, era uma fé católica. "A Igreja nascente já era anunciada em todas as línguas" (2) -- E essa catolicidade era uma catolicidade na unidade. Estavam todos conjugados em torno do colégio apostólico, em torno de Pedro, e todos os compreendiam. Um só Deus, um só Cristo, uma só fé, uma só língua. Plenitude na unidade, unidade na plenitude. Foi assim que a nova fé fez a sua entrada no mundo."
(2) Sto. Agostinho, Sermo 266,2.


Karl Adam, in "A Essência do Catolicismo".

domingo, 24 de agosto de 2014

A decadência do homem moderno

"A característica do homem moderno é ser um desenraizado. À história cabe mostrar como chegou ele a esse estado. O grito do XVI século "Los von der Kirche" (nada de Igreja), provocava por uma lógica fatal o "Los von Christus" (nada de Cristo), do XVIII, depois o "Los von Gott" (nada de Deus) do XIX século. Por esta forma a vida interior moderna viu-se cortada do seu mais indispensável, mais profundo princípio, do que a fazia mergulhar no Absoluto, no Ser dos Seres, no valor dos valores. A vida perdeu seu verdadeiro, seu grande sentido, seu impulso interior para o Alto, seu ímpeto de amor eficaz e possante que só o Divino pode suscitar. Em lugar do homem ancorado no Absoluto, firmado em Deus e, por isto, forte e rico, passamos a ter o homem independente e autônomo."


Karl Adam, in "A Essência do Catolicismo".

terça-feira, 11 de março de 2014

Comentários Eleison CCCLIX (359) - Infalibilidade da Igreja V

31 de maio de 2014

por Dom Williamson
Tradução: Andrea Patricia (blogue Borboletas ao Luar)



O liberalismo é a guerra contra Deus, e é a dissolução da verdade. Dentro da Igreja de hoje por ele aleijada, o sedevacantismo é uma reação compreensível, mas que, porém, atribui à autoridade poder em demasia sobre a verdade. O mundo moderno perdeu a verdade natural, e ainda mais: perdeu também a verdade sobrenatural, e eis o coração do problema. 

Para nossos propósitos, poderíamos dividir todo o ensinamento papal em três partes. Em primeiro lugar, se o Papa ensina como Papa, sobre Fé ou moral, definitivamente e obrigando a todos os católicos, então temos seu Magistério Extraordinário (ME, para abreviar), necessariamente infalível. Em segundo lugar, se ele não emprega todas as quatro condições, mas ensina em conformidade com o que a Igreja tem ensinado sempre e em todo lugar, e imposto aos católicos para que creiam, então ele está participando do que é chamado o Magistério Ordinário Universal (MOU, para abreviar) da Igreja, também infalível. E em terceiro lugar, nós temos o restante de seu ensinamento, que, se não estiver em conformidade com a Tradição, não só é falível, como também falso. 

A essa altura deveria estar claro que o ME está para o MOU como a cobertura de neve está para a montanha. A cobertura de neve não constitui o topo da montanha, mas simplesmente o torna mais visível. O ME está para o MOU como o servo está para o mestre. Ele existe para servir ao MOU, para tornar claro de uma vez por todas o que pertence e o que não pertence ao MOU. Mas o que faz com que o resto da montanha se torne visível, por assim dizer, é sua possibilidade de ser rastreado de volta até Nosso Senhor e Seus Apóstolos; em outras palavras, é a Tradição. Eis a razão pela qual toda definição do ME é um esforço para mostrar que o que está sendo definido sempre foi parte da Tradição. Era a montanha antes de ser coberta pela neve. 

A essa altura também deveria estar claro que a Tradição diz aos Papas o que ensinar, e não o contrário. Essa é a base sobre a qual Monsenhor Lefebvre fundou o movimento Tradicional, mas é essa mesma base que, com todo o devido respeito, os liberais e os sedevacantistas não conseguem compreender. Basta ver no Evangelho de São João como frequentemente Nosso Senhor mesmo, como homem, declara que o que Ele está ensinando vem não Dele mesmo, mas de Seu Pai. Por exemplo: “Minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou” (7, 16), ou, “Eu não falei de mim mesmo, mas o Pai que me enviou, ele mesmo me prescreveu o que devo dizer e o que devo ensinar” (12, 49). É claro que ninguém na Terra está mais autorizado que o Papa para dizer à Igreja e ao mundo o que está na Tradição, mas ele não pode dizer à Igreja ou ao mundo que há na Tradição o que em verdade não há. O que há na Tradição é objetivo, agora com 2.000 anos de idade, está acima do Papa e estabelece limites ao que um Papa possa ensinar, tal como os mandamentos do Pai define os limites para o que Cristo como homem, ensinaria. 

Então, como podem os liberais e os sedevacantistas alegarem de modo semelhante, com efeito, que o Papa é infalível mesmo fora do ME e do MOU? Pois ambos superestimam a autoridade em relação à verdade, e assim eles vêem a autoridade da Igreja não mais como a serva, mas como a dona da verdade. E por que isso? Porque ambos são filhos do mundo moderno, onde o Protestantismo desafiou a Verdade e o liberalismo desde a Revolução Francesa tem dissolvido a verdade objetiva. E se não há mais qualquer verdade objetiva, então é claro que a autoridade pode dizer qualquer coisa que possa fugir a ela, que é o que temos observado em torno de nós, e não há nada que possa impedir um Paulo VI ou um Dom Fellay de se tornar mais e mais arbitrário e tirano no processo. 

Mãe de Deus, fazei com que eu possa amar, discernir e defender essa Verdade e essa ordem que vêm do Pai, ambas sobrenaturais e naturais, às quais Seu próprio Filho estava sujeito como homem, “até a morte, e morte de cruz”. 


Kyrie eleison.


A profunda perda da verdade objetiva explica, ora veja,
As dificuldades sedevacantistas e liberais da Igreja.

terça-feira, 4 de março de 2014

Comentários Eleison CCCLVIII (358) - Infalibilidade da Igreja IV

24 de maio de 2014

por Dom Williamson
Tradução: Andrea Patrícia (blogue Borboletas ao Luar)


Ao Cardeal Newman é atribuído um sábio comentário a respeito da definição de 1870 sobre a Infalibilidade Papal: “ela o deixa como o encontrou”. De fato, essa definição não alterou em nada o poder do Papa para ensinar infalivelmente, pois é da natureza da verdadeira Igreja de Deus que o próprio Deus a protegerá do erro, ao menos quando sua suprema autoridade ensinante estiver comprometida. Todo esse compromisso é atualmente chamado de “Magistério Extraordinário” da Igreja, mas só esse nome foi uma novidade em 1870, bem como o nome “Magistério Ordinário Universal”. Se o Vaticano I declarou que este último também fosse infalível, deveria igualmente ter sido assim desde o início da Igreja. Para discernir as realidades por trás dos nomes, vamos voltar a esse início. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Comentários Eleison CCCLVII (357) – Infalibilidade da Igreja III

17 de maio de 2014

por Dom Williamson
Tradução: Andrea Patrícia (blogue Borboletas ao Luar)


As palavras e ações loucas do Papa Francisco estão levando atualmente muitos crentes católicos em direção ao sedevacantismo, uma corrente perigosa. A crença de que os Papas conciliares não foram e não são Papas pode começar como uma opinião, mas muito frequentemente se observa que a opinião se torna um dogma, e então uma armadilha de aço mental. Eu acho que muitos sedevacantistas estão com sérias dificuldades em raciocinar porque a crise sem precedente do Vaticano II causou em suas mentes e corações católicos uma angústia, e assim, para confortá-la, eles encontraram no sedevacantismo uma solução simples, e não desejam voltar a sentir a angústia pela reabertura da questão. Então, se empenham enfaticamente numa cruzada para que outros se juntem a eles em sua solução simples, e ao fazê-lo, muitos deles – não todos – acabam exprimindo uma arrogância e uma amargura que não são sinais ou frutos de um verdadeiro católico.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Comentários Eleison CCCXLIV (344) - Infalibilidade da Igreja II

15 de fevereiro de 2014

por Dom Williamson
Tradução: Andrea Patricia (blogue Borboletas ao Luar)


Há muito que deve ser dito sobre a infalibilidade da Igreja, especialmente com o propósito de corrigir ilusões que surgem (por erro) da definição da infalibilidade papal de 1870. Hoje em dia, por exemplo, os sedevacantistas e os liberais pensam que suas posições são completamente opostas; mas será que eles já se deram conta de que pensam de modo similar? – Premissa maior: os Papas são infalíveis. Premissa menor: os Papas conciliares são liberais. Conclusão liberal: devemos nos tornar liberais. Conclusão sedevacantista: eles não podem ser Papas. O erro não está nem na lógica, nem na premissa menor. Ele só pode estar em um engano de ambas as partes relacionado à infalibilidade da premissa maior. Novamente, o homem moderno põe a autoridade acima da verdade.

Deus Eterno é a própria Verdade, absolutamente infalível. No tempo criado, por meio de Seu Filho Encarnado, Ele instituiu Sua Igreja com uma doutrina para a salvação das almas. Por vir Dele, essa doutrina só pode ser inerrante, mas para mantê-la livre dos erros dos homens da Igreja, a quem Ele deveria confiá-la, seu Filho prometeu-lhes o “espírito da verdade” para guiá-los “para sempre” (Jo 14, 16). Pois de fato, sem uma tal garantia, como poderia Deus exigir dos homens, sob a pena da danação eterna, que creiam em Seu Filho, em Sua doutrina e em sua Igreja (Mc 16, 16)? 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Comentários Eleison CCCXLIII (343) - A Infalibilidade da Igreja I

8 de Fevereiro de 2014

por Dom Williamson
Tradução: Andrea Patrícia (blogue Borboletas ao Luar)


Provavelmente o principal problema dos sedevacantistas é a respeito da infalibilidade da Igreja (os Papas Conciliares são horrivelmente falíveis, então, como podem ser eles Papas?). Sem dúvida, a infalibilidade precisa ser considerada por mais razões do que simplesmente para aliviar o sedevacantismo. O problema moderno de preferir a autoridade à verdade é vasto.

“Infalibilidade” significa a inabilidade para errar ou cair no erro. O Concílio Vaticano Primeiro definiu em 1870 que o papa não poderia errar enquanto estivessem presentes quatro condições: ele deve (1) estar falando como Papa, (2) em uma questão de fé ou de moral, (3) de uma maneira definitiva, e (4) com a clara intenção de obrigar em consciência a toda a Igreja. Qualquer destes ensinamentos pertencem ao que se denomina o Magistério “Extraordinário” do Papa, porque por um lado os Papas raramente comprometem todas as quatro condições e por outro eles ensinam muitas outras doutrinas que não podem errar ou estarem equivocadas porque elas têm sido sempre ensinadas pela Igreja e, consequentemente, elas pertencem ao que o Vaticano I chamou “Magistério Universal Ordinário” da Igreja, também infalível. A pergunta é: como se relaciona o Magistério Extraordinário do Papa com o Magistério Ordinário da Igreja?

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O Primado de Pedro [I]: São Leão Magno [440-461]

"O Salvador do gênero humano, Jesus Cristo, lançando os fundamentos daquela fé que converte os ímpios à justiça e restitui os mortos à vida, formava seus discípulos por doutrina e milagres a fim de crerem que o mesmo Cristo é o Unigênito de Deus e Filho do homem. Isolar um do outro não seria proveitoso para a salvação. Perigo igual seria acreditar que o Senhor era só Deus e não homem, ou apenas homem e não Deus. Era preciso confessar ambas as verdades: como em Deus havia verdadeira natureza humana, unia-se à natureza humana a verdadeira divindade.

O Senhor, com a finalidade de confirmar o salutífero conhecimento desta verdade de fé, havia interrogado os seus discípulos, o que acreditavam, o que pensavam dele, em meio das mais diversas opiniões dos demais. O apóstolo Pedro, por revelação do Pai supremo, supera o corpóreo e vai além do humano. Vê com os olhos do espírito o Filho de Deus vivo, confessa a glória da divindade, porque não se detém na substância da carne e do sangue. A sublimidade desa fé agradou tanto ao Senhor que ele o chamou feliz e bem-aventurado e outorgou-lhe a sagrada firmeza da pedra inconcussa, sobre a qual seria fundada a Igreja e contra a qual não prevaleceriam as portas do inferno, nem as leis da morte. Além disso, para ligar ou desligar qualquer causa, não seria ratificado nos céus senão o que sentenciasse Pedro."


São Leão Magno, Papa. Sermões, LI Sermão, "Sermão sobre a transfiguração do Senhor", Paulus, 2005.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

As boas leituras - São João Bosco

Boas leituras e palavra de Deus


Além do tempo destinado às orações da manhã e da noite, eu vos aconselho que dediqueis algum tempo à leitura de livros que tratem de coisas espirituais, como A Imitação de Cristo; a Filotéia, de São Francisco de Sales; a Preparação para a morte, de Santo Afonso Maria de Ligório; Jesus ao coração do jovem, vidas de santos e outros livros semelhantes.

Grandes vantagens vossa alma obterá com a leitura desses livros; e maior será o vosso merecimento aos olhos de Deus se contais a outros o que ledes, ou se fizerdes a leitura em sua presença, sobretudo se for para pessoas que não sabem ler.

Se vos recomendo a leitura dos bons livros, devo também vos recomendar encarecidamente que fujais, como da peste, dos maus livros e das más publicações.

Os livros, jornais ou impressos em que a religião e a moral são menosprezadas, lançai-os ao fogo como faríeis com o veneno. Imitai os cristão de Éfeso, que logo que ouviram de São Paulo o mal que produziam tais livros, apressaram-se a levá-los à praça pública, e fizeram com eles uma fogueira, preferindo que antes caíssem os livros no fogo do que suas almas no inferno.

Nosso corpo se debilita e morre se não o alimentamos; do mesmo modo nossa alma perde o vigor se não lhe damos aquilo de que ela necessita: o alimento da alma é a palavra de Deus, quer dizer, a pregação e a explicação do Evangelho, o catecismo.

Apressai-vos, pois, a ir logo à igreja: permanecei nela com a maior atenção e aproveitai-vos dos conselhos que vos sejam úteis.

É muito conveniente e até necessário para vós a assistência ao catecismo. Não vos escuseis dizendo que já fizestes a Primeira Comunhão: pois mesmo depois dela tendes necessidades de sustentar a alma, como alimentais diariamente o corpo: e se a privais desse alimento espiritual, ela ficará exposta a grandes males.

Quando ouvirdes a palavra de Deus, evitai as sugestões do demônio que vos engana dizendo-vos: "Isto o pregador está dizendo por causa de fulano, ou de sicrano". Não, meus caros filhos! O pregador se dirige a cada um de vós, e quer que apliqueis a cada um de vós as verdades que está expondo.

Além do mais, se um conselho não servir para vos corrigir de algo que tenhais feito no passado, ele servirá para vos preservar de cair no futuro.

Quando ouvirdes a palavra de Deus, tratai de recordá-la durante o dia; e à noite, antes de vos deitardes, parai um pouco refletindo no que foi ouvido; desse modo tirareis grande proveito para a alma.

Também vos recomendo cumprir os deveres religiosos, na medida do possível, na vossa própria paróquia, pois o pároco é a pessoa destinada especialmente por Deus para cuidar de vossa alma.


São João Bosco, "Carta aos jovens de todos os tempos", pp. 21-23. Artpress, 2006.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Sobre a saudação angélica

Por que o Arcanjo Gabriel saudou a Virgem Maria com um "Ave"? Vejamos nesse sermão de Santo Tomás de Aquino, o Doutor Angélico:

A SAUDAÇÃO ANGÉLICA

PRÓLOGO



1. — A saudação angélica é dividida em três partes: A primeira, composta pelo Anjo: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo, bendita és tu entre as mulheres. [Lc I, 28].
A segunda é obra de Isabel, mãe de João Batista, que disse: Bendito é o fruto do teu ventre.

A terceira parte, a Igreja acrescentou: Maria

O Anjo não disse: Ave Maria e sim, Ave, Cheia de graça. Mas este nome de Maria, efetivamente, se harmoniza com as palavras do Anjo, como veremos mais adiante.


AVE


2.
— Na antiguidade, a aparição dos Anjos aos homens era um acontecimento de grande importância e os homens sentiam-se extremamente honrados em poder testemunhar sua veneração aos Anjos.

A Sagrada Escritura louva Abraão por ter dado hospitalidade aos Anjos e por tê-los reverenciado.

Mas um Anjo se inclinar diante de uma criatura humana, nunca se tinha ouvido dizer antes que o Anjo tivesse saudado à Santíssima Virgem, reverenciando-a e dizendo: Ave.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

O Sacerdócio Católico

A Santa Missa


O ponto de mira dos ataques protestantes é o Papa e os Padres, em síntese, o Sacerdócio católico.

Para eles o Padre é um homem qualquer, que não possui autoridade, nem poderes especiais. Julgam o Sacerdócio católico igual ao estado dos seus pastores.
 
A presença do Sacerdócio é a prova da divindade de uma religião; a ausência do Sacerdócio é prova da origem humana de uma seita.

Só a Igreja Católica possui um Sacerdócio real, divino. Os protestantes possuem apenas pastores, por eles nomeados, mas sem missão e sem autoridade divinas.

Estudemos este belo assunto, e diante da luz da Bíblia, cairão as baixas objeções protestantes.

São Paulo, na Epístola aos Hebreus (VII), descreve com a profundeza que lhe é peculiar o sacerdócio de Melquisedec, no Antigo Testamento.

É um capítulo magistral, que representa um tratado de teologia sobre o assunto. Extraímos apenas os textos principais que vão ao nosso caso.


I. Palavras de São Paulo
 

O Sumo-Sacerdote Melquisedec
1 – Melquisedec era rei de Salem, Sacerdote de Deus Altíssimo.
2 – Interpreta-se Rei de justiça e também rei de Salem, que é rei de paz.
3 – Sem pai, nem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias, nem fim de vida, mas sendo feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre.
4 – Considera quão grande era este a que até o Patriarca Abraão deu os dízimos dos despojos.
5 – E os que entre os filhos de Levi recebem o sacerdócio, têm segundo a lei, a ordem de tomar o dízimo do povo, isto, é de seus irmãos, conquanto eles também tenham saído dos rins de Abraão.
9 – Mas aquele cuja linhagem não é contado entre eles, tomou o dízimo de Abraão, abençoou este que tinha as promessas.
10 – Ora, sem nenhuma contestação, o menor é abençoado pelo maior.
11 – De sorte que, se a perfeição fosse pelo sacerdócio Levítico... que necessidade havia de que outro sacerdote se levantasse, segundo a ordem de Melquisedec, e não fosse chamado segundo de Aarão?
12 – Porque mudou-se o sacerdócio, necessariamente se fez também mudança na lei.
15 – É muito mais manifesto ainda se, a semelhança de Melquisedec, se levantar outro sacerdote.
16 – O qual não foi feito segundo a lei de mandamento carnal, mas segundo a virtude da vida incorruptível.

17 – Porque assim testifica dele: Tu és Sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedec (Hebreus).


II. O erro protestante  
O texto citado nos revela a grandeza do sacerdócio católico, o único sacerdócio verdadeiro neste mundo. As seitas protestantes estabelecem chefes, que não são religiosos, mas apenas civis ou fictícios, sem mandado e sem autoridade.
Ora, uma religião divina exige uma autoridade divina.

Não basta um homem qualquer dizer: “Tu és pastor de almas”. Necessário é, que uma vez autorizado, tendo uma autoridade divina, diga: “Eu comunico-te uma autoridade religiosa sobre os outros homens”. Ora, um homem tendo sido escolhido por Deus para ser o seu representante e ministro; tendo sido ungido e delegado pelo representante de Deus na terra, este homem recebe, pelo sacramento da ordem, um caráter que nunca mais se paga; ele é sacerdote para a eternidade.

Se voltasse à vida mundana, se caísse no vício, ele é e sempre ficará sacerdote do Altíssimo. Será um mau sacerdote, mas sempre será sacerdote!


III. Doutrina Católica

Como é diferente o Sacerdote, segundo a doutrina católica!
São Paulo, descrevendo o Sacerdócio de Jesus Cristo, descreve ao mesmo tempo o sacerdócio de todos os que no decurso dos tempos, serão revestidos deste mesmo sacerdócio.

O Sacerdote supremo é um; o Sacerdócio é único.
O Cristo Sumo-Sacerdote

Este Sacerdote é o Cristo; os sacerdotes, seus sucessores, participam deste mesmo e único Sacerdócio.

As características deste Sacerdócio são indicadas pelo Apóstolo:


É sem pai, sem mãe, sem genealogia, semelhante ao Filho de Deus, sacerdote para sempre (Hb. VII, 3).

Este texto indica as quatro grandes exigências do Sacerdócio Católico.

Todo aquele que deixar por amor de meu nome casa, irmãos ou irmãs, pai ou mãe, ou a mulher ou os filhos, ou a herdade, receberá o cêntuplo neste mundo, e possuirá a vida eterna (Mt. XIX, 29).

O desapego, a renúncia deste mundo e até da própria família para consagrar-se ao serviço de Deus, eis a primeira virtude que Jesus Cristo exige de seus ministros.

O sacerdote Católico faz este sacrifício e, como os Apóstolos, deixa tudo para seguir seu Mestre, podendo dizer como São Pedro:

Eis-nos aqui, nós deixamos tudo para vos seguir! (Mt. XIX, 27).

O Apóstolo ajunta: deve ser sem genealogia.

Que quer dizer isto?

A genealogia é a linhagem, a origem, a ramificação de uma família. Esta genealogia é composta de uma série ascendente e de outra descendente.

O homem não pode existir sem série ascendente, pois todo homem é filho de seus pais, mas pode viver sem descendentes, isto é, sem filhos.

Esta palavra é, pois, uma indicação de seu afastamento do mundo, e indica o estado virginal do sacerdócio e do sacerdote: Inupta et virgo cogitat quae Domini sunt. O solteiro e a virgem pensam nas coisas de Deus, diz o Apóstolo (I Cor. VII, 34). Separando-se dos seus pais, pelo nome de Deus, e afastando-se do mundo, o sacerdote é bem o homem sem pai nem mãe (Hb. VII, 3).

Renunciando ao matrimônio, prometendo guardar a castidade, ele renuncia a genealogia descendente, e torna-se, pela vida pura, semelhante ao Filho de Deus (Ibid), que deixou seu pai, para fazer-se homem, para nascer de uma mãe virgem e viver numa pureza sem mácula. Eis que uma virgem conceberá e dará a luz um filho (Is. VII, 14).


IV. O Sacramento da Ordem  
O texto citado termina pelo cunho próprio do sacerdócio.
A separação, o afastamento, a virgindade são qualidades preparatórias, indispensáveis, para tornar-se semelhante ao Filho de Deus, como diz São Paulo; falta ainda o Sacramento da Ordem para ser Sacerdote para sempre (Hb. VII), conforme a ordem de Melquisedec.
É a quarta indicação do estado sacerdotal.
Sacerdos, dizem os teólogos, vem de sacer-do ou sacra-dans, dando coisas sacras.

O sacerdócio não é um ofício transitório, acidental, é um cargo que provém da impressão de um caráter sagrado na alma, e como tal o sacerdócio é eterno, como eterno é o grão sacerdote, o supremo sacerdote, que é Jesus Cristo.
Eis, numa frase lapidar o sacerdócio de Jesus Cristo e o caráter de cada sacerdote católico:
- Separação dos pais;
- Afastamento do mundo;- Virgindade de vida; - Caráter sacerdotal.
O sacerdócio levítico da antiga lei não tinha estas qualidades; por isso era preciso que houvesse outro sacerdócio, diz o Apóstolo (Hb. VII, 11), não segundo a ordem antiga de Aarão, mas segundo a ordem nova de Melquisedec.

Mudou-se o Sacerdócio, a lei foi também mudada. (Hb. VII, 12).

Era de temor; agora é de amor.
Era de imolação de holocaustos; agora é de imolação do próprio Cristo. Já estou farto dos holocaustos de carneiros, diz o Senhor (Is. I, 11). Ele entregou-se a si mesmo para nossa salvação (Ef. V, 2).
Este novo sacerdócio não é mais feito segundo a lei carnal, mas segundo a virtude da vida incorruptível (Hb. VII, 16).
O Sacerdote católico, como diz bem São João, não nasce nem do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus (Jo. I, 13). Estas palavras reproduzem e resumem admiravelmente o texto de São Paulo, repetindo a mesma verdade:
Separação dos pais (nascer do sangue);
Afastamento do mundo (nascer da carne);Virgindade de vida (nascer do homem); Caráter sacerdotal (nascer de Deus).Assim, conclui o Apóstolo pode-se testificar dele e dizer: Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedec (Hb. VII, 17).
Convinha tal sumo sacerdote (e tais sacerdotes) santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e feito mais sublime que o céu (Hb. VII, 26).

É a mesma gradação, com outros termos:

- Separação dos pais (para santificar-se);
- Afastamento do mundo (para conservar-se inocente);- Virgindade de vida (para ficar imaculado);- Caráter sacerdotal (fazendo o homem mais sublime que o céu).

VI. Comparação
 
Se compararmos o sacerdócio instituído por Jesus Cristo, com estes sublimes caracteres, temos ideia da grandeza deste sacerdócio, como da sublimidade da vocação e do ministério sacerdotal.
E se ao lado desta divina instituição colocarmos a vida de um Pastor protestante, ficamos horrorizados em constatar que estes homens, que se dizem Pastores, não possuem nenhum dos característicos indicados pelo Apóstolo.

O pastor é um homem qualquer, que não se distingue em nada dos correligionários, nem na ciência, nem na piedade, nem na virtude, nem na vida. Em absolutamente nada!

A vida de um pastor é um emprego, um ganha-pão, um ofício, como o ofício de advogado, de professor, de vendedor ambulante.

O que ele quer é viver e ganhar a vida: todo o resto são meios: o fim é o sustento... só isto!

Faltam-lhe por completo os quatro requisitos exigidos por S. Paulo, e representados na vida de Melquisedec.

­– Separação dos pais – Não se separa da família, senão por necessidade.
– Afastamento do mundo – Veste e vive como qualquer mortal. – Virgindade de vida – casa e casa-se novamente, cria filhos e filhas, como qualquer homem casado. – Caráter Sacerdotal – Não possui nenhum. Não recebe um Sacramento, nem Unção, nem Missão, nem Autoridade; – prega a Bíblia porque quer, e deixará de pregar quando bem entender, e torna-se de novo um vulgar cidadão.
São dois antípodas:

O Sacerdote é de Deus;
O Pastor é dos homens;
O Sacerdote vive para Deus;
O Pastor vive para sua esposa;
O Sacerdote trabalha para Deus;
O Pastor trabalha para ganhar o salário.

E há homens, que lendo a Bíblia, a passagem citada de S. Paulo e muitas outras, não compreendem isto?

Para que então serve a Bíblia?

Reflitam um instante e constatarão que a presença de um sacerdócio eterno na Igreja Católica, é uma prova irrefutável da divindade desta Igreja, como a falta de sacerdócio no protestantismo é a prova de sua falsidade.

 
VII. Sacerdote, Altar, Vítima
Não pode haver religião sem altar, sem sacrifício e sem sacerdote.

No Gênesis encontramos estas indicações em termos positivos: Noé edificou um Altar ao Senhor, e lhe ofereceu um sacrifício sobre este Altar (Gn. VIII, 20).

 
Noé era o sacerdote; Edificou um Altar; Ofereceu um sacrifício sobre ele.
Abraão, por sua vez, construiu um altar em Siquém, em Hebron, e ali ofereceu um sacrifício ao Senhor (Gn. XII, 7 – XIII, 18) e assim por diante em toda parte há um culto religioso, encontramos o sacerdote, o Altar, a vítima (Gn. XXII, 9) – (XXXV, 1) – (Ex. XV, 15) – (XXVII, 1) – (XXIX, 13) – (Nm. VII, 1) – (XVIII, 3) – (Dt. XXVII, 5) – (Es. III, 2) – (Jt. IV, 9) – (Lm. II, 7) – (Jo. II, 17) – (Am. IX, 1) – (Ml. II, 13) etc.

Em toda parte no antigo como no novo Testamento, encontramos, como base de todo culto os três inseparáveis elementos de um sacerdote, de um altar e de uma vítima.

Na Igreja Católica, a única igreja fundada por Jesus Cristo, estes três elementos são igualmente a base de todo o seu culto.

Há um sacerdócio instituído pelo próprio Jesus Cristo: Fazei isto em memória de mim (Lc. XXII, 19) disse o Salvador aos seus apóstolos, instituindo o Santo Sacrifício da Missa.

Há também um sacrifício.

É a função do sacerdote, diz o Apóstolo, ou do Pontífice, oferecer dons e sacrifícios a Deus (Hb. V, 1).

Há ainda um altar: Nós temos um altar, diz ainda São Paulo, do qual não podem participar os que servem no Tabernáculo (Hb. XIII, 10).

O Sacerdote é aquele que recebe o Sacramento da Ordem, e é ungido e consagrado Sacerdote, segundo a ordem de Melquisedec, com os caracteres já indicados.

O sacrifício é o próprio Jesus Cristo, que, não querendo mais os holocaustos de animais, oferece-se a si mesmo, ao Pai eterno, para a Salvação dos homens (Hb. V, 1).

O altar é o lugar preparado para oferecer este sacrifício, onde, por indicação divina, deve ser imolado a vítima. O anjo estava diante do altar para oferecer as orações (Ap. VIII, 3).

Se agora olharmos para o culto protestante, não encontramos nenhum destes elementos essenciais.

Sacerdote? – Não há. Apenas há um leigo que se intitula Pastor, mas sem ordenação, sem missão, sem poderes, sem capacidade.

Altar? – Não existe: no templo há apenas uma estante e uma Bíblia. Nenhum altar, nenhum incenso, nenhum lugar próprio para Sacrifícios.

Sacrifícios: Não existe também. Fazer as vezes uma Ceia, onde é servido apenas um pedaço de pão e um copo de vinho, não constitui nenhum Sacrifício; é uma ceia, um jantar, o que quiserem, que se pode fazer em casa como na casa de oração... nada mais. Nem sacerdote, nem altar, nem sacrifício: tudo desaparece.

O profeta tinha anunciado que em toda parte haveria um sacrifício puro em honra de Deus (Ml. I, 11) e a casa de oração protestante aboliu este sacrifício: Periit sacrificium... geme outro profeta (Jó I, 9).

É o deserto, a destruição... é a abominação no lugar que deveria ser santo, e que torna-se um antro de perdição. Et erit in templo abominatio desolationis (Dn. IX, 27).





LOMBAERDE, Padre Júlio Maria de. Objeções e erros protestantes. Manhumirim: O Lutador, 1932.

terça-feira, 30 de julho de 2013

O debate entre Lutero e Eck

Tendo falecido o imperador Maximiliano, em 12 de janeiro de 1519, foi só depois da eleição do seu sucessor, Carlos V (out. de 1519), que o processo contra Lutero foi retomado. Nesse ínterim um novo acontecimento patenteara a má vontade de Lutero: a discussão de Leipzig. Os erros de Lutero foram-se espalhando com a repulsa de uns e a aprovação de outros. Em breve as próprias universidades da Alemanha veriam as suas opiniões divididas, efeito das dúvidas e discussões suscitadas.

O enfraquecimento da fé e o relaxamento da moral eram um terreno propício para as novidades e revoltas.

As universidades de Wittemberg, Ingolstad e Leipzig combinaram entre si um debate público para resolver a pendência. O lugar escolhido foi o castelo do conde Jorge de Sax, em Leipzig. Ali deviam reunir-se os representantes de cada partido. O salão de honra do castelo foi dividido em duas partes destinadas às duas facções, com dois púlpitos no centro, um em frente ao outro.


O grande teólogo John Eck, paladino invencível da religião católica, com a idade de 43 anos.
Ilustre sacerdote que denunciou a fraude e o logro das heresias. Ano de 1572. 

A discussão teve início a 27 de junho de 1519 entre Carlostad e Eck. O enviado de Lutero foi vergonhosamente vencido, não podendo provar as suas teses, nem refutar as do seu antagonista.

Referindo-se, mais tarde, a esse fracasso, falou Lutero: ‘Em Leipzig Carlostad recolheu vergonha em vez de honra, mostrando-se um miserável polemista, com espírito tapado e tolo.’ (H. Boeckmer: Der Junge Luther 1929, pág. 255). A impressão foi péssima para a pretensa reforma. Os partidários chamaram Lutero para vingar a desfeita e soerguer a honra comprometida da nova doutrina.

Em 4 de julho reencetou-se a polêmica, desta vez entre Lutero e Dr. Eck. Tudo convergiu logo para a palpitante questão: a autoridade da Igreja em matéria doutrinal. Lutero havia opugnado as indulgências, proclamando o valor supremo da Bíblia e a inutilidade das boas obras, mas não tinha ainda opinião formada sobre a jurisdição da Igreja em questões de doutrina. Caiu em contradição, titubeou, aderindo, publicamente às condenadas doutrinas de Huss, rejeitando a autoridade da Igreja. O Dr. Eck refutou vitoriosamente as asserções heréticas, e Lutero não fez papel mais brilhante do que o seu representante vencido, Carlostad. Os ânimos dos sectários se exaltaram e vários começaram a gritar contra as asserções católicas de Eck. 

A 14 de julho encerrou-se a discussão, levando os louros do triunfo o Dr. Eck, como o próprio Lutero depois declarou em uma carta a Melanchton: ‘Eck tem as vantagens: ele triunfa e reina. Estes leipziganos não nos saudaram, nem visitaram, mas nos trataram como inimigos, enquanto acompanharam Eck em toda parte... para nossa vergonha... aí está todo o drama: começou mal e acabou pior... discutimos mal.’ (Enders: corr. II, 85, 20 de julho de 1519).

O conde Jorge de Saxe, o povo de Leipzig, a universidade e os católicos hesitantes sentiram-se fortalecidos em sua fé, mas Lutero, recolhendo-se sob a capa do seu amor próprio ferido, se tornou cada vez mais intratável e grosseiro.

Ei-lo feito definitivamente herege.

LOMBAERDE, Pe. Julio Maria de. O Diabo, Lutero e o Protestantismo. 2ª Ed. Manhumirim: O Lutador, 1950.